{"id":1386,"date":"2021-11-24T18:27:28","date_gmt":"2021-11-24T22:27:28","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=1386"},"modified":"2021-12-01T15:45:34","modified_gmt":"2021-12-01T19:45:34","slug":"watchmen-e-o-paradoxo-do-super-heroi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/watchmen-e-o-paradoxo-do-super-heroi\/","title":{"rendered":"Watchmen e o paradoxo do super-her\u00f3i"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\">Carlos Eduardo Ribeiro<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Uma das \u2018graphic novels\u2019 mais influentes de todos os tempos, Watchmen nos apresenta uma sombria e inigual\u00e1vel trama. Com uma complexa tragicom\u00e9dia social, a HQ que se passa nos anos 80 explora um universo no qual existem her\u00f3is nos EUA. Entretanto, diferentemente das outras hist\u00f3rias em quadrinhos da \u00e9poca, os her\u00f3is n\u00e3o s\u00e3o personagens modelo. Aqui eles se mostram humanizados e desconstru\u00eddos, \u00e0 margem do arqu\u00e9tipo cl\u00e1ssico de protagonista.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"331\" height=\"499\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/watchmen.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1708\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/watchmen.jpg 331w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/watchmen-199x300.jpg 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 331px) 100vw, 331px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar o transtorno moral que a exist\u00eancia de super-her\u00f3is acarretaria nossa sociedade. Afinal, a figura do her\u00f3i dos quadrinhos nada mais \u00e9 do que um justiceiro que combate o crime. E como estabelecido por nossas leis, ser justiceiro \u00e9 uma transgress\u00e3o. Contudo, existe uma agenda repressiva que contribui para a divis\u00e3o <br>da sociedade entre \u2018mocinhos\u2019 e \u2018bandidos\u2019, portanto \u00e9 custoso imaginar um consenso social acerca desse tema. Vide a superficial teoria retributiva \u2018malfeitores devem ser punidos por terem cometido maldades\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Alan Moore, roteirista de Watchmen, nos coloca no cerne dessa quest\u00e3o quando apresenta, logo no in\u00edcio, o personagem Rorschach. Com ilus\u00f5es paranoicas e um senso r\u00edgido de justi\u00e7a, o justiceiro mascarado investiga a morte de seu ex-parceiro, o Comediante, que junto com ele e mais outros cinco her\u00f3is formavam um grupo que combatia crimes nos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como todos os outros personagens da HQ, Rorschach \u00e9 complexo. O justiceiro possui um di\u00e1rio e nele escreve sobre a podrid\u00e3o da sociedade. \u201cA imundice acumulada de todo o sexo e matan\u00e7as que praticaram vai espumar at\u00e9 suas cinturas e todos os pol\u00edticos e rameiras olhar\u00e3o para cima, gritando \u2018salve-nos\u2019 \u2026 e, do alto, eu vou sussurrar: \u2018n\u00e3o\u2019\u201d. Rorschach \u00e9 um her\u00f3i fascista que acredita na viol\u00eancia como chave para a paz. Entretanto, suas tendencias ao fascismo nos fazem refletir: at\u00e9 que ponto os super-her\u00f3is cl\u00e1ssicos da Marvel ou DC s\u00e3o parecidos com o Rorschach? Afinal, dificilmente vemos os protagonistas dos filmes questionar os meios e os m\u00e9todos de quem pune e os porqu\u00eas de punir algu\u00e9m, ou at\u00e9 mesmo tirar a vida de um indiv\u00edduo em busca de uma sociedade mais \u2018pura\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Alan_Moore\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alan Moore<\/a> coloca em debate essa discuss\u00e3o e mostra que her\u00f3is e vil\u00f5es podem ser duas faces da mesma moeda. O vigilante que passa seus dias fantasiado perseguindo vil\u00f5es e bandidos faz isso em busca de justi\u00e7a, entretanto lei e justi\u00e7a s\u00e3o coisas diferentes. O que lhes d\u00e1 direito de praticar ou consentir com assassinatos em massa em nome de uma causa nobre?<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 centralizado em Rorschach o personagem com postura aliada \u00e0 extrema-direita, \u00e0 extrema solid\u00e3o, \u00e0 impiedade e nele reside um dos fatores principais do texto que incorpora as rela\u00e7\u00f5es entre o her\u00f3i dos quadrinhos e o totalitarismo: a nega\u00e7\u00e3o da realidade e um apelo para solu\u00e7\u00f5es simplistas e sensacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, parece haver uma certa afinidade entre a ret\u00f3rica populista da nova direita e a iconografia dos super-her\u00f3is. Parte dos que invadiram o capit\u00f3lio nos EUA vestiam roupas do Batman e do Thor. No Brasil \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar do boneco infl\u00e1vel do Super Moro nas manifesta\u00e7\u00f5es em Bras\u00edlia. Entretanto, uma coisa n\u00e3o levou \u00e0 outra. Elas s\u00f3 s\u00e3o sintomas de um mesmo problema.<\/p>\n\n\n\n<p>Alan Moore escreveu uma mitologia para cada her\u00f3i. Dessa forma, desenvolveu suas complexidades nas mais de 400 p\u00e1ginas do HQ. Um deles \u00e9 o Comediante, ou Agente Blake. O personagem \u00e9 um soldado impiedoso que n\u00e3o v\u00ea problemas em assassinar seus inimigos. Ele nada mais \u00e9 que o sonho americano tomando forma. Em determinado momento do quadrinho, Dr Manhattan (um dos her\u00f3is) ao encontr\u00e1-lo durante a guerra do Vietn\u00e3 diz: \u201cBlake \u00e9 interessante. Jamais conheci algu\u00e9m t\u00e3o deliberadamente amoral. Ele condiz com o clima daqui: a loucura, a carnificina sem sentido. \u00c0 medida que compreendo o Vietn\u00e3 para a condi\u00e7\u00e3o humana, percebo que poucos se permitiram tal compreens\u00e3o. Blake \u00e9 diferente. Ele compreende perfeitamente&#8230; s\u00f3 n\u00e3o se importa\u201d. O Comediante viu a verdadeira face da sociedade e decidiu virar uma par\u00f3dia dela, uma grande piada.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, \u00e9 no personagem de Ozymandias que tudo se consolida. Inspirado em Alexandre O Grande, o vigilante \u00e9 considerado o homem mais inteligente do mundo e, dado tamanha intelig\u00eancia, percebe que n\u00e3o d\u00e1 para criar um mundo melhor combatendo bandidos nas ruas. Ao contr\u00e1rio de Rorschach, ele pensa em algo maior. Sua grande solu\u00e7\u00e3o para salvar o mundo \u00e9 simples: soltar uma lula gigante, vinda de uma suposta outra dimens\u00e3o, no centro de Nova York, assassinando milhares de pessoas. Uma farsa capaz de fazer a humanidade se voltar contra um inimigo em comum e esquecer as guerras do cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, todas essas discuss\u00f5es passam por nosso c\u00f3digo moral. A ideia frustrada de combatentes do crime \u00e9 uma mensagem pol\u00edtica por si s\u00f3, cheia de consequ\u00eancias. Portanto, a quest\u00e3o que fica \u00e9: os meios maquiav\u00e9licos dos personagens s\u00e3o v\u00e1lidos? E mais: quem vigia os vigilantes?<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-97\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 97<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Eduardo Ribeiro Uma das \u2018graphic novels\u2019 mais influentes de todos os tempos, Watchmen nos apresenta uma sombria e inigual\u00e1vel trama. Com uma complexa tragicom\u00e9dia social, a HQ que se passa nos anos 80 explora um universo no qual existem her\u00f3is nos EUA. Entretanto, diferentemente das outras hist\u00f3rias em quadrinhos da \u00e9poca, os her\u00f3is n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-1386","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao-97"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1386","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1386"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1386\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1726,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1386\/revisions\/1726"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1386"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}