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Opinião 100

Curiosidades e vivências que traçam caminhos profissionais

Texto: Tainá Jara


Revisitar as páginas do Projétil tornou-se bem menos nostálgico do que eu imaginava. Ou talvez uma década não seja tanto tempo quanto a ansiedade da sociedade atual preconiza. Cursei Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), entre os anos de 2009 e 2012. Produzimos as edições 70 e 71 em 2011.

A virada da primeira década dos anos 2000 trazia ares de grandes mudanças, não só para o jornalismo, mas especialmente para o cenário político do País. Muitos desses processos se concretizaram. Mas, percebo que de alguma forma as pautas abordadas nas nossas edições anteviam debates que ficaram em destaque nos últimos anos, seja pela necessidade de avançar em direitos, seja pela resistência diante de retrocessos ou pelo dever de valorizar o jornalismo profissional diante de uma avalanche de notícias falsas. O Projétil é reflexo do caráter contestador do curso e da própria universidade pública.

Ilustração: Ana Luiza da Costa Luz

A reportagem produzida para edição 71 foi a que mais me marcou. Em “Vítima Suspeita”, eu e Ligia Baraldi, abordamos o contexto de culpabilização das mulheres vítimas de violência sexual. Entrevistamos um profissional da segurança pública que reproduziu tal discurso sem qualquer constrangimento. Contrapomos com outros profissionais da área e especialistas, além de colocar em destaque a reação dos movimentos feminista que faziam muito barulho nas ruas do mundo todo com a “Marcha das Vadias”.

Na época, o caráter global dessas manifestações, organizadas principalmente através das redes sociais, ainda era uma novidade. As mobilizações feministas e debates em relação a violência de gênero só se fortaleceram ao longo dos anos e me atravessaram de forma ainda mais intensa quando me tornei repórter. A inquietação com a abordagem dada pela imprensa a estes casos me levaram a retomar os estudos na UFMS. Como aluna do mestrado em Comunicação, produzi a dissertação “#NenhumaAMenos: redes sociais e feminismos nos fluxos informativos do caso de feminicídio de Mayara Amaral”.

Hoje, inclusive, procuro aprofundar em estudos que questionam se conceitos fundantes para o ofício, como a objetividade, são capazes de abarcar de forma justa a sociedade posta. Engraçado ver que nesta mesma edição 71, escrevi o artigo “Imparcialidade com um pé atrás”, em que, de forma breve, coloco em xeque os pressupostos jornalísticos. Também apareço no encarte fotográfico da edição e, adivinhem?, participando de uma manifestação, empunhando cartaz justamente contra violência sexual de mulheres. Por que será que ela falava tanto de parcialidade, né?

Na edição 70, eu e Débora Bah, apostamos numa abordagem mais formal, mas sem deixar o contraste cultural e histórico de lado. Em “Agora, é só fazer barra”, falamos da transformação da indústria do vestuário em Mato Grosso do Sul através da história de artesãos, diretamente impactados pela chegada da produção em larga escala.

E olha aí, outro caminho que começava a ser traçado no Projétil? Atualmente trabalho na Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (FIEMS), que foi uma das minhas fontes na reportagem. Atuando como jornalista no setor de comunicação da instituição, presencio de perto um novo salto de desenvolvimento econômico no estado com a chegada das indústrias de celulose, cujos os impactos sociais e ambientais trazem uma avalanche de histórias e problemáticas que precisam estar na pauta da imprensa.

É interessante notar como os temas abordados por mim nas edições do jornal de alguma forma determinaram meu rumo profissional. Para quem ainda está na fase de formação, é importante lembrar os motivos que ajudam a estruturar tais encontros. Abrir-se para viver a universidade como um todo, para além do próprio curso de Jornalismo e rotina de aulas, é essencial. Atividades em grupos de estudos, projetos de extensão e movimento estudantil são decisivos para ampliar nosso olhar e criar conexões profissionais para toda vida.

Ilustração: Gio Malgarhi

Tainá Jara é jornalista, graduada na turma de 2012 de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Atualmente, é assessora de imprensa da FIEMS.