{"id":2743,"date":"2022-11-28T08:26:04","date_gmt":"2022-11-28T12:26:04","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=2743"},"modified":"2022-11-28T08:26:20","modified_gmt":"2022-11-28T12:26:20","slug":"que-comece-o-matriarcado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/que-comece-o-matriarcado\/","title":{"rendered":"Que comece o matriarcado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Douglas Nestor Jost Rebelato<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>O que \u00e9, o que \u00e9? N\u00e3o usa coroa, mas age como realeza, serena, mas detalhista, n\u00e3o ouve bem, mas conta grandes hist\u00f3rias? Essa adivinha\u00e7\u00e3o pede uma viagem entre mem\u00f3rias-chave de anos da vida de uma matriarca.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Portrait-of-senior-woman-online.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2745\" width=\"437\" height=\"285\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Portrait-of-senior-woman-online.jpg 401w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Portrait-of-senior-woman-online-300x195.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 437px) 100vw, 437px\" \/><figcaption>Foto: <a href=\"https:\/\/br.freepik.com\/fotos-gratis\/retrato-de-mulher-senior-segurando-o-album-de-fotos_6389734.htm#query=senhora%20idosa%20album%20de%20fotos&amp;position=0&amp;from_view=search&amp;track=sph\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Freepik<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ao virar as p\u00e1ginas do \u00e1lbum de mem\u00f3rias, o ano de 1945 chega com uma informa\u00e7\u00e3o [n\u00e3o mais] bomb\u00e1stica pelo r\u00e1dio: o fim da segunda guerra mundial, que traz um grande al\u00edvio entre os familiares da menina de cinco anos, que n\u00e3o mais precisaria puxar sua irm\u00e3 g\u00eamea para baixo das camas quando um avi\u00e3o sobrevoasse a pequena resid\u00eancia no interior ga\u00facho.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de dez anos se passaram e em setembro de 1956, tempo em que as garotas que acabaram de florescer deveriam buscar rapidamente um marido. A menina, agora mo\u00e7a com 16 anos, \u00e9 convidada &#8211; junto da irm\u00e3 g\u00eamea &#8211; para uma matin\u00ea dan\u00e7ante.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta festa, um cavalheiro charmoso de cal\u00e7a e camisa a convida para dan\u00e7ar. Ambos se divertem at\u00e9 a menina ser levada embora, pela orelha, por um de seus familiares. O rel\u00f3gio acabava de bater 16h30, trinta minutos a mais do hor\u00e1rio de mo\u00e7as direitas voltarem para casa. Em um curto tempo, aquele cavalheiro encantou a dama e esse encontro gerou v\u00e1rios frutos ap\u00f3s um matrim\u00f4nio em 1960.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro do mesmo ano, o choro de uma pequena guria ecoava no camp\u00e3o ga\u00facho, acordando o jovem casal. A mo\u00e7a, agora mulher, se levanta apressada para cuidar de sua primog\u00eanita. Uma rotina que se repetiu, sem pausas, durante as cinco gesta\u00e7\u00f5es consecutivas. A vida de casada tinha seus altos e baixos, em uma \u00e9poca em que mulheres eram tratadas como objetos por seus maridos e orientadas, exclusivamente, \u00e0 maternidade e \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher de 30 anos, contudo, n\u00e3o abaixava a cabe\u00e7a para ningu\u00e9m, sua l\u00edngua afiada foi a principal causa das brigas entre o casal. O esposo, n\u00e3o gostava que o pessoal da pequena vila falasse mal de sua esposa. Na mente do senhor, para defender \u201ca honra\u201d de sua esposa, deveria apertar os punhos e assumir controle da situa\u00e7\u00e3o, decidindo por ser mais r\u00edgido e controlador com a mulher. A mulher, agora esposa e m\u00e3e, entristecia com o passar dos anos. O vai e vem das esta\u00e7\u00f5es fazia seus filhos crescerem rapidamente diante de seus olhos, \u00e0s vezes, at\u00e9 r\u00e1pido demais\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 46 anos de idade, a mulher se colocava a rezar. Em uma tarde de 1986, assistia seus filhos partirem com um olhar tristonho. Uma oportunidade muito esperada havia chegado: a promessa de terras e riquezas no estado de Mato Grosso, que h\u00e1 quase uma d\u00e9cada, havia separado seu territ\u00f3rio em dois. Somente sua primog\u00eanita ficou no Rio Grande do Sul para lhe fazer companhia, o que lhe deu esperan\u00e7a de ver seus netos nascerem e crescerem.<\/p>\n\n\n\n<p>A virada do s\u00e9culo foi dura para a agora senhora. Em 1997 ela perdeu seu marido em uma \u00e1rdua luta contra o c\u00e2ncer de boca. Junto com a tristeza, veio tamb\u00e9m uma sensa\u00e7\u00e3o de algemas se abrindo, pois ela n\u00e3o mais seria aconselhada a se calar diante da pequena vila. Um mar de oportunidades despontava diante da jovem senhora de 57 anos. Suas palavras ganharam for\u00e7a, suas vontades viraram prioridade, a rotina de seus cinco filhos foi moldada para atender seus pedidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os anos, aproveitou sua liberdade para viajar por alguns estados do Brasil, foi Santa Catarina, Paran\u00e1, S\u00e3o Paulo e Goi\u00e1s. Percorreu praias e pontos tur\u00edsticos por onde passava, aproveitando at\u00e9 n\u00e3o poder mais. Ao acabar sua ambi\u00e7\u00e3o, a idosa de 76 anos desejava viver mais pr\u00f3xima de seus filhos, com o espirito livre de sempre, fez as malas e seguiu viagem para Campo Novo do Parecis, j\u00e1 em Mato Grosso, onde lan\u00e7ou sua \u00e2ncora ao mar e nunca mais recolheu.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegar aos 80 anos n\u00e3o foi uma tarefa f\u00e1cil, sua vis\u00e3o e audi\u00e7\u00e3o envelheciam com ela, mas sua l\u00edngua continuava a mesma de seus tempos de adolescente. Reuniu todos os membros da fam\u00edlia para uma grande celebra\u00e7\u00e3o de anivers\u00e1rio no in\u00edcio da pandemia do Covid-19, uma comemora\u00e7\u00e3o \u00e1rdua e complexa, que apesar dos pesares trouxe um baita sorriso ao rosto da idosa-realeza. Ver seus familiares em um s\u00f3 lugar depois de tanto tempo foi emocionante. Na segunda-feira seguinte, todos se despediram e a serena matriarca da fam\u00edlia ficou com a mem\u00f3ria da celebra\u00e7\u00e3o gravada no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao fechar o \u00e1lbum de mem\u00f3rias, percebe-se como um livro familiar \u00e9 capaz de revelar uma grande hist\u00f3ria, hist\u00f3ria que edifica a for\u00e7a do matriarcado. Um legado como esse, \u00e9 muitas vezes perdido em um mar de possibilidades e esquecimento, se n\u00e3o procurar, n\u00e3o ser\u00e1 encontrado. Por que deixar essa for\u00e7a ser esquecida no tempo?<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-99\/\">Voltar PARa edi\u00e7\u00e3o 99<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Douglas Nestor Jost Rebelato O que \u00e9, o que \u00e9? N\u00e3o usa coroa, mas age como realeza, serena, mas detalhista, n\u00e3o ouve bem, mas conta grandes hist\u00f3rias? Essa adivinha\u00e7\u00e3o pede uma viagem entre mem\u00f3rias-chave de anos da vida de uma matriarca. 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