{"id":2896,"date":"2022-11-28T14:33:41","date_gmt":"2022-11-28T18:33:41","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=2896"},"modified":"2022-11-29T16:55:52","modified_gmt":"2022-11-29T20:55:52","slug":"eu-minha-vo-e-um-casamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/eu-minha-vo-e-um-casamento\/","title":{"rendered":"Eu, minha v\u00f3 e um casamento"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\"><strong>Ana Carolline Krasnievicz Homem<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>\u201cVoc\u00ea s\u00f3 vai ser plena consigo mesmo quando se casar.\u201d Eu tinha 13 anos quando escutei isso pela primeira vez da minha av\u00f3. Com essa idade eu n\u00e3o tinha nem mesmo dado o primeiro beijo, falar em casamento ent\u00e3o, era de outro mundo. Eu ainda era uma crian\u00e7a, fugia de casa pra jogar bola na rua. Com 13 anos eu s\u00f3 queria fazer 14.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"456\" height=\"485\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/ilustra-vo\u0301.casamento.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2919\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/ilustra-vo\u0301.casamento.png 456w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/ilustra-vo\u0301.casamento-282x300.png 282w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/ilustra-vo\u0301.casamento-400x425.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 456px) 100vw, 456px\" \/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/marinacozta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Marina Cozta<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Sou a neta mais velha da minha av\u00f3, talvez por isso essa preocupa\u00e7\u00e3o com meu casamento desde cedo. Dona Lourdes \u00e9 de 1953, \u00e9poca em que as meninas eram criadas para o casamento, mat\u00e9rias como economia e pr\u00e1ticas do lar ainda eram ofertadas nas escolas. Gin\u00e1stica? S\u00f3 para meninos. Ela conta que desde pequena foi criada para o casamento. A regra era ter apenas um namorado, casar-se com ele, ter casa e filhos para cuidar. Ter filhos num tempo em que nem existia licen\u00e7a-maternidade. E ainda a\u00e7\u00f5es simples, como dar um passeio sozinha eram vistas com maus olhos. A vida controlada pela estrutura patriarcal era realidade.&nbsp; Inevitavelmente, foi o que aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Com seis anos e seis meses entre namoro e noivado, minha av\u00f3 casou-se com o homem que viria a ser meu av\u00f4. Eles ficaram juntos por mais de 38 anos. Nesse meio tempo, eles criaram juntos quatro filhos. Iniciaram vida nova em um novo estado. Minha av\u00f3 formou-se na faculdade, mas \u00e9 claro que isso foi s\u00f3 depois dos filhos. A reprodu\u00e7\u00e3o era a prioridade.<\/p>\n\n\n<p>Filhos? Eu nunca nem pensei nisso. Quando meu irm\u00e3o nasceu, eu j\u00e1 tinha 18 anos e percebi que eu n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas e muito menos situa\u00e7\u00e3o financeira para um filho. Quem dir\u00e1 filhos.<\/p>\n\n\n<p>Cresci sendo designada aos estudos. Fiz o ensino m\u00e9dio sabendo que faculdade seria uma realidade pra mim. Estudar, essa sempre foi minha prioridade. S\u00f3 de pensar em me colocar no lugar da minha av\u00f3, me vem um sentimento de afli\u00e7\u00e3o. Mudar minhas prioridades me parece improv\u00e1vel. Sei que as coisas podem mudar. Somos metamorfose. Mas mudar por algu\u00e9m? Eu tenho liberdade para mudar e me d\u00f3i saber que ela n\u00e3o teve.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, pra mim, muitas coisas s\u00e3o comuns. Foi necess\u00e1ria muita luta do movimento feminista para que algumas mudan\u00e7as surgissem. Podemos tomar anticoncepcional. Podemos votar. Podemos trabalhar e construir nosso patrim\u00f4nio. Podemos estudar, ter acesso a faculdade. J\u00e1 fomos presidentes. E n\u00e3o precisamos mais assumir o sobrenome dos nossos maridos. O sobrenome \u00e9 nosso. A hist\u00f3ria \u00e9 feminina.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu penso que as coisas podem mudar muito r\u00e1pido, e se pra uma pessoa j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil, imagine duas. Duas vidas. Duas cabe\u00e7as. Dois futuros. N\u00e3o quero que nada me prenda. Quero toda a liberdade pra eu decidir o que eu quero. E quando quero. Quero viajar, ver coisas novas, conhecer pessoas diferentes, experimentar pessoas diferentes. Eu quero coisas que um casamento n\u00e3o me d\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2004, para a minha av\u00f3 meu av\u00f4 desencarnou, pra mim ele morreu. Eu era pequena, n\u00e3o entendia a dor dessa perda. Demorei muito a entender. S\u00f3 vi minha v\u00f3 se recuperar mais de 10 anos depois. Ela diz que em algum ponto a dor da solid\u00e3o era maior que a dor da perda.<\/p>\n\n\n\n<p>E o caminho dela voltou a cruzar com outro. Entrela\u00e7ou com um carioca branquelo e brincalh\u00e3o que sempre carrega livros. J\u00e1 n\u00e3o consigo me lembrar dela sem ele. Comecei a v\u00ea-la sorrir ao seu lado como eu nunca tinha visto. Era um sorriso sincero, de felicidade e notas de al\u00edvio.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando pe\u00e7o pra ela nomear essa rela\u00e7\u00e3o, ela diz \u201ccompanhia\u201d. Quando eu pe\u00e7o para ela descrever, ela usa palavras como amizade e leve. E eu n\u00e3o poderia pensar numa maneira mais sincera de descrev\u00ea-los. Eles est\u00e3o juntos, mas cada um tem sua casa, seu carro, sua vida, e \u00e9 claro, seus filhos. Duas vidas que n\u00e3o se tornaram uma s\u00f3, mas que hoje caminham juntas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando questionada, minha av\u00f3 diz que n\u00e3o tem muitas ambi\u00e7\u00f5es para esse relacionamento. O que ela quer mesmo \u00e9 ver a fam\u00edlia crescer. Isso significa que ela quer ver sua neta casar. Se me perguntarem o que eu quero, eu quero uma tigela linda de vidro amarelado pra colocar em cima da minha mesa. Quero estudar, quero meu diploma, quero poder passar por situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis com mais calma. Se me perguntarem sobre casamento hoje? Eu s\u00f3 procuro algu\u00e9m pra dividir os boletos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-99\/\">voltar para a edi\u00e7\u00e3o 99<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Carolline Krasnievicz Homem \u201cVoc\u00ea s\u00f3 vai ser plena consigo mesmo quando se casar.\u201d Eu tinha 13 anos quando escutei isso pela primeira vez da minha av\u00f3. 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