A expansão do javali-europeu em Mato Grosso do Sul expõe desafios no controle da espécie e coloca em debate o equilíbrio ecológico
Texto: Iasmin Rodrigues| Pietro Vargas | Theoangelo Cruz
Imagine um conjunto organizado como uma orquestra, com cada parte cumprindo seu papel de maneira perfeita, onde qualquer distúrbio pode desalinhar toda a sinfonia, principalmente quando esse incômodo vem de fora. O ecossistema é essa orquestra e, no Mato Grosso do Sul (MS), ela é composta por mais de 5.195 animais vertebrados, de acordo com relatório de 2018 da Biota-MS, todos trabalhando em sintonia.
A interferência externa é um problema que pode resultar na destruição completa da harmonia, ou até da vida de certas espécies, e embora o ser humano seja um dos maiores responsáveis, às vezes, essa intervenção vem em quatro patas, focinho achatado e grandes presas.
Trata-se do javali-europeu (Sus scrofa) uma espécie suína nativa da Europa, Ásia e da região norte da África, que foi introduzida no Brasil por volta de 1960, para o consumo da carne, principalmente na região sul do país.
Trata-se do javali-europeu (Sus scrofa) uma espécie suína nativa da Europa, Ásia e da região norte da África, que foi introduzida no Brasil por volta de 1960, para o consumo da carne, principalmente na região sul do país.
Wagner Fischer, biólogo e pesquisador do Instituto Brasileiro de Informação Científica e Tecnológica (Ibict), ficou conhecido por sua atuação voltada à ecologia de mamíferos e à dinâmica dessas espécies invasoras. Com experiência em trabalho de campo e análise de fauna, sua pesquisa de mapeamento do javali-europeu em MS é amplamente citada em diversos meios de comunicação. “O javali puro veio com matrizes da Europa para alguns criadouros no sul do Brasil, no Paraná, e em São Paulo, até 1998, quando foi proibido, porque ele tem esse potencial invasor”, afirma. O pesquisador explica que é difícil encontrar um animal puro, visto que a maioria são javaporcos ou porcos monteiros.
Wagner conta que o javali passou por um processo de domesticação e aprimoramento genético há mais de 10 mil anos, gerando o porco doméstico. Com o fim da Guerra do Paraguai, como muitas fazendas foram destruídas, ocorreu a liberação dessa espécie modificada para a natureza, permitindo que os porcos cruzassem com os javalis e dessem origem aos javaporcos. “No meu levantamento, a gente verificou que todos os municípios do MS já tiveram ou têm a presença do javaporco. É um monstro darwiniano cheio de poluição genética que a gente não sabe nem mais rastrear a origem dele”, comenta. O biólogo explica, ainda, que o animal é considerado nocivo e que não tem um predador natural. Graças à sua genética, se reproduz de duas à três vezes por ano e se adapta bem à diferentes ambientes.
Lista de “crimes” dos javalis
- Seca nascentes
- Come animais pequenos e médios
- Come filhotes e ovos
- Transmite doenças para outros animais
- Comportamento agressivo
- Ataca tratores e caminhões
- Destrói plantações
- Destrói áreas verdes

Clubes de caça
A introdução dessa espécie exótica logo se mostrou problemática e levou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a declarar, por meio da Instrução Normativa Nº 3/2013, a nocividade do animal. O ato liberou, no país inteiro, o controle populacional por meio do abate, ou em outras palavras, da caça.
A introdução dessa espécie exótica logo se mostrou problemática e levou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a declarar, por meio da Instrução Normativa Nº 3/2013, a nocividade do animal. O ato liberou, no país inteiro, o controle populacional por meio do abate, ou em outras palavras, da caça.
Vale destacar que, de modo geral, a caça de espécies nativas no Brasil é proibida. A prática é regulamentada principalmente pela Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), que estabelece em seu artigo 29 que é crime ‘matar, perseguir, caçar, apanhar ou utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente’.
Em MS, um estado com grande força do agronegócio e, segundo o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), com mais de 7 milhões de hectares voltados à produção rural, a caça sempre se fez presente, pelos mais diversos motivos, principalmente para evitar a destruição de plantações e a transmissão de doenças a outros animais. É por isso que entram em ação Isaac Pancini e Joel Focas, criadores e, respectivamente, presidente e vice-presidente do Clube de Caça Campo Grande (CCCG). A empresa foi fundada em agosto de 2016 para continuar a tradição da caça no MS, atuar no auxílio de possíveis novos caçadores e fazer o manejo da fauna de forma regularizada em Campo Grande. “O cenário de arma de fogo da época, há dez anos atrás, era somente o tiro esportivo, não tinha caça e manejo. Na verdade, acontecia, mas era muito deixado de lado pelas entidades. Hoje a gente vê uma importância maior nisso. Nós ajudamos muitas pessoas na regularização, a deixarem de usar suas armas irregulares, a se desfazer e conseguir sua arma regular para fazer o manejo e o controle populacional do javali de forma adequada”, conta Isaac.
Esse tipo de clube nasce também para treinamento de tiro e orientação sobre o javali-europeu no estado. “Aqui no clube, além da questão do manejo do controle do javali, nós fazemos cursos e palestras para conscientização, para saber essa importância do javali. Temos treinamento com arma de fogo e outros tipos de ações”, comenta Joel.
Os membros do CCCG aprendem, também, que a caça carrega um componente cultural. De acordo com eles, o Brasil possui interesse crescente em armas de fogo, e isso cria demandas pela atividade. “A gente foi atrás dessas pessoas que estavam, vamos dizer assim, sendo rejeitadas, ou fazendo o manejo de maneira inapropriada. E a partir desse momento, começaram a se regularizar […] muita gente que estava irregular passou a fazer tudo certinho e a pessoa se sente ali grata por poder fazer tudo da maneira correta”, afirma Isaac.
Outro ponto levantado pelos integrantes do clube diz respeito à fragilidade dos dados oficiais sobre o controle do javali no Brasil. A ausência de dados consistentes compromete a real dimensão do problema e dificulta a formulação de estratégias eficazes. “O problema é que os números sempre foram muito omitidos. De 2013 até 2019, o Ibama simplesmente perdeu todos os números de quantidade de javalis abatidos. Hoje a gente tem um informativo do Ibama de 2019 até 2025, que foram mais de 1 milhão de javalis abatidos. O problema é que muita gente que faz o manejo de maneira irregular não entra nesse sistema”, cita Isaac.
Além do problema com os dados, eles também apontam entraves burocráticos para o controle da espécie. De acordo com Isaac e Joel, períodos de maior rigidez administrativa podem reduzir o número de caçadores regularizados e, consequentemente, favorecer o crescimento da população de javalis. “Em 2023, por exemplo, houve um momento em que as atividades ficaram praticamente paralisadas. Um animal que se reproduz nessa velocidade, com comida e água abundantes, ganha espaço muito rápido. Em um ano faz muita diferença”, relata Joel.
O clube também chama atenção para o grau de complexidade envolvido na regularização da atividade. O processo para atuar legalmente no manejo do javali é longo, detalhado e, muitas vezes, inacessível para parte dos interessados. “Tudo é muito burocrático, muito caro. O cidadão tem que fazer avaliação psicológica, avaliação de capacidade técnica, não pode possuir antecedente criminal, tem que ter ocupação lícita, residência certa. Isso é só o básico para começar”.
Mesmo após a aprovação, o processo segue demorado. A concessão pode levar de quatro a seis meses, seguida por novas etapas, como autorização de compra da arma, registro e emissão de guia de trânsito — documento que permite o deslocamento legal do equipamento. Paralelamente, ainda é necessário cumprir exigências ambientais, como o cadastro no sistema federal, autorização de manejo e permissão do proprietário da área. “Além da arma, ele tem que carregar uma pastinha no braço também na hora do manejo”, completa Joel.

Outras formas de caça
No controle do javali-europeu, a atuação da Polícia Militar Ambiental (PMA) é um dos pilares que sustentam a legalidade e a segurança da prática. Embora o abate seja permitido, só pode ocorrer dentro de critérios rigorosos estabelecidos por órgãos ambientais, e é justamente nesse ponto que a fiscalização se torna essencial.
No controle do javali-europeu, a atuação da Polícia Militar Ambiental (PMA) é um dos pilares que sustentam a legalidade e a segurança da prática. Embora o abate seja permitido, só pode ocorrer dentro de critérios rigorosos estabelecidos por órgãos ambientais, e é justamente nesse ponto que a fiscalização se torna essencial.
O capitão da PMA, Gabriel Rocha, esclarece que a caça no estado é quase cultural, que essa “tradição” ocorre há anos, mas que a proteção desses animais deve se manter ativa. Também cita que o manejo do javali deve seguir diversas regras e cuidados. “A caça do javali-europeu é autorizada, pois é uma espécie considerada nociva pelo IBAMA, então normalmente fiscalizamos realmente se a arma de fogo que foi usada está legalizada e dentro das normas. E tem uma série de regras para se seguir, como a quantidade de animais abatidos, se o indivíduo está causando sofrimento ao animal e o transporte da espécie. Ver se está seguindo o que a legislação prevê, porque para você exercer essa caça tem que ser autorizada pelo IBAMA” , afirma.
Gabriel indica que mesmo que a legislação brasileira proíba a caça de animais silvestres, existe uma exceção prevista em situações de extrema necessidade, conhecida como caça de subsistência. Nesses casos, quando a prática está diretamente ligada à sobrevivência — como em contextos de fome comprovada —, ela pode ser considerada juridicamente justificável. No entanto, essa interpretação não é automática e depende de análise caso a caso. “Por exemplo, tem famílias ribeirinhas que vivem em situação precária, essa caça para subsistência é permitida para saciar a fome”, pondera.
A PMA avalia fatores como contexto social, local e finalidade da ação antes de tomar qualquer medida. Autoridades reforçam que essa não é uma permissão ampla: trata-se de uma exceção, que não substitui a regra geral de proteção à fauna silvestre e não pode ser utilizada como justificativa para práticas recorrentes de caça. A PMA também exerce um papel educativo e preventivo. Em operações de campo, os agentes fiscalizam caçadores e produtores rurais sobre as normas vigentes, os riscos ambientais e as penalidades envolvidas em práticas irregulares. Essa prevenção constante ajuda a reduzir abusos e a garantir que o controle populacional do javali não se transforme em uma ameaça maior à fauna nativa.

Foto: Clarissa Alves da Rosa
O Problema suíno
Para o pesquisador Wagner Fischer caçar javalis é relevante por causa da grandeza do problema causado por eles, o que não permite descartar o manejo humano dessa espécie para o bom funcionamento do ecossistema. “O Brasil não pode achar que vai conseguir controlar uma praga ou abandonar esse controle, porque a gente tem muita biodiversidade a perder”, conta. Para ele, o governo deveria oferecer um mapeamento dessas espécies para saber onde é mais necessário o manejo, pois manter controle sobre 70% da população dos suínos é a maneira correta de evitar que essa espécie continue se espalhando.
Diante desse cenário, a caça em MS deixa de ser um debate simples de proibição e permissão. O que está em jogo é a capacidade de equilibrar conservação ambiental, controle de espécies invasoras e fiscalização efetiva. Enquanto o javali avança sobre diferentes regiões do estado, impulsionado por sua alta taxa reprodutiva e adaptação, a ausência de dados precisos e políticas contínuas dificulta a construção de respostas realmente eficazes.
Diante desse cenário, a caça em MS deixa de ser um debate simples de proibição e permissão. O que está em jogo é a capacidade de equilibrar conservação ambiental, controle de espécies invasoras e fiscalização efetiva. Enquanto o javali avança sobre diferentes regiões do estado, impulsionado por sua alta taxa reprodutiva e adaptação, a ausência de dados precisos e políticas contínuas dificulta a construção de respostas realmente eficazes.
Entre avanços pontuais, entraves burocráticos e lacunas na fiscalização, o desafio permanece aberto. Em um estado marcado pela riqueza ambiental, a preservação da fauna exige mais do que medidas isoladas: depende de integração entre órgãos públicos, produção de conhecimento e cumprimento da legislação. Sem isso, a “orquestra” descrita no início desta reportagem corre o risco de perder sua harmonia — não por um único fator, mas pela soma de desequilíbrios que, aos poucos, tornam o barulho insuportável.

