{"id":3320,"date":"2023-06-27T17:13:55","date_gmt":"2023-06-27T21:13:55","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=3320"},"modified":"2023-06-29T16:17:34","modified_gmt":"2023-06-29T20:17:34","slug":"jornalismo-sem-amarras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/jornalismo-sem-amarras\/","title":{"rendered":"Jornalismo sem amarras"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">Texto: <strong>Mauro C\u00e9sar Silveira<br><\/strong>Ilustra\u00e7\u00e3o:<strong> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ali_pxt\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.instagram.com\/ali_pxt\/\" target=\"_blank\">Alicia Peixoto<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<p>Nenhuma adversidade, nenhum obst\u00e1culo, nenhuma pedra no caminho. Nada abalou o \u00e2nimo da primeira turma do curso de jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) diante do imenso desafio de produzir a pioneira edi\u00e7\u00e3o do Proj\u00e9til. Era um quadro verdadeiramente desalentador: infraestrutura mais do que prec\u00e1ria; mal-estar, para n\u00e3o dizer boicote, dos setores mais retr\u00f3grados da institui\u00e7\u00e3o; e um dos editores respons\u00e1veis \u2013 o meu caso em particular \u2013 aprendendo, a duras penas, como dar aulas. Ainda recordo o dia, ou melhor, a noite \u2013 o curso nasceu noturno &#8211; quando o hoje consagrado jornalista investigativo Rubens Valente reagiu \u00e0 minha esfarrapada desculpa para a pouca familiaridade com a lousa, alegando que eu era um rep\u00f3rter, com certa experi\u00eancia, e pouco poderia oferecer al\u00e9m de partilhar minhas viv\u00eancias profissionais. \u201cAqui, eu sou aluno e o senhor \u00e9 o professor, ent\u00e3o eu quero aula\u201d, bradou ele, que, a exemplo de outros colegas, j\u00e1 atuava em meios de comunica\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o. Se eu segui em frente e persisti, teimosamente, como professor, devo isso ao repto do Valente.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a escolha do nome em vota\u00e7\u00e3o na sala de aula, acolhendo a proposta do acad\u00eamico Adriano Furtado, o grupo precursor encarou todas as defici\u00eancias com garra e determina\u00e7\u00e3o. Da improvisada reda\u00e7\u00e3o, numa sala min\u00fascula com carteiras apertadas e velhas m\u00e1quinas de escrever, escondida nos cantos do ent\u00e3o Centro de Ci\u00eancias Humanas e Sociais, \u00e0s madrugadas insones em servi\u00e7o terceirizado de diagrama\u00e7\u00e3o e montagem das p\u00e1ginas para composi\u00e7\u00e3o e impress\u00e3o, tudo exigia um esfor\u00e7o n\u00e3o apenas intelectual, mas sobretudo bra\u00e7al. Os textos digitalizados precisavam ser impressos, cortados e colados em pranchas, no desgastante processo de <em>paste-up<\/em> das p\u00e1ginas. Trabalho arduamente artesanal nos tempos em que as reda\u00e7\u00f5es das grandes capitais brasileiras j\u00e1 haviam sido informatizadas.<\/p>\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"595\" height=\"842\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Alicia-Peixoto-@ali_pxt-TEXTOmauro.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3321\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Alicia-Peixoto-@ali_pxt-TEXTOmauro.png 595w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Alicia-Peixoto-@ali_pxt-TEXTOmauro-212x300.png 212w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Alicia-Peixoto-@ali_pxt-TEXTOmauro-400x566.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 595px) 100vw, 595px\" \/><\/figure>\n\n\n<p>Quando a primeira edi\u00e7\u00e3o do Proj\u00e9til saiu \u00e0s ruas, em setembro de 1990, a repercuss\u00e3o foi enorme na capital do Mato Grosso do Sul. Surgia um canal de comunica\u00e7\u00e3o impresso vibrante, com agudo compromisso social, resultado de um processo coletivo absolutamente livre, independente e sem amarras, como no melhor jornalismo daqui ou do Quirguist\u00e3o. Melhor dizendo: como no leg\u00edtimo jornalismo. Sob a orienta\u00e7\u00e3o dos professores Edson Silva, Eron Brum, o saudoso Mario Ramires, mais o autor deste texto, a capa destacava os conchavos entre as oligarquias pol\u00edticas do estado. Uma foto evidenciava as boas rela\u00e7\u00f5es entre dois candidatos que se apresentavam na m\u00eddia regional como opositores um ao outro, os conservadores Gandi Jamil e Pedro Pedrossian. Falsa disputa, como denunciou o t\u00edtulo da primeira p\u00e1gina do Proj\u00e9til: O jogo de cena na terra dos compadres. Alunas e alunos, professores e a tamb\u00e9m saudosa professora Maria Francisca Marcello, a coordenadora do curso, concederam entrevistas \u00e0 TV Morena, comentando essa nova op\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica em Campo Grande.<\/p>\n<p>Na minha visita ao curso em novembro de 2016, pude rever, depois de algum tempo, a publica\u00e7\u00e3o que ajudei a criar. Constatei que o Proj\u00e9til continuava honrando sua hist\u00f3ria, afirmando, com vigor, seu compromisso com os direitos humanos e a defesa da cidadania.<\/p>\n<p>Uma presen\u00e7a na equipe de produ\u00e7\u00e3o mais recente deve ser destacada: a do grupo \u201cPensar o Desenho\u201d. A alian\u00e7a entre arte e texto, a simbiose entre forma e conte\u00fado, sempre foram perseguidas pelo jornalismo de qualidade, mesmo em suas prim\u00edcias. O excelente resultado est\u00e9tico das capas tem sido uma express\u00e3o viva desse velho objetivo jornal\u00edstico, o de atrair a leitura, seja impressa ou digital. Nos dif\u00edceis momentos de reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, com o jornalismo perdendo cada vez mais protagonismo nas grandes empresas de m\u00eddia, marcadas por crescentes demiss\u00f5es e a absoluta precariza\u00e7\u00e3o do j\u00e1 combalido ambiente profissional, a esperan\u00e7a brota em experi\u00eancias solid\u00e1rias, coletivas, independentes. O Proj\u00e9til faz isso, e h\u00e1 muito tempo. Exatas 100 edi\u00e7\u00f5es. O jornalismo resiste, dentro e fora das universidades. \u00c9 reconfortante.<\/p>\n<p><strong>Mauro C\u00e9sar Silveira foi professor do curso de Comunica\u00e7\u00e3o Social com habilita\u00e7\u00e3o em Jornalismo da UFMS de 1990 a 2007. Atualmente desenvolve pesquisa em Hist\u00f3ria do Jornalismo na Espanha, com interlocu\u00e7\u00e3o na Universidade de Sevilla.<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-accent-background-color has-text-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?page_id=3670\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 100<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Mauro C\u00e9sar SilveiraIlustra\u00e7\u00e3o: Alicia Peixoto Nenhuma adversidade, nenhum obst\u00e1culo, nenhuma pedra no caminho. Nada abalou o \u00e2nimo da primeira turma do curso de jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) diante do imenso desafio de produzir a pioneira edi\u00e7\u00e3o do Proj\u00e9til. 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