{"id":2866,"date":"2022-11-28T14:26:37","date_gmt":"2022-11-28T18:26:37","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=2866"},"modified":"2022-11-28T14:26:39","modified_gmt":"2022-11-28T18:26:39","slug":"do-tempo-para-zelia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/do-tempo-para-zelia\/","title":{"rendered":"Do tempo, para Z\u00e9lia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Maria Luiza Massulo <\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Querida Z\u00ea, <\/span><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 faz um tempo que eu tenho pensado em te escrever. Suas cartas chegaram at\u00e9 mim h\u00e1 meses e, por mais que eu n\u00e3o seja exatamente quem voc\u00ea procura, acredito que voc\u00ea mere\u00e7a uma resposta. Eu sou o passado, a saudade e a mem\u00f3ria. Costumam me chamar de Tempo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"427\" height=\"301\" src=\"http:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Ilustracao-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2868\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Ilustracao-3.jpg 427w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Ilustracao-3-300x211.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Ilustracao-3-400x282.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 427px) 100vw, 427px\" \/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/marinacozta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Marina Cozta<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Para voc\u00ea, hoje com 89 anos, eu realmente n\u00e3o sou mais o mesmo e a linearidade que me acompanhava se perdeu no momento em que o Alzheimer passou a embaralhar as lembran\u00e7as. O tecido fino que separava o pret\u00e9rito do presente j\u00e1 n\u00e3o existe mais e, sutilmente, as recorda\u00e7\u00f5es foram ocupando o espa\u00e7o destinado aos acontecimentos do agora. Apesar da confus\u00e3o causada nesses seus lapsos temporais, quando a saudade vem, tudo se torna poss\u00edvel nas mem\u00f3rias. \u00c9 l\u00e1 onde mora o som do piano que voc\u00ea tocava aos 15 anos, a casa decorada para o natal na inf\u00e2ncia e todos os beijos trocados com Edgar.<\/p>\n\n\n\n<p>Falando em casa, ultimamente tem chovido bastante no Rio de Janeiro e os bailes, que voc\u00ea tanto gostava, ainda acontecem de vez em quando. Os rostos, que antes lhe eram t\u00e3o habituais, aos poucos foram se transformando e, atualmente, andando pelas ruas da cidade, eles n\u00e3o s\u00e3o mais os mesmos. Tudo aquilo que eles viveram, durante esse intervalo em que estiveram distantes, fa\u00e7o quest\u00e3o de traduzir em marcas. As felicidades e m\u00e1goas est\u00e3o expressas nas rugas aparentes. E \u00e0 medida que vou passando, as gera\u00e7\u00f5es v\u00e3o dando lugar \u00e0s pr\u00f3ximas, ao mesmo tempo que conservam um pouco daquilo que fizeram e constru\u00edram. <\/p>\n\n\n\n<p>Sinto te dizer, mas a saudade que te consome \u00e9 um mau quase irremedi\u00e1vel. Ela pode ser definida pela falta que algu\u00e9m faz toda vez que viaja e demora para voltar, assim como Edgar costumava fazer. \u00c9 imposs\u00edvel mensurar a eternidade da qual fa\u00e7o parte, e ainda me \u00e9 um mist\u00e9rio todas as juras de amor eterno que coleciono na minha exist\u00eancia. A promessa de um \u201csempre\u201d \u00e9 a \u00fanica que eu n\u00e3o posso, e nem quero, oferecer, e a consci\u00eancia disso \u00e9 latente na humanidade. Apesar de tudo, a sua promessa continua intacta, assim como a dele, e mesmo quando se lembra de muito pouco ou quase nada, nunca se esquece das sinfonias que costumavam escutar juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sei bem que esperar tem parecido um fardo. A viagem de Edgar nunca acaba, \u00c2ngelo nunca responde aquela carta que voc\u00ea enviou h\u00e1 meses e, pior ainda, mesmo morando a poucos quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, nem se d\u00e1 ao trabalho de ir te visitar. As not\u00edcias da fam\u00edlia do Rio de Janeiro demoram pra chegar e os dias se estendem infinitamente, enquanto voc\u00ea espera apaziguar a saudade. Isso n\u00e3o \u00e9 um privil\u00e9gio da idade, como voc\u00ea gosta tanto de acusar, por mais que seja agravado por ela. Essa esperan\u00e7a, mesmo que angustiante, ainda \u00e9 o que te leva a escrever, cozinhar, dan\u00e7ar, tomar seu banho depois do almo\u00e7o e achar gra\u00e7a na vida. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, tudo continua, com e apesar da saudade.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que as minhas respostas n\u00e3o dizem muita coisa e n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o substanciais quanto aquelas que voc\u00ea esperava. N\u00e3o saberia te dizer como andam as primas de Itaperuna, nem os netos delas, ou o que fazem da vida os muitos alunos que passaram por sua sala de aula. Muito menos sou o verdadeiro destinat\u00e1rio das v\u00e1rias cartas que voc\u00ea tem escrito, mas que nunca s\u00e3o, ou ser\u00e3o, entregues. Venho aqui como um mero representante de todos aqueles que, acredito eu, adorariam ter tido a mesma oportunidade de te enviar, pelo menos, uma \u00faltima carta como resposta, repleta de considera\u00e7\u00f5es finais e muitas despedidas. Gostaria de poder ir at\u00e9 eles, ou mesmo que voc\u00ea pudesse, mas, infelizmente, essas linhas escritas s\u00e3o o que posso te oferecer agora. Eu, o Tempo, ainda n\u00e3o encontrei uma forma de superar o esquecimento. Nem a Morte.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-99\/\">Voltar para edi\u00e7\u00e3o 99<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Luiza Massulo Querida Z\u00ea, J\u00e1 faz um tempo que eu tenho pensado em te escrever. Suas cartas chegaram at\u00e9 mim h\u00e1 meses e, por mais que eu n\u00e3o seja exatamente quem voc\u00ea procura, acredito que voc\u00ea mere\u00e7a uma resposta. Eu sou o passado, a saudade e a mem\u00f3ria. Costumam me chamar de Tempo. 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