{"id":1473,"date":"2021-11-25T17:05:27","date_gmt":"2021-11-25T21:05:27","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=1473"},"modified":"2021-11-26T14:24:43","modified_gmt":"2021-11-26T18:24:43","slug":"sozinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/sozinho\/","title":{"rendered":"Sozinho"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\">Vit\u00f3ria Martins<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/sozinho.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1569\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/sozinho.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/sozinho-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/sozinho-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/sozinho-400x267.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Foto: <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/photos\/kX9lb7LUDWc\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Matthew Henry \/ Unsplash<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Com certeza voc\u00eas j\u00e1 escutaram a frase \u2018ser algu\u00e9m na vida\u2019. Me questionei durante um tempo. Acho que fui ningu\u00e9m a maior parte da minha jornada. Desacreditado, o menino que foi encontrado na lata de lixo. Foram essas palavras que cresci ouvindo. Alguns enxergam her\u00f3is nos outros, naqueles que os salvam. No meu caso, tive que ser o meu pr\u00f3prio her\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei ao certo como foi meu processo de ado\u00e7\u00e3o. A \u00fanica coisa que sei \u00e9 que foi rec\u00e9m-nascido. Falavam que minha m\u00e3e biol\u00f3gica n\u00e3o me queria, por isso me entregou a uma mulher que pudesse me criar.<\/p>\n\n\n\n<p>Perdi minha m\u00e3e adotiva aos 12 anos, mas lembro dela at\u00e9 hoje. Embora fosse r\u00edgida, era capaz de sentir seu amor por mim. Eu era o ca\u00e7ula, e minhas irm\u00e3s mais velhas tinham filhos de idades pr\u00f3ximas a minha, ent\u00e3o, fui criado junto a eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca fui o melhor da turma na escola. Vira e mexe minhas irm\u00e3s recebiam reclama\u00e7\u00f5es dos professores por mau comportamento. \u2018Bagun\u00e7a e conversa demais\u2019, era o que eles sempre falavam. Em casa eu n\u00e3o ficava, gostava mesmo era da rua. Adorava as brincadeiras de moleque e at\u00e9 ca\u00e7ava r\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando adolescente vi que existia distin\u00e7\u00e3o entre eu e meus sobrinhos. O Pedro \u00e9 um ano mais novo que eu. Us\u00e1vamos roupas um do outro. Um certo dia minha irm\u00e3 Sandra foi lavar roupa e achou um saquinho de maconha em um dos shorts. N\u00e3o era minha, mas apanhei como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3. Mesmo negando, ela n\u00e3o acreditou em mim. Comecei a beber e fumar antes dos 15 anos, mas droga nenhuma me atraia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo vivendo ali, me sentia sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois que minha m\u00e3e faleceu meu pai arranjou outra mulher. Era pedreiro e logo me chamou para fazer bicos de ajudante com ele. Aprendi a concretar, assentar tijolo e rebocar. Passei o final da adolesc\u00eancia ajudando a construir a casa dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 18 anos conheci a Paula no pagode. Ficamos juntos e ela engravidou. A\u00ed veio o choque: eu seria pai! Sem carteira assinada nem dinheiro. Como eu criaria uma crian\u00e7a? Decidimos morar juntos. Come\u00e7amos em um quartinho no terreno da dona Juliana, m\u00e3e da Paula. N\u00e3o ficamos muito tempo ali, logo nos mudamos para uma casa com dois c\u00f4modos em um terreno cedido pelo meu sogro.<\/p>\n\n\n\n<p>Um pouco depois de nove meses, Nicole nasceu. Quando a peguei pela primeira vez senti algo sem explica\u00e7\u00e3o, era amor. Ali, todo meu medo passou e fui tomado pela certeza de que proporcionaria a ela o que n\u00e3o tive. Uma boa escola, oportunidades e um ombro amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Passado um m\u00eas do nascimento da Nick, estava empregado com carteira assinada. Comecei recebendo duzentos e cinquenta reais por m\u00eas. Paula fazia chinelos de bordados e brincos para vender. N\u00e3o dava muito, mas ajudava.<\/p>\n\n\n\n<p>Mor\u00e1vamos em uma casa composta por um quarto e cozinha. No come\u00e7o, us\u00e1vamos o banheiro da vizinha. Quando chovia, pingava em tudo. Era triste chegar em casa ap\u00f3s o trabalho e ver os poucos m\u00f3veis que t\u00ednhamos \u00famidos e pl\u00e1sticos em cima das cobertas para n\u00e3o molhar a cama. Decidi que precisava trabalhar mais. Perdi as contas de quantas horas extras fiz, s\u00f3 sei que foram muitas. Arrumei o telhado. Uns cinco anos depois, consegui um dinheiro, fiz mais tr\u00eas c\u00f4modos. Uma sala, outro quarto e o banheiro. Foi mais de dois anos para conseguir terminar. Meu pai me ajudou no pouco tempo que tinha. E eu me desdobrava entre o servi\u00e7o, as horas extras e a constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui crescendo no trabalho. Aos poucos consegui adquirir carro, pagar escola e dar um pouco mais de conforto para minha fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>u e Paula come\u00e7amos a brigar. Quando Nicole tinha 15 anos j\u00e1 est\u00e1vamos separados, mas ainda vivendo sob o mesmo teto. At\u00e9 que chegou um dia em que ficou insuport\u00e1vel e precisei sair de casa. N\u00e3o levei nada al\u00e9m das minhas roupas e o carro.<\/p>\n\n\n\n<p>Me senti novamente sozinho. Aquela sensa\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia tinha retornado. A op\u00e7\u00e3o era voltar para a casa das minhas irm\u00e3s ou come\u00e7ar do zero. Decidi pela segunda alternativa. Reencontrei um conhecido e ele disse que alugava casas. O valor era bem abaixo do mercado, com duas pe\u00e7as. N\u00e3o tinha luxo e nem conforto, mas foi suficiente para mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas pessoas falavam pelas minhas costas, dizendo que eu ia me perder em bebida e mulher. Mas n\u00e3o foi isso que aconteceu. Isso s\u00f3 me fez ser mais determinado. Troquei o carro por um terreno. Pedi a conhecidos um empr\u00e9stimo para come\u00e7ar a obra, j\u00e1 que meu nome estava sujo. Mas nem meu pai quis me ajudar. Ningu\u00e9m acreditava em mim. Mesmo assim persisti e constru\u00ed minha casa. Cheguei a n\u00e3o ter o que comer, a trabalhar oito horas por dia no servi\u00e7o e dez horas na constru\u00e7\u00e3o, sozinho. Eu e Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda estou no processo de adquirir bens, mas o mais importante eu j\u00e1 tenho. Uma casa, conquistada e feita por mim. Fico feliz porque eu me fiz ser diferente. Tenho novos sonhos e n\u00e3o tenho medo. Comecei sozinho do zero e faria de novo. Por minha filha, e principalmente por mim.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-97\/\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 97<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vit\u00f3ria Martins Com certeza voc\u00eas j\u00e1 escutaram a frase \u2018ser algu\u00e9m na vida\u2019. Me questionei durante um tempo. Acho que fui ningu\u00e9m a maior parte da minha jornada. Desacreditado, o menino que foi encontrado na lata de lixo. Foram essas palavras que cresci ouvindo. Alguns enxergam her\u00f3is nos outros, naqueles que os salvam. 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