{"id":2863,"date":"2022-11-28T14:23:45","date_gmt":"2022-11-28T18:23:45","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=2863"},"modified":"2022-11-30T19:54:20","modified_gmt":"2022-11-30T23:54:20","slug":"o-mundo-e-o-moinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/o-mundo-e-o-moinho\/","title":{"rendered":"O mundo \u00e9 o moinho"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\">Ian Netto Maciel Gil<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p>Segunda-feira, 8h, o sol come\u00e7a a esquentar na capital do Pantanal. Sala vazia, mas sem sil\u00eancio. Tchaikovsky ao fundo com o famoso repert\u00f3rio mundialmente conhecido para o bal\u00e9, mas que para aquela fila de crian\u00e7as, um ru\u00eddo que come\u00e7a a ter significado. Eu conhe\u00e7o aqueles olhares perdidos, ano por ano esse ciclo se repete. Acompanhar a transforma\u00e7\u00e3o desses olhares \u00e9 fascinante.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"892\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/moinho2-1024x892.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2882\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/moinho2-1024x892.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/moinho2-300x261.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/moinho2-768x669.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/moinho2-1536x1338.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/moinho2-2048x1785.jpg 2048w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/moinho2-1200x1046.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/moinho2-1980x1725.jpg 1980w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/moinho2-1250x1089.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/moinho2-400x349.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Lucas<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Pele escura, p\u00e9s descal\u00e7os, shorts quase maior que as pernas. Se destaca entre as meninas, um \u00fanico menino na sala, no palco dos seus 8 anos. Encara a todos, buscando um rosto conhecido. \u201cCinco, seis, sete e oito\u201d, ouve atentamente as primeiras instru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 coisa de menina? As nossas constru\u00e7\u00f5es sociais sempre limitaram o acesso dos homens \u00e0 cultura do bal\u00e9. Afinal, a cultura tem g\u00eanero? A arte precisa de corpos que queiram ser movidos pela m\u00fasica, de uma democratiza\u00e7\u00e3o que alcancem todos os que queiram entender e se mover com ela. A hist\u00f3ria se repete. Quem rege a aula \u00e9 um dos meninos que um dia tamb\u00e9m foi uma exce\u00e7\u00e3o social, que fez dos meus espa\u00e7os, abrigo. A realidade da pesca sempre foi destino iminente, mas desde que cheguei por aqui, as sapatilhas substitu\u00edram os molinetes, a sala de espelho contrap\u00f5e o cen\u00e1rio do p\u00f4r do sol do pantanal. <\/p>\n\n\n\n<p>Meus corredores j\u00e1 ouviram esse choro estridente e solit\u00e1rio, que chama por sua m\u00e3e. Na aus\u00eancia do colo materno, envolto na solid\u00e3o, ecoa na sua cabe\u00e7a, aquilo que lhe foi dito, no meu port\u00e3o de entrada, na despedida de sua m\u00e3e, a voz mansa, o cabelo preso com algumas mechas soltas, lembran\u00e7a que se for\u00e7a a n\u00e3o esquecer. \u201cPreste aten\u00e7\u00e3o, querido, o mundo \u00e9 o moinho\u201d. Sem saber o mesmo rumo que ir\u00e1 tomar, retorna \u00e0 sala de espelho, os olhos vermelhos, mas sem ar de desist\u00eancia: uma promessa interna que tentar\u00e1. <\/p>\n\n\n\n<p>Meus corredores j\u00e1 ouviram esse choro estridente e solit\u00e1rio, que chama por sua m\u00e3e. Na aus\u00eancia do colo materno, envolto na solid\u00e3o, ecoa na sua cabe\u00e7a, aquilo que lhe foi dito, no meu port\u00e3o de entrada, na despedida de sua m\u00e3e, a voz mansa, o cabelo preso com algumas mechas soltas, lembran\u00e7a que se for\u00e7a a n\u00e3o esquecer. \u201cPreste aten\u00e7\u00e3o, querido, o mundo \u00e9 o moinho\u201d. Sem saber o mesmo rumo que ir\u00e1 tomar, retorna \u00e0 sala de espelho, os olhos vermelhos, mas sem ar de desist\u00eancia: uma promessa interna que continuar\u00e1 tentando.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00e9, n\u00e3o mais descal\u00e7o, estranha a sapatilha, a recusa pelo medo de ser julgado e a prefer\u00eancia por calejar os p\u00e9s, tomado pela d\u00favida de se encaixar em um \u201csapato de menina\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas. N\u00e3o mais o \u00fanico. A presen\u00e7a reconfortante de mais tr\u00eas meninos dentro daquela pequena sala lhe traz sorrisos, uma encarada discreta, que lhe d\u00e1 f\u00f4lego para mais uma aula. A express\u00e3o \u00e9 mais limpa, alguns sorrisos, mas sempre s\u00e9rio. O olhar j\u00e1 come\u00e7ou a se transformar, o moinho mais uma vez girou, e continua a girar. <\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 n\u00e3o faz calor h\u00e1 algum tempo, os rios est\u00e3o cheios, o vento constante balan\u00e7a as \u00e1rvores durante a noite. Alguns meses se passaram, o tempo mudou, mas aqui dentro continua aquecido. Hoje se inicia a prepara\u00e7\u00e3o para o Moinho in Concert. O sol ainda n\u00e3o apareceu, mas (ele) j\u00e1 se encontra de p\u00e9. Casacos colocados, sapatilhas na m\u00e3o e a espera pelo hor\u00e1rio, pronto para o retorno do eu o faz feliz, o bal\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns sonhos mudaram, abandonar as chuteiras e colocar as sapatilhas, n\u00e3o foi um processo f\u00e1cil, nesse moinho de emo\u00e7\u00f5es, alguns choros rasgados durante a noite, ao apego atual pelo seu objeto de trabalho. \u00c9 assim que ele tem visto o bal\u00e9, o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ensaios constantes e a busca pela perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o amedrontam, o pli\u00e9 perfeito, a pirueta bem dada, alonga, pula, abre, fecha &#8230; sequ\u00eancia que se repete na sala de espelhos e no quadrado de palafita na beiro do rio. <\/p>\n\n\n\n<p>A data do espet\u00e1culo, se aproxima, em pouco tempo n\u00e3o ser\u00e1 mais o que \u00e9s. Da realidade da pesca \u00e0 art\u00edstica, esse \u00e9 o caminho dan\u00e7ado que vem sendo tra\u00e7ado. O cabelo alinhado, a roupa de ensaio e horas a fio no pequeno espelho de casa, repete constantemente tudo aquilo que foi feito em aula. N\u00e3o h\u00e1 mais medo, receio ou qualquer sentimento que o restringia de vivenciar o bal\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Risca a pen\u00faltima data do calend\u00e1rio, \u00e9 amanh\u00e3. Antes mesmo dos mosquitos chegarem, em cima do colch\u00e3o no ch\u00e3o, o figurino pronto, sapatilhas novas, embalada ao p\u00e9 da cama e a ansiedade no peito, o dia n\u00e3o acabou, mas h\u00e1 urg\u00eancia do amanh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>O abismo que cavastes com seus p\u00e9s, se torna menor, na beira do palco, uma respira\u00e7\u00e3o profunda, de olhos fechados direciona a f\u00e9 \u00e1 algo que ainda n\u00e3o sabe, mas sente. A orquestra se inicia, aos poucos os movimentos ganham forma, de jeito leve, como se fosse destinado \u00e0quilo, \u00e9 como se sente. \u00c9 a liberdade da arte, \u00e9 o sentimento que faz voar durante saltos e as piruetas. N\u00e3o h\u00e1 express\u00e3o al\u00e9m do sorriso a cada pequeno movimento em cima do palco. O fim se aproxima, se prepara para o \u00faltimo passo, se ajoelha, encontra o rosto de sua m\u00e3e, lhe oferece o sorriso mais sincero e numa troca de olhar, agradece. O moinho est\u00e1 no topo. A cortina se fecha, a luz se apaga, a orquestra fica silenciosa, finalmente os ru\u00eddos t\u00eam sentido, a arte tem sentido. O mundo \u00e9 o moinho.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-99\/\">Voltar para edi\u00e7\u00e3o 99<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ian Netto Maciel Gil Segunda-feira, 8h, o sol come\u00e7a a esquentar na capital do Pantanal. Sala vazia, mas sem sil\u00eancio. Tchaikovsky ao fundo com o famoso repert\u00f3rio mundialmente conhecido para o bal\u00e9, mas que para aquela fila de crian\u00e7as, um ru\u00eddo que come\u00e7a a ter significado. Eu conhe\u00e7o aqueles olhares perdidos, ano por ano esse [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[28],"tags":[],"class_list":["post-2863","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao99"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2863","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2863"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2863\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3247,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2863\/revisions\/3247"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}