{"id":3342,"date":"2023-06-27T16:22:35","date_gmt":"2023-06-27T20:22:35","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=3342"},"modified":"2023-06-29T16:21:55","modified_gmt":"2023-06-29T20:21:55","slug":"merito-negro-privilegio-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/merito-negro-privilegio-branco\/","title":{"rendered":"M\u00e9rito negro, privil\u00e9gio branco"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong>Com inova\u00e7\u00f5es nas pol\u00edticas p\u00fablicas e representatividade, foram necess\u00e1rias 94 edi\u00e7\u00f5es para que \u201cCorrentes Demais\u201d se tornasse \u201cM\u00e9rito Negro, Privil\u00e9gio Branco\u201d<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">Texto: <strong>Brunna Paula | Felipe Arguelho | Heloisa Duim<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"681\" data-id=\"3440\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Colagem-grande-1-1024x681.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3440\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Colagem-grande-1-1024x681.png 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Colagem-grande-1-300x200.png 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Colagem-grande-1-768x511.png 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Colagem-grande-1-1536x1022.png 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Colagem-grande-1-1200x798.png 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Colagem-grande-1-1250x831.png 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Colagem-grande-1-400x266.png 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Colagem-grande-1.png 1804w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cEm pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Opini\u00e3o (Ibrape) entre 25 de outubro e 10 de novembro, 10% dos negros do Centro-Oeste gostariam de mudar de cor\u201d. Esse dado foi revelado em uma reportagem feita para o Jornal Laborat\u00f3rio do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). No primeiro ano de atividade do Proj\u00e9til, em 1991, a mat\u00e9ria \u201cCorrentes demais\u201d retratou os desafios do movimento negro brasileiro na luta pela afirma\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O levantamento foi feito a partir de uma reivindica\u00e7\u00e3o do Grupo Trabalho e Estudo Zumbi (TEZ). Naquele contexto, as pessoas negras entrevistadas descreveram o sofrimento e a dificuldade que marcavam a busca por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color wp-block-heading\">A precariedade em que viviam, levava-os a uma idealiza\u00e7\u00e3o de futuro melhor, caso tivessem nascido brancos<\/h5>\n\n\n\n<p>Trinta anos depois, em 2021, segundo an\u00e1lise realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), a popula\u00e7\u00e3o negra representa 56% dos brasileiros. Isso exp\u00f5e um aumento de 32% em rela\u00e7\u00e3o aos indiv\u00edduos que se declaram pretos e quase 11% dos que se declaram pardos, nos \u00faltimos dez anos. Dessa forma, retomamos a vis\u00e3o do Grupo TEZ, em entrevista feita com a presidenta da entidade, Bartolina Ramalho Catanante, que tamb\u00e9m \u00e9 doutora em Fundamentos da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela afirma que mesmo com esse avan\u00e7o, ainda existem pessoas negras que gostariam de mudar de cor. \u201cA discrimina\u00e7\u00e3o ainda existe. A gente parte desse princ\u00edpio. Mas eu penso que a autoestima, a identidade e a representatividade s\u00e3o constru\u00eddas, o que faz com que as pessoas negras hoje consigam se expressar e se querer\u201d, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p>Bartolina conta que nesses 38 anos de exist\u00eancia, o grupo acompanhou as evolu\u00e7\u00f5es das leis e da autoestima do povo negro, apesar da desigualdade ainda vivida. &#8220;\u00c9 l\u00f3gico que a gente comemora essas conquistas, s\u00f3 que n\u00f3s ainda observamos a grande disparidade e a desigualdade que sofremos\u201d. Vale destacar que a maioria dessas vit\u00f3rias foi alcan\u00e7ada em conjunto com o Movimento Negro, que nunca se calou.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color wp-block-heading\">Em contraponto, n\u00f3s, pessoas negras, ainda somos minoria em lugares considerados de elite e de poder, causa e consequ\u00eancia do racismo<\/h5>\n\n\n\n<p>\u201cPor muito tempo eu disse que era branco e chegava a brigar quando falavam que eu era preto. Talvez fosse pelo medo de ser inferiorizado, medo de ser acusado de algo que eu n\u00e3o tinha feito, medo de ser seguido ou o pior, vergonha de ser quem eu era\u201d, reconheceu Felipe Arguelho, um dos rep\u00f3rteres desta reportagem. \u201cHoje, entendo que tenho que ter orgulho de quem eu sou, da minha cor e reconhecer toda a luta dos meus ancestrais para que eu pudesse estar aqui escrevendo sobre isso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A presidenta do TEZ ainda pontua que se na d\u00e9cada de 1930 o Brasil tinha decretos proibindo o ingresso de pessoas negras nas escolas, hoje, existe a Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional 10.639\/2003, que altera o curr\u00edculo e insere a negritude, a hist\u00f3ria e a cultura afro-brasileira e africana nessas institui\u00e7\u00f5es. S\u00e3o pol\u00edticas como essas que dissipam aos poucos a discrimina\u00e7\u00e3o e voltam o olhar da sociedade para o debate.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"399\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Bartolina-media.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3357\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Bartolina-media.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Bartolina-media-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Bartolina-media-400x266.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Membros da atual diretoria do Grupo TEZ em resgate \u00e0 cultura e identidade da popula\u00e7\u00e3o negra no estado &#8211; Acervo: Bartolina Ramalho<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Na vis\u00e3o do professor do curso de Hist\u00f3ria da UFMS, Lourival dos Santos, a encadea\u00e7\u00e3o da falta do autoconhecimento come\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es de ensino. O especialista critica a maneira como as ra\u00e7as s\u00e3o abordadas na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, quando o negro \u00e9 representado exclusivamente como escravo. O tema, marcado sempre por imagens de negros sendo torturados, gera na crian\u00e7a a autonega\u00e7\u00e3o de sua origem. Essa rea\u00e7\u00e3o passa a se intensificar quando, na escola, a quest\u00e3o de ra\u00e7a termina na Lei \u00c1urea, sem abordar o Movimento Negro e o avan\u00e7o at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cCompensa\u00e7\u00e3o\u201d hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando falamos em avan\u00e7o, tratamos da obrigatoriedade de repara\u00e7\u00e3o que o Estado tem com a popula\u00e7\u00e3o negra. \u00c9 olhando para tr\u00e1s que reconhecemos os impactos negativos deixados na trajet\u00f3ria desse povo. Apesar da precariedade no auto reconhecimento na d\u00e9cada de 1990, que persiste nos dias de hoje, esse cen\u00e1rio tem enfrentado mudan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Pol\u00edticas p\u00fablicas como a Lei de Cotas n\u00b012.711\/2012 e outras legisla\u00e7\u00f5es como a Lei N\u00ba 14.532, que equipara inj\u00faria racial ao crime de racismo, al\u00e9m da implementa\u00e7\u00e3o de um programa que institui cotas raciais em 30% dos cargos de confian\u00e7a, s\u00e3o iniciativas que impulsionam a liberdade de se reconhecer como indiv\u00edduo negro.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra medida foi a cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Igualdade Racial. Criado este ano pelo governo do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, o \u00f3rg\u00e3o tem o objetivo de combater a discrimina\u00e7\u00e3o racial e promover a igualdade de oportunidades para as pessoas negras. O Minist\u00e9rio \u00e9 lan\u00e7ado 20 anos ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o da Secretaria de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial (SEPPIR).<\/p>\n\n\n\n<p>O professor Lourival contrap\u00f5e que essas iniciativas s\u00f3 foram criadas no momento em que certos grupos negros pararam de se sentir inferiores aos brancos.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color wp-block-heading\">Ele afirma que o Racismo Cient\u00edfico, sancionado em s\u00e9culos passados, fazia com que os negros se curvassem aos \u201csuperiores\u201d<\/h5>\n\n\n\n<p>\u201cIsso era uma estrat\u00e9gia europeia de subordinar e explicar cientificamente a inferioridade das ra\u00e7as. Porque se voc\u00ea tem um polo que se convence que \u00e9 superior, voc\u00ea precisa fazer o outro polo acreditar que ele \u00e9 inferior para se deixar dominar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 na tentativa de desconstruir essa hierarquiza\u00e7\u00e3o de ra\u00e7as que o Brasil formaliza, ao longo do s\u00e9culo XXI, as chamadas &#8220;pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o&#8221;. Voltadas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra, o Estado busca compensar esses indiv\u00edduos pelo preju\u00edzo infringido ao longo do tempo, respondendo \u00e0 press\u00e3o do Movimento Negro.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 citada, a Lei de Cotas, que completou dez anos no dia 29 de agosto de 2022, prev\u00ea a reserva de vagas para grupos espec\u00edficos (como pessoas autodeclaradas pretas, pardas e ind\u00edgenas &#8211; PPI e candidatos de baixa renda). De acordo com dados apurados pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior (Andifes), o n\u00famero de estudantes negros e pardos aumentou de 41% do total de matr\u00edculas da rede federal, em 2010, para 52%, em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no mercado de trabalho, em 2023, o governo Lula instituiu a pol\u00edtica de cotas raciais em 30% dos cargos comissionados no pa\u00eds. Assinado no Dia Internacional da Luta pela Elimina\u00e7\u00e3o da Discrimina\u00e7\u00e3o Racial, 21 de mar\u00e7o, o objetivo do decreto \u00e9 ampliar a presen\u00e7a de negros em comiss\u00e3o e fun\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a no Poder Executivo, dando espa\u00e7o para que pessoas como n\u00f3s se sintam representadas dentro do governo federal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Negritude no poder<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dessas inclus\u00f5es, a pessoa negra \u00e9, muitas vezes, vista como forma de cumprimento de cota, impedindo que muitas pol\u00edticas p\u00fablicas sejam efetivadas. Ros\u00e2ngela Hil\u00e1rio, conselheira de Desenvolvimento Econ\u00f4mico, Social e Sustent\u00e1vel da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, conta que ocupar um local de poder nem sempre \u00e9 f\u00e1cil. \u201cAlgumas pessoas me dizem que se eu fosse uma mulher branca, muito provavelmente eu j\u00e1 seria ministra. \u00c9 verdade. Porque normalmente as mulheres brancas t\u00eam uma rede de contato de prote\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o tenho\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"800\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Rosangela-media-edited.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3359\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Rosangela-media-edited.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Rosangela-media-edited-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Rosangela-media-edited-400x533.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Quando crian\u00e7a, Rosangela se espelhou na representatividade negra. Hoje, ela se tornou uma &#8211; Foto: Miriam Rodrigues<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A conselheira indica que ocupar este local \u00e9 enfrentar uma luta diferente todos os dias. Na Rede Brasileira de Mulheres Cientistas (RBMC), onde \u00e9 uma das coordenadoras, Ros\u00e2ngela diz ter proposto uma a\u00e7\u00e3o denominada \u201c21 dias de ativismo contra o racismo\u201d e chocou-se com o resultado:<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color wp-block-heading\">em mais de 3 mil  cientistas, apenas 21 eram negras.<\/h5>\n\n\n\n<p>Mesmo com as diverg\u00eancias que ainda enfrenta, a ativista ressalta que quando um negro rompe uma barreira, ele viabiliza a passagem para outras gera\u00e7\u00f5es, assim como Zumbi dos Palmares, Nelson Mandela, Gloria Maria e outros. S\u00e3o nomes que representam n\u00e3o s\u00f3 negros em posi\u00e7\u00e3o de destaque, mas tamb\u00e9m servem de refer\u00eancia \u00e0 autoidentifica\u00e7\u00e3o do povo preto e pardo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O fortalecimento da autoestima vem de uma gera\u00e7\u00e3o que foi educada para isso e o papel da fam\u00edlia nessa discuss\u00e3o \u00e9 fundamental. Eu por exemplo, tive uma av\u00f3 que disse \u2018voc\u00ea vai ter que lutar a vida inteira, porque est\u00e1 no seu cabelo, est\u00e1 na cor da sua pele, a sua \u00fanica chance \u00e9 estudar e criar argumentos para debater com essas pessoas\u201d, destaca Rosangela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sede de se encontrar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O espa\u00e7o de poder ocupado por pessoas negras, apesar de marcado por dificuldades, \u00e9 composto pela representatividade. S\u00e3o personalidades como Ros\u00e2ngela que servem de inspira\u00e7\u00e3o para o entendimento de jovens que n\u00e3o t\u00eam o debate racial como pauta no n\u00facleo familiar. Assim foi o caso da estudante e militante do Movimento Negro Unificado, Cristiane Oliveira.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"400\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Cristiane-media.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3360\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Cristiane-media.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Cristiane-media-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Cristiane-media-400x267.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">\u201cAntes eu olhava ao redor e n\u00e3o existia rede de apoio. Hoje, eu literalmente olho para tr\u00e1s e vejo um Preto Velho como meu guia\u201d, Cristiane comenta com um sorriso no rosto &#8211; Foto: Heloisa Duim<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Aos 28 anos, ela se auto reconhece como mulher negra, mas o p\u00f3 compacto de tom mais claro marcou sua juventude. Rodeada por colegas brancas na escola, buscou adequar-se com maquiagens e alisamentos. A estudante se prop\u00f4s a pensar em ra\u00e7a apenas cinco anos atr\u00e1s, e foi na universidade que passou a emergir dentro desses debates.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como a nossa entrevistada, eu, a rep\u00f3rter Brunna, passei muito tempo da minha inf\u00e2ncia me escondendo atr\u00e1s de alisamentos. O cabelo cacheado, que hoje n\u00e3o escondo, antigamente era meu maior inimigo. E da mesma forma que ela, passei a me identificar com aqueles \u00e0 minha volta s\u00f3 depois do ingresso na faculdade. Atualmente, me auto reconhe\u00e7o como parda. A representatividade de terceiros me fez reconhecer a mulher que sou hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Os fatores que implicam o n\u00e3o pertencimento da pessoa negra fizeram Cristiane questionar suas ra\u00edzes. \u201cEu n\u00e3o sou t\u00e3o escura para ser negra, e eu n\u00e3o sou t\u00e3o clara para ser branca, e existe esse n\u00e3o lugar dos pardos no Brasil. \u00c9 o limbo, e voc\u00ea n\u00e3o sai do limbo se voc\u00ea n\u00e3o tiver informa\u00e7\u00e3o\u201d, declarou.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu, a rep\u00f3rter Heloisa, compartilho do mesmo sentimento. Sigo a defini\u00e7\u00e3o que consta em minha certid\u00e3o de nascimento e nunca fui questionada ou me questionei sobre quem eu sou, at\u00e9 escrever essa reportagem. Pessoas negras me consideram parda. Pessoas brancas me consideram branca. Essa produ\u00e7\u00e3o me abriu os olhos para a dificuldade de identifica\u00e7\u00e3o quando o assunto \u00e9 ra\u00e7a. Hoje, com sede de me encontrar, busco me reafirmar como a mulher parda que sou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cBusquem andar com os seus. Quando estamos com aqueles que fazem parte do nosso grupo, enxergamos as coisas de outra forma, porque enquanto voc\u00ea est\u00e1 em um meio onde s\u00f3 a branquitude \u00e9 presente, ele se torna pouco questionador\u201d, aconselha Cristiane \u00e0queles que t\u00eam d\u00favidas sobre autodefini\u00e7\u00e3o. Ela ressalta, contudo, que \u00e9 importante viver al\u00e9m da pr\u00f3pria bolha. &#8220;Convivendo com os meus, eu vivo o mundo. Convivendo com os outros, eu vivo o universo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Correntes por mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do progresso indiscut\u00edvel da edi\u00e7\u00e3o 6 do Proj\u00e9til de 1991, at\u00e9 esta edi\u00e7\u00e3o 100, a luta promovida pelo Movimento Negro n\u00e3o est\u00e1 nem perto do fim. Embora atualmente a rede federal brasileira seja composta majoritariamente por estudantes negros, em Mato Grosso do Sul essa informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o condiz com a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo levantamento indicado pela plataforma UFMS em N\u00fameros, em 2022, apenas cerca de 36% dos ingressantes eram pretos e pardos. Entre as classifica\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a, existe ainda uma consider\u00e1vel porcentagem de universit\u00e1rios definidos como \u201cn\u00e3o declarado(a)\u201d, tornando o dado real desconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p>O historiador Lourival dos Santos indica a UFMS como um exemplo de institui\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas afirmativas direcionadas \u00e0 perman\u00eancia desses acad\u00eamicos. O pesquisador afirmou que at\u00e9 2022, a Universidade n\u00e3o possu\u00eda sequer registros de quantos negros estavam matriculados. O n\u00famero de egressos continua sem ser calculado.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, o sucesso desses acad\u00eamicos nas institui\u00e7\u00f5es se limita apenas \u00e0 sua aprova\u00e7\u00e3o. Com a dificuldade de se manterem na gradua\u00e7\u00e3o devido aos problemas financeiros e \u00e0s dificuldades de aprendizado, a maioria acaba desistindo, o que faz com que a porcentagem de formandos seja inferior a de matriculados.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas e outras diverg\u00eancias em pol\u00edticas p\u00fablicas tamb\u00e9m s\u00e3o destacadas por Bartolina. Apesar do recente decreto do presidente Lula, que institui pelo menos 30% dos cargos de confian\u00e7a para pessoas negras, ela afirma que \u00e9 poss\u00edvel contar nos dedos a designa\u00e7\u00e3o dessas pessoas em Mato Grosso do Sul. O mesmo ocorre com a Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>As conquistas s\u00e3o muitas, mas as pol\u00edticas afirmativas continuam longe de serem dispens\u00e1veis, gra\u00e7as ao n\u00edvel de desigualdade presente. \u00c9 preciso empoderar-se para dar poder \u00e0 representatividade.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color wp-block-heading\">Essa \u201ccorrente\u201d j\u00e1 fez feridas demais e continuar\u00e1 fazendo.<\/h5>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, identidades s\u00e3o constru\u00eddas e \u00e9 como Bartolina diz. \u201cDesmistificou-se tudo o que foi dito que n\u00f3s \u00e9ramos e nunca fomos. \u00c9 aquela velha hist\u00f3ria. Sou porque somos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Afinal, qual \u00e9 a sua cor?<\/strong><\/p>\n\n\n<p>Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), pardo(a) \u00e9 uma pessoa com diferentes ascend\u00eancias \u00e9tnicas, baseadas numa mistura de cores de peles entre brancos, negros e ind\u00edgenas. Essa miscigena\u00e7\u00e3o engloba descendentes de negros e brancos, de negros com ind\u00edgenas, de ind\u00edgenas com brancos, al\u00e9m de todas as outras poss\u00edveis intera\u00e7\u00f5es inter-raciais diretas ou indiretas. Ou seja, se voc\u00ea se encaixa em alguma dessas forma\u00e7\u00f5es, pode se declarar pardo(a).<\/p>\n<p>Uma pessoa preta, contudo segundo classifica\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/educa.ibge.gov.br\/jovens\/conheca-o-brasil\/populacao\/18319-cor-ou-raca.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">IBGE<\/a>, tem como refer\u00eancia a descend\u00eancia oriunda de nativos da \u00c1frica. Independentemente de seu territ\u00f3rio ou constru\u00e7\u00e3o social, pelo fen\u00f3tipo manifestado por sua pele de cor escura. O conceito de negro \u00e9 definido pelo Estatuto da Igualdade Racial de <a href=\"https:\/\/legislacao.presidencia.gov.br\/atos\/?tipo=LEI&amp;numero=12288&amp;ano=2010&amp;ato=e4eoXSq1keVpWT31d\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">lei n\u00ba 12.288, de 20 de julho de 2010<\/a>: \u201cconjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas, conforme o quesito cor ou ra\u00e7a usado pela Funda\u00e7\u00e3o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), ou que adotam autodefini\u00e7\u00e3o an\u00e1loga\u201d.<\/p>\n<p>Para entender a sua cor, \u00e9 preciso tamb\u00e9m voltar ao passado e compreender a hist\u00f3ria escravagista brasileira. Com a vinda dos navios negreiros ao Brasil, aumentou a popula\u00e7\u00e3o preta do pa\u00eds. O transporte era realizado em condi\u00e7\u00f5es desumanas (muitas pessoas morriam no trajeto). Al\u00e9m disso, a miscigena\u00e7\u00e3o do Brasil \u2013 t\u00e3o romantizada \u2013 tamb\u00e9m foi fruto de estupros sistem\u00e1ticos cometidos contra mulheres negras &#8211; a exemplo da situa\u00e7\u00e3o problematizada pela ativista Angela Davis . Assim, a idealiza\u00e7\u00e3o da miscigena\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de ocultar a viol\u00eancia presente neste processo. Foram esses crimes sexuais que intensificaram a varia\u00e7\u00e3o nos tons de pele.<\/p>\n<p>Existem mesmo diversas tonalidades da pele negra, que podem ser entendidas como colorismo. Embora ser negro ou negra em tom mais claro ou mais escuro indique afrodescend\u00eancia, a sociedade n\u00e3o enxerga todos os negros e negras da mesma forma. As oportunidades n\u00e3o s\u00e3o iguais e \u00e9 percept\u00edvel que as pessoas negras que t\u00eam mais oportunidades s\u00e3o as que apresentam tra\u00e7os mais pr\u00f3ximos da apar\u00eancia branca, como o tom de pele mais claro, boca e nariz mais finos e cabelos menos crespos.<\/p>\n<p>N\u00f3s do Proj\u00e9til esperamos ter contribu\u00eddo para o entendimento da pessoa negra e proporcionado reflex\u00e3o sobre o racismo estrutural presente no Brasil.<\/p>\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"200\" data-id=\"3436\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Brunna-pequena.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3436\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"200\" data-id=\"3438\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Felipe-pequena-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3438\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"200\" data-id=\"3437\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/Heloisa-pequena.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3437\"\/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption wp-element-caption\">Da esquerda para a direita: Brunna, Felipe e Heloisa, os rep\u00f3rteres desta reportagem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-accent-background-color has-text-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?page_id=3670\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 100<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com inova\u00e7\u00f5es nas pol\u00edticas p\u00fablicas e representatividade, foram necess\u00e1rias 94 edi\u00e7\u00f5es para que \u201cCorrentes Demais\u201d se tornasse \u201cM\u00e9rito Negro, Privil\u00e9gio Branco\u201d Texto: Brunna Paula | Felipe Arguelho | Heloisa Duim \u201cEm pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Opini\u00e3o (Ibrape) entre 25 de outubro e 10 de novembro, 10% dos negros do Centro-Oeste gostariam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31],"tags":[],"class_list":["post-3342","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagem100"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3342","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3342"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3342\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3702,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3342\/revisions\/3702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}