{"id":239,"date":"2019-11-21T16:20:42","date_gmt":"2019-11-21T20:20:42","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=239"},"modified":"2020-06-29T18:40:43","modified_gmt":"2020-06-29T22:40:43","slug":"o-brasil-nao-merece-o-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/o-brasil-nao-merece-o-nordeste\/","title":{"rendered":"O Brasil n\u00e3o merece o nordeste"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-color has-accent-color\"><strong>Texto: <em>Patrick Rosel<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O despertador toca mais cedo. O menino n\u00e3o estava acostumado a acordar naquele hor\u00e1rio, principalmente em manh\u00e3s frias. De sua casa em um bairro nobre no Sudeste do pa\u00eds, j\u00e1 era poss\u00edvel ouvir o barulho da cidade. As malas estavam prontas, mas parece que sabiam que se atrasariam. Mal tiveram tempo para o caf\u00e9 da manh\u00e3. Sempre apressados como se nunca tivessem tempo para nada, sa\u00edram \u00e0s pressas, pois o carro j\u00e1 tinha chegado. Sua m\u00e3e e o motorista se cumprimentaram rapidamente. Apesar de animada ela parecia nervosa. Em dire\u00e7\u00e3o ao aeroporto, o menino olhava pela janela uma paisagem j\u00e1 familiar, uma vez que nasceu e cresceu ali. Grandes pr\u00e9dios cinzas iam em dire\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u nublado. No horizonte, como de costume, carros e motocicletas estagnadas. O ru\u00eddo de buzina vinha de todos os lados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cChegamos!\u201d, disse o motorista meio r\u00edspido. A mulher pegou as malas e em passos apressados arrastou o menino para dentro do aeroporto. Ele conhecia aquele lugar, mas quase n\u00e3o se lembrava. Dentro do avi\u00e3o as poltronas eram grandes e o ar gelado. As pessoas pareciam distra\u00eddas olhando para seus celulares, exceto sua m\u00e3e, que tinha um olhar preocupado. De repente uma voz rob\u00f3tica come\u00e7ou a passar uma s\u00e9rie de instru\u00e7\u00f5es, acompanhadas da aeromo\u00e7a que fazia gestos em forma de m\u00edmica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em algumas horas estaria num lugar do qual sempre ouviu falar. Come\u00e7ou a lembrar dos momentos em que sua m\u00e3e falava com saudade e brilho nos olhos de sua inf\u00e2ncia no interior do Nordeste, \u201cterra de gente boa\u201d, dizia ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegare, um senhor de vestimenta pouco sofisticada, mas de cara muito simp\u00e1tica, esperava por eles. Quando olhou para sua m\u00e3e viu seus olhos marejados e um sorriso que ia de orelha a orelha. O menino podia apostar que era outra pessoa. Em instantes estava abra\u00e7ando aquele que dizia ser seu av\u00f4.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Abra\u00e7o. Isso n\u00e3o era muito frequente de onde vinha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tomaram uma estrada. No caminho, avistava uma paisagem completamente diferente. Sem muitos pr\u00e9dios e com casas simples. O carro desviava dos buracos na estrada. Havia gente sentada em cadeiras de balan\u00e7o na cal\u00e7ada e crian\u00e7as correndo na rua. Ao ver aquilo sorriu. Ele nunca tinha permiss\u00e3o para brincar na rua. Diziam que era perigoso. \u201cN\u00e3o parece perigoso aqui\u201d, pensou ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar se deparou com uma casinha simples pintada de branco e rodeada por uma pequena cerca feita com estacas de madeiras fincadas no ch\u00e3o. No quintal, p\u00e9s de \u00e1rvores frut\u00edferas rodeavam a casa, tornando a paisagem mais aconchegante. O garoto ficou admirado com os p\u00e1ssaros. Era a primeira vez que via, ao vivo, animais daquela esp\u00e9cie. Esse era o lugar do qual sua m\u00e3e sempre lhe contava hist\u00f3rias felizes da inf\u00e2ncia. Apesar de muito simples, a casa era grande e fresca. Na cozinha, uma mulher diante de um grande fog\u00e3o a lenha cantarolava e preparava o almo\u00e7o. Era sua av\u00f3. Emocionada, a senhora lhe abra\u00e7ou e estralou um beijo em sua bochecha, passando a m\u00e3o em seus cabelos como se quisesse ver seu rosto melhor. Ele estranhou o ato, mas poderia facilmente se acostumar com aquilo. Como todos ali, ela tinha a apar\u00eancia cansada, mas o sorriso descontra\u00eddo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Semanas se passaram e tudo era t\u00e3o diferente. Naquele lugar o povo acordava cedo, muito cedo, antes mesmo do sol nascer. Comiam um pouco de qualquer coisa e iam trabalhar sob o sol quente. Pouca diferen\u00e7a tinha se era ter\u00e7a-feira ou domingo. Raramente paravam de trabalhar. Mas os dias de festa junina eram a maior farra. A casa enchia de gente alegre falando alto, exaltando a chance divina de estarem vivos em mais um ano. Comemoravam tudo com comida, fogueira, m\u00fasica e um arrasta p\u00e9 que ia at\u00e9 o amanhecer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia antes de partirem, arrumando as malas, sua av\u00f3 respondeu aos questionamentos de sua m\u00e3e sobre continuar vivendo ali: \u201cNos dias de hoje as coisas est\u00e3o melhores, foi \u00e9poca em que n\u00e3o tinha \u00e1gua, luz, muito menos asfalto. Mas a gente n\u00e3o se lamentava n\u00e3o, viu. Que nem voc\u00ea, muita gente saiu daqui com o cora\u00e7\u00e3o partido que s\u00f3 pra buscar vida melhor na cidade grande. Um tempo depois as coisas come\u00e7aram a melhorar. Veio um cabra a\u00ed, disse que era pol\u00edtico, fez muita coisa boa, deu oportunidade&#8230; quem \u00e9 do Nordeste sabe\u201d, disse com olhar reflexivo.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia de partirem, acordaram cedo como de costume. Na mesa o caf\u00e9 da manh\u00e3 de despedida. Sua av\u00f3 manuseava as panelas gastas de a\u00e7o e seu av\u00f4 sentava-se \u00e0 mesa segurando uma caneca fumegante enquanto ria das pr\u00f3prias piadas. Olhando para eles o menino via como era a vida naquele lugar. Como as coisas passavam devagar e isso estava muito longe de ser um problema. A gentileza e o cuidado com o outro eram a regra. A simplicidade n\u00e3o significava nada, mas ao mesmo tempo significava tudo. Por isso o menino via o sorriso no rosto de um povo que apesar das dificuldades e dos sofrimentos conseguia ser feliz.&nbsp;<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Patrick Rosel O despertador toca mais cedo. O menino n\u00e3o estava acostumado a acordar naquele hor\u00e1rio, principalmente em manh\u00e3s frias. De sua casa em um bairro nobre no Sudeste do pa\u00eds, j\u00e1 era poss\u00edvel ouvir o barulho da cidade. As malas estavam prontas, mas parece que sabiam que se atrasariam. 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