{"id":2964,"date":"2022-11-25T17:02:37","date_gmt":"2022-11-25T21:02:37","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=2964"},"modified":"2022-11-28T08:19:36","modified_gmt":"2022-11-28T12:19:36","slug":"uma-luta-compartilhada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/uma-luta-compartilhada\/","title":{"rendered":"Uma luta compartilhada"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\">Maria Luiza Massulo<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Laura e eu nos conhecemos aos cinco anos na escola. As duas medrosas choravam ao entrar na sala de aula, e assim, por meio da identifica\u00e7\u00e3o, nos tornamos amigas daquele tipo: insepar\u00e1veis. Combin\u00e1vamos de vestir as mesmas roupas, compr\u00e1vamos brinquedos parecidos e \u00e9ramos uma s\u00f3, at\u00e9 entendermos que essa fus\u00e3o em uma mesma pessoa n\u00e3o era poss\u00edvel, n\u00e3o s\u00f3 porque inevitavelmente somos duas pessoas, com gostos, cria\u00e7\u00e3o e desejos distintos, mas porque a cor da nossa pele, tamb\u00e9m, nos torna diferentes. Ainda que compartilh\u00e1ssemos de uma exist\u00eancia muito parecida e pass\u00e1ssemos juntas pelas mesmas situa\u00e7\u00f5es, eu sou branca e Laura \u00e9 uma mulher preta.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"794\" height=\"592\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Sara-Ariel-Wong.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2971\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Sara-Ariel-Wong.png 794w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Sara-Ariel-Wong-300x224.png 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Sara-Ariel-Wong-768x573.png 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2022\/11\/Sara-Ariel-Wong-400x298.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 794px) 100vw, 794px\" \/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o: Sara Ariel Wong<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Quando completamos 13, decidimos, juntas, abrir m\u00e3o da chapinha e da progressiva e enquanto o meu cabelo ondulado era elogiado como sin\u00f4nimo de uma mulher decidida, que come\u00e7ava a se aceitar, Laura ouvia das formas mais sutis, at\u00e9 as mais agressivas, como o seus fios eram muito mais hidratados e bonitos quando alisados. Vira e mexe no banheiro, sem permiss\u00e3o alguma, seu cabelo era alvo de m\u00e3os curiosas, que a tratavam como um ser ex\u00f3tico. Aos 15, me ligou chateada porque o garoto por quem estava apaixonada n\u00e3o assumia meninas como ela para os amigos. Aos 16, enquanto eu, encantada, me envolvia em lutas contra a desigualdade de g\u00eanero, Laura n\u00e3o conseguia se sentir representada pelos movimentos feministas e constantemente se queixava por estar lutando pelo direito das outras, mas nunca pelos dela. \u201cOs problemas de uma mulher preta ainda n\u00e3o est\u00e3o em pauta\u201d, reclamou uma vez, inconformada.<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha ignor\u00e2ncia, n\u00e3o entendia que as minhas experi\u00eancias e as consequ\u00eancias dos meus comportamentos n\u00e3o se aplicavam \u00e0 minha melhor amiga. O privil\u00e9gio da pele branca, durante muito tempo, me fez enxergar as minhas viv\u00eancias como universais, afinal era tudo o que eu via na televis\u00e3o, nas revistas e nas redes sociais. Descobrimos o mundo juntas, passamos juntas pela transi\u00e7\u00e3o capilar, entramos juntas para movimentos feministas e a forma como lidamos com tudo isso nos fez enxergar que poder\u00edamos at\u00e9 tentar, mas todos os nossos esfor\u00e7os para fazer com que essa ponte que nos separava se tornasse menor, pareciam em v\u00e3o. Mesmo que as nossas causas carregassem o mesmo nome, precis\u00e1vamos lutar a partir de perspectivas bem diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo vergonhosamente sincera, mesmo estando com Laura em v\u00e1rios dos seus momentos dif\u00edceis, demorei para entender que muitas das dores que a afligiam n\u00e3o eram uma exclusividade dela. O racismo \u00e9 um problema social e foi no come\u00e7o da juventude que eu descobri que n\u00e3o ser racista \u00e9 muito pouco e n\u00e3o \u00e9 suficiente. No Brasil em que vivemos, segundo o <a href=\"https:\/\/www.forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Anuario-2019-FINAL_21.10.19.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Anu\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica de 2019<\/a>, a cada dez mulheres v\u00edtimas de feminic\u00eddio, seis delas s\u00e3o negras. Um jovem preto t\u00eam 2,5 mais chances de morrer por homic\u00eddio e representa 75% dos mortos por intercorr\u00eancias policiais. Encarar esses fatos como n\u00fameros talvez doa muito menos, mas s\u00e3o pessoas, fam\u00edlias e crian\u00e7as e, vira e mexe, eu penso que poderia ser Laura, reduzida a uma estat\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>Meus pais nunca precisaram me ensinar como me portar em uma revista policial. Minha intelig\u00eancia e capacidade nunca foram questionadas por causa da minha cor. Em brincadeiras infantis, nunca fui limitada a pap\u00e9is como os de bab\u00e1 e empregada. Nunca tive meu cabelo tocado por outras mulheres em banheiros de escola e baladas, como se comigo o consentimento pudesse ser descartado. Nunca fui seguida por seguran\u00e7as em mercados, nunca me trataram como algu\u00e9m, naturalmente, agressiva, nunca me negaram vaga de emprego por conta da cor da minha pele. Estar alheio a essa realidade \u00e9 o que eu chamo de privil\u00e9gio branco, acrescido de uma total falta de consci\u00eancia social.<\/p>\n\n\n\n<p>Como estudante de jornalismo, escrevo sobre o mundo que vivo e sobre aqueles que n\u00e3o tenho acesso direto, mas que eu observo e me contam. N\u00e3o sou a protagonista dessa hist\u00f3ria, muito menos uma hero\u00edna que luta contra o inimigo e salva os menos favorecidos. O branco \u00e9 o grande respons\u00e1vel por permitir que o racismo se mantenha na sociedade. A minha grande dica, caso voc\u00ea tamb\u00e9m queira contribuir de alguma forma, \u00e9: destine um pouco da sua aten\u00e7\u00e3o e assista, escute, leia, valorize e conviva respeitosamente com pessoas de todas as ra\u00e7as, especialmente as diferentes da sua.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-99\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 99<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Luiza Massulo Laura e eu nos conhecemos aos cinco anos na escola. As duas medrosas choravam ao entrar na sala de aula, e assim, por meio da identifica\u00e7\u00e3o, nos tornamos amigas daquele tipo: insepar\u00e1veis. 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