{"id":2343,"date":"2022-07-04T17:22:35","date_gmt":"2022-07-04T21:22:35","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=2343"},"modified":"2022-07-04T17:23:00","modified_gmt":"2022-07-04T21:23:00","slug":"a-terra-prometida-de-eva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/a-terra-prometida-de-eva\/","title":{"rendered":"A Terra Prometida de Eva"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vitria_fer\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.instagram.com\/vitria_fer\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Vit\u00f3ria Martins<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Nossa hist\u00f3ria come\u00e7a em meados de 1830, quando as minas de ouro de Goi\u00e1s entraram em colapso e abriram espa\u00e7o para a economia agropastoril. Fazendas inteiras foram constru\u00eddas por meio da m\u00e3o de obra escrava. Homens na constru\u00e7\u00e3o e no campo, mulheres nos afazeres dom\u00e9sticos servindo seus senhores. Foi na primeira propriedade de gado, no territ\u00f3rio da fam\u00edlia Vilela, na fazenda Ariranha, no sul de Go\u00edas, que em 1848 nasceu a escrava Eva Maria de Jesus, anos depois conhecida como \u2018Tia Eva\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 22 anos, Eva deu \u00e0 luz a Sebastiana, sua primeira filha. Em seguida, vieram Joana e L\u00e1zara. Todas de pais diferentes e concebidas na fazenda que servia. A escrava cuidava da cozinha desde muito cedo. Nessa \u00e9poca, cada mulher escrava possu\u00eda uma fun\u00e7\u00e3o, a de Eva era fazer doces. At\u00e9 que um dia, por acidente, uma panela de banha quente caiu em sua perna, abrindo uma ferida que n\u00e3o cicatrizava. O odor da les\u00e3o fez com que deixasse suas obriga\u00e7\u00f5es da cozinha para se alojar em um ranchinho dos fundos mais afastado da casa para trabalhar fazendo sab\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Sempre apegada a sua f\u00e9 a S\u00e3o Benedito, a escrava Eva possu\u00eda o dom de benzer e com o passar dos anos ficou conhecida por toda fazenda Ariranha e aos arredores como \u201cTia Eva\u201d. As pessoas a procuravam para benzer ventres, ro\u00e7as, pastos e outros males.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como em outras fazendas, maus tratos e puni\u00e7\u00f5es f\u00edsicas tamb\u00e9m existiam em Ariranha, hist\u00f3rias eram sempre comentadas nas cozinhas das fazendas pelos escravos e quando libertos, contadas a seus descendentes. Ao presenciar a tortura, Eva p\u00f4s a prova sua f\u00e9 e fez um pedido a S\u00e3o Benedito, um santo cat\u00f3lico que tamb\u00e9m \u00e9 preto. Ela pediu para que sa\u00edsse do estado de Goi\u00e1s e viesse para Campo Grande, ent\u00e3o Mato Grosso (MT). Que aqui arrumaria um lugar para as pessoas de sua cor, mas que seriam independentes e n\u00e3o mais escravos. Viveriam e fariam suas pr\u00f3prias casas e cultivariam seu alimento. A escrava ouvia as hist\u00f3rias de migrantes que vinham para MT em busca de terras. <\/p>\n\n\n\n<p>Eis que em 1888 ocorre a <a href=\"https:\/\/www.bn.gov.br\/acontece\/noticias\/2020\/05\/13-maio-dia-abolicao-escravatura#:~:text=No%20dia%2013%20de%20maio,aboli%C3%A7%C3%A3o%20da%20escravatura%20no%20Brasil.\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o<\/a>. Houve migra\u00e7\u00e3o para outras regi\u00f5es, povoamento de Jata\u00ed com constru\u00e7\u00f5es de casas de pau a pique e muita mis\u00e9ria. Dada a \u2018liberdade\u2019, os escravos foram largados \u00e0 sorte para tomar seus respectivos rumos, sem nenhuma assist\u00eancia. E a elite ainda tratava os libertos como escravos. Muitos preferiram ficar nas fazendas, foi o caso de Tia Eva que, sem condi\u00e7\u00f5es financeiras, continuou servindo os Vilelas, sem deixar de lado suas benze\u00e7\u00f5es. Aos poucos foi recebendo doa\u00e7\u00f5es em forma de gratid\u00e3o daqueles que benzia e eram milagrosamente curados. <\/p>\n\n\n\n<p>Anos se passaram, mas o sonho de vir para Mato Grosso ainda continuava vivo. Foi em 1904 que Eva e sua fam\u00edlia se juntaram a um grupo de escravos libertos de Uberaba (MG) que seguiam viagem para Mato Grosso. No limite do estado a caravana precisou passar pelo posto de fiscaliza\u00e7\u00e3o para serem cadastrados. Os sobrenomes foram inventados, visto que v\u00e1rios deles n\u00e3o possu\u00edam. As mulheres do grupo adotaram o sobrenome \u201cde Jesus\u201d. Assim surgiu a \u201cEva Maria de Jesus\u201d, reconhecida em seu grupo como lideran\u00e7a religiosa. <\/p>\n\n\n\n<p>A viagem durou longos meses. Tia Eva chegou \u00e0 Vila Santo Ant\u00f4nio de Campo Grande em 1905, carregando S\u00e3o Benedito e Santa do Ros\u00e1rio. A comitiva se instalou em uma \u00e1rea afastada da vila, terras menos valorizadas, regi\u00e3o de mata pr\u00f3ximo ao c\u00f3rrego segredo, na \u00e9poca conhecida como Olho D\u2019\u00e1gua. Ali fizeram suas casas e plantaram seu alimento, em um lugar onde eram livres e n\u00e3o mais a\u00e7oitados. Dali surgiu sua segunda promessa, a de cura. Eva rogou a S\u00e3o Benedito para que tratasse sua perna e se assim feito, construiria uma capela para o santo. Anos depois a ferida foi curada e a obra iniciada. A conclus\u00e3o da obra deu origem a uma grande festa, realizada tradicionalmente at\u00e9 hoje pela comunidade todo m\u00eas de maio. <\/p>\n\n\n\n<p>Em um tempo e localidade onde n\u00e3o havia sacerdote, Tia Eva se tornou a sacerdotisa n\u00e3o s\u00f3 de sua comunidade, mas tamb\u00e9m de Campo Grande. Uma mulher preta, ex-escrava fez hist\u00f3ria e deixou um grande legado, visto e reconhecido por descendentes e muitos outros. Atualmente, 150 fam\u00edlias vivem e contam com orgulho sobre sua hist\u00f3ria e seus feitos: seu sonho, f\u00e9 e luta. A irmandade e o pertencimento \u00e0 comunidade fazem com que nunca se sintam sozinhos. Assim \u00e9 na <a href=\"https:\/\/www.comunidadequilombolatiaeva.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">comunidade quilombola Tia Eva<\/a>, em Campo Grande, hoje Mato Grosso do Sul.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-98\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 98<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vit\u00f3ria Martins Nossa hist\u00f3ria come\u00e7a em meados de 1830, quando as minas de ouro de Goi\u00e1s entraram em colapso e abriram espa\u00e7o para a economia agropastoril. Fazendas inteiras foram constru\u00eddas por meio da m\u00e3o de obra escrava. Homens na constru\u00e7\u00e3o e no campo, mulheres nos afazeres dom\u00e9sticos servindo seus senhores. 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