{"id":2423,"date":"2022-07-04T17:16:51","date_gmt":"2022-07-04T21:16:51","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=2423"},"modified":"2022-07-04T17:17:16","modified_gmt":"2022-07-04T21:17:16","slug":"sobre-trilhos-e-despedidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/sobre-trilhos-e-despedidas\/","title":{"rendered":"Sobre trilhos e despedidas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/simonegallassi\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.instagram.com\/simonegallassi\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Simone Gallassi<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Enquanto este velho trem atravessa o Pantanal, levanto-me despertado pelos raios de sol que passam pela janela de madeira e vidro, que se abre para dentro iluminando a colorida casa de tijolinhos. Um caf\u00e9 passado no coador de pano e uma chipa rec\u00e9m-sa\u00edda do forno, visto a cal\u00e7a de alfaiataria, sapatos de couro e camisa social com o cl\u00e1ssico pequeno pente fino e uma caneta no bolso, compondo o traje de mais um ferrovi\u00e1rio respons\u00e1vel pela confer\u00eancia de bagagem no trem que une as terras alag\u00e1veis do oeste ao centro econ\u00f4mico brasileiro no estado de S\u00e3o Paulo. No r\u00e1dio toca uma moda de viola das boas &#8211; penso ser Ti\u00e3o Carreiro, sempre \u00e9 ele &#8211; que inspira um beijo na mulher que preparou o caf\u00e9 e a chipa, e um afago nas crian\u00e7as, que tamb\u00e9m j\u00e1 devem se levantar para o col\u00e9gio. \u00c9 hora da despedida rumo a mais um dia de trabalho na esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo caminho, tantas outras casas coloridas, tantas outras janelas de madeira, tantos outros ferrovi\u00e1rios saindo com o pente fino no bolso pelas ruas de paralelep\u00edpedos que levam \u00e0 esta\u00e7\u00e3o da ferrovia. Antes de chegar ao armaz\u00e9m, uma parada no escrit\u00f3rio da Noroeste do Brasil para bater o ponto, encontrar os colegas, perguntar o resultado do jogo do Oper\u00e1rio no dia anterior e comentar como o vento sul est\u00e1 trazendo o frio, e que por isso \u00e9 melhor j\u00e1 botar o poncho no sol no dia seguinte. Antes mesmo que possa dirigir-me ao armaz\u00e9m de bagagens, j\u00e1 se escuta o apito distante que anuncia a chegada da Maria Fuma\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o poucos metros entre esta\u00e7\u00e3o e armaz\u00e9m, por onde se cruza de um tudo: viajantes bem trajados, vendedores ambulantes e bolivianos e paraguaios a conversar em outras l\u00ednguas e dialetos. Dividem a via em certo n\u00edvel de harmonia os autom\u00f3veis, pedestres e at\u00e9 algumas charretes, num vaiv\u00e9m que d\u00e1 ares de metr\u00f3pole a essa capital t\u00e3o nova. Olhando para tr\u00e1s, n\u00e3o se pode negar: foi o trem quem trouxe a modernidade para estas terras. E por falar no trem, l\u00e1 vem ele\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Pela porta dos fundos do armaz\u00e9m entra o som cada vez mais alto. Os trilhos j\u00e1 come\u00e7am a vibrar, assim como o p\u00fablico, que n\u00e3o espera a chegada da locomotiva somente pela sua utilidade \u2013 \u00e9 quase que um evento, que j\u00e1 ganhou at\u00e9 m\u00fasica, pintura, fotografia, filmagens\u2026 Tudo mais que merecido! Assim como uma penca de colegas, inclino-me para observar a aproxima\u00e7\u00e3o do trem que j\u00e1 passa pela rotunda, num tic-tac cada vez mais lento que anuncia o momento de pegar as malas que v\u00e3o para o vag\u00e3o de bagagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Encaixadas uma a uma, organizadas por destino, tamanho e peso, sempre deixam no ar uma indaga\u00e7\u00e3o, de para onde v\u00e3o, quais mem\u00f3rias carregam, que hist\u00f3rias h\u00e1 por tr\u00e1s de cada tralha. N\u00e3o chego nem a ver os rostos da maioria dos propriet\u00e1rios, s\u00e3o s\u00f3 pe\u00e7as retangulares em couro, madeira e metal, identificadas por etiquetas. Bem, talvez n\u00e3o sejam s\u00f3 isso, quando colocadas no vag\u00e3o do trem se tornam compartimentos que guardam peda\u00e7os da vida de cada viajante que atravessa o Pantanal.<\/p>\n\n\n\n<p>Apita o trem, giram as rodas, rangem os trilhos, abanam as m\u00e3os pelas janelas, choram as m\u00e3es na plataforma e correm as crian\u00e7as a competir com a locomotiva que parte para mais uma viagem rumo a Bauru, bem em tempo do intervalo para almo\u00e7o e quem sabe at\u00e9 uma sesta, j\u00e1 que \u00e9 s\u00f3 mais uma semana tranquila e h\u00e1 muito pouco o que se fazer. Tranquila at\u00e9 demais talvez\u2026 Desde a divis\u00e3o do estado j\u00e1 se nota a queda nas viagens, j\u00e1 s\u00e3o cada vez mais carros na rua, \u00f4nibus mais velozes, e vez ou outra um avi\u00e3o corta o c\u00e9u &#8211; ouvi dizer at\u00e9 que quem antes observava a partida do trem agora vai pros lados da sa\u00edda para Terenos, v\u00ea-los decolar e pousar.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma sesta, duas, tr\u00eas, todas as tardes, todos os dias, cada vez menos trabalho\u2026 Passam meses, anos e o tic-tac foi se apagando, sumindo no ar como a fuma\u00e7a da Maria. A terra cobrindo os trilhos, o asfalto tomando conta, a rodovi\u00e1ria cresceu tanto que precisou mudar de lugar. Trem de bagagem, de passageiros, de turismo, virou trem de mem\u00f3ria. Ponto de parada virou ponto de turismo, plataforma virou cultural, armaz\u00e9m virou cultural, profiss\u00e3o ferrovi\u00e1rio virou lembran\u00e7a. Hoje acordo da sesta e resta caminhar pelos trilhos, admirar a rotunda vazia, esperar o p\u00f4r do sol por tr\u00e1s da orla ferrovi\u00e1ria. Mas juro de p\u00e9 junto que, vez ou outra, ainda se escuta o apito, o tic-tac, a vibra\u00e7\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o batendo desigual, com a lembran\u00e7a do que um dia foi o velho trem que cruzava o cora\u00e7\u00e3o do Brasil, sobre todos os trilhos da terra.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-98\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 98<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Simone Gallassi Enquanto este velho trem atravessa o Pantanal, levanto-me despertado pelos raios de sol que passam pela janela de madeira e vidro, que se abre para dentro iluminando a colorida casa de tijolinhos. 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