{"id":2019,"date":"2022-06-21T07:46:03","date_gmt":"2022-06-21T11:46:03","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=2019"},"modified":"2022-07-04T17:01:07","modified_gmt":"2022-07-04T21:01:07","slug":"filhas-e-maes-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/filhas-e-maes-da-terra\/","title":{"rendered":"Filhas e m\u00e3es da terra"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">Participa\u00e7\u00e3o feminina no Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra em Mato Grosso do Sul contribui para a constru\u00e7\u00e3o da identidade rural do estado<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Ana Laura Menegat | Maria Eduarda Schindler<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Sandra vestia um xale bord\u00f4 com mandalas estampadas e trazia o olhar atento, coberto por \u00f3culos da mesma cor do tecido que lhe aquecia os ombros. As meias trocadas, uma roxa e a outra com listras brancas e pretas, refor\u00e7avam o aconchego espont\u00e2neo criado pela voz da sul-mato-grossense. A luz amarelada da sala incidia sobre seus cachos castanhos enquanto a militante e professora universit\u00e1ria lembrava com carinho dos afetos vividos no assentamento \u201cEmerson Rodrigues\u201d, localizado no munic\u00edpio de Terenos (MS).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Sandra-carrega-e-planta-esperanca-por-onde-passa-por-Ana-Laura-Menegat-1-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2114\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Sandra-carrega-e-planta-esperanca-por-onde-passa-por-Ana-Laura-Menegat-1-683x1024.jpg 683w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Sandra-carrega-e-planta-esperanca-por-onde-passa-por-Ana-Laura-Menegat-1-200x300.jpg 200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Sandra-carrega-e-planta-esperanca-por-onde-passa-por-Ana-Laura-Menegat-1-768x1152.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Sandra-carrega-e-planta-esperanca-por-onde-passa-por-Ana-Laura-Menegat-1-400x600.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Sandra-carrega-e-planta-esperanca-por-onde-passa-por-Ana-Laura-Menegat-1.jpg 946w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption>Sandra carrega e planta esperan\u00e7a por onde passa | Foto: Ana Laura Menegat<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s viver dois anos em um acampamento do Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Sem Terra (MST) e cinco como assentada, Sandra Proc\u00f3pio da Silva, 55, descobriu um c\u00e2ncer de mama em 2012 e precisou voltar para a cidade. Algumas fam\u00edlias assentadas, vizinhas ao lote de Sandra, fizeram uma vaquinha para ajud\u00e1-la no tratamento. Com o pouco que tinham, conseguiram plantar ainda mais esperan\u00e7a no corpo-terra da amiga. \u201cQuando eu fiquei doente, teve um dia que chegou [em casa] uma militante, uma pessoa do assentamento. Foi t\u00e3o bonito. Ela foi tirando da sacolinha de pl\u00e1stico, moedas, moedas, moedas. Um real, cinco reais, dez reais, aquilo ali deu R$ 1200 em moedas e notas de cinco e dois reais. Foi extremamente emocionante\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Luci Dalva Maria de Souza, 45, assentada em Terenos e professora na Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado de MS (SED) em Campo Grande, destaca o sentimento de comunidade como uma das coisas mais lindas na luta camponesa. Ela conta que quando se mudou para o acampamento viu fam\u00edlias grandes, com quatro filhos ou mais, dividirem um \u00fanico pacote de arroz, mesmo sem saber se os filhos teriam o que comer no dia seguinte. Luci carrega consigo o amor e os ensinamentos de Dona Ana, que a fortaleceu e n\u00e3o a deixou desistir do acampamento. Ana Alves Ferreira do Nascimento, 57, \u00e9 movida pela f\u00e9 em Deus contra a press\u00e3o policial. Fechou estradas, defendeu seus direitos e hoje \u00e9 feliz em seu lote, no cora\u00e7\u00e3o da fazenda Santa M\u00f4nica e a poucos metros de Luci.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Luci-aproveita-os-finais-de-semana-para-aproveitar-a-vida-no-assentamento-por-Lara-Bellini-3-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2116\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Luci-aproveita-os-finais-de-semana-para-aproveitar-a-vida-no-assentamento-por-Lara-Bellini-3-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Luci-aproveita-os-finais-de-semana-para-aproveitar-a-vida-no-assentamento-por-Lara-Bellini-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Luci-aproveita-os-finais-de-semana-para-aproveitar-a-vida-no-assentamento-por-Lara-Bellini-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Luci-aproveita-os-finais-de-semana-para-aproveitar-a-vida-no-assentamento-por-Lara-Bellini-3-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Luci-aproveita-os-finais-de-semana-para-aproveitar-a-vida-no-assentamento-por-Lara-Bellini-3-1250x833.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Luci-aproveita-os-finais-de-semana-para-aproveitar-a-vida-no-assentamento-por-Lara-Bellini-3-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Luci-aproveita-os-finais-de-semana-para-aproveitar-a-vida-no-assentamento-por-Lara-Bellini-3.jpg 1310w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Luci aproveita os finais de semana para aproveitar a vida no assentamento | Foto: Lara Bellini<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Para Alessandra Morais Silva, 44, a viv\u00eancia desse sentimento aconteceu por meio do grupo de teatro \u201cUtopia\u201d e pela ado\u00e7\u00e3o de filhos e filhas da luta. Ale, como \u00e9 conhecida, abra\u00e7ou com unhas, dentes, garras e ra\u00edzes sua oportunidade de ter um peda\u00e7o de terra e fez disso um espet\u00e1culo. V\u00ea a cultura como uma forma de desenvolvimento pessoal e ascens\u00e3o social, al\u00e9m de fortalecer os la\u00e7os no assentamento \u201c17 de Abril\u201d em Nova Andradina (MS), onde mora. Al\u00e9m das artes, a paranaense \u00e9 apaixonada por rela\u00e7\u00f5es humanas e, sem nenhum filho ou filha paridos, decidiu nomear-se \u201cm\u00e3e de luta\u201d das crian\u00e7as Sem Terrinha que atravessaram seu caminho, como a menina Helloa, que faleceu aos 20 anos, mas que aos sete argumentava contra falas machistas. Essas \u201cfilhas e filhos da luta\u201d, carregam suas fam\u00edlias de \u00fatero consigo, mas ganham mais m\u00e3es, pais, irm\u00e3os e irm\u00e3s pela for\u00e7a da vida na milit\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Alessandra-possui-duas-graduacoes-e-uma-pos-que-sao-complementadas-pela-vida-pratica-no-campo-por-Ana-Laura-Menegat-1-1024x678.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2117\" width=\"610\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Alessandra-possui-duas-graduacoes-e-uma-pos-que-sao-complementadas-pela-vida-pratica-no-campo-por-Ana-Laura-Menegat-1-1024x678.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Alessandra-possui-duas-graduacoes-e-uma-pos-que-sao-complementadas-pela-vida-pratica-no-campo-por-Ana-Laura-Menegat-1-300x199.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Alessandra-possui-duas-graduacoes-e-uma-pos-que-sao-complementadas-pela-vida-pratica-no-campo-por-Ana-Laura-Menegat-1-768x509.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Alessandra-possui-duas-graduacoes-e-uma-pos-que-sao-complementadas-pela-vida-pratica-no-campo-por-Ana-Laura-Menegat-1-1200x795.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Alessandra-possui-duas-graduacoes-e-uma-pos-que-sao-complementadas-pela-vida-pratica-no-campo-por-Ana-Laura-Menegat-1-1250x828.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Alessandra-possui-duas-graduacoes-e-uma-pos-que-sao-complementadas-pela-vida-pratica-no-campo-por-Ana-Laura-Menegat-1-400x265.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Alessandra-possui-duas-graduacoes-e-uma-pos-que-sao-complementadas-pela-vida-pratica-no-campo-por-Ana-Laura-Menegat-1.jpg 1478w\" sizes=\"auto, (max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><figcaption>Alessandra possui duas gradua\u00e7\u00f5es e uma p\u00f3s que s\u00e3o complementadas pela vida pr\u00e1tica no campo | Foto: Ana Laura Menegat<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Vida no assentamento e milit\u00e2ncia no MST<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>A luta pelo reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o da identidade assentada inicia antes da primeira cerca rompida ou do primeiro acampamento montado; come\u00e7a com a compreens\u00e3o da import\u00e2ncia atribu\u00edda \u00e0 terra na forma\u00e7\u00e3o da comunidade e da pessoa como cidad\u00e3. Luci cresceu ouvindo a m\u00e3e falar sobre o cuidado com a terra e com isso foi construindo um afeto que hoje entende como parte da sua identidade. Quando decidiu acampar, n\u00e3o sabia como iria viver durante esse per\u00edodo nem o tempo que iria durar. A professora conta que levou pregos, lona e comida para um m\u00eas, deixou de pagar algumas contas, vendeu algumas coisas da casa, e se mudou definitivamente para o acampamento. \u201cEu me sinto mais livre para ser quem eu sou, na minha ess\u00eancia, me sinto dona de mim e mais empoderada&#8221;. Ser acampada, mostrou uma realidade que Luci n\u00e3o acreditava ser capaz de viver um dia e permitiu romper com os estere\u00f3tipos que a vida assentada tem. <\/p>\n\n\n\n<p>Os acampamentos s\u00e3o caracterizados por uma luta intensa pela terra, neles as pessoas assumem em todo seu corpo a identidade Sem Terra e \u00e9 nessa busca por um lote que as fam\u00edlias se fixam ao ch\u00e3o at\u00e9 conseguirem. \u201cRemete a barraco de lona, porque voc\u00ea organiza e junta um grupo que vai acampar na frente de uma fazenda que voc\u00ea est\u00e1 pretendendo que seja destinada para a Reforma Agr\u00e1ria\u201d, explica Sandra. Al\u00e9m da lona, a professora explica que os barracos s\u00e3o feitos com qualquer tipo de material que sirva para montar moradia e continuar na luta. Alguns grupos passam mais de dez anos esperando e \u00e9 apenas quando a terra chega que essas pessoas passam da condi\u00e7\u00e3o de acampadas para assentadas, cada uma com seu lote. <\/p>\n\n\n\n<p>Antes de ser assentada, a fam\u00edlia de Dona Ana vivia com a barriga vazia e a mente preocupada. Ap\u00f3s anos de luta, ela carrega em sua pele retinta e no sorriso continental o amor pela vida no campo e uma f\u00e9 inabal\u00e1vel. \u201cDeus n\u00e3o me deu s\u00f3 a casinha, eu tenho meu s\u00edtio tamb\u00e9m. Ali eu tenho meu porco, eu crio minha galinha, tenho meu ovo para comer, tenho uma mandioca prantada pra comer. Eu n\u00e3o passo mais fome nem necessidade. Eu n\u00e3o tenho nada, mas depois que eu fui para o Sem Terra, minha filha, eu nunca mais passei necessidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Dona-Ana-so-aceitou-o-lote-de-terra-quando-sentiu-que-era-aquele-lugar-que-Deus-havia-escolhido-para-ela-por-Ana-Laura-Menegat-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2122\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Dona-Ana-so-aceitou-o-lote-de-terra-quando-sentiu-que-era-aquele-lugar-que-Deus-havia-escolhido-para-ela-por-Ana-Laura-Menegat-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Dona-Ana-so-aceitou-o-lote-de-terra-quando-sentiu-que-era-aquele-lugar-que-Deus-havia-escolhido-para-ela-por-Ana-Laura-Menegat-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Dona-Ana-so-aceitou-o-lote-de-terra-quando-sentiu-que-era-aquele-lugar-que-Deus-havia-escolhido-para-ela-por-Ana-Laura-Menegat-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Dona-Ana-so-aceitou-o-lote-de-terra-quando-sentiu-que-era-aquele-lugar-que-Deus-havia-escolhido-para-ela-por-Ana-Laura-Menegat-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Dona-Ana-so-aceitou-o-lote-de-terra-quando-sentiu-que-era-aquele-lugar-que-Deus-havia-escolhido-para-ela-por-Ana-Laura-Menegat-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Dona-Ana-so-aceitou-o-lote-de-terra-quando-sentiu-que-era-aquele-lugar-que-Deus-havia-escolhido-para-ela-por-Ana-Laura-Menegat-1250x834.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Dona-Ana-so-aceitou-o-lote-de-terra-quando-sentiu-que-era-aquele-lugar-que-Deus-havia-escolhido-para-ela-por-Ana-Laura-Menegat-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Dona-Ana-so-aceitou-o-lote-de-terra-quando-sentiu-que-era-aquele-lugar-que-Deus-havia-escolhido-para-ela-por-Ana-Laura-Menegat.jpg 1555w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Dona Ana s\u00f3 aceitou o lote de terra quando sentiu que era aquele lugar que Deus havia escolhido para ela | Foto Ana Laura Menegat<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ale lembra nitidamente do dia em que finalmente o assentamento \u201c17 de Abril\u201d iria nascer. Era 2005 e todos estavam reunidos planejando como seriam as comemora\u00e7\u00f5es da abertura das porteiras, mas a atmosfera alegre logo se dissipou. As 2139 fam\u00edlias que seriam assentadas receberam a not\u00edcia de que o grupo japon\u00eas Teijin Desenvolvimento Agropecu\u00e1rio Ltda estava recorrendo para permanecer com a posse da \u201cFazenda Teijin\u201d, em Nova Andradina (MS). Os 100 mil hectares seriam repartidos em dois lotes ap\u00f3s a antiga propriedade ser declarada improdutiva pelo Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra), em 2002. Da totalidade da terra, 67 mil hectares seriam destinados ao MST e \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Mato Grosso do Sul (Fetagri MS), e das 2139 fam\u00edlias, 507 faziam parte do MST.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO embate foi muito forte, houve muita press\u00e3o. Na \u00e9poca, o grupo amea\u00e7ou retirar as ind\u00fastrias do Brasil caso a gente ganhasse a terra. A estrat\u00e9gia da gente foi ocupar a fazenda, fizemos guarita de saco de areia e fechamos as entradas\u201d, lembra Ale. Ale conta que receberam muitas amea\u00e7as, mas em nenhum momento houve viol\u00eancia. Um dos meios que o Grupo Teijin encontrou para justificar a direito a perman\u00eancia da posse da fazenda foram cerca das cinco mil cabe\u00e7as de gado que ainda estavam no local. Como forma de contornar a situa\u00e7\u00e3o, as fam\u00edlias amea\u00e7aram soltar os animais na rodovia caso os expulsassem da propriedade. <\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s um ano das fam\u00edlias abra\u00e7arem incessantemente o combate, o Grupo Teijin retirou os animais da fazenda e, na \u00e9poca, a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ellen Gracie, suspendeu a liminar que interrompia a realiza\u00e7\u00e3o do assentamento e devolvia a terra aos antigos donos. Assim, surgiu o assentamento \u201c17 de Abril\u201d, dando a chance das 507 fam\u00edlias do MST proporcionarem \u00e0 terra do sudeste do Mato Grosso do Sul um tratamento mais adequado.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, n\u00e3o haveria outro nome mais justo para dar ao assentamento, j\u00e1 que a data carrega um significado de resist\u00eancia para quem participou desse ato. 17 de abril \u00e9 o dia destinado, internacionalmente, \u00e0 luta dos trabalhadores do campo e Dia Nacional de Luta pela Reforma Agr\u00e1ria, em mem\u00f3ria ao Massacre de Eldorado do Caraj\u00e1s, marcado pelo assassinato de 19 Sem Terras.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Identidade Sem Terra<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>O sentimento de pertencimento e de se reconhecer em um espa\u00e7o ou grupo \u00e9 o que Luci coloca como o principal fator na milit\u00e2ncia. Ela n\u00e3o se entende apenas como assentada, mas tamb\u00e9m como Sem Terra, mesmo ap\u00f3s conquistar seu lote. A professora carrega com orgulho sua viv\u00eancia e v\u00ea essa identidade tamb\u00e9m como coletiva, porque ainda existe luta. Sandra sente o assentamento como possibilidade de reconquistar e reconstruir a pr\u00f3pria humanidade. \u201cO Movimento Sem Terra e os movimentos sociais dos quais eu vim me fizeram pensar e sentir, e experimentar pequenos peda\u00e7os do mundo que eu acredito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/A-permanente-construcao-da-vida-junto-ao-solo-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Lara-Bellini-9-3-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2248\" width=\"610\" height=\"406\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/A-permanente-construcao-da-vida-junto-ao-solo-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Lara-Bellini-9-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/A-permanente-construcao-da-vida-junto-ao-solo-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Lara-Bellini-9-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/A-permanente-construcao-da-vida-junto-ao-solo-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Lara-Bellini-9-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/A-permanente-construcao-da-vida-junto-ao-solo-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Lara-Bellini-9-3-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/A-permanente-construcao-da-vida-junto-ao-solo-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Lara-Bellini-9-3-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/A-permanente-construcao-da-vida-junto-ao-solo-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Lara-Bellini-9-3-1250x834.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/A-permanente-construcao-da-vida-junto-ao-solo-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Lara-Bellini-9-3-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/A-permanente-construcao-da-vida-junto-ao-solo-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Lara-Bellini-9-3.jpg 1555w\" sizes=\"auto, (max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><figcaption>A permanente constru\u00e7\u00e3o da vida junto ao solo no Assentamento Emerson Rodrigues | Foto: Lara Bellini<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ale defende que na luta de classes, uma pessoa n\u00e3o existe de forma individual e que \u00e9 o todo que comp\u00f5e sua identidade. \u201cEu s\u00f3 passei a existir quando eu passei a fazer parte do coletivo do movimento pela terra\u201d, afirma. Nessa perspectiva, Sandra relaciona essa identifica\u00e7\u00e3o com processos de reflex\u00e3o e consci\u00eancia. \u201cAcho que hoje a gente precisa se perguntar mais qual planeta a gente gostaria de deixar para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. Em nome do capital, a vida fica em \u00faltimo lugar, e a gente corre o risco de produzir novas gera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o saibam mais plantar comida, que acham que tudo que essa sociedade produz, pode ser encontrado nos supermercados ou nas lojas\u201d, enfatiza a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Para-transitar-no-assentamento-Emerson-Rodrigues-a-familia-de-Luci-se-desloca-atraves-do-girico-carro-construido-pelo-Daniel-parceiro-de-Luci-por-Ana-Laura-Menegat-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2249\" width=\"610\" height=\"406\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Para-transitar-no-assentamento-Emerson-Rodrigues-a-familia-de-Luci-se-desloca-atraves-do-girico-carro-construido-pelo-Daniel-parceiro-de-Luci-por-Ana-Laura-Menegat-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Para-transitar-no-assentamento-Emerson-Rodrigues-a-familia-de-Luci-se-desloca-atraves-do-girico-carro-construido-pelo-Daniel-parceiro-de-Luci-por-Ana-Laura-Menegat-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Para-transitar-no-assentamento-Emerson-Rodrigues-a-familia-de-Luci-se-desloca-atraves-do-girico-carro-construido-pelo-Daniel-parceiro-de-Luci-por-Ana-Laura-Menegat-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Para-transitar-no-assentamento-Emerson-Rodrigues-a-familia-de-Luci-se-desloca-atraves-do-girico-carro-construido-pelo-Daniel-parceiro-de-Luci-por-Ana-Laura-Menegat-1-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Para-transitar-no-assentamento-Emerson-Rodrigues-a-familia-de-Luci-se-desloca-atraves-do-girico-carro-construido-pelo-Daniel-parceiro-de-Luci-por-Ana-Laura-Menegat-1.jpg 1177w\" sizes=\"auto, (max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><figcaption>Para transitar no assentamento Emerson Rodrigues, a fam\u00edlia de Luci se desloca atrav\u00e9s do &#8216;girico&#8217;, carro constru\u00eddo pelo Daniel, parceiro de Luci | Foto: Ana Laura Menegat<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Sandra entende que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel conhecer plenamente uma realidade quando se vive ela de perto, com os p\u00e9s no ch\u00e3o, e mesmo morando na cidade, ainda carrega sua identidade assentada, que a faz questionar o consumo excessivo de recursos naturais e humanos. \u201cConseguir perceber a humanidade que tem por tr\u00e1s dos alimentos, torna a gente um ser humano mais conectado com a terra, com a vida, com a natureza. Entender que a gente est\u00e1 aqui s\u00f3 de passagem, mas nesse tempo a gente n\u00e3o precisa domar a terra no sentido brutal com que o capitalismo ensinou a gente a fazer\u201d. A terra, apesar de selvagem e indom\u00e1vel, \u00e9 um ser vivo organizado. Ela precisa de cuidado, consci\u00eancia e planejamento. Se faz casa, fruto e solo de disputas. Na vis\u00e3o de Luci, ser mulher assentada significa buscar a liberdade. \u201c\u00c9 resist\u00eancia, no MS principalmente, porque estamos no estado do agro e do boi e eu sinto muito a quest\u00e3o do machismo estrutural tamb\u00e9m\u201d. Para Sandra, isso justifica a import\u00e2ncia do MST, pois ele deixa expl\u00edcito a luta de classes e tensiona o mito do Brasil como um pa\u00eds democr\u00e1tico e igualit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quest\u00e3o de g\u00eanero<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>\u201cQuando eu entrei para o assentamento, eu consegui algo que eu n\u00e3o acreditava mais que eu era capaz, de cuidar dos meus filhos, de gerir uma casa\u201d, conta Luci com sorriso amplo que se expande pelo rosto e esconde os olhos marejados. Nos quintais produtivos dos lotes, onde s\u00e3o plantadas frutas, cultivadas hortas e criados pequenos animais, as mulheres s\u00e3o as donas da vida e dali tiram a maior parte da alimenta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Para Sandra, as mulheres mant\u00eam um ritmo de plantio mais preocupado com a terra, com a natureza e com a vida, atuam como garantidoras da comida e preocupadas com o meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>No artigo \u201cSe a mulher participar, a gente vai massificar!\u201d publicado no site do MST em janeiro de 2021, as autoras Atiliana Brunetto e Lucineia Freitas explicam como se d\u00e1 a participa\u00e7\u00e3o feminina no movimento. Segundo elas, o Setor de G\u00eanero foi criado no Encontro Nacional do MST no ano 2000 em Goi\u00e2nia (GO), mas apenas em 2002, em Belo Horizonte, as linhas pol\u00edticas do setor foram aprovadas. Dentre elas, assegurar a participa\u00e7\u00e3o de 50% de mulheres e 50% de homens nas atividades de forma\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o. As autoras elucidam que o passo definitivo rumo \u00e0 essa paridade de g\u00eanero aconteceu em 2005 com a aprova\u00e7\u00e3o dessa medida na Dire\u00e7\u00e3o Nacional e nas demais inst\u00e2ncias do coletivo. Isso fez com que em 2006 a Dire\u00e7\u00e3o Nacional do MST passasse a ser composta por um homem e uma mulher de cada estado do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Companheiras-de-luta-e-de-afetos-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Ana-Laura-Menegat-4-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2250\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Companheiras-de-luta-e-de-afetos-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Ana-Laura-Menegat-4-683x1024.jpg 683w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Companheiras-de-luta-e-de-afetos-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Ana-Laura-Menegat-4-200x300.jpg 200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Companheiras-de-luta-e-de-afetos-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Ana-Laura-Menegat-4-768x1152.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Companheiras-de-luta-e-de-afetos-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Ana-Laura-Menegat-4-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Companheiras-de-luta-e-de-afetos-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Ana-Laura-Menegat-4-400x600.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/Companheiras-de-luta-e-de-afetos-no-Assentamento-Emerson-Rodrigues-por-Ana-Laura-Menegat-4.jpg 1037w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption>Companheiras de luta e de afetos no Assentamento Emerson Rodrigues | Foto: Ana Laura Menegat<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a Instru\u00e7\u00e3o Normativa n\u00ba 97, de 2018, assegura a posse da terra para a mulher. Apesar dessa busca por igualdade e equidade, os caminhos ainda correm por rios turvos repletos de silenciamentos que reproduzem a l\u00f3gica patriarcal. Em confrontos com a pol\u00edcia, as mulheres v\u00e3o na frente. Ao cuidar do lar, das crian\u00e7as, da alimenta\u00e7\u00e3o, as mulheres v\u00e3o na frente. Silenciadas, as mulheres, m\u00e3es, camponesas, militantes, vivas, v\u00e3o na frente. Luci entende que a censura acontece \u00e0s vezes com apenas um olhar que diz \u201cn\u00e3o fale, quem est\u00e1 falando agora \u00e9 um homem\u201d. A educadora enfatiza a pot\u00eancia de uma perspectiva feminina, por acreditar que com mulheres em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a h\u00e1 mais possibilidades de terem seus direitos b\u00e1sicos respeitados.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>A hist\u00f3ria da Reforma Agr\u00e1ria<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>A agricultura passou por diversas transforma\u00e7\u00f5es ao longo da hist\u00f3ria do Brasil. Em 1850 foi implantada a primeira Lei de Terras, convertendo a terra em mercadoria e dando a possibilidade aos latifundi\u00e1rios de garantirem a posse de lotes por meio de documenta\u00e7\u00f5es falsas (grilagem). A quest\u00e3o agr\u00e1ria s\u00f3 voltou a ser pauta nas discuss\u00f5es populares em mar\u00e7o de 1964, onde foi elaborado um decreto que desapropriava terras em torno de rodovias federais e as destinava ao prop\u00f3sito da reforma. Por\u00e9m, a iniciativa veio tarde demais, pois no final do mesmo m\u00eas, atrav\u00e9s de um golpe de Estado, iniciou a Ditadura Militar. Durante esse per\u00edodo institutos foram criados, entre eles o INCRA e o IBRA (Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria e Instituto Brasileiro de Reforma Agr\u00e1ria, respectivamente).<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 80, os movimentos sociais em torno da luta pela terra ganharam for\u00e7a, e o ent\u00e3o Presidente, Jos\u00e9 Sarney, elaborou o PNRA (Plano Nacional da Reforma Agr\u00e1ria). Como as metas de Sarney foram consideradas irreais, logo o plano acabou fracassando. Durante o governo de Fernando Collor, as quest\u00f5es agr\u00e1rias s\u00e3o deixadas de lado e s\u00f3 retornam em 1996, com a posse de Itamar Franco. Em 1996 \u00e9 criado o Minist\u00e9rio Extraordin\u00e1rio de Pol\u00edtica Fundi\u00e1ria, ao qual \u00e9 incorporado o INCRA. E, finalmente em 2000 \u00e9 criado o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio (MDA), onde o INCRA \u00e9 definitivamente vinculado.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante este processo de efetiva\u00e7\u00e3o de um sistema que buscava reorganizar a pauta agr\u00e1ria, surgiu o MST. Antes mesmo da consolida\u00e7\u00e3o do movimento, camponeses j\u00e1 empreendiam \u00e1rduas lutas contra latif\u00fandios, mas foi com ele que o assunto ganhou visibilidade e se permitiu ser ouvido pela sociedade. O Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento aponta que no Mato Grosso do Sul, estado regido pelo agroneg\u00f3cio, 27.746 fam\u00edlias foram abrigadas em 204 assentamentos, devido \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o criada pelos movimentos sociais, distribu\u00eddos em uma \u00e1rea total de 716.212 hectares.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>A luta para al\u00e9m da terra<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>\u201cA educa\u00e7\u00e3o mudou tudo na minha vida\u201d, diz Luci ao pensar no ensino que recebeu no Programa Nacional de Educa\u00e7\u00e3o na Reforma Agr\u00e1ria (Pronera) na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) entre 2008 e 2012. Graduadas na mesma turma, Luci e Ale carregam com orgulho e resist\u00eancia o diploma de licenciatura em Ci\u00eancias Sociais. \u201cEu falo que tem duas Luci, a de antes e a depois do Pronera. Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo, n\u00e3o mudou s\u00f3 a minha vida, mudou a vida da minha fam\u00edlia e das pessoas que est\u00e3o pr\u00f3ximas de mim. Educa\u00e7\u00e3o me trouxe dignidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O Pronera, criado em 1998, \u00e9 uma medida que visa a inclus\u00e3o de pessoas camponesas no sistema educacional. A turma na qual Luci e Ale estudaram foi a \u00fanica turma de gradua\u00e7\u00e3o desta medida realizada na UFGD e formou 58 das 60 pessoas aprovadas no vestibular. Para Alzira Menegat, 61, professora do curso de Ci\u00eancias Sociais da UFGD e desta turma, o projeto \u00e9 uma conquista fundamental. \u201cEram pessoas que estavam de certa forma distanciadas da universidade, porque residiam em assentamentos e dificilmente conseguiriam ir para a Universidade todo dia, ent\u00e3o o distanciamento era geogr\u00e1fico, mas o distanciamento era tamb\u00e9m social em termos de poder aquisitivo para cursar um n\u00edvel superior. E o Pronera viabilizou isso tudo, porque havia oferecimento do alojamento, do alimento, do material pedag\u00f3gico, ent\u00e3o foi fundamental esse recurso\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cConsidera-se o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o como um dos mais fundamentais direitos humanos, na medida em que contribui decisivamente para a garantia de outros direitos fundamentais. Contudo, para al\u00e9m do direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o num sentido mais amplo, o debate contempor\u00e2neo se d\u00e1 em torno dos desafios do direito a uma educa\u00e7\u00e3o em e para os direitos humanos ou, em outros termos, uma educa\u00e7\u00e3o para a diversidade. Ou seja, a quest\u00e3o central \u00e9 at\u00e9 que ponto a ideia de educa\u00e7\u00e3o \u201cuniversal\u201d contempla as especificidades e as necessidades dos diversos segmentos sociais, especialmente aqueles hist\u00f3rica e socialmente mais fragilizados e discriminados\u201d, afirmam Alzira e Andr\u00e9 Luiz Faisting no artigo \u201cCaminhos e Caminhantes da Terra: pessoas assentadas em redes de saberes e parcerias para conquista de direitos.\u201d publicado em 2011 no livro \u201cDireitos Humanos, Diversidade e Movimentos Sociais: um di\u00e1logo necess\u00e1rio\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Luci percebe a import\u00e2ncia da iniciativa, mas enfatiza que n\u00e3o \u00e9 suficiente. \u201cSurge a faculdade pelo Pronera, puxa, que legal, assentado estudando, mas e depois disso? Eu tive que vir para a cidade. Qual o espa\u00e7o para essas pessoas l\u00e1 no assentamento, que sonharam, que lutaram para conquistar? Precisa ter pol\u00edticas que atendam a essa demanda\u201d. O sonho de vida da professora-fruto \u00e9 poder ficar no assentamento todas as horas de seus dias e n\u00e3o apenas aos finais de semana, como faz atualmente. Ela acredita que \u00e9 a partir do sentimento de pertencimento e de corresponsabilidade pela terra que as crian\u00e7as e adolescentes sem terrinha podem criar movimentos, mesmo grudados na terra. Por\u00e9m, observa uma sa\u00edda de jovens do campo para as cidades em busca de educa\u00e7\u00e3o de qualidade e oportunidades de trabalho. Sandra se revolta com a falta de escolas pr\u00f3ximas aos assentamentos. \u201cAinda no Mato Grosso do Sul a educa\u00e7\u00e3o no campo \u00e9 menosprezada. As crian\u00e7as dormem no \u00f4nibus, chegam [na escola] com fome e sono, o que prejudica a capacidade de concentra\u00e7\u00e3o. Tem a quest\u00e3o da falta de seguran\u00e7a, \u00e0s vezes tem acidente com crian\u00e7a\u201d, reivindica ela. Al\u00e9m das dificuldades educacionais, Luci acredita que o Brasil n\u00e3o possui uma Reforma Agr\u00e1ria efetiva. Para ela, a luta n\u00e3o se limita \u00e0 conquista da terra, a vida dentro dos assentamentos tamb\u00e9m requer resist\u00eancia, j\u00e1 que infraestruturas, como acesso a estradas, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o tratadas como prioridade pelo poder p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, ela enxerga os assentamentos como centrados na figura adulta e masculina. Apesar do MST realizar a Jornada dos Sem Terrinha, pr\u00f3ximo ao 12 de outubro, essas sementes precisam ser espalhadas e semeadas mais intensamente e olhadas de perto. \u201cOs assentamentos precisam pensar em lugares para as crian\u00e7as, parques, lugares com \u00e1rvores. As escolas do campo n\u00e3o t\u00eam cumprido esse papel, elas poderiam ser escolas abertas aos finais de semana, pensassem projetos que envolvessem os pais e a comunidade. Projetos de agroecologia e reflorestamento envolvendo as crian\u00e7as\u201d, sugere Sandra. <\/p>\n\n\n\n<p>Esse problema \u00e9 refletido na qualidade de vida e na inefici\u00eancia da distribui\u00e7\u00e3o de recursos nos assentamentos. \u201cEu cansei de ver, por exemplo, mulheres que tinha que plantar quiabo, colher quiabo, pegar um saco de quiabo de 60kg, ir de carriola, andar dois quil\u00f4metros com o saco na carriola, parar no ponto, pegar o \u00f4nibus, colocar o saco no \u00f4nibus, ir para Campo Grande, descer na parada e ficar vendendo\u201d, relata. Ainda, com a falta de recursos, os pequenos agricultores se veem ref\u00e9ns dos agrot\u00f3xicos. No assentamento de Luci poucas fam\u00edlias t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de trabalhar com cultivo org\u00e2nico. \u201cAlgumas pessoas gostariam de n\u00e3o usar agrot\u00f3xicos, mas sentem dificuldades em produzir em um solo que j\u00e1 estava precisando de reparos\u201d. Ale adverte que a comunidade se v\u00ea obrigada a usar os produtos qu\u00edmicos nas planta\u00e7\u00f5es para n\u00e3o ter perda e nem ter preju\u00edzos. No assentamento \u201c17 de Abril\u201d, Ale exp\u00f5e que nem todos possuem conhecimento do que s\u00e3o os agrot\u00f3xicos e onde est\u00e3o presentes. <\/p>\n\n\n\n<p><strong> Plantar todos os dias, para colher no amanh\u00e3<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Junto \u00e0s sementes de maxixe, ab\u00f3bora, laranja e tantos outros alimentos, as mulheres do campo plantaram sonhos que ainda precisam ser replantados, adubados, aguados e colhidos. Os planos semeados se espalham pelo solo e formam planta\u00e7\u00f5es vivas e caminhantes em corpos de mulheres plurais e destemidas. \u201cAcho que s\u00e3o as mulheres que seguram os movimentos sociais em boa medida, porque s\u00e3o muito capazes de gestar e coordenar. A viv\u00eancia em movimentos sociais \u00e9 como se a gente estivesse fazendo um treino para o mundo novo, ent\u00e3o a gente vai no movimento, se mete de cabe\u00e7a e tenta radicalizar o sonho que a gente tem. A gente vai l\u00e1 e briga \u2018tem que ser metade homem, metade mulher, se for s\u00f3 homem no plen\u00e1rio a gente n\u00e3o vai\u2019. A gente sobe na cadeira e faz protesto. Ent\u00e3o a gente tenta construir as coisas na pr\u00e1tica, eu vejo que as mulheres s\u00e3o muito corajosas\u201d, relata Sandra. <\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, a luta do MST n\u00e3o pode ser apenas dos povos dos campos, mas deve tamb\u00e9m englobar o meio urbano. \u201cA gente quer que as pessoas apoiem essa luta do campo, apoiem a Reforma Agr\u00e1ria, para entender que se a cidade n\u00e3o defender os povos do campo, tende a sucumbir e ficar ref\u00e9m da ind\u00fastria e do mercado\u201d. Essa possibilidade de luta coletiva e de um futuro melhor \u00e9 o que move Sandra. \u201cS\u00e3o muitas emo\u00e7\u00f5es, mas eu diria que \u00e9 o projeto de uma sociedade anticapitalista o que mais me comove e me faz sonhar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Ana sente orgulho da mulher que se tornou e de ter aprendido muitas coisas nos momentos de resist\u00eancia e cr\u00ea que esses aprendizados se potencializam por meio dos la\u00e7os de amizade. \u201cEu ajudei muitas pessoas, igual a Dalva, e eu t\u00f4 pronta para ajudar. Eu s\u00f3 n\u00e3o estou pronta para acampar de novo, que a\u00ed as for\u00e7as j\u00e1 est\u00e3o diminuindo. Enquanto Deus me der vida e sa\u00fade eu vou estar por aqui\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-98\/\">voltar para a edi\u00e7\u00e3o 98<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Participa\u00e7\u00e3o feminina no Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra em Mato Grosso do Sul contribui para a constru\u00e7\u00e3o da identidade rural do estado Texto: Ana Laura Menegat | Maria Eduarda Schindler Sandra vestia um xale bord\u00f4 com mandalas estampadas e trazia o olhar atento, coberto por \u00f3culos da mesma cor do tecido que lhe [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-2019","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagem98"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2019","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2019"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2019\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2370,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2019\/revisions\/2370"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2019"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2019"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2019"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}