{"id":2349,"date":"2022-06-29T17:45:35","date_gmt":"2022-06-29T21:45:35","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=2349"},"modified":"2022-07-04T17:36:44","modified_gmt":"2022-07-04T21:36:44","slug":"o-mato-grosso-do-sul-e-um-caldeirao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/o-mato-grosso-do-sul-e-um-caldeirao\/","title":{"rendered":"\u201cO Mato Grosso do Sul \u00e9 um caldeir\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">Lenilde Ramos \u00e9 um \u00edcone sul-mato-grossense. Sua hist\u00f3ria e a do Estado est\u00e3o entrela\u00e7adas<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\">Entrevista: Alicce Rodrigues | Raquel Alves<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n<p>Lenilde Ramos \u00e9 escritora, musicista, compositora e ativista cultural. Aos 70 anos de idade, teve o privil\u00e9gio de visitar 73 das 79 cidades de Mato Grosso do Sul para conhecer o que o estado tem de arte, de ra\u00edzes culturais, de artistas e de hist\u00f3rias. Filha de ferrovi\u00e1rios e de pai comunista, o nome Lenilde nasceu da vontade do pai Severino de homenagear o revolucion\u00e1rio russo L\u00eanin. Seus pais incentivaram sua alma art\u00edstica desde crian\u00e7a e hoje ela carrega na bagagem viv\u00eancias ilustres e memor\u00e1veis. Na inf\u00e2ncia, foi a primeira aluna negra num internato particular. Por influ\u00eancia da m\u00e3e \u00c1urea, se encantou pela sanfona. Com 16 anos, foi chamada para prestar depoimento na pol\u00edcia federal ao compor e apresentar uma m\u00fasica antirracista. Gr\u00e1vida, e de &#8220;barrig\u00e3o gigante&#8221;, como ela mesma conta, viu seu filho mais velho ganhar o apelido de \u201cMato Grosso do Sul&#8221;, porque nasceu no ano em que o estado foi criado. Acompanhou de perto o processo de cria\u00e7\u00e3o do hino do estado e teve a linda habilidade de adapt\u00e1-lo para a sanfona. Hoje, \u00e9 consagrada como a primeira mulher negra a tomar posse na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Lenilde Ramos \u00e9 e representa, como ela mesma diz, \u201cMato Grosso do Sul, de carne, alma, osso e esp\u00edrito\u201d. Se o estado fosse personificado, a representa\u00e7\u00e3o certamente seria a sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/ff-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2440\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/ff-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/ff-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/ff-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/ff-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/ff-2048x1152.jpg 2048w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/ff-1200x675.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/ff-1980x1114.jpg 1980w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/ff-1250x703.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/ff-400x225.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: Maria Eduarda Metran<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong>Proj\u00e9til: Voc\u00ea nasceu numa fam\u00edlia de ferrovi\u00e1rios. Como esse aspecto influenciou sua trajet\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>Lenilde Ramos: Foi important\u00edssimo primeiro porque \u00e9 uma influ\u00eancia hist\u00f3rica. Os meus av\u00f3s maternos chegaram em Campo Grande para trabalhar na constru\u00e7\u00e3o da ferrovia. Meu av\u00f4 saiu do Rio de Janeiro naquelas levas de pe\u00e3o e a minha av\u00f3 veio com os pais dela, que tamb\u00e9m vieram trabalhar na ferrovia. Eles tiveram 11 filhos e todos os homens foram ferrovi\u00e1rios e as mulheres se casaram com ferrovi\u00e1rios, minha m\u00e3e foi uma delas. Ent\u00e3o esse aspecto hist\u00f3rico \u00e9 importante. <br>Outro aspecto importante \u00e9 o social, porque todos os ferrovi\u00e1rios come\u00e7aram no trabalho bra\u00e7al. Somos uma fam\u00edlia do proletariado. Somos uma fam\u00edlia de trabalhadores. Da classe trabalhadora. Ent\u00e3o isso criou essa consci\u00eancia. Meu pai tinha essa consci\u00eancia de ser trabalhador, de ter que lutar pela classe. Meu pai foi comunista. Ele fazia parte de um grupo de trabalhadores que era ligado ao partido socialista. Alguns inclusive na \u00e9poca da ditadura foram presos. E [outro ponto importante \u00e9] essa quest\u00e3o da gente fazer parte de um grande equ\u00edvoco da hist\u00f3ria brasileira, porque eu considero o que fizeram com a ferrovia um genoc\u00eddio. N\u00f3s ferrovi\u00e1rios fazemos parte, tristemente, desse processo do desmonte da ferrovia.<\/p>\n<p><strong>P: Quando e por que come\u00e7ou a ser ativista cultural?<\/strong><\/p>\n<p>L: Acho que [vem] da inf\u00e2ncia. Meu pai lia muito e ouvia muito r\u00e1dio, ele achava que eu tinha a idade dele e me passava essas coisas. Criei o gosto de ir atr\u00e1s. Eu lia muita not\u00edcia, muito jornal, ouvia muito r\u00e1dio. E o fato de eu ter consci\u00eancia de onde vim e das ra\u00edzes, isso nunca abandonei. At\u00e9 hoje tenho minhas ra\u00edzes populares. Sou do trabalho bra\u00e7al at\u00e9 hoje. Levo minha arte como um trabalho bra\u00e7al.<\/p>\n<p>Quando teve o movimento do golpe militar, eu era uma menina, tinha 12 anos, mas j\u00e1 estava com minha anteninha ligada que alguma coisa estava acontecendo. As freiras colocavam a gente de joelho pra rezar porque os comunistas iam dominar e eu falava \u201cporque t\u00f4 rezando para os comunistas se meu pai \u00e9 comunista?\u201d A\u00ed ficava meio confusa. Depois teve o assassinato do [Martin] Luther King e eu acompanhei tudo isso e as minhas amigas achavam meio estranho porque elas n\u00e3o compartilhavam do meu gosto de querer saber desses assuntos.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"745\" height=\"362\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/011.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2458\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/011.jpg 745w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/011-300x146.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/07\/011-400x194.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 745px) 100vw, 745px\" \/><figcaption>Foto: Arquivo pessoal Lenilde<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong>P: Sabemos que voc\u00ea sabe tocar piano, viol\u00e3o e sanfona. Em qual g\u00eanero musical se enquadra seu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>L: Eu coloco meu trabalho musical em dois pilares. Um pilar \u00e9 o trabalho autoral, que eu n\u00e3o tive tanta oportunidade de me dedicar como meus amigos, Paulo Sim\u00f5es, os Esp\u00edndolas. Eles resolveram assumir o trabalho autoral, por mais dif\u00edcil que fosse. Porque a carreira art\u00edstica \u00e9 uma mega-sena, voc\u00ea concorre com 50 milh\u00f5es de pessoas todos os dias. Mesmo assim eles decidiram encarar. Eles falaram \u201cpor que voc\u00ea n\u00e3o vem tamb\u00e9m?\u201d, mas eu n\u00e3o tinha coragem de me aventurar nesse ponto. Porque eu j\u00e1 estava trabalhando aqui. Depois que terminei a faculdade, fui trabalhar num jornal. Eu j\u00e1 tinha um p\u00e9 na minha sobreviv\u00eancia que dependia muito do meu trabalho, ent\u00e3o n\u00e3o tive coragem.<\/p>\n<p>Eu tenho um outro pilar que chamo de trabalho bra\u00e7al, porque comecei a tocar em eventos, festas, casamentos. Eu gostava muito de cantar. Esse trabalho bra\u00e7al acho que fiz muito mais do que o autoral, porque era o que me dava grana.<\/p>\n<p><strong>P: Por que come\u00e7ou a tocar sanfona?<\/strong><\/p>\n<p>L: A sanfona foi uma heran\u00e7a da minha m\u00e3e, apesar de ter morrido cedo, ela era muito musical. Dan\u00e7ava super bem. Quando meu pai casou com minha m\u00e3e ele tinha 49 e ela 19. Meu pai era t\u00e3o revolucion\u00e1rio que ele viu a musicalidade da minha m\u00e3e e resolveu incentivar. Naquela \u00e9poca a mulher podia tocar na orquestra, mas quando casava n\u00e3o podia mais. Quando eles casaram meu pai a colocou numa escola de m\u00fasica. Ela foi estudar acorde\u00e3o. Chegava em casa, eu pegava a sanfona monstruosa da minha m\u00e3e. Um dia fui tentar levantar com a sanfona e ca\u00ed. Meu pai ficou furioso e saiu pra rua bravo. Ele voltou com uma sanfoninha e a\u00ed comecei a aprender, com 7 anos.<\/p>\n<p><strong>P: E a literatura? Como come\u00e7ou?<\/strong><\/p>\n<p>L: Eu sempre fui aquela menina que gostava de reda\u00e7\u00e3o. Escrever \u00e9 exerc\u00edcio, \u00e9 rala\u00e7\u00e3o, quanto mais voc\u00ea rala, mais aprende. Quando fiz 50 anos, vi que tinha uma vida inteira ainda pela frente. Refleti que j\u00e1 tinha dado espa\u00e7o para a m\u00fasica, para trabalhar com produ\u00e7\u00f5es e projetos culturais, para viajar e conhecer lugares, e me envolver culturalmente com outras culturas. Foi a partir dessa reflex\u00e3o que decidi me envolver profissionalmente com a literatura, e ser uma velhinha escritora.<\/p>\n<p>E eu n\u00e3o sei escrever fic\u00e7\u00e3o, escrevo viv\u00eancias. Se algu\u00e9m falar \u201cah, inventa uma hist\u00f3ria\u201d. Eu n\u00e3o sei inventar hist\u00f3ria. J\u00e1 vivi tanta coisa. Tem um poema que eu escrevi e diz assim:<br>\u201cEu passei o tempo inteiro<br>Sem saber ganhar dinheiro<br>Vida em gl\u00f3ria?<br>N\u00e3o<br>Hoje vendo a minha hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p><strong>P: Como voc\u00ea insere o Mato Grosso do Sul nas suas produ\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>L: O Mato Grosso do Sul \u00e9 o cen\u00e1rio das minhas hist\u00f3rias, porque \u00e9 o da minha vida. Se n\u00e3o tivessem criado o Mato Grosso do Sul, e fosse ainda o Mato Grosso, talvez eu n\u00e3o me sentisse t\u00e3o parte dele. Mergulhei tanto na vida do nosso estado, que eu digo que n\u00e3o ganhei na loteria, mas essa riqueza e esse privil\u00e9gio de ver o Mato Grosso do Sul e todas as suas personalidades surgirem valeram muito mais.<\/p>\n<p>O apelido do meu filho mais velho era Mato Grosso do Sul, porque ele nasceu no ano em que o MS foi assinado. E eu estava gr\u00e1vida, com um barrig\u00e3o gigante quando deram a not\u00edcia da lei de cria\u00e7\u00e3o do estado. Nesse dia eu sa\u00ed e curti muito na [rua] 14 de julho e na [avenida] Afonso Pena. Meu filho tem a idade do MS. Mais envolvida com o estado do que isso imposs\u00edvel. Ent\u00e3o \u00e9 Mato Grosso do Sul mesmo, de carne, alma, osso, esp\u00edrito, tudo.<\/p>\n<p><strong>P: Como foi acompanhar as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas que aconteceram na cultura, especialmente na sul-mato-grossense?<\/strong><\/p>\n<p>L: A tecnologia entrou t\u00e3o naturalmente na minha vida como entrou a m\u00fasica, como entraram as artes e o amor pela cultura em geral. E sempre vi a internet como uma ferramenta, j\u00e1 que acompanhei as mudan\u00e7as das tecnologias e dos costumes, e muito naturalmente me inseri nessas mudan\u00e7as. Desde crian\u00e7a eu me adapto com muita facilidade. Tanto que na m\u00fasica, logo depois que as pessoas come\u00e7aram a produzir os seus CDs, chegou uma \u00e9poca em que j\u00e1 sab\u00edamos que essa tecnologia j\u00e1 era. E aos artistas que continuaram insistindo em sair por a\u00ed vendendo CDs, eu s\u00f3 dizia: \u201cpara com isso, vai botar suas m\u00fasicas na internet!\u201d.<\/p>\n<p>Hoje tenho dois livros escritos somente na internet, que ainda n\u00e3o botei no papel. \u201cO ba\u00fa da Tia L\u00ea\u201d, com mais de cem hist\u00f3rias, e o meu projeto de poemas minimalistas. As pessoas me perguntam \u201cquando voc\u00ea vai publicar?\u201d, eu falo \u201ct\u00e1 publicado! Vai na internet que voc\u00ea acha\u201d (risos). Mas eu vou publicar sim esse material no papel.<\/p>\n<p><strong>P: Como foi participar da cria\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o de Cultura do Estado e como a cria\u00e7\u00e3o do Mato Grosso do Sul influenciou na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica?<\/strong><\/p>\n<p>L: Foi um per\u00edodo maravilhoso. Meu trabalho era de dar visibilidade para a nossa cultura, al\u00e9m de defini-la. Tive o maior prazer de organizar eventos para mostrar a nossa m\u00fasica, a nossa cultura, a nossa pintura, o nosso cinema, e toda a nossa express\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de Mato Grosso do Sul profissionalizou a minha produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Antes eu fazia porque gostava, era hobby, era legal tocar com meus amigos. Sem pretens\u00f5es, sempre me envolvi com hist\u00f3rias relacionadas ao estado. Mas a partir do momento que eu assumi um trabalho profissional em que eu tinha que dar um resultado profissional, olhei para tudo de outra forma, e busquei me profissionalizar para atender essas exig\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>P: Como avalia a representatividade negra na cultura sul-mato-grossense?<\/strong><\/p>\n<p>L: Existe um nome, doutor Luiz Alexandre de Oliveira, praticamente desconhecido hoje, mas ele \u00e9 o nome de um pedacinho de rua no come\u00e7o da Via Park, logo na sa\u00edda da Afonso Pena. Ele foi um negro, que a m\u00e3e trabalhou em 1914 como cozinheira na cidade. Quase cego, com problema na vis\u00e3o, conseguiu estudar, se formar advogado, e ele pra mim representa o peito e a ra\u00e7a dos negros em Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode perguntar para qualquer personalidade negra do nosso estado, professores e professoras, mestras, doutoras, m\u00e9dicos, sem contar os artistas, como foi chegar ali. Todos v\u00e3o te responder que n\u00e3o foi f\u00e1cil, n\u00e3o foi f\u00e1cil para ningu\u00e9m. Mato Grosso do Sul tem um grupo de pessoas que deram o exemplo e o incentivo para que todos os outros jovens estudantes acreditassem, e dissessem: se ele conseguiu, eu posso tamb\u00e9m. E n\u00e3o s\u00f3 a cultura negra, mas a ind\u00edgena tamb\u00e9m. O que n\u00f3s precisamos \u00e9 dar visibilidade e garantir a justi\u00e7a social, dando oportunidades e educa\u00e7\u00e3o para todos, para que cada um crie a sua pr\u00f3pria oportunidade.<\/p>\n<p>Mas eu acredito que a classe pol\u00edtica \u00e9 a grande culpada pela injusti\u00e7a social, porque a partir do momento em que persiste essa cultura centen\u00e1ria de querer enriquecer desde o per\u00edodo colonial, nada anda pra frente. A diferen\u00e7a de oportunidades \u00e9 brutal e criminosa no Brasil.<\/p>\n<p><strong>P: O nosso estado \u00e9 composto de diferentes culturas, como as ind\u00edgenas, paraguaias e bolivianas. Como voc\u00ea definiria essa mistura?<\/strong><\/p>\n<p>L: Mato Grosso do Sul \u00e9 um caldeir\u00e3o. Aqui no sul, temos uma cultura ind\u00edgena forte, apesar de altamente discriminada e v\u00edtima de genoc\u00eddio. Temos uma cultura paraguaia fort\u00edssima, assim como a japonesa. Campo Grande mesmo \u00e9 uma cidade que cresceu na m\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o, \u00e1rabes, libaneses, espanh\u00f3is, japoneses. O MS \u00e9 cheio de portugueses, italianos\u2026 Antigamente quando tinha lista telef\u00f4nica, pod\u00edamos observar a quantidade de sobrenomes italianos. \u00c9 um caldeir\u00e3o de culturas. E todas elas se juntam para criarmos essa cultura cosmopolita que \u00e9 a do nosso estado.<\/p>\n<p><strong>P: Como voc\u00ea caracteriza a identidade sul-mato-grossense?<\/strong><\/p>\n<p>L: Na \u00e9poca em que foi criado o Mato Grosso do Sul, vivemos a efervesc\u00eancia de uma ebuli\u00e7\u00e3o cultural fant\u00e1stica. Quando todos souberam da divis\u00e3o, foi um momento de indaga\u00e7\u00e3o de qual era a nossa m\u00fasica, a nossa literatura, a nossa cara, j\u00e1 que tudo antes era focado em Cuiab\u00e1, distante daqui. Os professores, os universit\u00e1rios, os jornalistas e os intelectuais se reuniram para buscar a identidade de Mato Grosso do Sul. E eu entendo a identidade do estado com um p\u00e9 na raiz e outro no contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>A nossa raiz que vem das fronteiras, como o Chamam\u00e9 que surgiu na Argentina e atrav\u00e9s do Paraguai chegou at\u00e9 aqui e se enraizou, de primeiros m\u00fasicos de raiz como Delio e Delinha, Jandira e Benites, o ritmo da polca paraguaia. E at\u00e9 hoje, quando as novas gera\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a compor, elas beberam nessa fonte, como Almir Sater, Paulo Sim\u00f5es e Geraldo Esp\u00edndola. Ao mesmo tempo, o cinema, a pintura, tamb\u00e9m foram buscar nessas fontes.<\/p>\n<p>Simultaneamente \u00e0s ra\u00edzes, n\u00f3s ouv\u00edamos Beatles, Bob Dylan, sab\u00edamos o que estava acontecendo no eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Os artistas regionais tamb\u00e9m bebiam de uma influ\u00eancia global. Manoel de Barros \u00e9 um exemplo, fala dos passarinhos e dos bichos l\u00e1 do meio do Pantanal de uma forma t\u00e3o contempor\u00e2nea, que j\u00e1 foi at\u00e9 cotado para receber o pr\u00eamio Nobel de Literatura. Temos Humberto Esp\u00edndola nas artes pl\u00e1sticas, artista que inventou o movimento da bovinocultura, mas que exp\u00f5e no mundo inteiro e j\u00e1 foi citado at\u00e9 por Jos\u00e9 Saramago.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-98\/\">voltar a edi\u00e7\u00e3o 98<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lenilde Ramos \u00e9 um \u00edcone sul-mato-grossense. 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