{"id":1402,"date":"2021-11-24T18:26:17","date_gmt":"2021-11-24T22:26:17","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=1402"},"modified":"2021-12-01T15:45:57","modified_gmt":"2021-12-01T19:45:57","slug":"o-heroi-como-referencia-na-luta-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/o-heroi-como-referencia-na-luta-popular\/","title":{"rendered":"O her\u00f3i como refer\u00eancia na luta popular"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\">Carlos Eduardo Ribeiro<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Em A Vida de Galileu, uma pe\u00e7a escrita por Bertolt Brecht entre 1937 e 1938, o personagem de Galileu diz a frase \u201cMiser\u00e1vel pa\u00eds aquele que precisa de her\u00f3is\u201d. Esse trecho tem sido v\u00edtima de nossa rica l\u00edngua que recria palavras e representa\u00e7\u00f5es, portanto n\u00e3o \u00e9 incomum ouvirmos ou lermos a frase \u201cMiser\u00e1vel aquele pa\u00eds que n\u00e3o tem her\u00f3is\u201d. Seja pela forte rela\u00e7\u00e3o com a oralidade, ou mesmo em fun\u00e7\u00e3o de nosso contexto, a frase foi alterada. Mas entre precisar de her\u00f3is ou t\u00ea-los vai uma dist\u00e2ncia muito grande.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria do Brasil mostra que somos uma na\u00e7\u00e3o que sempre teve a necessidade de her\u00f3is. As feridas de um pa\u00eds machucado sangram enquanto as massas buscam uma figura que estanque suas dores e \u00e9 no contexto da luta popular que temos nossas maiores refer\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a ideia da figura inspiradora tamb\u00e9m \u00e9 espa\u00e7o de disputa ideol\u00f3gica, como, por exemplo, a constru\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica de um juiz imponente que combate criminosos e n\u00e3o tem medo dos corruptos. Ou pelo apagamento de uma figura hist\u00f3rica como <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Carlos_Marighella\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Carlos Marighella<\/a>, intelectual e guerrilheiro urbano assassinado por agentes da ditadura militar em 1969.<\/p>\n\n\n\n<p>De forma tragicamente did\u00e1tica, o Brasil possu\u00ed in\u00fameras pessoas que morreram se opondo \u00e0s barb\u00e1ries repressivas que permeiam o Estado. Carlos Marighella foi uma delas. Sua hist\u00f3ria, muitas vezes rebaixada \u00e0 de um terrorista, permanece no imagin\u00e1rio popular. Referenciado em algumas produ\u00e7\u00f5es como a m\u00fasica <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5Os1zJQALz8&amp;ab_channel=RacionaisTV\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mil Faces de um Homem Leal<\/a> do Racionais MCs ou no filme de Wagner Moura que leva o nome do personagem como t\u00edtulo, Marighella ainda reverbera nos ambientes progressistas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitas outras figuras inspiradoras na hist\u00f3ria recente do nosso pa\u00eds. Entre elas podemos citar o jornalista, professor e dramaturgo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Vladimir_Herzog\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vladimir Herzog<\/a>. Nascido na antiga Iugosl\u00e1via (em territ\u00f3rio onde hoje \u00e9 a Servia), quando pequeno teve sua casa invadida por nazistas e se refugiou na It\u00e1lia. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, veio para o Brasil. Mas n\u00e3o se livrou das persegui\u00e7\u00f5es e aqui tamb\u00e9m conheceu o expediente repressivo do aparato ditatorial. Com um jornalismo afiado, seu trabalho representava um car\u00e1ter fortificador do processo de oposi\u00e7\u00e3o e logo chamou a aten\u00e7\u00e3o dos que colocavam fogo no pa\u00eds. Seu assassinato ocorreu no dia 25 de outubro de 1975, nos por\u00f5es do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social, o DOPS, ao negar trair seus <br>companheiros.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"592\" height=\"700\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/cadu-700.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1446\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/cadu-700.png 592w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/cadu-700-254x300.png 254w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/cadu-700-400x473.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 592px) 100vw, 592px\" \/><figcaption>Arte: Rafaella Moura<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Um ponto em comum a todos os her\u00f3is populares \u00e9 que ele permanecem vivos ap\u00f3s a morte do ser humano. E eles n\u00e3o s\u00f3 vivem como tamb\u00e9m perturbam. Incomodam uns e estimulam outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, o her\u00f3i popular n\u00e3o \u00e9 o mesmo her\u00f3i do conceito burgu\u00eas de representa\u00e7\u00e3o visto nos filmes e romances. Talvez nem her\u00f3i ele seja, como bem explorado por Mario de Andrade em Macuna\u00edma. Afinal de contas, assim como no c\u00e9lebre romance modernista, a ideia de car\u00e1ter elevado \u00e9 rompida, quase que de forma anti-heroica. E tal qual no romance, o her\u00f3i popular n\u00e3o se permite ser essa figura moralizante.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, existe um fator que intensifica a representa\u00e7\u00e3o do hero\u00edsmo em um indiv\u00edduo: a sua morte. Por\u00e9m, o m\u00e1rtir como personagem modelo em uma vis\u00e3o romantizada n\u00e3o \u00e9 o ideal, j\u00e1 que podemos cair em uma naturaliza\u00e7\u00e3o perigosa dos motivos que o levaram ao fim. Antes de tudo o indiv\u00edduo que serve de refer\u00eancia na luta popular \u00e9 um her\u00f3i devido \u00e0s suas a\u00e7\u00f5es e \u00e9 em fun\u00e7\u00e3o delas que essas figuras merecem um lugar cativo na mem\u00f3ria nacional. Por\u00e9m, talvez em virtude dessa associa\u00e7\u00e3o com o her\u00f3i dos filmes e romances, ou at\u00e9 mesmo com a religi\u00e3o, a morte n\u00e3o escapa de ser um elemento significativo. Afinal, o santo s\u00f3 \u00e9 santo porque sabe morrer.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-97\/\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 97<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Eduardo Ribeiro Em A Vida de Galileu, uma pe\u00e7a escrita por Bertolt Brecht entre 1937 e 1938, o personagem de Galileu diz a frase \u201cMiser\u00e1vel pa\u00eds aquele que precisa de her\u00f3is\u201d. 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