{"id":241,"date":"2019-11-21T16:24:00","date_gmt":"2019-11-21T20:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=241"},"modified":"2020-06-29T18:38:02","modified_gmt":"2020-06-29T22:38:02","slug":"clair-de-lune","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/clair-de-lune\/","title":{"rendered":"Clair de Lune"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cGracias a la vida, Que me ha dado tanto\u201d &#8211; Violeta Parra<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-accent-color\"><strong>Texto: <em>Francisco Guitti<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sumiram todos. E o gato pescou uma sombra na soleira da porta \u2013 J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 troncos, bundas ou pernas pendulando na casa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Bom. \u00d3timo, na verdade, n\u00e3o Os\u00f3rio?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e3o, um imenso dogue alem\u00e3o deitado na varanda, vagando em sonhos, ao lado da cadeira de balan\u00e7o, ergueu o sobrolho de sobressalto e virou os olhos em dire\u00e7\u00e3o ao gato, repuxando a orelha.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c3hn? Que disse Alfredo?&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e1 \u2013 resmungou o gato, lambendo o peito e uns carrapichos do campo apanhados na fazenda vizinha \u2013 deixa pra l\u00e1. Ali\u00e1s, j\u00e1 notou que voc\u00ea est\u00e1 ficando velho, meu caro?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Oras&#8230; c-como assim&#8230; N-N\u00e3o! Estava apenas cochilando. Eis porque n\u00e3o o ouvi&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E lan\u00e7ou m\u00e3o de um brutal bocejo, mostrando a falta dos incisivos inferiores.<\/p>\n\n\n\n<p>Alfredo escrutinou, pensou com os pelos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e1. Melhor n\u00e3o levar adiante. Ele n\u00e3o entenderia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o, entretanto, permanecia sendo aquela primeira: o que fazer enquanto eles n\u00e3o chegam? O que fazer enquanto Ti\u00eapo e Am\u00e9lia prestavam suas contas \u00e0 Deus, contando o tempo em ter\u00e7os de vida?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Escuta, Os\u00f3rio! Vou dar uma volta por a\u00ed, ver se encontro Claire&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Rapaz&#8230; veja o que vai aprontar.<\/p>\n\n\n\n<p>E solta outro bocejo esbaforido enquanto co\u00e7a a orelha com a pata traseira.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Aquela menina j\u00e1 passou por maus bocados. N\u00e3o torne as coisas piores&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ah, meu caro amigo, alguma vez j\u00e1 viu eu me intrometendo na vida alheia?<\/p>\n\n\n\n<p>Alfie pulou do breve lance de escadas que descia da varanda ao quintal. E deste \u00faltimo, mais \u00e0 frente, come\u00e7ava o que ele chamava de <em>\u201cThe Johnson\u2019s Fork\u201d<\/em> ou <em>\u201cThe Devil\u2019s Fork\u201d<\/em>. Enfim, havia aprendido sobre o m\u00fasico \u2013 <em>Robert Johnson <\/em>\u2013 enquanto ouvia os discos de seu dono na vitrola. Postava-se em seu colo e Ti\u00eapo o amaciava enquanto soprava o vento da varanda em densas baforadas de cachimbo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou a esquerda da encruzilhada, engatinhando, marchando e engatando a marcha ao longo da cerca.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ei! Alfie! Aqui em cima!<\/p>\n\n\n\n<p>Alfie logrou de olh\u00e1-la a tempo de subir a cerca antes que uma caminhonete passasse.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Uou! \u2013 <em>Cof! Cof!<\/em> \u2013 Quem era aquele? \u2013 <em>Cof! Cof! Cof!<\/em> \u2013 que poeira&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ah&#8230; acho que era Tommy, o filho de Thomas \u2013 respondeu Claire \u2013 sempre t\u00e3o apressado. N\u00e3o sei pra qu\u00ea. Afinal, todos eles andam apressados, ainda que vivendo aqui nesse fim de mundo coberto de milho, pasto e&#8230; Olha! \u2013 ela aponta com os olhos \u2013 um p\u00e1ssaro!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Clai-re&#8230; n\u00e3o se mova \u2013 ele diz, sem tirar os imensos, v\u00edtreos, viperinos e extasiados globos oculares da ave \u2013 este \u00e9 m-meu.<\/p>\n\n\n\n<p>Seus bigodes tremem, o nariz tramita o plano e o corpo entra em um perplexo estado nevr\u00e1lgico numa tentativa aviltante de eviscerar a ave.<\/p>\n\n\n\n<p><em>BANG!!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os dois saem descompassados pelo milharal, pulando galhos e amortecendo a queda. Param na beira do lago, antes de serem notados pelas vacas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Que mis\u00e9ria foi essa, Claire?! Como assim?! UM TIRO! Um tiro em pleno inverno, \u00e0s quatro horas da tarde! Como podem deix\u00e1-los andarem armados desse jeito? Ca\u00e7ando pombas, ratos, raposas&#8230; e agora&#8230; gatos! \u00d3, Claire! Que absurdo s\u00e3o alguns destes b\u00edpedes humanoides&#8230; &#8230; &#8230; Claire&#8230;?<\/p>\n\n\n\n<p>Pobre, pequena, Claire. Dos olhinhos amendoados, pescando num azul-celeste alguma primavera. N\u00e3o, n\u00e3o teve jeito para Alfie. Que tr\u00e1gica e injusta cena&#8230; que contraste alquebrado aquele: o sangue borbotando no fino e branco pelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Alfie, de consci\u00eancia boquiaberta, saiu em disparada. N\u00e3o porque quisesse, n\u00e3o porque n\u00e3o amasse. N\u00e3o. S\u00f3 n\u00e3o sabia \u2013 tal qual gato que era \u2013 lidar com a perda e o pavor de a ter perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim chegou \u00e0 casa. Cansado, empesteado de pensamentos paralisantes. Olhou para Os\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Que houve, rapaz?&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E num gesto sem sentido, Alfie desabou no colo do c\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; O que faz a velhice quando come\u00e7a a perder todos aqueles que ama, Os\u00f3rio?<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e3o levantou a cabe\u00e7a e olhou o p\u00e1lido horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o sei os outros, rapaz, mas n\u00f3s cantamos \u00e0 lua. Veja voc\u00ea: ainda que seja somente o reflexo da luz do sol, ela n\u00e3o se deixa abater por seu infort\u00fanio.&nbsp;<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cGracias a la vida, Que me ha dado tanto\u201d &#8211; Violeta Parra Texto: Francisco Guitti Sumiram todos. 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