{"id":2061,"date":"2022-06-20T17:34:13","date_gmt":"2022-06-20T21:34:13","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=2061"},"modified":"2022-07-04T17:10:21","modified_gmt":"2022-07-04T21:10:21","slug":"historia-de-pescador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/historia-de-pescador\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria de pescador"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\"><strong>Vit\u00f3ria Martins<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Nasci e cresci em Corumb\u00e1, meu lugar de morada \u00e9 \u00e0 beira do Rio Paraguai. Sou pescador porque meu pai foi pescador e antes dele, o pai dele tamb\u00e9m era. N\u00e3o sei se sempre quis isso, mas \u00e9 o que gosto de fazer. Talvez n\u00e3o queira isso para meus filhos. Hoje o mundo est\u00e1 mudado e se eles quiserem, podem estudar e at\u00e9 ir para faculdade. N\u00e3o tenho tanto estudo, mas sei que isso \u00e9 importante hoje em dia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"http:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/pexels-ranta-11317149-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2281\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/pexels-ranta-11317149-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/pexels-ranta-11317149-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/pexels-ranta-11317149-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/pexels-ranta-11317149-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/pexels-ranta-11317149-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/pexels-ranta-11317149-1200x900.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/pexels-ranta-11317149-1980x1485.jpg 1980w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/pexels-ranta-11317149-1250x938.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/06\/pexels-ranta-11317149-400x300.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: <a href=\"https:\/\/www.pexels.com\/@ranta-3041781\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ranta | Pexels<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Vivo em uma casinha bem simples com minha mulher e meus guris. N\u00e3o tenho luxo, nem nada, mas a vista do quintal de casa \u00e9 sem igual. Gente com dinheiro tem piscina do lado de fora da casa, eu tenho o rio Paraguai. Quando o sol come\u00e7a a baixar ele faz a \u00e1gua de espelho, \u00e9 a coisa mais linda que vi. N\u00e3o que eu j\u00e1 tenha visto como \u00e9 em outras cidades\u2026Vez ou outra aparece um jacarezinho ou sucuri, mas \u00e9 s\u00f3 n\u00e3o mexer com eles. Afinal, a casa \u00e9 deles, o intruso sou eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Levanto da cama bem cedo, antes mesmo do sol raiar. Arrumo minhas tralhas de pesca, pego meu remo, o barco e subo o rio para pescar. Fa\u00e7o isso quase todo dia, s\u00f3 aos domingos que n\u00e3o. Nesse dia, costumo ir \u00e0 missa. Sou cat\u00f3lico desde que me entendo por gente. S\u00e3o Pedro \u00e9 o nosso padroeiro, ele \u00e9 um santo que tamb\u00e9m foi pescador. Dia 29 de junho \u00e9 o dia dele, tem prociss\u00e3o pelo porto geral e de barco nas \u00e1guas do rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Uns dizem por a\u00ed que esse rio \u00e9 uma tal de plan\u00edcie alagada. Bom, se \u00e9 verdade, eu n\u00e3o sei. Para mim sempre foi tudo rio. S\u00f3 sei que tem dois per\u00edodos bem diferente: a cheia e a vazante. A cheia \u00e9 quando o n\u00edvel da \u00e1gua sobe e alaga tudo. Uma vez me disseram que para encher aqui, tem que chover l\u00e1 para as bandas de Mato Grosso no ver\u00e3o, que \u00e9 onde o rio nasce, deve ser verdade. A vazante vem depois dela, quando a \u00e1gua come\u00e7a a baixar. Nessa \u00e9poca, algumas ba\u00edas secam e corixosaparecem. \u00c9 na seca que os peixes ficam mais a amostra para os tuiui\u00fas e aves que se alimentam deles. A comida se torna abundante.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi-se o tempo em que conseguia viver s\u00f3 de peixe. As vezes fa\u00e7o uns &#8216;bicos&#8217; de pintor, mas s\u00f3 quando o calo aperta. Para completar a renda tamb\u00e9m cato isca, isso d\u00e1 um trocadinho. Nos \u00faltimos anos muitos turistas da cidade grande v\u00eam para o pantanal pescar, da\u00ed eu vendo tuvira para eles, uma isca viva que serve para pegar peixes maiores. Com ela d\u00e1 para pescar pintado, ja\u00fa, pacu, dourado\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo que uso \u00e9 meu: o barco, as tralhas, as redes\u2026. Vendemos o peixe e a isca em casa tamb\u00e9m, mas nem todo mundo \u00e9 assim. Tem pescador que empresta o material de pesca do mo\u00e7o do isqueiro, mas chegando na cidade seu peixe j\u00e1 tem dono. \u00c9 um compromisso que ele faz. Se vale a pena, eu n\u00e3o sei. Prefiro fazer as coisas do meu jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>De novembro a fevereiro tem a piracema, tempo em que os peixes se reproduzem. Nesses meses, pescar s\u00f3 se for para sobreviv\u00eancia e ainda assim, apenas tr\u00eas quilos ou uma pe\u00e7a de peixe pode ser capturado por dia. N\u00e3o podemos vender peixes neste per\u00edodo, mas ganhamos um sal\u00e1rio do governo enquanto a pesca n\u00e3o abre de novo, o defeso.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses dias um conhecido meu veio de conversa fiada para o meu lado, disse que saiu para pescar de madrugada e viu um movimento estranho l\u00e1 na curva do rio. Os barrancos estavam desmoronando porque na \u00e1gua tinha muito movimento e onda grande se formando. Falei logo que n\u00e3o era nada, que devia ser coisa da cabe\u00e7a dele. Ele continuou falando e at\u00e9 lembrou de uma canoa que virou um tempo atr\u00e1s. No final perguntou: ser\u00e1 que era o minhoc\u00e3o? O minhoc\u00e3o \u00e9 a lenda de uma cobra gigante que tem chifres e circula pelos rios do pantanal. Uma vez meu pai disse que ele devora pescadores e vira canoas. Falei para ele que n\u00e3o sabia, mas que n\u00e3o duvidava de nada nessa vida. Fiquei encucado, mas guardei para mim. De uma coisa eu sei, tem coisa nesse rio que ningu\u00e9m explica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>GLOSS\u00c1RIO <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tralhas:<\/strong> Material de pesca.<br><strong>Plan\u00edcie Alagada:<\/strong> \u00c1reas inundadas periodicamente pelas \u00e1guas dos rios.<br><strong>Isqueiro:<\/strong> Local onde ocorre o com\u00e9rcio de iscas vivas.<br><strong>Ba\u00eda:<\/strong> Por\u00e7\u00e3o do mar ou rio rodeados por terra que se prolongam e deixam uma grande abertura coberta por \u00e1gua.<br>C<strong>orixo:<\/strong> curso de \u00e1gua de dimens\u00f5es variadas, podendo ser um brejo ou canal.<br><strong>Barranco:<\/strong> Margem mais alta de um curso de \u00e1gua, de um lago, de uma ribanceira.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-98\/\">volte para edi\u00e7\u00e3o 98<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vit\u00f3ria Martins Nasci e cresci em Corumb\u00e1, meu lugar de morada \u00e9 \u00e0 beira do Rio Paraguai. 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