Texto: Allan Klinsmann | Anna Bruschi | Sophia Lescano
Foto: Claudia Andujar
O filme/documentário “A Queda do Céu”, lançado em 2024, é uma coprodução Brasil-Itália-França liderada pela produtora do Brasil, Aruac Filmes e dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha. O longa-metragem possui um desafio complexo: transformar em linguagem audiovisual um dos livros mais marcantes sobre o pensamento indígena no país, A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami. O livro escrito por Davi Kopenawa, publicado originalmente em 2010, retrata o contato e conflito do povo Yanomami com o povo branco ou nabe, na língua indígena, desde os anos 1960 e a subsequente destruição que esse contato trouxe. O filme não busca uma adaptação direta, mas sim uma tradução sensorial de um universo que, por natureza, resiste à simplificação.
Em vez de seguir uma narrativa linear, o documentário acompanha o ritual Reahu, realizado na comunidade Watoriki, localizada no extremo nordeste do estado do Amazonas, dentro da Terra Indígena Yanomami, após a morte de um xamã ancião. A partir desse acontecimento, o filme se constrói em deslocamento: a aldeia se move, canta, dança e refaz seus caminhos. É nesse fluxo que surgem falas e reflexões sobre a realidade vivida pelo povo. Não há pressa nem didatismo, o espectador é inserido em uma experiência que exige atenção e, sobretudo, disposição para observar.
O conceito de “queda do céu”, que dá nome à ambas as produções, refere-se a um conto antigo do povo Yanomami, que acredita que o céu e as estrelas são sustentados pelos espíritos de seus antepassados e a destruição provocada pelo homem ameaça esse equilíbrio. Esse alerta é realizado por um xamã que age como porta-voz da aldeia. Ele explica aos jovens que já viveu entre o povo branco, aprendeu sua língua e chegou a se vestir e se portar como eles, e viu como eles enxergam o povo indígena, e ao retornar ao seu povo, entendeu sua posição como protetor dos Watoriki. O xamã usa desse período como uma retórica para afastar qualquer desejo dos jovens de tentar viver próximo ao povo branco ou aderir aos seus costumes, pregando uma guerra aberta contra a própria cultura e estilo de vida entre os povos.
Ao espectador, a ideia de algo próximo a um genocídio sendo promovido contra o povo Watoriki pode soar exagerada, contudo, a realidade é que eles vivem em conflito constante com os garimpeiros que avançam sobre suas terras. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), analisou dados entre 1985 e 2022. A atividade mineradora teve maior impacto observado entre 2016 e 2022, exatamente nas terras indígenas, onde o garimpo cresceu 361%.
Impacto cultural
Embora o longa-metragem mostre cenas longas e sem cortes demonstrando cânticos e danças dos Watoriki, infelizmente não há qualquer explicação para o espectador sobre o que está sendo dito, o que acaba causando desconforto para quem é mais acostumado com uma estrutura mais explicativa de documentários atuais. O destaque fica na capacidade da produção de exibir uma contradição inevitável: a presença do mundo exterior já faz parte da vida dentro da aldeia.
Mulheres usam shorts de tecido sintético enquanto enxergam seus reflexos em espelhos para realizar a pintura em seus rostos de forma mais clara, homens andam com camisetas de times cariocas de futebol no meio da mata. Um rádio comunicador, operado pelo xamã-líder, tornou-se o principal meio de contato do povo Watoriki com outras tribos e o mundo. É por ele que um ancião relata que décadas atrás, o avanço do garimpo custou a vida de seu pai, deixou os rios turvos pelo uso de metais pesados da mineração e trouxeram surtos de malária, que vitimaram muitos de seu povo, incluindo crianças, além de missões religiosas que tentam converter seu povo ao cristianismo. Esses elementos não aparecem como ruptura, mas como sinais de uma transformação em curso. O povo Yanomami incorpora e ressignifica ferramentas para se proteger e resistir.
O resultado é uma obra que não oferece respostas nem fechamento. E isso não é um problema estrutural, mas um reflexo da própria realidade retratada. O conflito continua, as ameaças persistem e a sensação final é de incompletude. A queda do céu já começou para os Yanomami, e não deixa dúvida de que quem está empurrando o céu, é o mesmo povo que filmou suas histórias.

