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Reportagem 107

Na mira do desequilíbrio

A expansão do javali-europeu em Mato Grosso do Sul expõe desafios no controle da espécie e coloca em debate o equilíbrio ecológico



Imagine um conjunto organizado como uma orquestra, com cada parte cumprindo seu papel de maneira perfeita, onde qualquer distúrbio pode desalinhar toda a sinfonia, principalmente quando esse incômodo vem de fora. O ecossistema é essa orquestra e, no Mato Grosso do Sul (MS), ela é composta por mais de 5.195 animais vertebrados, de acordo com relatório de 2018 da Biota-MS, todos trabalhando em sintonia.

A interferência externa é um problema que pode resultar na destruição completa da harmonia, ou até da vida de certas espécies, e embora o ser humano seja um dos maiores responsáveis, às vezes, essa intervenção vem em quatro patas, focinho achatado e grandes presas.

Trata-se do javali-europeu (Sus scrofa) uma espécie suína nativa da Europa, Ásia e da região norte da África, que foi introduzida no Brasil por volta de 1960, para o consumo da carne, principalmente na região sul do país.


Trata-se do javali-europeu (Sus scrofa) uma espécie suína nativa da Europa, Ásia e da região norte da África, que foi introduzida no Brasil por volta de 1960, para o consumo da carne, principalmente na região sul do país.


Wagner Fischer, biólogo e pesquisador do Instituto Brasileiro de Informação Científica e Tecnológica (Ibict), ficou conhecido por sua atuação voltada à ecologia de mamíferos e à dinâmica dessas espécies invasoras. Com experiência em trabalho de campo e análise de fauna, sua pesquisa de mapeamento do javali-europeu em MS é amplamente citada em diversos meios de comunicação. “O javali puro veio com matrizes da Europa para alguns criadouros no sul do Brasil, no Paraná, e em São Paulo, até 1998, quando foi proibido, porque ele tem esse potencial invasor”, afirma. O pesquisador explica que é difícil encontrar um animal puro, visto que a maioria são javaporcos ou porcos monteiros.
Wagner conta que o javali passou por um processo de domesticação e aprimoramento genético há mais de 10 mil anos, gerando o porco doméstico. Com o fim da Guerra do Paraguai, como muitas fazendas foram destruídas, ocorreu a liberação dessa espécie modificada para a natureza, permitindo que os porcos cruzassem com os javalis e dessem origem aos javaporcos. “No meu levantamento, a gente verificou que todos os municípios do MS já tiveram ou têm a presença do javaporco. É um monstro darwiniano cheio de poluição genética que a gente não sabe nem mais rastrear a origem dele”, comenta. O biólogo explica, ainda, que o animal é considerado nocivo e que não tem um predador natural. Graças à sua genética, se reproduz de duas à três vezes por ano e se adapta bem à diferentes ambientes.

Lista de “crimes” dos javalis

  • Seca nascentes
  • Come animais pequenos e médios
  • Come filhotes e ovos
  •  Transmite doenças para outros animais
  • Comportamento agressivo
  • Ataca tratores e caminhões
  • Destrói plantações
  • Destrói áreas verdes
Ilustração: Ághata Francelino

Clubes de caça

A introdução dessa espécie exótica logo se mostrou problemática e levou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a declarar, por meio da Instrução Normativa Nº 3/2013, a nocividade do animal. O ato liberou, no país inteiro, o controle populacional por meio do abate, ou em outras palavras, da caça.


A introdução dessa espécie exótica logo se mostrou problemática e levou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a declarar, por meio da Instrução Normativa Nº 3/2013, a nocividade do animal. O ato liberou, no país inteiro, o controle populacional por meio do abate, ou em outras palavras, da caça.


Vale destacar que, de modo geral, a caça de espécies nativas no Brasil é proibida. A prática é regulamentada principalmente pela Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), que estabelece em seu artigo 29 que é crime ‘matar, perseguir, caçar, apanhar ou utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente’.
Em MS, um estado com grande força do agronegócio e, segundo o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), com mais de 7 milhões de hectares voltados à produção rural, a caça sempre se fez presente, pelos mais diversos motivos, principalmente para evitar a destruição de plantações e a transmissão de doenças a outros animais. É por isso que entram em ação Isaac Pancini e Joel Focas, criadores e, respectivamente, presidente e vice-presidente do Clube de Caça Campo Grande (CCCG). A empresa foi fundada em agosto de 2016 para continuar a tradição da caça no MS, atuar no auxílio de possíveis novos caçadores e fazer o manejo da fauna de forma regularizada em Campo Grande. “O cenário de arma de fogo da época, há dez anos atrás, era somente o tiro esportivo, não tinha caça e manejo. Na verdade, acontecia, mas era muito deixado de lado pelas entidades. Hoje a gente vê uma importância maior nisso. Nós ajudamos muitas pessoas na regularização, a deixarem de usar suas armas irregulares, a se desfazer e conseguir sua arma regular para fazer o manejo e o controle populacional do javali de forma adequada”, conta Isaac.
Esse tipo de clube nasce também para treinamento de tiro e orientação sobre o javali-europeu no estado. “Aqui no clube, além da questão do manejo do controle do javali, nós fazemos cursos e palestras para conscientização, para saber essa importância do javali. Temos treinamento com arma de fogo e outros tipos de ações”, comenta Joel.
Os membros do CCCG aprendem, também, que a caça carrega um componente cultural. De acordo com eles, o Brasil possui interesse crescente em armas de fogo, e isso cria demandas pela atividade. “A gente foi atrás dessas pessoas que estavam, vamos dizer assim, sendo rejeitadas, ou fazendo o manejo de maneira inapropriada. E a partir desse momento, começaram a se regularizar […] muita gente que estava irregular passou a fazer tudo certinho e a pessoa se sente ali grata por poder fazer tudo da maneira correta”, afirma Isaac.
Outro ponto levantado pelos integrantes do clube diz respeito à fragilidade dos dados oficiais sobre o controle do javali no Brasil. A ausência de dados consistentes compromete a real dimensão do problema e dificulta a formulação de estratégias eficazes. “O problema é que os números sempre foram muito omitidos. De 2013 até 2019, o Ibama simplesmente perdeu todos os números de quantidade de javalis abatidos. Hoje a gente tem um informativo do Ibama de 2019 até 2025, que foram mais de 1 milhão de javalis abatidos. O problema é que muita gente que faz o manejo de maneira irregular não entra nesse sistema”, cita Isaac.
Além do problema com os dados, eles também apontam entraves burocráticos para o controle da espécie. De acordo com Isaac e Joel, períodos de maior rigidez administrativa podem reduzir o número de caçadores regularizados e, consequentemente, favorecer o crescimento da população de javalis. “Em 2023, por exemplo, houve um momento em que as atividades ficaram praticamente paralisadas. Um animal que se reproduz nessa velocidade, com comida e água abundantes, ganha espaço muito rápido. Em um ano faz muita diferença”, relata Joel.
O clube também chama atenção para o grau de complexidade envolvido na regularização da atividade. O processo para atuar legalmente no manejo do javali é longo, detalhado e, muitas vezes, inacessível para parte dos interessados. “Tudo é muito burocrático, muito caro. O cidadão tem que fazer avaliação psicológica, avaliação de capacidade técnica, não pode possuir antecedente criminal, tem que ter ocupação lícita, residência certa. Isso é só o básico para começar”.
Mesmo após a aprovação, o processo segue demorado. A concessão pode levar de quatro a seis meses, seguida por novas etapas, como autorização de compra da arma, registro e emissão de guia de trânsito — documento que permite o deslocamento legal do equipamento. Paralelamente, ainda é necessário cumprir exigências ambientais, como o cadastro no sistema federal, autorização de manejo e permissão do proprietário da área. “Além da arma, ele tem que carregar uma pastinha no braço também na hora do manejo”, completa Joel.


O grupo CCCG nasceu com a intenção preserva a cultura da caça no MS, porém praticada de forma responsável | Fotos: Pietro Vargas

Outras formas de caça

No controle do javali-europeu, a atuação da Polícia Militar Ambiental (PMA) é um dos pilares que sustentam a legalidade e a segurança da prática. Embora o abate seja permitido, só pode ocorrer dentro de critérios rigorosos estabelecidos por órgãos ambientais, e é justamente nesse ponto que a fiscalização se torna essencial.


No controle do javali-europeu, a atuação da Polícia Militar Ambiental (PMA) é um dos pilares que sustentam a legalidade e a segurança da prática. Embora o abate seja permitido, só pode ocorrer dentro de critérios rigorosos estabelecidos por órgãos ambientais, e é justamente nesse ponto que a fiscalização se torna essencial.


 O capitão da PMA, Gabriel Rocha, esclarece que a caça no estado é quase cultural, que essa “tradição” ocorre há anos, mas que a proteção desses animais deve se manter ativa. Também cita que o manejo do javali deve seguir diversas regras e cuidados. “A caça do javali-europeu é autorizada, pois é uma espécie considerada nociva pelo IBAMA, então normalmente fiscalizamos realmente se a arma de fogo que foi usada está legalizada e dentro das normas. E tem uma série de regras para se seguir, como a quantidade de animais abatidos, se o indivíduo está causando sofrimento ao animal e o transporte da espécie. Ver se está seguindo o que a legislação prevê, porque para você exercer essa caça tem que ser autorizada pelo IBAMA” , afirma.
Gabriel indica que mesmo que a legislação brasileira proíba a caça de animais silvestres, existe uma exceção prevista em situações de extrema necessidade, conhecida como caça de subsistência. Nesses casos, quando a prática está diretamente ligada à sobrevivência — como em contextos de fome comprovada —, ela pode ser considerada juridicamente justificável. No entanto, essa interpretação não é automática e depende de análise caso a caso. “Por exemplo, tem famílias ribeirinhas que vivem em situação precária, essa caça para subsistência é permitida para saciar a fome”, pondera.
A PMA avalia fatores como contexto social, local e finalidade da ação antes de tomar qualquer medida. Autoridades reforçam que essa não é uma permissão ampla: trata-se de uma exceção, que não substitui a regra geral de proteção à fauna silvestre e não pode ser utilizada como justificativa para práticas recorrentes de caça. A PMA também exerce um papel educativo e preventivo. Em operações de campo, os agentes fiscalizam caçadores e produtores rurais sobre as normas vigentes, os riscos ambientais e as penalidades envolvidas em práticas irregulares. Essa prevenção constante ajuda a reduzir abusos e a garantir que o controle populacional do javali não se transforme em uma ameaça maior à fauna nativa.

 Os porcos-monteiros no Pantanal e a dos javalis já miscigenados com diversas raças de porcos domésticos e que permitiram que os porcos cruzassem com os javalis e dessem origem aos javaporcos, ainda que todos pertençam à mesma espécie
Foto: Clarissa Alves da Rosa

O Problema suíno

Para o pesquisador Wagner Fischer caçar javalis é relevante por causa da grandeza do problema causado por eles, o que não permite descartar o manejo humano dessa espécie para o bom funcionamento do ecossistema. “O Brasil não pode achar que vai conseguir controlar uma praga ou abandonar esse controle, porque a gente tem muita biodiversidade a perder”, conta. Para ele, o governo deveria oferecer um mapeamento dessas espécies para saber onde é mais necessário o manejo, pois manter controle sobre 70% da população dos suínos é a maneira correta de evitar que essa espécie continue se espalhando. 

Diante desse cenário, a caça em MS deixa de ser um debate simples de proibição e permissão. O que está em jogo é a capacidade de equilibrar conservação ambiental, controle de espécies invasoras e fiscalização efetiva. Enquanto o javali avança sobre diferentes regiões do estado, impulsionado por sua alta taxa reprodutiva e adaptação, a ausência de dados precisos e políticas contínuas dificulta a construção de respostas realmente eficazes.


Diante desse cenário, a caça em MS deixa de ser um debate simples de proibição e permissão. O que está em jogo é a capacidade de equilibrar conservação ambiental, controle de espécies invasoras e fiscalização efetiva. Enquanto o javali avança sobre diferentes regiões do estado, impulsionado por sua alta taxa reprodutiva e adaptação, a ausência de dados precisos e políticas contínuas dificulta a construção de respostas realmente eficazes.


Entre avanços pontuais, entraves burocráticos e lacunas na fiscalização, o desafio permanece aberto. Em um estado marcado pela riqueza ambiental, a preservação da fauna exige mais do que medidas isoladas: depende de integração entre órgãos públicos, produção de conhecimento e cumprimento da legislação. Sem isso, a “orquestra” descrita no início desta reportagem corre o risco de perder sua harmonia — não por um único fator, mas pela soma de desequilíbrios que, aos poucos, tornam o barulho insuportável.

Na região do MS vários processos de invasão e miscigenação de porcos exóticos da mesma espécie Fotos: Luís Quinta