{"id":2026,"date":"2022-06-21T07:52:26","date_gmt":"2022-06-21T11:52:26","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=2026"},"modified":"2022-07-04T16:59:19","modified_gmt":"2022-07-04T20:59:19","slug":"estranheza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/estranheza\/","title":{"rendered":"Estranheza"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">&#8220;Da Capital do Pantanal \u00e0 capital do estado&#8221;<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/carlosbastoss_\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.instagram.com\/carlosbastoss_\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> Kadu Bastos<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se v\u00e3o dois anos com uma pandemia no meio. A cada dia que permane\u00e7o em Campo Grande, a sensa\u00e7\u00e3o de estranheza me acompanha. Me habita essa confus\u00e3o. N\u00e3o me vejo nem distante, nem pr\u00f3ximo desta cidade, talvez seja o sentimento mais genu\u00edno que consigo expressar vivendo aqui. Achei que neste momento eu j\u00e1 saberia o suficiente a respeito de \u201cCamp\u00e3o\u201d. Me enganei. A euforia da mudan\u00e7a para c\u00e1 n\u00e3o me fez pensar sobre ser um estrangeiro dentro do meu pr\u00f3prio estado. Tal sensa\u00e7\u00e3o de estranheza, tamb\u00e9m me faz refletir sobre as nuances do MS e do lugar de onde venho \u2013 o verdadeiro portal de entrada para o Pantanal, as cidades de Corumb\u00e1 e Lad\u00e1rio, onde nasci e cresci. A 428 km da capital, l\u00e1 est\u00e3o elas, quase isoladas geogr\u00e1fica e culturalmente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"550\" height=\"660\" src=\"http:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/ILUSTRA-estranhezasT-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2273\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/ILUSTRA-estranhezasT-1.jpg 550w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/ILUSTRA-estranhezasT-1-250x300.jpg 250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/ILUSTRA-estranhezasT-1-400x480.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o: Sara Welter<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p style=\"text-align: left\">Banhadas pelo Rio Paraguai de ponta a ponta, apresentam o Pantanal aos nossos olhos, como um convite ao para\u00edso. Avenidas e ruas ligam Corumb\u00e1, a capital do pantanal com mais de 110 mil habitantes, \u00e0 Lad\u00e1rio, a P\u00e9rola do bioma com 24 mil habitantes. S\u00e3o lugares onde se encontram as mais variadas caracter\u00edsticas e identidades do MS, coexistindo de maneira intensa e em harmonia numa por\u00e7\u00e3o de terra ilhada pelo Pantanal.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem \u00e9 de fora, o MS pode parecer todo igual. \u201c\u00c9 s\u00f3 mato\u201d, \u201cFim de Mundo\u201d. Mas n\u00e3o! Se antes eu j\u00e1 imaginava que as regi\u00f5es do estado eram diferentes, hoje, mais do que nunca, sinto na pele essa diferen\u00e7a. Quando falo, logo reagem ao meu sotaque forte, achei que n\u00e3o pudesse carregar tamanha identidade. O sotaque caracter\u00edstico entrega qualquer falante daquele lugar. A heran\u00e7a da fala dos portugueses da \u00e9poca, junto com o sotaque regional de Mato Grosso, estado vizinho, aliado \u00e0 vinda dos cariocas para Lad\u00e1rio e Corumb\u00e1, deram para a minha regi\u00e3o um modo \u00fanico de falar no MS.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 definitivamente n\u00e3o \u00e9 fim, \u00e9 come\u00e7o. O Pantanal pode ter sido o lugar da origem da vida. O <em>Corumbella<\/em>, f\u00f3ssil mais antigo das Am\u00e9ricas encontrado na regi\u00e3o, pode ser a chave para a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. Quem diria que esse bioma escondido no meio do Brasil guarda os segredos do in\u00edcio do continente?<\/p>\n\n\n\n<p>Palco da Guerra com o Paraguai, as cidades quase deixaram de ser Brasil, mas resistiram. Ao longo de seus 243 anos, embarca\u00e7\u00f5es de v\u00e1rias partes do mundo atracaram em seus portos. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, Corumb\u00e1 chegou a ter mais estrangeiros do que brasileiros. V\u00e1rios povos formaram e continuam formando a identidade da regi\u00e3o. Carrego em mim parte deles: ind\u00edgenas, negros, imigrantes europeus. A influ\u00eancia boliviana pela fronteira terrestre com Corumb\u00e1 fez o arroz boliviano e a saltenha tornarem-se parte do cotidiano pantaneiro. Escrevo esse texto com uma saudade do \u00fanico sabor agridoce que gosto, o da saltenha de l\u00e1. A proximidade dos pa\u00edses \u00e9 t\u00e3o grande que acho que j\u00e1 sa\u00ed mais do Brasil do que do MS.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Lad\u00e1rio eu observava o p\u00f4r do sol, uma pintura no c\u00e9u que acalma a vista, depois do dia escaldante. Recomendo a todos que apreciem este momento nos finais de tarde no Pantanal. O h\u00e1bito de sentar-se e tomar terer\u00e9 em frente de casa, olhando a rua, me faz falta. Vizinhos se encontram pelas cal\u00e7adas e conversam por l\u00e1. \u00c9 o lugar onde a natureza e a vida urbana quase se confundem em uma s\u00f3. Ip\u00eas cobrem as ruas com suas flores. Lembro das araras e tucanos fazendo visita no quintal de casa. E sim, at\u00e9 jacar\u00e9 e on\u00e7a j\u00e1 andaram pelas ruas. Nas cidades pantaneiras, se faz festa como ningu\u00e9m. Al\u00e9m do maior carnaval do centro-oeste, tem o Festival Am\u00e9rica do Sul, as festas juninas e o Banho de S\u00e3o Jo\u00e3o, que virou patrim\u00f4nio Cultural do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Em CG, me vem \u00e0 cabe\u00e7a outro contraste. O relevo aqui n\u00e3o tem curvas, como a morraria e o Morro do Urucum. Quase nenhuma rua ou avenida que percorro me faz lembrar os caminhos de l\u00e1. Nem mesmo a Afonso Pena com suas \u00e1rvores se assemelha \u00e0 General Rondon com suas palmeiras. Fui at\u00e9 as pra\u00e7as Ary Coelho e do R\u00e1dio, mas ainda me enxergo na Pra\u00e7a da Independ\u00eancia de Corumb\u00e1. Ainda tenho muito a conhecer de Campo Grande. Meu caminho aqui est\u00e1 s\u00f3 come\u00e7ando. As nuances da cidade morena em sua vastid\u00e3o plana me convidam a explorar mais desse lugar que escolhi ter como morada.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-98\/\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 98<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Da Capital do Pantanal \u00e0 capital do estado&#8221; Kadu Bastos J\u00e1 se v\u00e3o dois anos com uma pandemia no meio. A cada dia que permane\u00e7o em Campo Grande, a sensa\u00e7\u00e3o de estranheza me acompanha. Me habita essa confus\u00e3o. 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