{"id":1377,"date":"2021-11-25T15:20:59","date_gmt":"2021-11-25T19:20:59","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=1377"},"modified":"2021-12-07T15:03:34","modified_gmt":"2021-12-07T19:03:34","slug":"parceiros-do-fique-em-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/parceiros-do-fique-em-casa\/","title":{"rendered":"Parceiros do \u2018fique em casa\u2019"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">Entregadores de aplicativos encaram mais trabalho, menos renda e riscos \u00e0 sa\u00fade para garantir o isolamento social durante a pandemia<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\">Texto: Ra\u00edssa Trelha | Ana Laura Menegat | Fernando de Carvalho<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n<p>\u201cPor aplicativo voc\u00ea trabalha e fica numa press\u00e3o psicol\u00f3gica. E eu s\u00f3 ficava pensando no bagulho da entrega, t\u00e1 ligado? Eu estava estatelada no ch\u00e3o, e eu s\u00f3 ficava pensando \u2018nossa, a pizza que tinha que entregar!\u201d. Afinal, quem entrega \u00e9 remunerado, e quem fica parado n\u00e3o ganha nada. Por isso, os 15 dias que Luciana Kasai, a Lucy, 27, ficou sem entregar em fun\u00e7\u00e3o desse acidente, causaram estragos n\u00e3o apenas na bicicleta que usa para trabalhar e em seu corpo, mas tamb\u00e9m no seu or\u00e7amento.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1482\" aria-describedby=\"caption-attachment-1482\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1482\" src=\"http:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/motoboys.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/motoboys.jpg 1000w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/motoboys-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/motoboys-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/motoboys-400x300.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1482\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Djalma Vass\u00e3o \/ FotosPublicas<\/figcaption><\/figure>\n<p>Al\u00e9m de estarem expostos \u00e0 viol\u00eancia no tr\u00e2nsito, os entregadores tamb\u00e9m assumiram riscos desde o come\u00e7o da pandemia da Covid-19 no Brasil, em mar\u00e7o de 2020. Eles se mantiveram em circula\u00e7\u00e3o, sendo a coragem de quem ficou em casa. Durante per\u00edodos de lockdown e de toque de recolher, continuaram realizando entregas e se colocando em posi\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis em rela\u00e7\u00e3o ao novo coronav\u00edrus. Desta forma, enquanto o mundo se afastou fisicamente, os profissionais da entrega garantiram que determinadas conex\u00f5es continuassem a existir.<\/p>\n<p>O entregador e acad\u00eamico de nutri\u00e7\u00e3o de Carapicu\u00edba, S\u00e3o Paulo, Willian de Lia Bezerra, 32, o Will, define a profiss\u00e3o como criadora de liga\u00e7\u00f5es. \u201cN\u00f3s somos conectores de projetos, a\u00e7\u00f5es e pessoas. Enquanto ciclista, eu me vejo fazendo uma s\u00e9rie de revolu\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m de me conectar por meio do meu deslocamento, conecto as pessoas tamb\u00e9m\u201d. Membro do movimento Entregadores Antifascistas, ele defende que \u00e9 preciso mostrar que s\u00e3o trabalhadores, pessoas comuns que tamb\u00e9m vivenciam opress\u00f5es. \u201cN\u00e3o somos melhores ou piores que ningu\u00e9m, mas queremos acrescentar em toda sociedade, pensando na l\u00f3gica da coopera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno da \u2018uberiza\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9 uma nova faceta do trabalho informal, que passa a ser mediado por um aplicativo. As \u2018empresas plataformas\u2019 como Uber, iFood, 99 Pop, s\u00e3o projetadas no ambiente virtual, possuindo pouca ou nenhuma base f\u00edsica, de maneira que as rela\u00e7\u00f5es entre chefe, empregado e cliente s\u00e3o alteradas. Isso torna os trabalhadores descart\u00e1veis, o que cria toda uma estrutura de desempregos.<\/p>\n<p>Segundo o Monitoramento de Empreendedorismo Global (GEM) de 2019, realizado no Brasil pelo Sebrae e pelo Instituto Brasileiro de Qualidade de Produtividade (IBQP), 88,4% dos empreendedores \u2018de primeira viagem\u2019 criam um neg\u00f3cio por conta da escassez de empregos. Isso quer dizer que o mercado de trabalho tornou-se t\u00e3o competitivo e excludente que as pessoas precisam buscar alternativas individuais e sem carteira assinada para conseguirem manter os gastos b\u00e1sicos de exist\u00eancia, como alimento e moradia. Dessa forma, as mazelas sociais tornam-se uma quest\u00e3o individual, como se o desemprego fosse uma falha do indiv\u00edduo, por n\u00e3o se adaptar ao sistema. Isso \u00e9 mostrado no artigo <a href=\"https:\/\/bibliotecadigital.fgv.br\/ojs\/index.php\/cadernosebape\/article\/view\/83118\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cO empreendedorismo como ideologia neoliberal\u201d<\/a> escrito por quatro pesquisadores do Centro Federal de Educa\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica de Minas Gerais (CEFET-MG) e publicado na revista cient\u00edfica Cadernos EBAPE.BR. E os entregadores e as entregadoras de \u2018delivery\u2019 est\u00e3o inseridos neste ciclo de domina\u00e7\u00e3o trabalhista.<\/p>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-quote\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\">\u201cVoc\u00ea recebe na exata medida que voc\u00ea oferece. Isso \u00e9 trai\u00e7oeiro, pois parece que \u00e9 justo. Se o neg\u00f3cio n\u00e3o der certo, a empresa transfere o risco para o trabalhador, que s\u00f3 vai ter renda se ele tiver o trabalho sem prote\u00e7\u00e3o alguma\u201d &#8211; Marc\u00edlio Rodrigues Lucas<\/span><cite><\/cite><\/h5>\n\n\n<p>Com isso, estes profissionais ficam desprovidos de qualquer direito, apoio ou prote\u00e7\u00e3o. O professor de Sociologia na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Marcilio Rodrigues Lucas, 37, avalia o cen\u00e1rio como curioso e triste. \u201cVoc\u00ea recebe na exata medida que voc\u00ea oferece. Isso \u00e9 trai\u00e7oeiro, pois parece que \u00e9 justo. Se o neg\u00f3cio n\u00e3o der certo, a empresa transfere o risco para o trabalhador, que s\u00f3 vai ter renda se ele tiver o trabalho sem prote\u00e7\u00e3o alguma\u201d, pontua.<\/p>\n<p><strong>Mudan\u00e7a no trabalho e precariza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) revelam que a taxa de desemprego recuou um ponto percentual e o n\u00famero de desempregados caiu de 14,4 milh\u00f5es para 14,1 milh\u00f5es na compara\u00e7\u00e3o do terceiro trimestre de 2021 com o trimestre anterior. No entanto, a recupera\u00e7\u00e3o se d\u00e1 com n\u00famero recorde de trabalhadores informais, menos horas trabalhadas e rendimento menor.<\/p>\n<p>Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad) Cont\u00ednua, a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o no segundo trimestre de 2021 \u00e9 de 13,7% e a taxa de subutiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 de 29,3%. De acordo com o IBGE, \u00e9 considerado subutilizado todo aquele que est\u00e1 desempregado, que trabalha menos do que poderia, que n\u00e3o procurou emprego mas estava dispon\u00edvel para trabalhar ou que n\u00e3o procurou emprego mesmo estando dispon\u00edvel para trabalhar.<\/p>\n<p>O aumento do desemprego indica que o mundo do trabalho est\u00e1 passando por grandes mudan\u00e7as. Mostra que cada vez mais trabalhadores s\u00e3o demitidos de empregos formais e, portanto, induzidos a empregos informais para se manterem economicamente ativos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1485\" aria-describedby=\"caption-attachment-1485\" style=\"width: 236px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1485\" src=\"http:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/will.jpg\" alt=\"\" width=\"236\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/will.jpg 472w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/will-202x300.jpg 202w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/will-400x593.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 236px) 100vw, 236px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1485\" class=\"wp-caption-text\">O entregador Willian de Lia Bezerra possui a luta pela seguran\u00e7a alimentar como sua pauta principal &#8211; Foto: Acerco Cozinha Ocupa\u00e7\u00e3o 9 de Julho \/ Instagram<\/figcaption><\/figure>\n<p>Sentindo em primeira m\u00e3o o que esses n\u00fameros indicam, Will entende que mudar a sociedade requer participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social: \u201cN\u00e3o temos escolhas. Quem tem escolha \u00e9 a direita. A gente vai para a rua ou morre de fome. A gente reivindica uma necessidade de vida\u201d, disse. Ele refere-se \u00e0s necessidades do trabalho di\u00e1rio, mesmo de forma inst\u00e1vel.<\/p>\n<p>O Brasil tem um contingente expressivo de desempregados, ou seja, pessoas com idade para trabalhar (acima de 14 anos) que n\u00e3o est\u00e3o trabalhando mas est\u00e3o dispon\u00edveis e tentam encontrar trabalho. De acordo com dados do IBGE divulgados em 26 de fevereiro de 2021, o n\u00famero de trabalhadores que ficaram sem remunera\u00e7\u00e3o na pandemia do coronav\u00edrus chegou a 9,7 milh\u00f5es. Al\u00e9m disso, a taxa m\u00e9dia de desemprego de 13,5% \u00e9 o pior resultado da s\u00e9rie, iniciada em 2012.<\/p>\n\n\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\">\u201cN\u00e3o temos escolhas. Quem tem escolha \u00e9 a direita. A gente vai para a rua ou morre de fome. A gente reivindica uma necessidade de vida\u201d \u2013 Will<\/span><\/h5>\n\n\n<p>Para criar uni\u00e3o e mobilizar politicamente a classe, alguns profissionais se uniram no movimento dos Entregadores Antifascistas. Esta organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente nos estados do Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, Pernambuco, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Esp\u00edrito Santo e no Distrito Federal. E luta principalmente por direitos trabalhistas, v\u00ednculos empregat\u00edcios e condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1492\" aria-describedby=\"caption-attachment-1492\" style=\"width: 236px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1492\" src=\"http:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/lucy.jpg\" alt=\"\" width=\"236\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/lucy.jpg 471w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/lucy-202x300.jpg 202w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/lucy-400x594.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 236px) 100vw, 236px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1492\" class=\"wp-caption-text\">Luciana Kasai faz parte da parcela dos entregadores de aplicativo que utiliza a bicicleta para trabalhar &#8211; Foto: Acervo Cozinha Ocupa\u00e7\u00e3o 9 de Julho \/ Instagram<\/figcaption><\/figure>\n<p>Lucy, que se classifica como anarquista e antifascista, possui quatro empregos, todos informais. Formada em gastronomia, atuou em cozinhas, de onde saiu por sentir-se explorada. Come\u00e7ou a trabalhar como entregadora por conta de necessidades financeiras e se uniu ao Movimento dos Entregadores Antifascistas. &#8220;Eu n\u00e3o tenho profiss\u00e3o, eu fa\u00e7o v\u00e1rias coisas que eu posso com o que eu tenho\u201d diz ela, que d\u00e1 aulas de ingl\u00eas, vende brownies e tamb\u00e9m mant\u00e9m um podcast, o <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/1dL8HuuEgdfgZDE7IMgz6u?si=vgDBxTP8RouZpCfsdf2ZJg&amp;nd=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Descolonyzah<\/a>, \u201cum projeto que oferece conversas sobre lidar com a sociedade que a gente vive e prop\u00f5e como a gente pode mudar tudo isso na pr\u00e1tica\u201d como se apresenta no Open Spotify.<\/p>\n\n\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\">\u201cEu n\u00e3o tenho profiss\u00e3o, eu fa\u00e7o v\u00e1rias coisas que eu posso com o que eu tenho\u201d \u2013 Lucy<\/span><\/h5>\n\n\n<p>No ramo das entregas, ela possui experi\u00eancia vinculada a aplicativos e fora deles. Hoje optou por trabalhar apenas atrav\u00e9s de parcerias, ou seja, \u00e0 margem dos apps. A maior diferen\u00e7a, na vis\u00e3o dela, s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem entre parceiros. \u201cEu acho que te tratam como gente. Ningu\u00e9m vai chegar l\u00e1 e esculachar voc\u00ea. A gente consegue trocar uma ideia, trocar outras coisas que n\u00e3o s\u00f3 o trampo. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 baseado nessa l\u00f3gica da grana. \u00c9 muito mais baseado na quest\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas e desse cooperativismo, como a gente vai se ajudar\u201d, explica.<\/p>\n<p><strong>Falta de seguran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m do risco de contra\u00edrem o coronav\u00edrus exercendo sua profiss\u00e3o, os entregadores correm risco constante no tr\u00e2nsito. Mesmo com menos pessoas trafegando nas ruas devido ao isolamento social, o Brasil teve 71.344 interna\u00e7\u00f5es de motociclistas acidentados no tr\u00e2nsito no per\u00edodo de janeiro a julho de 2021, de acordo com estudo da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Medicina de Tr\u00e1fego. Isso representa um aumento de cerca de 14% comparado com o mesmo per\u00edodo em 2020, que registrou 62.433 interna\u00e7\u00f5es de motociclistas.<\/p>\n<p>No estado de Mato Grosso do Sul, os n\u00fameros tamb\u00e9m s\u00e3o expressivos. At\u00e9 julho deste ano, houve 2.005 interna\u00e7\u00f5es de motociclistas, um aumento de 4% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo em 2020.<\/p>\n<p>Ani Margareth Souza, 52, que \u00e9 conhecida como Pen\u00e9lope Charmosa por se apresentar assim e estar sempre de rosa, \u00e9 agente comunit\u00e1ria h\u00e1 nove anos, mas em dezembro de 2020 passou a realizar entregas por aplicativo em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, aos finais de semana, usando sua motocicleta. Apesar de gostar da profiss\u00e3o de entregadora, ela tamb\u00e9m destaca que a atividade \u00e9 perigosa e humilhante em determinados momentos. E chama aten\u00e7\u00e3o para o machismo e os perigos das ruas. \u201cN\u00e3o me sinto segura nem no tr\u00e2nsito, nem nas entregas. Vou com medo mesmo\u201d, desabafa.<\/p>\n\n\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\">\u201cAntes de eu ser entregadora, eu n\u00e3o via a realidade deles. Hoje eu sofro na pele. Voc\u00ea v\u00ea aqueles meninos passando igual um \u2018louco\u2019, correndo, porque eles t\u00eam um tempo para entregar. J\u00e1 vi muitos se acidentando, justamente por conta do prazo\u201d \u2013 Ani<\/span><\/h5>\n\n\n<p>In\u00fameros s\u00e3o os motivos para tamanha viol\u00eancia no tr\u00e2nsito, e um deles est\u00e1 relacionado aos aplicativos. As plataformas estabelecem um prazo para as entregas e um per\u00edodo de tempo que, se cumprido, pode dar ao trabalhador uma remunera\u00e7\u00e3o um pouco maior, fazendo com que, em uma tentativa de aumentar a renda \u2013 que j\u00e1 \u00e9 baixa \u2013 os entregadores coloquem suas vidas em risco. \u201cAntes de eu ser entregadora, eu n\u00e3o via a realidade deles. Hoje eu sofro na pele. Voc\u00ea v\u00ea aqueles meninos passando igual um \u2018louco\u2019, correndo, porque eles t\u00eam um tempo para entregar. J\u00e1 vi muitos se acidentando, justamente por conta do prazo\u201d, enfatiza Ani.<\/p>\n<p>Embora ve\u00edculos a combust\u00e3o sejam o principal meio de transporte dos entregadores, a bicicleta vem ganhando cada vez mais ades\u00e3o. Entretanto, pela falta de uniformidade na malha ciclovi\u00e1ria, os ciclistas tamb\u00e9m sofrem no tr\u00e2nsito campo-grandense. O psic\u00f3logo Raphael Vicente da Rosa, 29, trabalha como entregador desde 2018 e explica que at\u00e9 o relevo interfere na escolha do local de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEu tenho alguns problemas de vis\u00e3o e isso me atrapalha trabalhar durante o dia. Eu mudei minha rota e tenho trabalhado perto de casa, na zona sul. Tem menos oferta de entrega, mas me d\u00e1 alguma renda tamb\u00e9m. Eu fiz essa escolha por causa da seguran\u00e7a tamb\u00e9m. \u00c9 uma \u00e1rea mais plana e um pouco mais segura, [porque] n\u00e3o tem muito movimento de carro\u201d, conta.<\/p>\n<p>Mas nem na cidade de S\u00e3o Paulo, que possui a maior malha de ciclovias do pa\u00eds \u2013 684 quil\u00f4metros, de acordo com a Companhia de Engenharia de Tr\u00e1fego \u2013 os ciclistas est\u00e3o seguros. Nos sete primeiros meses de 2021 ocorreram 22 mortes, de acordo com o Departamento Estadual de Tr\u00e2nsito de S\u00e3o Paulo (Detran\/SP). Will relata que j\u00e1 sofreu viol\u00eancia f\u00edsica no tr\u00e2nsito e que os carros buzinam para as bicicletas como se elas atrapalhassem o fluxo das vias. O entregador comentou que ap\u00f3s a gest\u00e3o de Fernando Haddad (PT), que foi prefeito entre 2013 e 2016, os ciclistas passaram a ser vistos como \u2018pessoas de esquerda\u2019, e sofrem viol\u00eancia por conta disso tamb\u00e9m. Segundo ele, essa associa\u00e7\u00e3o se deve ao fato de que a gest\u00e3o do prefeito petista construiu mais de 400 quil\u00f4metros de ciclovias em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>Presen\u00e7a feminina<\/strong><\/p>\n<p>No livro \u201co feminismo \u00e9 para todo mundo\u201d a intelectual negra e te\u00f3rica feminista estadunidense bell hooks, 69, aborda a rela\u00e7\u00e3o entre o surgimento do feminismo e a presen\u00e7a das mulheres no mercado de trabalho. Ela explica que quando o movimento surge, ele se mostra focado nas demandas de mulheres brancas e ricas, de forma que a principal reivindica\u00e7\u00e3o delas era poderem trabalhar, e n\u00e3o apenas cuidarem do lar. Apesar desta demanda ser importante, ela n\u00e3o se estendia para todas as mulheres, porque negras e pobres sempre estiveram no mercado de trabalho, embora n\u00e3o tivessem sua liberta\u00e7\u00e3o garantida. Assim, as mulheres brancas privilegiadas tiveram sua independ\u00eancia \u00e0s custas das mulheres da classe trabalhadora, que assumiram as fun\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas das companheiras ricas.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Lucy defende que a quest\u00e3o de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 solta. Para ela, se reconhecer dentro de algum empreendimento depende das condi\u00e7\u00f5es oferecidas para sua estadia ali. \u201dEu quero me ver como entregadora e me enxergar dentro desta categoria a partir do momento em que eu estiver recebendo um sal\u00e1rio justo, a partir do momento em que eu tiver condi\u00e7\u00f5es. Porque a quest\u00e3o do entregador \u00e9 a gente n\u00e3o ter lugar para fazer xixi, a gente n\u00e3o ter um lugar para comer, para carregar o celular. Ent\u00e3o, dentro de um contexto mega capitalista de aplicativo, eu quero fugir mesmo! Eu n\u00e3o quero fazer parte desse rol\u00ea a\u00ed. Tem que ser o recorte social, racial. Nada a ver ir sozinho\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\">\u201cTeve um cliente, no come\u00e7o, em que eu me atrasei. Ele foi atr\u00e1s de mim e me esculhambou. Falou que eu deveria estar em casa lavando roupa. Sa\u00ed devastada!\u201d \u2013 Ani<\/span><\/h5>\n\n\n<p>Ani comenta que desde que come\u00e7ou a trabalhar como entregadora, conheceu apenas outras cinco mulheres nessa atividade. Ela percebe que os homens s\u00e3o muito unidos e sente falta disso entre as mulheres, uma vez que o machismo existe n\u00e3o s\u00f3 entre colegas, mas tamb\u00e9m entre os consumidores. \u201cTeve um cliente, no come\u00e7o, em que eu me atrasei. Ele foi atr\u00e1s de mim e me esculhambou. Falou que eu deveria estar em casa lavando roupa. Sa\u00ed devastada!\u201d, relata.<\/p>\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-3 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"600\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope1.jpg\" alt=\"\" data-id=\"1498\" data-full-url=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope1.jpg\" data-link=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?attachment_id=1498\" class=\"wp-image-1498\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope1.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope1-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope1-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope1-400x400.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope1-200x200.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"600\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope2.jpg\" alt=\"\" data-id=\"1499\" data-full-url=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope2.jpg\" data-link=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?attachment_id=1499\" class=\"wp-image-1499\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope2.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope2-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope2-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope2-400x400.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope2-200x200.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"600\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope3.jpg\" alt=\"\" data-id=\"1500\" data-full-url=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope3.jpg\" data-link=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?attachment_id=1500\" class=\"wp-image-1500\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope3.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope3-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope3-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope3-400x400.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope3-200x200.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"600\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope4.jpg\" alt=\"\" data-id=\"1501\" data-full-url=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope4.jpg\" data-link=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?attachment_id=1501\" class=\"wp-image-1501\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope4.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope4-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope4-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope4-400x400.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/penelope4-200x200.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">Ani Margareth Souza trabalha pelas ruas de Campo Grande inspirada na personagem Pen\u00e9lope Charmosa &#8211; Fotos: Alicce Rodrigues<\/figcaption><\/figure>\n\n\n<p>Para Lucy, a luta precisa ser focada na quest\u00e3o trabalhista. \u201cAntes de ser mulher, eu sou pobre. Quando \u00e9 s\u00f3 o empoderamento feminino pelo empoderamento feminino, ele \u00e9 raso e ainda \u00e9 capitalista\u201d, conclui.<\/p>\n<p><strong>Entregas e pandemia<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com dados disponibilizados pela Mobills, um sistema de controle financeiro, os gastos nos aplicativos Rappi, iFood e Uber Eats cresceram 103% no primeiro semestre de 2020. Com mais pessoas solicitando a entrega de produtos, os entregadores ficaram mais tempo nas ruas, o que os deixou tamb\u00e9m mais expostos ao v\u00edrus.<\/p>\n<p>Especialistas de quatro universidades brasileiras apontam, no artigo <a href=\"http:\/\/revistatdh.org\/index.php\/Revista-TDH\/article\/view\/74\/37\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u2018Condi\u00e7\u00f5es de trabalho de entregadores via plataforma digital durante a COVID-19\u2019<\/a>, que 57,7% dos entregadores pesquisados afirmam n\u00e3o ter recebido nenhum apoio das empresas para evitar a contamina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. A falta de suporte dos aplicativos, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao fornecimento de Equipamentos de Prote\u00e7\u00e3o Individual (EPI\u2019s), fizeram com que os entregadores organizassem, em 1\u00ba de julho de 2020, um protesto nacional. Al\u00e9m de requererem os EPI&#8217;s, os entregadores reivindicaram tamb\u00e9m reajuste do pagamento por quil\u00f4metro rodado.<\/p>\n<p>No site institucional, o iFood informa que come\u00e7ou a distribui\u00e7\u00e3o de EPI\u2019s em abril de 2021, e que entre o per\u00edodo de 1 de abril e 25 de junho foram distribu\u00eddos mais de 818 mil itens de prote\u00e7\u00e3o individual, incluindo m\u00e1scaras reutiliz\u00e1veis e \u00e1lcool em gel aos entregadores. Segundo consta no site, para evitar aglomera\u00e7\u00f5es, o entregador recebia um convite no aplicativo, como se fosse um pedido, para a retirada dos equipamentos de prote\u00e7\u00e3o. O deslocamento at\u00e9 o ponto de retirada foi pago pelo aplicativo.<\/p>\n<p><strong>Participa\u00e7\u00e3o coletiva<\/strong><\/p>\n<p>Lucy acredita que \u00e9 preciso que o consumidor saiba que os entregadores est\u00e3o sendo explorados. Para ela, essa \u00e9 uma luta contra a forma na qual a sociedade foi fundamentada, e a favor da constru\u00e7\u00e3o de um sentido comunit\u00e1rio mais amplo. \u201c\u00c9 toda uma cadeia que voc\u00ea tem que mexer, porque \u00e9 uma estrutura constru\u00edda com base nessa explora\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o tem interesse nenhum em mudar, porque ela vai ganhar com isso. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a gente esperar deles. \u00c9 a gente criar. Por mais que seja complicad\u00edssimo\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/12\/entregadores-ilustra.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1875\" width=\"308\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/12\/entregadores-ilustra.jpg 615w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/12\/entregadores-ilustra-231x300.jpg 231w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/12\/entregadores-ilustra-400x520.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 308px) 100vw, 308px\" \/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/bianca_esquilartes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bianca Esquivel<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Para isso \u00e9 preciso combater a l\u00f3gica do individualismo e estimular a participa\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia coletiva, pois \u201c\u00e0 medida que o consumidor come\u00e7a a cobrar de que as condi\u00e7\u00f5es sejam melhores, o mercado tem que se adaptar. \u00c9 o consumidor que faz o mercado\u201d, defende Lucy. Ela tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de participa\u00e7\u00e3o mais ampla nessa busca por mudan\u00e7a. \u201cEnquanto a classe m\u00e9dia n\u00e3o perceber que tamb\u00e9m \u00e9 trabalhadora, ela vai continuar servindo os ricos\u201d, sustenta.<\/p>\n<p>A paulistana sugere modos dessa conscientiza\u00e7\u00e3o ocorrer. A alternativa mais enfatizada por ela \u00e9 boicotar os aplicativos, fazendo os pedidos direto aos restaurantes. Quando isso n\u00e3o for poss\u00edvel \u2013 pontua \u2013 \u00e9 importante conversar com a pessoa que est\u00e1 realizando a entrega, oferecer \u00e1gua e dar uma gorjeta. Em suma, valorizar mais o ser humano que est\u00e1 desempenhando um servi\u00e7o do que os aplicativos.<\/p>\n<p>As possibilidades se alteram de acordo com a cidade ou estado. Isso faz com que Raphael seja pessimista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Campo Grande. \u201cEu acho que \u00e9 mais uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica. N\u00e3o \u00e9 algo que vai mudar da noite para o dia. Teve uma vez que eu passei na rua e o pessoal riu de mim. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo que as pessoas v\u00e3o mudar\u201d, reflete.<\/p>\n<p>De acordo com o professor Marcilio, a politiza\u00e7\u00e3o do cliente pode ajudar a mudar as rela\u00e7\u00f5es trabalhistas, mas possui limites. \u201cA sociedade brasileira tende, at\u00e9 por heran\u00e7as hist\u00f3ricas desde a escravid\u00e3o, a desprezar a dimens\u00e3o humana deste trabalhador\u201d, pontua o soci\u00f3logo ao referir-se \u00e0queles que tem as condi\u00e7\u00f5es de trabalho precarizadas. Assim, \u00e9 preciso tamb\u00e9m um comprometimento da classe m\u00e9dia e das elites para que seja poss\u00edvel uma mudan\u00e7a neste contexto.<\/p>\n<p>Apesar da complexidade do cen\u00e1rio, Lucy se diz segura em rela\u00e7\u00e3o ao seu papel transformador. \u201cA perspectiva \u00e9 de luta sempre, n\u00e3o d\u00e1 para estar em outro lugar. \u00c9 uma luta complicada contra gigantes, mas a gente tem feito pelos nossos\u201d, ressalta a entregadora.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-97\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 97<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entregadores de aplicativos encaram mais trabalho, menos renda e riscos \u00e0 sa\u00fade para garantir o isolamento social durante a pandemia Texto: Ra\u00edssa Trelha | Ana Laura Menegat | Fernando de Carvalho \u201cPor aplicativo voc\u00ea trabalha e fica numa press\u00e3o psicol\u00f3gica. 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