{"id":2901,"date":"2022-11-28T08:46:54","date_gmt":"2022-11-28T12:46:54","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=2901"},"modified":"2022-11-29T16:09:52","modified_gmt":"2022-11-29T20:09:52","slug":"somos-no-s","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/somos-no-s\/","title":{"rendered":"Somos n\u00f3-s?"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">Jovens e idosos destacam afinidades e discord\u00e2ncias em temas como sexualidade, afetos e diversidade durante roda de conversa com a equipe do Proj\u00e9til<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Entrevista: Anna Luiza Petermann | Beatriz Brites | Lara Bellini | Luisa Santos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>\u201cA gente foi voc\u00eas, a gente sonhou como voc\u00eas\u201d, conta a espoleta e bem-humorada Terezinha de Jesus Garcia, 73, e com menos altura do que o tamanho do nome [segundo ela] se identifica como fora da curva e reconhece que n\u00e3o consegue ser an\u00f4nima, nunca conseguiu. Ocupar os espa\u00e7os e gerenci\u00e1-los sempre fez parte da sua vida. Nasceu em 1948, na cidade de Bela Vista, em uma fazenda, e dividiu sua inf\u00e2ncia com mais quatro irm\u00e3s, todas mulheres, que estavam designadas, segundo os pais, a se casarem e terem filhos, condi\u00e7\u00e3o que Terezinha n\u00e3o aceitava. Afinal, se enquadrar e seguir padr\u00f5es n\u00e3o estava em seus planos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o tema \u00e9 se enquadrar, Afropaty entra em cena. A fluida e doce artista compartilha que os caminhos n\u00e3o foram f\u00e1ceis at\u00e9 aqui, foram 18 anos existindo atrav\u00e9s do olhar da sua fam\u00edlia, que \u00e9 conservadora e crist\u00e3. Aos 22 anos, caminha fora da bolha, com sua autoria, sua coragem e suas multividas e afirma que n\u00e3o se encaixa em um r\u00f3tulo, e que isso confunde as pessoas. \u201cTem gente que me chama de Afropaty, tem gente que me chama pelo meu nome de batismo, ent\u00e3o \u00e9 isso. Eu sou flu\u00edda. Sempre\u201d, completa. A estudante de enfermagem, que tamb\u00e9m \u00e9 dan\u00e7arina, DJ e a h\u00e1 um ano e meio se monta, diz que a arte sempre foi visita constante e deseja que seja permanente. \u201cA gente que \u00e9 LGBT sempre tem que precisar de um outro lado, ent\u00e3o ou a gente vai atr\u00e1s de uma arte, ou a gente vai para os estudos, ent\u00e3o a minha base sempre foi ir atr\u00e1s dos estudos, mas nunca deixei a arte de lado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Terezinha, por algum motivo, seguiu trilhos pr\u00e9 determinados por outro algu\u00e9m, anos depois, se casou, mudou para outro estado, teve quatro filhas e foi embora, quando a lei do div\u00f3rcio foi aprovada, mesmo sob protesto da m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>A carioca Alessandra Coelho, 21, nasceu e foi criada na Cidade de Deus, e tamb\u00e9m teve discord\u00e2ncias com a m\u00e3e, que \u00e9 pastora e n\u00e3o aceitou sua sexualidade. Aos 17 anos foi expulsa de casa, quando disse que gostava de mulheres, e n\u00e3o esperou caber em uma caixa, a caixa dos outros, assim como Terezinha, e seguiu. Hoje, a jovem est\u00e1 no processo de publica\u00e7\u00e3o do seu primeiro livro, faz letras, \u00e9 poetisa e tamb\u00e9m baterista de uma banda composta por mulheres. Cabendo na pr\u00f3pria caixa e dona dela, Alessandra mora com Beca, sua namorada, e entende que vive um relacionamento saud\u00e1vel e feliz com a mulher da sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>A caixa pr\u00f3pria tamb\u00e9m caiu muito bem para Terezinha, que foi secret\u00e1ria executiva, uma das idealizadoras do SUS, e posteriormente funcion\u00e1ria p\u00fablica de muito destaque, mas com o golpe de 1964, os caminhos mudaram. \u201cFui dedo duro da ditadura e por isso me demiti, com quatro filhas adolescentes para sustentar, n\u00e3o conseguia viver calada e poderia morrer, os caras matavam quem era contra\u201d. Hoje, relembrando o passado, teve vez e voz em um tempo que a mulher n\u00e3o tinha nenhum dos dois.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor universit\u00e1rio aposentado, Rubem Oliveira, 67, nunca vai entender os percal\u00e7os vividos por mulheres como Terezinha e Alessandra, mas j\u00e1 viu e experienciou coisas demais em seus 35 anos na educa\u00e7\u00e3o e nos cargos que se prop\u00f4s a ocupar. Seu sonho de garoto era ser contador de hist\u00f3rias como seu av\u00f4, ele ent\u00e3o revela que foi um jovem que deu certo, se o quesito for sonhos, afinal encanta todos com seus conhecimentos e sua maneira reflexiva de olhar o mundo. \u201c\u00c9 sobre sociabilizar d\u00favidas, n\u00e3o temos respostas, n\u00e3o temos verdades absolutas.\u201d Conta que venceu uma depress\u00e3o e aprendeu muito quando estava internado, evidenciando que ser professor \u00e9 muito mais do que uma profiss\u00e3o. \u201cQuando estava internado, ajudei uma jovem na cl\u00ednica, que estava l\u00e1 por conta de n\u00e3o conseguir concluir seu TCC, eu disse, me traz tudo, vamos trabalhar\u201d, relembra com gra\u00e7a. O filho de m\u00e3e uruguaia e neto de v\u00f4 chin\u00eas revela que seu grande amor \u00e9 sua filha.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Giovanni Cristaldo, as mudan\u00e7as tamb\u00e9m s\u00e3o bem-vindas, ele redefine a fala de Rubem sobre dar certo. \u201cPara mim \u00e9 relativo dar certo, \u00e9 muito mut\u00e1vel, \u00e9 ter a liberdade de mudar o caminho a hora que eu quiser\u201d. Gio \u00e9 designer e a paix\u00e3o por criar e se comunicar o acompanha desde muito novo. Aos 15 anos se reconheceu gay, e como Afropaty e Ale, sofreu com a aus\u00eancia de aceita\u00e7\u00e3o por parte da fam\u00edlia. O publicit\u00e1rio afirma que hoje se sente mais completo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua identidade. A quest\u00e3o sexual ficou vis\u00edvel muito cedo, mas houve um processo mais demorado em se reconhecer negro.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada hist\u00f3ria contada acima, lembra a l\u00e2mpada de um abajur com mal contato, ora liga, ora desliga, sem poder de controle de quem o tem, involuntariamente acontece. A vida de cada personagem \u00e9 a l\u00e2mpada, os anos, as interfer\u00eancias, os locais que est\u00e3o inseridos, s\u00e3o os fios e seus sistemas que se entrela\u00e7am, se encontram, mas depois seguem seus rumos.<\/p>\n\n\n\n<p>Terezinha, Afropaty, Alessandra, Rubem e Giovanni se encontraram e participaram de uma roda de conversa com a equipe do Proj\u00e9til. Ali, discutiram tr\u00eas temas que permeiam suas gera\u00e7\u00f5es: as rela\u00e7\u00f5es, a sexualidade e a diversidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Terezinha, Afropaty, Alessandra, Rubem e Giovanni se encontraram e participaram de uma roda de conversa com a equipe do Proj\u00e9til. Ali, discutiram tr\u00eas temas que permeiam suas gera\u00e7\u00f5es: as rela\u00e7\u00f5es, a sexualidade e a diversidade.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"724\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/thumbnail_COLAGEM-okk-1024x724.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2968\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/thumbnail_COLAGEM-okk-1024x724.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/thumbnail_COLAGEM-okk-300x212.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/thumbnail_COLAGEM-okk-768x543.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/thumbnail_COLAGEM-okk-1200x848.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/thumbnail_COLAGEM-okk-1250x884.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/thumbnail_COLAGEM-okk-400x283.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/thumbnail_COLAGEM-okk.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Fotos: Helder Carvalho (esquerda inferior, centro superior, centro inferior) e Jo\u00e3o Buchara (esquerda superior; direita) | Colagem: Janaina Ara\u00fajo<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>RELA\u00c7\u00d5ES afetivas<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>TEREZINHA: Eu n\u00e3o tenho rela\u00e7\u00e3o profunda com ningu\u00e9m, claro que eu assumo e tenho certeza de que a gente existe para viver em sociedade, mas que tem ficar sugando o outro? Eu vejo esse conceito [rela\u00e7\u00f5es] como vampirismo, para sugar o outro, e vejo que hoje em dia voc\u00eas, jovens, n\u00e3o s\u00e3o assim. Eu me aposentei faz 14 anos e alugo espa\u00e7o na casa de algu\u00e9m, moro em um espa\u00e7o coletivo, se eu caio, eu grito e sempre tem um vizinho pra me levantar, ent\u00e3o a gente n\u00e3o existe pra viver sozinho, mas a gente n\u00e3o tem a obriga\u00e7\u00e3o de fechar um n\u00facleo.<\/p>\n\n\n\n<p>GIOVANNI: Eu acho que pelo menos os jovens LGBTs que tem pais conservadores, eles optam mais por la\u00e7os afetivos do que sangu\u00edneos. Eu fui esse caso, quem me salvou de uma depress\u00e3o e de uma tentativa de suic\u00eddio foram os meus amigos, ent\u00e3o desde o come\u00e7o meus pais perguntavam \u201cnossa, por que voc\u00ea d\u00e1 tanto valor pra eles? Porque tem um la\u00e7o t\u00e3o forte com eles ?\u201d E \u00e9 porque quando eu precisei eles estavam l\u00e1, me conhecem e sabem quem realmente eu sou.<\/p>\n\n\n\n<p>ALESSANDRA: Eu acho que as rela\u00e7\u00f5es profundas que eu tenho hoje s\u00e3o muito mais com pessoas que eu escolhi, igual a dona Terezinha falou. A \u00fanica rela\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea que eu tenho muito forte \u00e9 com minha m\u00e3e, apenas, porque de resto eu optei por n\u00e3o conviver mais com eles. Tenho certeza que as que eu optei por me aproximar s\u00e3o muito mais saud\u00e1veis, na minha vida, do que as que eu fui obrigada a conviver por um tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>AFROPATY: Pra mim \u00e9 metade, metade. Minha fam\u00edlia sempre me apoiou e esteve sempre do meu lado, mesmo sendo bem conservadora. \u00c0s vezes eu penso que \u00e9 por causa do medo do que as pessoas l\u00e1 fora possam fazer comigo, ent\u00e3o eles escolheram aceitar, e n\u00e3o me oprimir. Mas eu tamb\u00e9m tenho muito essa quest\u00e3o de amigos, de fam\u00edlia, de ter v\u00e1rios pais e v\u00e1rias m\u00e3es, n\u00e3o s\u00f3 a sangu\u00ednea.<\/p>\n\n\n\n<p>RUBEM: Minha fam\u00edlia \u00e9 a minha filha, voc\u00ea vai na minha casa tem todas as coisas dela, tem o quarto dela ainda. Tem a nossa mem\u00f3ria cultural. Com 11 anos eu falei pra ela ir pro sul, fazer a forma\u00e7\u00e3o dela l\u00e1. Interessante que isso aproximou mais a gente, a dist\u00e2ncia aproxima mais. Eu nunca bati na minha filha, se eu levantasse a voz para ela, ela dizia &#8220;Pai, estou conversando, n\u00e3o estou brigando.&#8221; Ela sabia desarmar. Isso \u00e9 importante. A leitura, a conversa, a n\u00e3o imposi\u00e7\u00e3o, te faz um ser humano muito mais livre, mais solto. E \u00e9 isso que eu vejo na minha filha.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>RELA\u00c7\u00d5ES intergeracionais<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>TEREZINHA: Sempre convivi com gente bem mais nova do que eu. Eu crio essa rela\u00e7\u00e3o e acho isso legal. Tem 14 anos que eu estou morando nesse espa\u00e7o coletivo e eu n\u00e3o fico na kitnet de ningu\u00e9m e ningu\u00e9m na minha, mas todo mundo que passa na minha janela me chama. Uma vez eu levei um hippie para morar comigo por seis meses. O cara \u00e9 t\u00e3o inteligente que n\u00e3o d\u00e1 nem para conviver com a pobreza intelectual do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>ALESSANDRA: Diariamente eu n\u00e3o convivo [com pessoas de outras idades]. A minha vozinha faleceu faz dois anos e pouco, mas era quem eu mais conversava sobre v\u00e1rios assuntos. Eu sentia muito, conversando com a minha av\u00f3 o quanto as coisas eram poss\u00edveis. Porque ela fazia ser poss\u00edvel, ela mostrava na vida dela como existem possibilidades de viver sendo artista, por exemplo. Ela publicou um livro de poesias, quando estava viva. Espero juntar outros escritos dela para publicar outro [livro]. Acho que \u00e9 necess\u00e1rio o di\u00e1logo entre pessoas de outras faixas et\u00e1rias, para a gente ter esses olhares diferentes, sobre as possibilidades que a vida nos oferece.<\/p>\n\n\n\n<p>GIOVANNI: Eu acredito que sim. Principalmente na minha empresa, as pessoas s\u00e3o de cargos mais altos e s\u00e3o mais velhos. Esse projeto de podcast que eu estou tocando, por exemplo&#8230; \u00e9 muito engra\u00e7ado, porque o meu primeiro convidado foi o fundador da empresa, ele tem 76 anos. Conversamos de igual para igual. E enriquece a gente, porque a gente n\u00e3o tem esse contato normalmente.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>RELA\u00c7\u00d5ES com passar do tempo e da idade<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>RUBEM: Em quest\u00e3o de relacionamento, eu acho que voc\u00ea fica mais exigente. Por exemplo, eu tive duas namoradas depois do meu div\u00f3rcio e \u00e9 interessante que eu usava o referencial da minha ex-esposa. Eu vi que voc\u00ea quer igual ou superior, mas nunca menos. Com o tempo, voc\u00ea n\u00e3o se submete mais a pessoas ignorantes.<\/p>\n\n\n\n<p>TEREZINHA: Eu acho que quanto mais idade voc\u00ea tem, voc\u00ea se relaciona melhor. Toda a minha vida eu acreditei que todo ser humano quando sai na rua veste um personagem, na hora que voc\u00ea volta pra casa e p\u00f5e um pijama e as pantufas nos p\u00e9s, nem voc\u00ea se aguenta mais. Ent\u00e3o eu acho que quando se \u00e9 adulto as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais falsas e quando voc\u00ea envelhece n\u00e3o se preocupa em perder mais tempo com o que n\u00e3o te acrescenta, gosta ou n\u00e3o gosta.<\/p>\n\n\n\n<p>AFROPATY: Eu estava pensando em algo que \u00e9 muito discutido pela minha gera\u00e7\u00e3o que \u00e9 o ciclo da modernidade l\u00edquida, ent\u00e3o a gente vive muito o \u201cn\u00f3s em n\u00f3s mesmos\u201d e n\u00e3o conseguimos olhar para o lado, estamos focados em um ponto s\u00f3. Ent\u00e3o, a nossa gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o presente com o pr\u00f3ximo, estamos sempre com o celular na m\u00e3o e raramente sentamos e conversamos, essa viv\u00eancia para n\u00f3s \u00e9 mais rara, j\u00e1 para outras gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>SEXUALIDADE em constru\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>GIOVANNI: Quando eu decidi me abrir, ser quem eu sou, foi um processo muito doloroso para mim. Foi muito dif\u00edcil, porque eu tive que sair da igreja, me afastar de tudo aquilo que eu gostava muito, da conviv\u00eancia que eu tinha. E como minha sexualidade n\u00e3o \u00e9 bem vista l\u00e1, ent\u00e3o eu sa\u00ed e vim viver esse mundo aqui fora, que me aceita muito melhor e que eu posso ser quem eu sou de verdade. A sexualidade para mim \u00e9 uma autoconstru\u00e7\u00e3o. Cada um tem uma diferente constru\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a sexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>AFROPATY: Para mim, a minha sexualidade \u00e9 muito fluida, hoje eu vou estar assim, amanh\u00e3 de outra forma e ningu\u00e9m vai entender nada. Mas eu vou entender. Ent\u00e3o, para mim, \u00e9 algo muito fluido, \u00e9 a forma que eu consigo me apresentar para a sociedade. \u00c9 algo meu, que nem eu sei explicar. A minha felicidade sempre esteve acima de tudo e de todos, ent\u00e3o queria simplesmente ser feliz, independente de como eu fosse, nunca quis a aprova\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>ALESSANDRA: Foi uma constru\u00e7\u00e3o, demorada, dif\u00edcil, que ainda n\u00e3o est\u00e1 100% mas acho que j\u00e1 est\u00e1 sendo gerada ali dentro de mim. J\u00e1 consigo entender que eu sou essa pessoa e n\u00e3o tem nada de errado com isso. Eu tive muita dificuldade para entender o que eu realmente sentia quando eu me relacionava com as pessoas, que me atraiam ou n\u00e3o. J\u00e1 foi dif\u00edcil entender isso. Ainda mais depois, para entender que n\u00e3o \u00e9 errado, que n\u00e3o era anormal [gostar de algu\u00e9m do mesmo sexo].<\/p>\n\n\n\n<p>TERESINHA: Hoje eu tenho necessidade do afeto, do carinho, do relacionamento, da conversa, do bom papo. Eu n\u00e3o tenho nenhuma necessidade de relacionamento sexual. Mas \u00e9 muito legal a naturalidade de voc\u00eas com esse assunto. Eu fico observando, \u00e9 t\u00e3o natural essa &#8220;op\u00e7\u00e3o&#8221; do homem se relacionar com outro homem, na gera\u00e7\u00e3o de voc\u00eas. Mas isso porque teve muita gente que morreu, tiveram que colocar a cara, rolou sangue para terem o direito de serem voc\u00eas. Essas coisas a gente tem que valorizar.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>DIVERSIDADE onde voc\u00ea habita<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>AFROPATY: A gente vive dentro de uma bolha social e querendo ou n\u00e3o a gente convive com semelhantes. Eu vejo que dentro da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul a gente vive com outros tipos de pessoas, ent\u00e3o a gente consegue sair um pouco dessa bolha, mas querendo ou n\u00e3o a gente forma grupos e faz uma segrega\u00e7\u00e3o de pessoas. A gente vive uma diversidade falsa, uma diversidade mentirosa.<\/p>\n\n\n\n<p>RUBEM: N\u00e3o est\u00e1 bem elaborada na minha cabe\u00e7a essa ideia de diversidade. Eu sinto que convivo bem, tenho preconceitos, sim, com o fanatismo, seja pol\u00edtico ou religioso. N\u00e3o d\u00e1, essas pessoas n\u00e3o te ouvem, elas querem te doutrinar.<\/p>\n\n\n\n<p>GIOVANNI: No meu c\u00edrculo de amigos tem pessoas mais diversas, pessoas LGBTs, pessoas pretas, travestis, porque \u00e9 onde eu me sinto bem, onde eu me localizo na sociedade. Por\u00e9m quando eu vou pro lado profissional, eu enxergo pouqu\u00edssima diversidade na empresa, uma empresa que n\u00e3o contrata tantos LGBTs, os cargos de diretorias n\u00e3o t\u00eam pessoas pretas, s\u00f3 tem uma diretora mulher. A empresa tem uma cultura escrita no papel, mas na pr\u00e1tica isso n\u00e3o \u00e9 semeada.<\/p>\n\n\n\n<p>ALESSANDRA: Eu acredito muito que depois de muita luta, de muitas pessoas, hoje a gente pode ser muito mais diverso dentro da sociedade e personalizar v\u00e1rias coisas, uma mesma pessoa, mil vidas em uma.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-99\/\">Voltar para edi\u00e7\u00e3o 99<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jovens e idosos destacam afinidades e discord\u00e2ncias em temas como sexualidade, afetos e diversidade durante roda de conversa com a equipe do Proj\u00e9til Entrevista: Anna Luiza Petermann | Beatriz Brites | Lara Bellini | Luisa Santos \u201cA gente foi voc\u00eas, a gente sonhou como voc\u00eas\u201d, conta a espoleta e bem-humorada Terezinha de Jesus Garcia, 73, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[15],"tags":[],"class_list":["post-2901","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2901","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2901"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2901\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3162,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2901\/revisions\/3162"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}