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Opinião 100

Como se eu fosse o Projétil

Texto: Rafaela Flôr e Thalia Zortéa


Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer – me inspirei nessa canção da Rita Lee, me olhei no espelho e disse que era hora de inovar, sair do que me era cômodo e explorar novos lugares. Como um senhor jornal, estava me faltando um verdadeiro glow up. Nesses mais de 30 anos de existência, inúmeras ideias, pesquisas, entrevistas e histórias de vida estavam eternizadas nas minhas páginas, mas a verdade é que os tempos haviam mudado desde quando fui criado, em 1991.

Sem passes de mágica ou fadas madrinhas que transformam abóboras em carruagens, precisei passar por um grande processo de autoconhecimento em 2018. Não só projetar a minha aparência para os próximos anos, mas entender tudo o que me fazia ser único e os afetos que conquistei – afinal, cursar Jornalismo na UFMS é sinônimo de ter escrito, em algum momento, para o Projétil. Tantas pessoas já haviam passado por mim e carregavam consigo as experiências que vivemos juntos. Ainda assim, me pareceu que estava na hora de promover um upgrade em quem sou e imaginar quem eu gostaria de ser, até onde poderia chegar e os lugares que poderiam ouvir sobre mim. 

O primeiro passo para a minha reformulação foi reunir uma equipe de pessoas que queria muito participar desse processo. Passamos meses juntos na disciplina “Tópicos Especiais em Jornalismo II – Produção Gráfica Avançada”, discutindo como e o que mudar na minha estética: cartela de cores, fontes novas, meu posicionamento editorial, o que seria possível incrementar no meu conteúdo para me tornar mais completo, entre outros detalhes. Descobrimos o meu crescimento ao longo das décadas e as mudanças que fiz no visual desde a minha criação: em 1993, 2000, 2001, 2002, 2004 e 2017. Nós passamos semanas até entrarmos em consensos sobre quais das minhas qualidades deveriam ser exaltadas ou o que era imprescindível melhorar. Mas posso dizer, sem sombra de dúvidas, que esse mergulho tão profundo em mim foi terapêutico, pois haviam pessoas dispostas a me ajudar a encontrar a minha melhor versão.

Ao mesmo tempo que esses esforços eram feitos na minha estética, outro grupo se prontificou a mudar a forma como eu, um jornal laboratório, funcionava. Enquanto observava o que estava sendo feito, pude assistir pequenos grupos serem separados para exercer diferentes funções, denominados como editorias. Eram todos uma engrenagem, onde cada um era necessário e importante nessa missão de me fazer alçar voos mais altos.

Saíam os contornos das fontes, as tipografias sombreadas e as fotos arredondadas e foram chegando as ilustrações e as infografias, os artigos de opinião e as crônicas. Ao final do primeiro semestre de 2018, saí às ruas com essas  mudanças que abarcavam questões gráficas, textuais e organizacionais. Eu, que estava acostumado a estar dentro dos muros da Universidade ou passear por algumas mãos da Praça Bolívia, gostaria de ir além.

A minha transformação me levou para lugares onde nunca imaginei chegar. Em algumas horas de ônibus e entre diversas conexões, desembarquei em Goiânia e em Belém, já de cara nova no ano seguinte. Agora que eu tinha um Guia de Gráfico-Editorial, tal como as maiores e mais reconhecidas redações jornalísticas do país, todos puderam ouvir sobre mim no 9º Encontro Nacional de Jovens Pesquisadores em Jornalismo e no 21º Congresso de Ciências da Comunicação na Região Centro-Oeste, sediados na Universidade Federal de Goiás, além do 42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado na Universidade Federal do Pará.

E, se me permitem dizer, diferente dos feitiços que encerram-se ao badalar da meia-noite, essas reformulações agora fazem parte de quem eu sou. As novas gerações foram se apropriando do meu novo visual e já me conhecem como um dos melhores jornais laboratórios do Centro-Oeste e do país, de acordo com os últimos prêmios da Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação. Sem contos de fadas, sem pó de piri lim pim pim, sem fadas madrinhas e, principalmente, sem sapatinhos de cristais perdidos. Somente eu, uma equipe de futuros jornalistas e uma história para contar.

Rafaela Flôr é jornalista formada na turma de 2020 do curso de Jornalismo da UFMS, atualmente é mestranda em Comunicação na UFMS.

Thalia Zórtea é jornalista formada na turma de 2019 do curso de Jornalismo da UFMS, atualmente é mestranda em Comunicação e comunicadora da Agência de Comunicação Social e Científica da UFMS.