{"id":2737,"date":"2022-11-28T08:27:41","date_gmt":"2022-11-28T12:27:41","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=2737"},"modified":"2022-11-29T16:57:43","modified_gmt":"2022-11-29T20:57:43","slug":"por-tras-da-muralha-amarela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/por-tras-da-muralha-amarela\/","title":{"rendered":"Por tr\u00e1s da muralha amarela"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Douglas  Nestor Jost Rebelato<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Quando me mudei para Campo Grande em setembro de 2020, n\u00e3o tinha ideia de como minha vida seria em um novo estado. Na primeira vez que andei pelas ruas da capital, me animei ao descobrir o que era uma chipa. Ao visitar os grandes shoppings e parques que essa linda cidade possui, acabei nem dando bola para aquele grande muro amarelo que ocupava mais da metade da quadra onde moro.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Olho-Magico-1-1024x1003.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2740\" width=\"593\" height=\"580\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Olho-Magico-1-1024x1003.jpeg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Olho-Magico-1-300x294.jpeg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Olho-Magico-1-768x752.jpeg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Olho-Magico-1-400x392.jpeg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Olho-Magico-1.jpeg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 593px) 100vw, 593px\" \/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o:<span style=\"color:#ffffff\" class=\"tadv-color\"> <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/be.are_\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Beare<\/a><\/span><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Com a chegada do dia da Inf\u00e2ncia e da Semana Nacional da Pessoa com Defici\u00eancia Intelectual e M\u00faltipla, no final do m\u00eas de agosto de 2022, me perguntei: \u2018Quais institui\u00e7\u00f5es aqui de Campo Grande trabalham com esses grupos?\u2019 A surpresa foi descobrir que aquela muralha amarela perto de casa acolhia \u2018crian\u00e7as\u2019 com paralisia cerebral grave, agindo como uma creche para as que vivem em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza. Atr\u00e1s da muralha est\u00e1 o <a href=\"https:\/\/www.cotolengo.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cotolengo Sul-Mato-Grossense.<\/a> Decidi visitar o local, pensando que encontraria os pequenos atendidos pelo projeto. N\u00e3o foi o que encontrei.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar ao Cotolengo, segui o caminho at\u00e9 a secretaria, para descobrir um pouco mais sobre o local. \u00c0 primeira vista, a organiza\u00e7\u00e3o me lembrou um col\u00e9gio. Bem na frente da entrada vi uma grande constru\u00e7\u00e3o amarela, era o pavilh\u00e3o da comunidade, onde v\u00e1rios eventos s\u00e3o realizados com o trabalho volunt\u00e1rio de mais de 100 pessoas, em busca de doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A recepcionista que me atendeu me contou como a institui\u00e7\u00e3o, fundada por S\u00e3o Lu\u00eds Orione, promove ajuda e tratamento para pessoas com defici\u00eancia em diversos pa\u00edses. Na Cidade Morena, foi inaugurada em 1996. Seu atual presidente, Padre Valdeci Marcolino, possui um lema que corre solto pelos corredores de acolhimento. \u201cAqui n\u00e3o tem religi\u00e3o ou ra\u00e7a, acolhemos todos\u201d.<\/p>\n<p>Visitei os diferentes espa\u00e7os do Cotolengo, iniciando pelo pavilh\u00e3o conhecido como \u2018Ala Sol\u2019. Fiquei espantado ao descobrir que a maioria das pessoas, que honestamente tinham estatura de adolescentes, eram adultos. Ao ver minha express\u00e3o, uma enfermeira me contou que a institui\u00e7\u00e3o considera todas as pessoas acolhidas ali como \u2018crian\u00e7as\u2019, devido a sua altura e mentalidade, muitas delas com dificuldade de desenvolvimento por causa da paralisia cerebral grave, sem falar nas outras complica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em uma sala pr\u00f3xima, macas estavam por todos os cantos, pacientes estavam sendo alimentados em cadeiras de rodas e entre eles, estava Tamire, de 22 anos. A enfermeira me contou um pouco sobre a garota. Tamire frequenta a institui\u00e7\u00e3o h\u00e1 exatamente uma d\u00e9cada, sua condi\u00e7\u00e3o melhorou a ponto de poder correr. Mas, a pandemia e a impossibilidade da institui\u00e7\u00e3o de continuar atender as pessoas durante esse per\u00edodo de tempo, fez com que esse progresso fosse infelizmente perdido.<\/p>\n<p>Seguindo em frente, me vi na ala do Centro de Reabilita\u00e7\u00e3o, com uma estrutura quase impec\u00e1vel, aparentemente, mais recente. Nessa hora percebi como a televis\u00e3o, a m\u00fasica, shows e desenhos s\u00e3o grandes aliados das enfermeiras na hora de entreter as crian\u00e7as, que mesmo com suas peculiaridades, possuem gostos espec\u00edficos e sabem bem o que querem ver e ouvir.<\/p>\n<p>Um dos assistentes me levou a uma \u00e1rea mais reservada do Cotolengo, a Resid\u00eancia. Nela, 10 pessoas de diferentes idades vivem como se ali fosse seu pr\u00f3prio lar. Os muitos funcion\u00e1rios daquela se\u00e7\u00e3o s\u00e3o chamados carinhosamente de \u2018pai\u2019 e \u2018m\u00e3e\u2019. Ali conheci Maria Jos\u00e9, uma \u2018crian\u00e7a\u2019 curiosa e de passos r\u00e1pidos que veio at\u00e9 mim enquanto eu conversava com a nutricionista da resid\u00eancia. Me envergonhei quando a \u2018crian\u00e7a\u2019 disse que tinha gostado muito de mim. Pr\u00f3ximo dali o mesmo assistente social observou a intera\u00e7\u00e3o com um olhar de choque e \u2018trai\u00e7\u00e3o\u2019, afinal Maria sempre afirmava que gostava dele. Maria Jos\u00e9 compartilhou sorridente um pouco de seu mundo comigo.\u201d Encontrei um milh\u00e3o de d\u00f3lares embaixo do sof\u00e1\u201d, me disse em palavras lentas. \u201cEu te vejo ganhando um carr\u00e3o zero quilometro\u201d. Respondi entre risos: \u201cQue Deus te escute\u201d.<\/p>\n<p>Ao sair da organiza\u00e7\u00e3o, percebi algo que o mundo n\u00e3o \u00e9 pequeno, ele \u00e9 enorme, e h\u00e1 muita gente deixada de lado pela sociedade. \u00c9 necess\u00e1rio promover a visibilidade de institui\u00e7\u00f5es como o Cotolengo, que n\u00e3o medem esfor\u00e7os para trazer o amparo a pessoas necessitadas que infelizmente n\u00e3o possuem condi\u00e7\u00f5es de buscar os tratamentos essenciais para conter o avan\u00e7o e complica\u00e7\u00f5es causadas pela paralisia cerebral grave.<\/p>\n<p>J\u00e1 do outro lado da muralha, todos os pensamentos e sensa\u00e7\u00f5es que senti dominaram o meu corpo e mente, um sentimento estranho, uma mistura confusa de amor e carinho, com piedade e receio. Ultrapassar a muralha amarela me colocou em um lugar de quebra de expectativas, que me deixou sem palavras.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-99\/\">Voltar para edi\u00e7\u00e3o 99<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Douglas Nestor Jost Rebelato Quando me mudei para Campo Grande em setembro de 2020, n\u00e3o tinha ideia de como minha vida seria em um novo estado. Na primeira vez que andei pelas ruas da capital, me animei ao descobrir o que era uma chipa. 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