{"id":1583,"date":"2021-11-26T13:07:45","date_gmt":"2021-11-26T17:07:45","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=1583"},"modified":"2021-12-09T14:05:56","modified_gmt":"2021-12-09T18:05:56","slug":"a-construcao-do-heroi-por-meio-da-sua-jornada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/a-construcao-do-heroi-por-meio-da-sua-jornada\/","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o do her\u00f3i por meio da sua jornada"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Texto: <a href=\"amanda.maia@ufms.br\">Amanda Maia<\/a> | <a href=\"maria.e.metran@ufms.br\">Maria Eduarda Metran de Miranda<\/a> | <a href=\"anjos.prado@ufms.br\">Vitt\u00f3ria Prado<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Her\u00f3is e vil\u00f5es s\u00e3o modelos. S\u00e3o conceitos que nos levam a atribuir valores, pois carregam uma determinada compreens\u00e3o acerca do que \u00e9 bom ou ruim. Um dos poss\u00edveis campos para entend\u00ea-los \u00e9 a Jornada do Her\u00f3i, metodologia que procede de dois campos do conhecimento: o da mitologia de Joseph Campbell, e o da psicologia humanista de Carl Gustav Jung.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender um pouco mais sobre o tema o Proj\u00e9til foi conversar com Monica Martinez, docente do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura da Universidade de Sorocaba e l\u00edder do Grupo de Pesquisa \u201cJornalismo Liter\u00e1rio e Narrativas de Transforma\u00e7\u00e3o Pessoal e Social\u201d. Ex-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (2017-2019), ela \u00e9 graduada tanto em Jornalismo quanto em Psicologia, tendo doutorado em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o e especializa\u00e7\u00e3o em Psicologia Junguiana.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1597\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez-400x267.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Foto: Acervo de Monica Martinez<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Proj\u00e9til: O que \u00e9 ser um her\u00f3i?<br>Monica Martinez: O her\u00f3i \u00e9 um arqu\u00e9tipo, ent\u00e3o querendo ou n\u00e3o em algum momento vamos ser tocados por esse arqu\u00e9tipo. Como tem outros arqu\u00e9tipos que s\u00e3o essas imagens que nos movem, como o arqu\u00e9tipo da m\u00e3e, o arqu\u00e9tipo do pai, do s\u00e1bio, da s\u00e1bia.<br>O her\u00f3i \u00e9 um desses arqu\u00e9tipos. Quando vemos algu\u00e9m que faz algo que vai al\u00e9m do que uma pessoa em circunst\u00e2ncias normais faria, ficamos tocados e aquilo nos inspira, nos mobiliza. Porque, em geral, as pessoas que fazem isso, t\u00eam uma recompensa pessoal, que podemos ver nos filmes. O sujeito come\u00e7a ali e no final vai ficar com a mocinha, a mocinha vai ficar com o mocinho.<br>Para mim, sempre me chamou mais aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que tem um ganho comunit\u00e1rio. O fato do Her\u00f3i ou da Hero\u00edna fazer alguma coisa que n\u00e3o se imaginava, que n\u00e3o seria poss\u00edvel de fazer, causa um bem para ele, mas sobretudo um bem que pode ser para fam\u00edlia, pode ser para o pai ou pode ser para a comunidade. Isso vai se alargando em ondas cada vez maiores, se pegarmos um Gandhi, que lutou pela paz, um Papa Francisco, que apesar de todas as restri\u00e7\u00f5es t\u00eam uma vis\u00e3o mais progressista dentro da igreja. \u00c0s vezes, a pessoa que limpa uma pra\u00e7a, ali caladinha, mas que aquilo faz bem para quem vai ali. Tudo isso nos toca em um n\u00edvel muito profundo.<\/p>\n\n\n\n<p>P: E o que que a gente pode dizer que \u00e9 a chamada Jornada do Her\u00f3i? <br>MM: Joseph Campbell, um mit\u00f3logo, estadunidense, nos anos 1940 come\u00e7a a fazer uma revis\u00e3o de mitos, lendas e contos de todo mundo e percebe um padr\u00e3o, que est\u00e1 no livro \u2018O Her\u00f3i de mil faces\u2019. A partir da\u00ed ele vai perceber uma estrutura de 17 passos. Tempos depois, no final dos anos 80, um diretor de cinema, George Lucas, que faz a primeira trilogia de Guerra nas Estrelas, convida Campbell para ser seu consultor.<br>Pode citar aqui qualquer filme. Em geral, temos o protagonista no cotidiano dele, fazendo algo ou com algu\u00e9m, o que j\u00e1 vai dar uma pista de quais s\u00e3o os limites que aquela pessoa poderia desenvolver. A partir da\u00ed temos o chamado. A aventura: vai aparecer algo nesse momento que a pessoa vai se sentir tentada, impelida a fazer. Em alguns casos, tem a recusa, quando a pessoa fala \u201cN\u00e3o, vai ser muito dif\u00edcil. Vai ser muito custoso\u201d, e passa para o segundo ato, que \u00e9 uma s\u00e9rie toda que se chama \u2018Testes e Aliados\u2019.<br>Assim, esse protagonista ou essa protagonista, que no come\u00e7o achava que n\u00e3o daria conta de fazer algo, como por exemplo, algu\u00e9m que entra em uma faculdade de Jornalismo tempos atr\u00e1s e trava no come\u00e7o dizendo \u201cN\u00e3o vou conseguir, \u00e9 muita coisa, muita mat\u00e9ria, muito professor doido, muito hor\u00e1rio, vou ter que acordar muito cedo, vou ter que trabalhar, vou ter que dormir muito tarde\u201d.<br>Os pr\u00f3prios testes forjam a pessoa, que passa a ser cada vez mais quem ela \u00e9 de verdade. Essa \u00e9 a grande chave, o grande segredo da jornada do her\u00f3i: a pessoa j\u00e1 era aquilo, mas n\u00e3o sabia ainda, porque n\u00e3o tinha sido colocada \u00e0 frente daqueles testes. Nesse momento, a pessoa consegue \u2018o que foi buscar\u2019. Vamos voltar ao exemplo da pessoa que entrou no Jornalismo: v\u00e1rios desafios, comeu muita marmita antes e depois das aulas, consegue o diploma.<br>O interessante \u00e9 que se a pessoa n\u00e3o colocar isso em uso para o bem comum, \u00e9 como se faltasse uma parte importante que o Joseph Campbell vai chamar de \u2018retorno\u2019. Na fase chamada \u2018ressurrei\u00e7\u00e3o\u2019 a pessoa, de um ponto de vista ps\u00edquico, ter\u00e1 que abandonar alguma coisa, para assumir esse outro papel. Nas hist\u00f3rias, em geral, a pessoa tem que fazer um \u2018sacrif\u00edcio\u2019, no sentido de abrir m\u00e3o de alguma coisa, para completar essa etapa.<br>E a\u00ed tem o retorno. \u00c9 como se a pessoa fizesse uma espiral e voltasse no mesmo ponto que ela estava. Vamos supor a pessoa no final, ali, formada, agora com canudo em m\u00e3os. E a\u00ed come\u00e7a outra fase, outra etapa, porque ela \u00e9 el\u00edptica, a gente vai subindo na vida em espiral. At\u00e9 o que o Campbell chamava de \u2018Sa\u00edda\u2019, quando a gente compre o que a gente tem que cumprir aqui e vai para&#8230; A\u00ed vai depender da cren\u00e7a de cada um n\u00e9, mas vou chamar \u2018o outro lado\u2019.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"399\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1600\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez-2.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez-2-400x266.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption>Monica Martinez e o pesquisador Tim Voss na confer\u00eancia de abertura do encontro anual da SBPJor em 2019 &#8211; Foto: Ana Luiza Tanno \/ SBPJor<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><br>P: Como que a gente pode estabelecer a diferen\u00e7a entre o her\u00f3i do senso comum e um her\u00f3i do contexto trabalhado na Jornada do Her\u00f3i? Ou eles s\u00e3o a mesma pessoa?<br>MM: S\u00e3o a mesma pessoa. S\u00e3o os indiv\u00edduos, os seres humanos. Nos filmes que representam her\u00f3is, a contraparte humana geralmente \u00e9 fr\u00e1gil. O Homem Aranha, por exemplo, \u00e9 um fot\u00f3grafo todo t\u00edmido. O pr\u00f3prio Clark Kent \u00e9 t\u00edmido tamb\u00e9m, tem vergonha de falar que gosta da jornalista. Ent\u00e3o, assim como o arqu\u00e9tipo, todos n\u00f3s somos tocados por ele. O que vai variar s\u00e3o as hist\u00f3rias, os contextos, a dimens\u00e3o em que aquilo vai estar acontecendo. <br>A figura do vil\u00e3o, na jornada, \u00e9 aquele que est\u00e1 ali para o bem do her\u00f3i, porque ele vai tocar no pontinho mais nevr\u00e1lgico do her\u00f3i. Pode perceber: nos filmes que o her\u00f3i \u00e9 fraco, ele acaba tendendo a ser um filme \u2018chocho\u2019, porque parece que aquele her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 muito testado.<br>O Batman, por exemplo, tem vil\u00f5es t\u00e3o encantadores \u2013 como o Coringa \u2013 que acabam ganhando um filme pr\u00f3prio. \u00c9 bem interessante esse caso, o filme do Coringa. Quando mapeamos a hist\u00f3ria dos vil\u00f5es t\u00eam justificativas para que eles tenham feito o que fizeram. Aquele ser humano (Coringa) foi tra\u00eddo em todos os n\u00edveis, desde os pais biol\u00f3gicos, da m\u00e3e que adotou, do sistema social, dos psic\u00f3logos que o estavam atendendo, dos empregadores, etc. E ele se descobre naquela figura do vil\u00e3o, que por ser t\u00e3o consistentemente constru\u00eddo vai pegar o Batman nos pontinhos mais dif\u00edceis. Esses personagens, que est\u00e3o na estrutura narrativa da Jornada do Her\u00f3i, s\u00e3o interessant\u00edssimos e acontecem na vida real, est\u00e3o presentes em todas as esferas, \u00e0s vezes nas esferas bem altas do Poder.<\/p>\n\n\n\n<p>P: E o vil\u00e3o? Ele tamb\u00e9m passa por essa jornada? Como \u00e9 que ele \u00e9 constru\u00eddo?&nbsp;<br>MM: Uma coisa que eu gosto da jornada \u00e9 que se a gente contasse o caso do Coringa, que \u00e9 a hist\u00f3ria de vida a partir do vil\u00e3o, tem essa jornada tamb\u00e9m: \u00e9 da inf\u00e2ncia, dos anos duros. Acho que o Coringa ilustra bem. Ele era um cara \u2018de boa\u2019 no come\u00e7o. Se ele tivesse achado algu\u00e9m, feito uma escola, um professor que o acolhesse, que fosse ajudando a se inserir, talvez ele fosse algu\u00e9m maior do que o pr\u00f3prio Batman. Mas o fato da pessoa se sentir rejeitada, n\u00e3o pertencente, se j\u00e1 tiver um ego com fissuras, com fraturas, acontece o que a gente chama \u2018ser tomado pelas sombras\u2019. Temos muita sorte, porque temos uma fam\u00edlia, que bem ou mal, com todos os perrengues \u2013 ningu\u00e9m \u00e9 perfeito \u2013 nos deu amparo, alimento, teto, possibilidade de estudar, e de achar nosso espa\u00e7o.<br>Do ponto de vista psicol\u00f3gico, o vil\u00e3o \u00e9 aquele que vai testar as fragilidades do Her\u00f3i, vai fazer com que o her\u00f3i, seja mesmo um her\u00f3i. Por isso \u00e9 um personagem t\u00e3o importante. Para muitas pessoas a pandemia foi um vil\u00e3o, testou as pessoas a terem resist\u00eancia, a fazer coisas de uma forma diferente. O vil\u00e3o pode ser um indiv\u00edduo, um grupo social, ou uma situa\u00e7\u00e3o, dado o contexto.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1602\" width=\"254\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez-3.jpg 339w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/11\/monica-martinez-3-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 254px) 100vw, 254px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>P: Qual o papel das diversas m\u00eddias na constru\u00e7\u00e3o de narrativas determinantes para her\u00f3is ou vil\u00f5es?<br>MM: Muita gente tem preconceito com o sistema midi\u00e1tico, sobretudo jornal\u00edstico, e acaba se fechando em verdades absolutas de grupos de WhatsApp. O sistema midi\u00e1tico, inclusive nos jornal\u00edsticos, tem essa pluralidade. \u00c9 como antigamente: pegava-se o jornal em papel, ia passando por v\u00e1rios cadernos, \u00e0s vezes nem gostava de esportes \u2013 meu caso por exemplo \u2013 mas \u00e0s vezes voc\u00ea come\u00e7ava a ler uma hist\u00f3ria de vida de uma pessoa ligada aos esportes. Aquilo fisgava e voc\u00ea lia at\u00e9 o final. O papel das m\u00eddias na constru\u00e7\u00e3o de her\u00f3is e vil\u00f5es vai nesse sentido de que quanto mais pluralidade a gente tiver melhor para nossa criatividade.<\/p>\n\n\n\n<p>P: Voc\u00ea fala muito em \u2018mitos\u2019. O que \u00e9 um mito? Quais s\u00e3o os mitos contempor\u00e2neos? Que rela\u00e7\u00e3o esses mitos t\u00eam com a cria\u00e7\u00e3o de her\u00f3is e vil\u00f5es? <br>MM: Os mitos eram narrativas sagradas. N\u00e3o importava se tinham acontecido de verdade ou n\u00e3o. O que importava \u00e9 que aquela era uma hist\u00f3ria pedag\u00f3gica, para ensinar e orientar o indiv\u00edduo a como caminhar na sua vida. Tinha desde a fun\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, de se comportar em sociedade, at\u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio, do ponto de vista c\u00f3smico.<br>O mito \u00e9 uma hist\u00f3ria bem organizada. Por meio de uma narrativa cada pessoa vai ouvir e vai tirar alguma coisa que faz sentido para aquele tempo e espa\u00e7o. Cada pessoa vai ouvir uma hist\u00f3ria, uma narrativa m\u00edtica, e vai entender alguma coisa, que pode variar. Como se fosse uma luva, que vai cal\u00e7ar cada m\u00e3o de uma forma diferente. <br>Quando se come\u00e7a a desenvolver a filosofia, na busca de uma forma mais l\u00f3gica de compreender o mundo, esses mitos passam a ser entendidos como hist\u00f3rias inventadas. \u00c9 comum falar \u201cisso \u00e9 um mito\u201d no sentido de que \u00e9 uma fal\u00e1cia e foi constru\u00eddo coletivamente. A narrativa faz muito sentido para aquela comunidade e traz para a vida do indiv\u00edduo o contexto daquela sociedade. <\/p>\n\n\n\n<p>P: Como voc\u00ea analisa a cria\u00e7\u00e3o de her\u00f3is pelas m\u00eddias sociais?<br>MM: \u00c9 um ponto bem nevr\u00e1lgico e se transcende a partir de uma vis\u00e3o social. Quando algo ou algu\u00e9m desperta muita aten\u00e7\u00e3o, do ponto de vista psicol\u00f3gico, significa que foi tocado algum arqu\u00e9tipo que naquele momento era importante. Isso vai acontecer numa perspectiva que pode ser uma comunidade ou pode atingir n\u00fameros maiores. Se voltarmos no que \u00e9 considerado um dos exemplos mais dram\u00e1ticos, Hitler, percebe-se que nos anos 1930 a Alemanha estava se recuperando de uma guerra mundial, com uma economia muito ruim. Aparece, ent\u00e3o, algu\u00e9m que vai reencarnar um imagin\u00e1rio de um Wootan, um Deus Guerreiro, e ativa uma camada muito profunda do inconsciente daquele povo alem\u00e3o. E acaba desembocando no que desembocou. Da mesma forma que existem exemplos negativos, existem exemplos positivos. Malala era uma mocinha que estava num dado contexto e acaba sendo v\u00edtima de uma vis\u00e3o fundamentalista que entende que as mulheres n\u00e3o precisam de educa\u00e7\u00e3o. Ao se tornar uma v\u00edtima daquele movimento e ir para a Inglaterra, se formar em Oxford, ela acaba sendo porta-voz dos direitos humanos em uma perspectiva feminina da import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o dois exemplos que tocam esse inconsciente e v\u00e3o ativar uma parte muito importante do ser humano. <br>\u00c9 importante n\u00e3o se deixar levar pelo efeito manada, n\u00e3o engolir as coisas sem tentar usar a raz\u00e3o. No ano que vem vai ser vital para a gente usar nosso discernimento. Vai ser um ano muito importante para n\u00f3s como brasileiros, por meio das elei\u00e7\u00f5es, para que a gente escolha os her\u00f3is certos, as hero\u00ednas certas ou que pelo menos beneficiem o maior n\u00famero de pessoas de uma forma mais justa poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>P: Na pr\u00e1tica, quais circunst\u00e2ncias ajudam a criar um her\u00f3i ou vil\u00e3o? A morte dessa pessoa, o sofrimento, a exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, as conquistas, contribuem ou mesmo constroem um her\u00f3i ou vil\u00e3o? <br>MM: \u00c9 t\u00e3o relativo essa quest\u00e3o de her\u00f3i, porque \u00e0s vezes o her\u00f3i est\u00e1 no cotidiano, fazendo seu trabalho caladinho. Vamos pensar uma merendeira de uma escola, que faz aquilo com amor, aquela comida gostosa, e aquela crian\u00e7ada vai comer. Aquilo vai fazer toda a diferen\u00e7a. Talvez ela nem chegue a ser louvada como hero\u00edna, mas ela est\u00e1 cumprindo o papel social que ela escolheu. E \u00e0s vezes tem esses her\u00f3is que s\u00e3o maiores. O melhor her\u00f3i \u00e9 aquele que, chamando aten\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o, consegue causar um bem para o maior n\u00famero de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>P: Podemos dizer que todos passam pela jornada do her\u00f3i? A hist\u00f3ria pessoal de cada um interfere nesse processo? <br>MM: Com certeza. \u00c0s vezes de forma mais ou menos consciente. A hist\u00f3ria pessoal de cada um \u00e9 esse processo, a narrativa \u00e9 o processo. E do ponto de vista psicol\u00f3gico, a forma como a pessoa conta a narrativa vai fazer toda a diferen\u00e7a. Tanto para ela mesma quanto para os outros. <br>Imagine uma pessoa que conseguiu construir sua casa, tem o seu p\u00e3o na mesa, faz o seu ritual de agradecer o que conseguiu e passa essa imagem digna para os filhos. Passa os valores bons. Por fim, vai criar uma narrativa de dignidade.<br>Uma outra pessoa pode olhar essa mesma casa simples de alvenaria e se imaginar morando em um barraco, e se sentir muito mal por conta daquilo. E fica tecendo uma narrativa de que n\u00e3o deu certo, de que \u00e9 infeliz. Passar isso para os filhos tem uma carga importante.<br>Se os mitos s\u00e3o narrativas sagradas, a forma com que a gente conta essas narrativas faz toda a diferen\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 tudo que vai dar certo na nossa vida, a partir das expectativas que a gente tem. <br>Quando a gente vai escolher um personagem para nossa mat\u00e9ria, temos em nossas m\u00e3os essa decis\u00e3o. Podemos construir de uma forma rica, com muitas vozes, ou podemos alimentar esse arqu\u00e9tipo da v\u00edtima. Assim, a pessoa que ler vai continuar achando que \u00e9 uma v\u00edtima. N\u00e3o sei se isso \u00e9 bom. Talvez seja melhor a gente alimentar o indiv\u00edduo no sentido de que ele pode transformar a sua realidade a partir das hist\u00f3rias que ele narra. <\/p>\n\n\n\n<p>P: Ent\u00e3o, de uma forma ou de outra, todos somos her\u00f3is? <br \/>MM: Sim. E todos somos vil\u00f5es ao mesmo tempo. Temos luz e sombras dentro de n\u00f3s. Vamos acabar pisando no formigueiro e matando algumas formiguinhas querendo ou n\u00e3o. \u00c0s vezes sem nem perceber, acontece.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-fill\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-97\/\"><strong>Voltar para a edi\u00e7\u00e3o 97<\/strong><\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Amanda Maia | Maria Eduarda Metran de Miranda | Vitt\u00f3ria Prado Her\u00f3is e vil\u00f5es s\u00e3o modelos. S\u00e3o conceitos que nos levam a atribuir valores, pois carregam uma determinada compreens\u00e3o acerca do que \u00e9 bom ou ruim. 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