{"id":1542,"date":"2021-11-26T08:29:58","date_gmt":"2021-11-26T12:29:58","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=1542"},"modified":"2021-12-03T10:54:56","modified_gmt":"2021-12-03T14:54:56","slug":"a-importancia-de-um-disco-para-periferia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/a-importancia-de-um-disco-para-periferia\/","title":{"rendered":"A import\u00e2ncia de um disco para periferia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">Jo\u00e3o Pedro dos Santos<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">Lan\u00e7ado em 1997, o \u00e1lbum Sobrevivendo no Inferno \u00e9 o quinto do grupo <a href=\"https:\/\/www.racionaisoficial.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Racionais Mc\u2019s<\/a>, formado por Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay. O sucesso foi tanto &#8211; mais de 1,5 milh\u00e3o de c\u00f3pias vendidas &#8211; que em 2007 esteve na 14\u00b0 posi\u00e7\u00e3o da lista dos cem melhores discos da m\u00fasica brasileira da Revista Rolling Stone Brasil. Al\u00e9m disso, fez parte do repert\u00f3rio de obras obrigat\u00f3rias para o vestibular da UNICAMP em 2020. Os versos das m\u00fasicas falam dos desafios de morar na periferia e ser um jovem negro, que encara a viol\u00eancia do Estado e enfrenta a exclus\u00e3o social.<\/span><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"541\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/sobrevivendo-no-inferno.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1561\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/sobrevivendo-no-inferno.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/sobrevivendo-no-inferno-300x203.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/sobrevivendo-no-inferno-768x519.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/sobrevivendo-no-inferno-400x271.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">Com sucessos como \u2018Cap\u00edtulo 4, vers\u00edculo 3\u2019, \u2018Di\u00e1rio de um detento\u2019, \u2018M\u00e1gico de Oz\u2019 e \u2018F\u00f3rmula m\u00e1gica da paz\u2019, a obra ajudou a criar uma nova subjetividade, definindo o sujeito perif\u00e9rico como o morador do sub\u00farbio que assume sua condi\u00e7\u00e3o, tem orgulho desse lugar e age politicamente a partir dele. Esse local n\u00e3o designaria apenas pobreza e viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m seria cultura e pot\u00eancia. O grupo musical destacou-se por dar essa voz aos mais pobres. As letras de suas can\u00e7\u00f5es eram as armas dispon\u00edveis para lutar contra o governo genocida e os playboys, que exclu\u00edam essa parte da sociedade.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">Os Racionais tem um foco bem delimitado nessa obra, que \u00e9 construir uma fraternidade de iguais no interior de uma comunidade perif\u00e9rica, a qual afirma-se contra um projeto de Estado que a deseja exterminar. Eles adotam um modelo de representa\u00e7\u00e3o narrativa, bem como trazem uma multiplicidade de vozes e olhares que oferece uma percep\u00e7\u00e3o mais densa da realidade nesses lugares, ao conferir \u00e0 dispers\u00e3o das experi\u00eancias particulares um sentido geral de coletividade. Exemplo disso \u00e9 a can\u00e7\u00e3o \u2018Di\u00e1rio de um detento\u2019, que contou com a participa\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica dos presidi\u00e1rios sobreviventes do massacre do Carandiru, ou seja, o caderno com a letra da m\u00fasica passou pelas celas e foi aprovada pelos encarcerados. \u201cCada detento uma m\u00e3e, uma cren\u00e7a\/Cada crime uma senten\u00e7a\/Cada senten\u00e7a um motivo, uma hist\u00f3ria de l\u00e1grima\/Sangue, vidas ingl\u00f3rias, abandono, mis\u00e9ria, \u00f3dio\/Sofrimento, desprezo, desilus\u00e3o, a\u00e7\u00e3o do tempo\u201d. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">As m\u00fasicas de \u2018Sobrevivendo no Inferno\u2019 n\u00e3o pretendem ser interpretadas como mera narrativa. O texto almeja partilhar uma sabedoria coletiva, pela periferia, integrando-a \u00e0 viv\u00eancia dos sujeitos. O \u00e1lbum \u00e9 a imagem mais bem-acabada de uma sociedade genocida e racista que se tornou humanamente invi\u00e1vel, e funciona como se fosse um manual de sobreviv\u00eancia a ela. Por isso, o p\u00fablico que pretende alcan\u00e7ar \u00e9 o morador da periferia, pois ele sabe exatamente como \u00e9 vivenciar esse cotidiano. Mas por conta de tanto sucesso, acabou chegando a outras classes sociais. Aos \u2018playboys\u2019, como eles mesmo falam.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">\u201cSessenta por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais \/ J\u00e1 sofreram viol\u00eancia policial \/ A cada quatro pessoas mortas pela pol\u00edcia, tr\u00eas s\u00e3o negras \/ Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos s\u00e3o negros \/ A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em S\u00e3o Paulo \/ Aqui quem fala \u00e9 Primo Preto, mais um sobrevivente\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">O in\u00edcio da m\u00fasica \u2018Cap\u00edtulo 4, vers\u00edculo 3\u2019 \u00e9 uma amostra da mensagem que o disco quer passar para o p\u00fablico, um entendimento sobre o cotidiano nas favelas e os desafios de ser um jovem negro e pobre na mira do Estado. O grupo nos leva para dentro daquela atmosfera, narrando de forma \u00fanica como \u00e9 ser um sujeito perif\u00e9rico no pa\u00eds que adota a viol\u00eancia como ferramenta para gerenciar a mis\u00e9ria.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">Nas m\u00fasicas dos Racionais, os jovens pobres se reconhecem e enxergam a realidade dif\u00edcil enfrentada no dia a dia. As cr\u00f4nicas escritas por Mano Brown e companhia impactaram na conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra do Brasil, que hoje luta pelos seus direitos. O \u00e1lbum foi um divisor de \u00e1guas no cen\u00e1rio do rap nacional. A partir dele, esse estilo musical se consolidou como um dos principais movimentos de protesto no pa\u00eds. \u2018Sobrevivendo no inferno\u2019 escancara a vida nas periferias, cercada principalmente pela viol\u00eancia policial, exclus\u00e3o social, racismo, etc., e o grupo abre portas para que muitos outros artistas se inspirem neles e abordem esses temas, ainda presentes na atualidade.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">Pode-se dizer que o \u00e1lbum \u00e9 uma aula de Hist\u00f3ria e Sociologia, e est\u00e1 entre os melhores da m\u00fasica brasileira. As letras dessa obra s\u00e3o cantadas at\u00e9 hoje por milhares de f\u00e3s, principalmente moradores da periferia, pois \u00e9 um marco no cen\u00e1rio do rap brasileiro. \u00c9 a forma do sujeito perif\u00e9rico sentir orgulho de ser quem \u00e9, de lutar contra a exclus\u00e3o social e contra a viol\u00eancia do Estado. O trabalho dos Racionais contribuiu na constru\u00e7\u00e3o de uma voz coletiva potente e por isso s\u00e3o lembrados at\u00e9 hoje como um dos maiores grupos musicais do Brasil.<\/span><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-97\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 97<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Pedro dos Santos Lan\u00e7ado em 1997, o \u00e1lbum Sobrevivendo no Inferno \u00e9 o quinto do grupo Racionais Mc\u2019s, formado por Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay. 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