{"id":2724,"date":"2022-11-28T14:55:26","date_gmt":"2022-11-28T18:55:26","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=2724"},"modified":"2024-09-16T20:37:55","modified_gmt":"2024-09-17T00:37:55","slug":"cmon-cmon-e-a-arte-de-seguir-em-frente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/cmon-cmon-e-a-arte-de-seguir-em-frente\/","title":{"rendered":"C\u2019mon C\u2019mon e a arte de seguir em frente"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/mauaguiarr\/?hl=pt\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.instagram.com\/mauaguiarr\/?hl=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Maur\u00edcio Aguiar<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity\" \/>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea pensa no futuro, como voc\u00ea imagina que ele ser\u00e1? O que vai ficar com voc\u00ea e o que voc\u00ea vai esquecer? O conceito de mem\u00f3ria n\u00e3o est\u00e1 restrito apenas \u00e0 lembran\u00e7a, mas tamb\u00e9m ao esquecimento. Esquecer \u00e9 lembrar e vice-versa. O fil\u00f3sofo franc\u00eas Henri Bergson um dia comparou a mem\u00f3ria \u00e0 \u00e1gua, armazenada na grande caixa d\u2019\u00e1gua que \u00e9 nosso c\u00e9rebro, que atua como um filtro, deixando apenas a quantidade necess\u00e1ria passar, o suficiente para nos manter como seres conscientes. J\u00e1 Nietzsche garante que esquecer seria essencial para nos manter como pessoas n\u00e3o ressentidas, n\u00e3o melanc\u00f3licas e n\u00e3o nost\u00e1lgicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u2018Sempre em Frente\u2019 (C\u2019mon C\u2019mon), o sens\u00edvel drama-document\u00e1rio em preto e branco do diretor norte-americano Mike Mills, indicado ao Oscar por \u2018Mulheres do S\u00e9culo 20\u2019, a mem\u00f3ria \u00e9 o principal protagonista \u2013 e tamb\u00e9m antagonista. Johnny (Joaquin Phoenix) \u00e9 um radialista que viaja os Estados Unidos entrevistando crian\u00e7as sobre suas vis\u00f5es de futuro, at\u00e9 que recebe a miss\u00e3o de cuidar de Jesse (Woody Norman), seu sobrinho de nove anos e filho de sua distante irm\u00e3, Viv (Gabby Hoffmann). A \u00faltima vez que a fam\u00edlia esteve junta foi na morte da m\u00e3e de Johnny e Viv. O jornalista fica surpreso em saber que o sobrinho n\u00e3o se lembrava dele, a m\u00e3e justifica: um ano \u00e9 muito para uma crian\u00e7a de nove anos.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Resenha-Cmon-Cmon-2-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2765\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Resenha-Cmon-Cmon-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Resenha-Cmon-Cmon-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Resenha-Cmon-Cmon-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Resenha-Cmon-Cmon-2-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Resenha-Cmon-Cmon-2-1250x834.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Resenha-Cmon-Cmon-2-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Resenha-Cmon-Cmon-2.jpg 1300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Joaquin Phoenix e o novato Woody Norman d\u00e3o vida a uma das melhores duplas da hist\u00f3ria do cinema. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/a24films.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Est\u00fadio A24<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Os personagens s\u00e3o marcados pelos complexos relacionamentos familiares e paradoxos geracionais. Johnny e Viv deixaram de se falar depois da morte da m\u00e3e de ambos, que tinha dem\u00eancia. Viv se irritava ao ver o irm\u00e3o entrar nas fantasias patol\u00f3gicas da m\u00e3e \u00e0 beira da morte, agora, Johnny acha um absurdo a irm\u00e3 alimentar o faz-de-conta de Jesse, que finge ser uma crian\u00e7a \u00f3rf\u00e3 toda vez que sente que precisa desabafar. A incongru\u00eancia mostra que a inf\u00e2ncia e a velhice s\u00e3o, de fato, dois extremos que completam o mesmo ciclo. Na dem\u00eancia, as alucina\u00e7\u00f5es s\u00e3o percep\u00e7\u00f5es sensoriais causadas pelo avan\u00e7o de uma doen\u00e7a que s\u00f3 vai piorar, j\u00e1 o faz-de-conta \u00e9 uma artimanha infantil para comunicar aquilo que n\u00e3o se sabe dizer. Aprender e desaprender.<\/p>\n\n\n\n<p>No filme, tudo aquilo que n\u00e3o \u00e9 dito \u00e9 relembrado atrav\u00e9s de flashbacks, alguns, s\u00e3o lembran\u00e7as que os personagens gostariam de esquecer, mas que necessitam lembrar. \u00c0s vezes, para seguir em frente, \u00e9 preciso fazer as pazes com o passado e confrontar sua pr\u00f3pria mem\u00f3ria. Esquecer n\u00e3o \u00e9 um ato arbitr\u00e1rio, mas natural. Jesse fica revoltado ao ouvir do tio que, quando crescer, n\u00e3o ir\u00e1 lembrar dos momentos que passaram juntos e para garantir que o sobrinho n\u00e3o esque\u00e7a, Johnny grava uma fita para lembr\u00e1-lo. Fortemente influenciado pela ess\u00eancia biogr\u00e1fica do jornalismo, \u2018Sempre em Frente\u2019 mostra como a mem\u00f3ria pode ser eternizada por meio de registros diversos que aqui, s\u00e3o representados pelas grava\u00e7\u00f5es de \u00e1udio.<\/p>\n\n\n\n<p>A oralidade e o di\u00e1logo est\u00e3o sempre presentes na hist\u00f3ria, que \u00e9 intercalada com entrevistas n\u00e3o-ficcionais com crian\u00e7as e adolescentes de diferentes cidades americanas, como Detroit, Nova Iorque e Nova Orle\u00e3es. As entrevistas d\u00e3o ao filme um car\u00e1ter documental, passeando pelas hist\u00f3rias, expectativas e frustra\u00e7\u00f5es dos jovens de diferentes classes sociais que se mostram inquietamente preocupados com o mundo que encontrar\u00e3o quando crescerem. A preocupa\u00e7\u00e3o real dos jovens \u00e9 o press\u00e1gio de um futuro que n\u00e3o ser\u00e1 nem um pouco gentil com o incompreendido Jesse e com todas as outras crian\u00e7as que assim como ele, n\u00e3o conseguem se encaixar por algum motivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das entrevistas, a hist\u00f3ria tamb\u00e9m d\u00e1 espa\u00e7o para as variadas leituras faladas de Johnny. Em uma delas, \u2018An Incomplete List of What the Cameraperson Enables\u2019, de Kirsten Johnson, o personagem narra que, para a pessoa que est\u00e1 sendo entrevistada, a posi\u00e7\u00e3o permite a cria\u00e7\u00e3o de uma imagem de si mesmo e sua perpetua\u00e7\u00e3o para toda a eternidade, um convite para pensar em um futuro quando n\u00e3o se estar\u00e1 mais vivo, mas que aquilo que diz ainda ser\u00e1 preservado de certa maneira. O jornalismo e a documenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o capazes de preservar hist\u00f3rias e personagens para todo o sempre, impondo \u00e0 mem\u00f3ria uma particularidade perene que atravessa a temporalidade daqueles que a produzem, o pr\u00f3prio Johnny confidencia a Jesse que o poder da grava\u00e7\u00e3o est\u00e1 em \u201ctornar as coisas mundanas imortais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, esse \u00e9 o grande mote de \u2018Sempre em Frente\u2019: imortalizar as coisas mais fr\u00e1geis e delicadas. Uma das crian\u00e7as entrevistadas para a produ\u00e7\u00e3o, Devante Bryant, que tinha nove anos na \u00e9poca das filmagens \u2013 coincidentemente, a mesma idade de Jesse \u2013 se recusa a responder algumas perguntas com certo charme envergonhado, preferindo guardar para si o que \u00e9 sagrado, como uma das jornalistas do filme descreve. Devante foi assassinado seis meses ap\u00f3s o fim das filmagens, v\u00edtima de um tiroteio em frente a sua pr\u00f3pria casa, em Nova Orle\u00e3es. Para Devante, o filme dedica o seu \u00fanico frame em cor enquanto eterniza sua exist\u00eancia, mesmo que passageira, na mem\u00f3ria daqueles que assistem. O filme acaba, alguns esquecem, seguimos em frente.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-horizontal is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-499968f5 wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-text-color has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-99\/\">Voltar para edi\u00e7\u00e3o 99<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maur\u00edcio Aguiar Quando voc\u00ea pensa no futuro, como voc\u00ea imagina que ele ser\u00e1? O que vai ficar com voc\u00ea e o que voc\u00ea vai esquecer? O conceito de mem\u00f3ria n\u00e3o est\u00e1 restrito apenas \u00e0 lembran\u00e7a, mas tamb\u00e9m ao esquecimento. 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