Diferentes perspectivas provam que o tempo não funciona da mesma maneira para os idosos, mas personifica o abandono afetivo que eles carregam
Texto: Brunna Paula | Heloisa Duim
Edição: Ingrid Protasio | Isadora Colete | João Vitor Marques
Fotos: Geovanna Bortolli
‘‘Solidão a três” será aprimorada a partir de três diferentes visões: da casa (o Viver Bem – Lar para Idosos), dos idosos (personagens) e da minha (repórter). Dessa maneira, busco a aproximação entre o leitor e cada um dos pontos de vista, que se relacionam ao abandono afetivo. Mas antes de entrar a fundo nessa história, quero situar que você está diante de uma narrativa baseada em fatos reais.



na casa dificilmente recebem
visitas de familiares e precisam
conviver com a solidão
Todas as três partes são desenvolvidas em primeira pessoa. Assim, meu objetivo em “A Casa” é mostrar que a Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) referida não é ruim, e pelo contrário, apresenta um propósito bom para os idosos. Além disso, com “Os Moradores” narrando a própria história, quero humanizar os relatos, para que você sinta, assim como eu, a sensação que define ter a alma tocada pelas palavras de nossos protagonistas.
É triste quando olhamos para os dados e percebemos que sua existência se encontra de forma cruel. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em 2019 o abandono afetivo esteve frequente dentro do âmbito familiar, em especial com os idosos. Cerca de 65% dos responsáveis pelo ato são os próprios filhos, enquanto aproximadamente 18% correspondem a parentes próximos da pessoa idosa.
A casa
Meus muros brancos e altos, com câmeras de segurança ao longo de toda a minha extensão, têm o topo coroado por concertina e cerca elétrica. Minha fachada simples, centralizada na construção que toma quase um quarteirão inteiro na rua Albert Sabin, tem como ponto de cor o cinza do portão de metal que permite a entrada e saída somente dos funcionários.
O exterior, nada convidativo e semelhante a uma prisão, esconde um lar esteticamente aconchegante, apesar dos residentes serem marcados pela solidão. Nos cômodos sociais, a iluminação natural aquece cada canto de mim. Nas entranhas, reproduzo a ausência de cor encontrada do lado de fora. Pigmento-me apenas com apoios de metal vermelho nas paredes, assim como rampas cobertas por tapetes antiderrapantes emborrachados, que servem de cuidado e fazem referência àqueles que amparo.
Nos quartos dos ocupantes, os nomes cravados acima de suas respectivas camas os distribuem em quatro, três ou dois por cômodo. Suas vestimentas são organizadas de forma individual. Na sala, a enorme televisão sob uma estante de madeira antiga, tem a companhia de seis poltronas de couro bege, usadas diariamente por parte dos condôminos para sua diversão.
Hoje, comporto 23 residentes, e sou movimentada diariamente pela ampla equipe de profissionais, que atuam garantindo a proteção dos idosos em tempo integral. São essas pessoas as responsáveis pela organização metódica de cada minuto da rotina. Por aqui, nada acontece fora do horário. Até para aferir a pressão dos moradores o tempo é calculado.
Apesar da gama de indivíduos que permeiam corredores adentro, meu portão cinza dificilmente presencia visitas dos familiares de quem aqui mora. Na maioria dos casos que me constituem, a vulnerabilidade social anda de mãos dadas com o abandono afetivo. É difícil para mim ter que admitir que a coisa mais próxima de afeto que eu tenho está no nome que abraça o termo lar. Em meu âmago, sinto que cerca de 90% dos idosos residentes não são frequentemente visitados, e assim a palavra “tristeza” se tornou figurinha repetida em um álbum marcado por vocabulários amargurados.
Apesar da gama de indivíduos que permeiam corredores adentro, meu portão cinza dificilmente presencia visitas dos familiares de quem aqui mora
Os moradores
O Viver Bem é apenas mais um “Lar” em meio a outros semelhantes aqui na capital. O lugar é uma entidade governamental que acolhe pessoas idosas em situação de vulnerabilidade social, encaminhadas pela Secretaria de Assistência Social (SAS) de Campo Grande. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em Mato Grosso do Sul são 412 mil pessoas idosas residindo no Estado, o equivalente a 15% da população total. Alguns deles contam suas histórias abaixo.
Maria de Lurdes do Rosário
Me chamo Maria de Lurdes, tenho 80 anos, ou 85. Nessa fase da vida a minha memória já está me deixando na mão. Hoje, sentada nesse refeitório em uma cadeira de rodas desconfortável, recordo que estou no Viver Bem há um ano, e nesse meio tempo não sei se tenho histórias boas e felizes para compartilhar. Nem sequer consigo lembrar do porquê fui tirada de minha casa. Mas antes de começarmos a falar sobre as tristezas que essa vida me deu, digo a você que a minha juventude era de se invejar.
Meu pai era fazendeiro e tínhamos inúmeras propriedades. Naquele tempo, eu acreditava que meu destino seria feliz e aconchegante. Sou natural de Cuiabá, todos aqueles que eu costumava chamar de “família” também são de lá. Já não os vejo há tantos anos que nem sei se saberia reconhecê-los. Não pude ter filhos, fui diagnosticada com útero infantil e hoje me vejo sem o carinho e o cuidado daqueles que nunca pude gerar. A jornalista que veio me visitar, perguntou como acabei chegando aqui, e a resposta é simples, eu não sei.
Na realidade em que vivo hoje em dia, já não ouço mais e isso dificulta a comunicação com aqueles ao meu redor. Ao conversar comigo, a moça teve que escrever em papéis para que eu pudesse contar essa história. Sei que apesar de não perguntar, reparou na minha expressão de dor, que exterioriza não só o desconforto da cadeira, mas a solidão que marca minha jornada por aqui.
Atualmente, posso dizer que vivo cada dia aguardando apenas o momento da morte. O sorriso, que volta e meia estampa meu rosto, nada mais é do que mero disfarce para a dificuldade que encaro de me comunicar. Minha aparência não me agrada mais. Sinto que meus cabelos já não são tão sedosos e macios quanto eram. Meus braços, constantemente cruzados, assim como meu olhar solitário, trazem à tona o desgosto e a tristeza que tanto afirmo e reafirmo sentir.
Meu tempo de permanência nesse local já é assunto indiferente para mim. Um ano, um mês, um dia. Nada seria capaz de tirar minha solidão, se não o fluxo constante de pessoas com que eu convivia em minha loja. Por aqui, falam que estou em negação pela situação em que vivo. Eu diria que apenas sinto falta do passado que já não me agracia mais.
Enquanto isso, enfrento dia após dia esperando pelo momento em que verei um rosto familiar, que não seja do médico que visitei nesse período. Nisso, aguardo meus familiares e amigos, que diferente de mim, ainda vivem da liberdade de ir e vir.
Jesuíno Pereira
Sou o Jesuíno, tenho 83 anos e sou o morador mais antigo e engraçado do Viver Bem. Estou aqui há tanto tempo que vi várias pessoas indo e vindo, o que deveria me causar medo, mas não o faz. Agora nem a morte me assusta. O que me prende aqui é a fisioterapia, pelo menos é essa resposta que dou àqueles que me perguntam. Ainda tento me conformar, querendo ou não, aqui é o meu lugar.
Não gosto e nem converso com ninguém. Os cuidadores, todos falsos. Mesmo com essa opinião, eu tenho que ser sincero sobre os cuidados que a equipe fornece, reconheço que preciso deles para tudo. Vivo cada dia da mesma maneira, como se a minha vida fosse uma medicação prescrita. A única coisa que me distrai, é fumar meu cigarro.
As visitas inesperadas trazem alegria para o tédio que adentra os cômodos dessa casa. Se você me perguntar sobre os amigos que tenho aqui dentro, não penso duas vezes para responder que eles não existem. Para mim, sou o único lúcido em meio a um mar de velhos birutas. Ver eles criando histórias que não são reais, me faz dispensar a companhia que não faço questão de ter.
Diferente da Maria de Lurdes, a minha família busca estar sempre presente, e mesmo com eles à minha volta aos finais de semana, eu ainda estou sozinho. Para um homem nessa idade, a felicidade é difícil de se encontrar. Apesar dessa sensação, tento ser o mais alegre possível. O jeito brincalhão que tenho é apenas um disfarce para esconder a angústia e a tristeza que sinto dentro desses portões.
A solidão é um sentimento que dói e machuca o peito. As visitas semanais já não são mais o suficiente para apagar o abandono que resume o meu estilo de vida. Se pudesse, escolheria tentar a vida lá fora. Todas as dificuldades que essa decisão apresentaria não seriam nada comparado a passar mais um dia vivendo dessa maneira. Nesse caso, a liberdade é maior que qualquer precariedade.
Anivalda Hortência
Um nome diferente não acha? Anivalda, quando digo também não acredito. Pode me chamar de Valda se preferir. Sou a moradora mais requisitada aqui do Viver Bem, pode perguntar para qualquer um. Das visitas que recebemos, sempre dizem que de todos nós, eu sou a mais comunicativa e carinhosa. No dia 15 de maio cheguei aos meus 71 anos, e nessa casa, com minha nova família, já passei dos 4.
Me lembro que quando cheguei no Viver Bem, estava totalmente em negação. Um dia, simplesmente dormi e acordei aqui. Não sei como aconteceu, não me lembro de nada. Com o susto, me isolei de uma maneira cruel. Passava os dias chorando, sentindo falta de quem era sangue do meu sangue. Tive que aprender a superar a dor e a solidão sozinha, sem nenhum amparo. Claro que o processo de recuperação foi difícil, até porque naquele tempo eu havia perdido todos aqueles que um dia chamei de família.
A morte da minha mãe e do meu pai me pegou de surpresa, logo depois minha irmã veio a falecer. Eu não sabia o que sentir. Marido e filhos? Eu nunca tive. Passei a juventude dedicando a vida aos meus pais, casamento sempre foi algo distante para mim. Pelo menos, não posso sentir falta de um amor que jamais presenciei. As lágrimas por essa partida, não corro o risco de derramar.
Depois de ter passado por tantas perdas, tentei me refazer, começar uma nova vida, seguir uma nova rotina e criar novos laços. Acabei conseguindo, mas infelizmente foi por pouco tempo. Fiquei muito apegada a minha companheira de quarto, Rosinha. Gostaria de poder dizer que hoje ainda somos amigas, mas não posso. A morte mais uma vez me tirou alguém que eu amava.
Na idade que estou, superar o óbito, a solidão, a tristeza e o sofrimento, não é para qualquer um. Passei muito tempo me privando e acreditando que a felicidade não era pra mim. A angústia de ficar sem as pessoas que eu amava me derrubou, achei que não seria capaz de me reerguer e reencontrar afeto.
Com quem converso, conto que minha estadia na casa já não é mais solitária. Nas entrelinhas, permanece marcado em atitudes que vira e mexe a tristeza me abraça. Mesmo me adaptando ao Viver Bem, sendo acolhida e acolhendo aqueles que me cercam, é em meu quarto, com as novelas que embalam a televisão, que me sinto à vontade. Hoje, rodeada por essa nova família, me isolo para ignorar a ausência de quem aqui já não está.
Geraldo Melgaço
Me chamo Geraldo, e sou o morador mais novo, em relação a idade. Estou com 64 anos e tenho só uma das pernas. Sei que você deve achar que a história mais triste será a minha. Está enganado. Apesar da condição física, não me deixo abalar. Sou sempre otimista e busco ver o lado positivo da situação, apesar das dificuldades. Além da incapacidade de andar eu também sou incapaz de ser triste.
Sabia que minha família nem sonha que perdi uma perna? E muito menos que estou nesse lugar? Quando vim para Campo Grande, deixei para trás tudo o que pudesse me conectar a eles. Nada de telefone ou endereço. Sou do tipo que para saber de mim, tem que estar cara a cara. Antes do acidente que me deixou entre a vida e a morte, voltava constantemente a Pereira Barreto, cidade em que meus parentes moram. Na última visita que fiz, estava bem de saúde. Hoje, se me vissem, iriam me reconhecer apenas pelos olhos azuis.
As pessoas, que no passado se sentiam desprezadas por eu ir e vir constantemente, hoje devem imaginar que morri. Daqueles que achavam que por mim eram abandonados, agora espero o interesse para saberem do meu desfecho. Mesmo com a distância das minhas filhas, netos e amigos, não me sinto sozinho. A terrinha, essa em que vivemos, é boa demais para não ser aproveitada.
Ah, esqueci de avisar que sou o único lúcido aqui do Viver Bem. Diferente de meus colegas, não espero a morte. Pelo contrário, tento fugir dela ao máximo. Para você ter uma noção, uso máscara até hoje por conta da Covid. Olha que já tomei todas as vacinas possíveis. Sei que as histórias deles devem ser mais sofridas e tristes que essa. Eu os vejo, observo todos os dias. Mas não posso transmitir felicidade àqueles que já estão cansados de viver.




O abandono afetivo marca cada um dos idosos de forma diversa, alguns parecem viver em meio a ilusões.
A visitante
Entre uma interação e outra, dúvidas foram levantadas. Em quem será que devo acreditar? Os assistentes sociais sempre rebatiam as falas dos moradores. Diziam que a maioria já tinha se perdido no que era real ou imaginário. Mas isso não costumava acontecer quando as declarações eram sobre eles ou sobre o lugar. Com as informações vagas que recebi, a observação virou minha aliada e reparei como a equipe me olhava a cada passo que era dado.
O caso de Maria de Lurdes pode ser explicado através da estigmatização associada ao envelhecimento que aproxima a pessoa idosa à inutilidade, quando na verdade, essa fase diz respeito a questões sociais, políticas e culturais. Os efeitos causados por uma mudança brusca em sua vida fomentam a autonegação e a amargura que Viver Bem representa para Maria. Segundo estudiosos, é comum que alterações fisiológicas causem perdas físicas e mentais, impactando diretamente o psicológico e a autoestima do idoso.
Já Jesuíno, oposto ao que ele afirma, não recebe visitas há muito tempo. Segundo a psicóloga Rosimeire Seixas, a forma que Jesuíno acredita na versão de que sua família está por perto, pode se refletir nas memórias de longo prazo. Ou melhor dizendo, na época em que suas relações familiares eram de fato consolidadas, fazendo-o apegar a recordações incoerentes à sua realidade atual.
De acordo com Rosimeire, também há uma incoerência no discurso de Valda, de que apesar de não se sentir mais sozinha, suas atitudes mostram o contrário. Isso refere-se à reprodução de uma narrativa feita pelas pessoas que trabalham e administram Instituições de Longa Permanência. O cuidado associado ao lugar, mesmo que reafirmado por ela e por muitos, não apaga o isolamento que marca o cotidiano dos residentes.
O gerontólogo Sebastião Messias afirma que em casos como o de Geraldo, por exemplo, que afirma ser incapaz de ser triste, a autonegação de identificar-se nessa situação atua como um escape para fora de sua realidade. E ao contrário dos outros, Geraldo é quem se mantém longe de seus familiares.
São em situações como essas que percebo questões que abalam a vida de seres humanos e dificilmente são percebidas. A condenação da velhice estruturada ao longo da juventude fecha os olhos da sociedade para as necessidades que o cuidado da pessoa idosa exige e fomenta tal institucionalização. Essa medida não tem o abandono afetivo como regra, mas a presença familiar no cotidiano desses indivíduos, tem beirado à exceção.
A ausência de contato com o mundo exterior enraíza a solidão consolidada na mesma rotina, com as mesmas pessoas e a relação de carinho restrita entre “profissional e paciente”. O abandono não se restringe ao círculo de convivência, assim como não se resume à simplicidade de um ato, mas à complexidade de um sentimento.
*Foram atribuídos nomes fictícios aos personagens abordados no texto