{"id":1429,"date":"2021-11-24T18:10:15","date_gmt":"2021-11-24T22:10:15","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=1429"},"modified":"2021-12-01T15:46:19","modified_gmt":"2021-12-01T19:46:19","slug":"nosso-luto-frequente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/nosso-luto-frequente\/","title":{"rendered":"Nosso luto frequente"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\">Carlos Eduardo Ribeiro<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>O luto \u00e9 a fase da express\u00e3o dos sentimentos decorrentes da perda, a qual se demonstra por choque, desejo, desorganiza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 a fase de aprender que a morte deve ser tornada real. Geralmente leva-se um longo per\u00edodo de assimila\u00e7\u00e3o. Entretanto, uma das mais estranhas realidades da pandemia \u00e9 o luto frequente. Para al\u00e9m do nosso conv\u00edvio familiar, tamb\u00e9m ficamos abalados com as in\u00fameras mortes de grandes referencias populares, que faziam parte do nosso cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo das artes foi fortemente abalado. Por\u00e9m, diferentemente de outras fatalidades que causaram um trauma nacional, as mortes por Covid v\u00eam acompanhadas de circunst\u00e2ncias pol\u00edticas agravantes: o negacionismo e a falta de um plano para cont\u00ea-las, uma vez que hoje j\u00e1 somam mais de 600 mil.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"400\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/luto.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1714\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/luto.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/luto-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/luto-400x267.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption>Foto: Pedro Fran\u00e7a \/ Ag\u00eancia Senado \/ FotosPublicas<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Nesses dois anos de pandemia, junto a um sentimento de \u2018orfandade\u2019 cultural, vivemos sob um clima de morbidez nacional. Em 4 de Maio de 2020 perdemos <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Aldir_Blanc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aldir Blanc<\/a>. Um dos maiores compositores de nosso pa\u00eds, o artista escreveu m\u00fasicas como \u2018O b\u00eabado e o equilibrista\u2019 (imortalizada na voz de Elis Regina), \u2018Resposta ao tempo\u2019 e \u2018Amigo \u00e9 para essas coisas\u2019. Uma perda que certamente representou a morte da esperan\u00e7a equilibrista. O luto pela partida de Aldir Blanc tamb\u00e9m chamou a aten\u00e7\u00e3o pela maneira que o pa\u00eds tratava seus her\u00f3is nacionais. O compositor morreu esquecido, sem recursos para se manter internado no hospital e vivendo de doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo dia em que o v\u00edrus levou Aldir Blanc, perdemos tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Fl%C3%A1vio_Migliaccio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Flavio Migliaccio<\/a>. A morte dele n\u00e3o foi por Covid, entretanto representou um choque. O brilhante ator fez parte do cinema novo, atuando em cl\u00e1ssicos como \u2018Cinco Vezes Favela\u2019, \u2018A Hora e a Vez de Augusto Matraga\u2019 e \u2018Terra em Transe\u2019. Flavio tamb\u00e9m fazia parte do nosso cotidiano por ter atuado na TV brasileira ao longo de 40 anos. A conjuntura pol\u00edtico- social, um processo que Migliaccio travava contra a antiga TVE, al\u00e9m da pandemia, teriam criado um v\u00f3rtice de depress\u00e3o e desalento tal que ele j\u00e1 n\u00e3o via mais solu\u00e7\u00e3o e alegria numa vida futura. Seu corpo foi encontrado sem vida em seu s\u00edtio, na cidade de Rio Bonito. Ao seu lado, um bilhete dizia: \u201cMe desculpem, mas n\u00e3o deu mais. A velhice neste pa\u00eds \u00e9 o caos como tudo aqui\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a morte dessas duas refer\u00eancias da cultura brasileira, fomos abalados por muitas outras: Nicette Bruno, Tarc\u00edsio Meira, Agnaldo Timoteo, Nelson Sargento, Robson Rocha, Paulo Gustavo, entre outras. Tais perdas provocaram uma forma diferente de luto coletivo. Uma constante apatia e desalento parecem ter tomado conta daqueles que cultuavam a arte dos que partiram, j\u00e1 que al\u00e9m das perdas do dia-dia tamb\u00e9m fomos trazidos para uma realidade desconhecida, bruta em que at\u00e9 nossos mestres est\u00e3o nos deixando.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, a revolta tamb\u00e9m existe, afinal s\u00e3o mortes que re\u00fanem elementos pol\u00edticos cruciais. Foram perdas evit\u00e1veis, com provas da omiss\u00e3o governamental, em um pa\u00eds largado \u00e0 trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo esse luto vai se somando a um caldeir\u00e3o de sentimentos confusos e inconclusos, e que geralmente acabam transbordando, pontualmente, com cada \u00f3bito de um desses grandes \u00eddolos. A morte do ator e comediante Paulo Gustavo, certamente foi uma das que mais abalaram o pa\u00eds, misturando a revolta popular com o luto. A figura que estava t\u00e3o presente no nosso dia a dia, seja na televis\u00e3o ou no cinema, catalisou a dor coletiva. De Aldir Blanc a Paulo Gustavo esses estranhos tempos pand\u00eamicos representaram uma enorme perda sociocultural. A cada perecimento vamos ficando mais \u00f3rf\u00e3os, misturando revolta com tristeza.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-97\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 97<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Eduardo Ribeiro O luto \u00e9 a fase da express\u00e3o dos sentimentos decorrentes da perda, a qual se demonstra por choque, desejo, desorganiza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 a fase de aprender que a morte deve ser tornada real. Geralmente leva-se um longo per\u00edodo de assimila\u00e7\u00e3o. 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