{"id":3352,"date":"2023-06-27T16:24:49","date_gmt":"2023-06-27T20:24:49","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=3352"},"modified":"2023-07-07T09:57:08","modified_gmt":"2023-07-07T13:57:08","slug":"a-memoria-da-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/a-memoria-da-fome\/","title":{"rendered":"A mem\u00f3ria da fome"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">Em solo brasileiro a fome \u00e9 uma mem\u00f3ria viva, que supera o tempo e permanece enraizada na popula\u00e7\u00e3o. Assunto discutido desde 1996 no Proj\u00e9til retorna agora na 100\u00ba edi\u00e7\u00e3o: como a fome ainda persiste no Brasil?<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">Texto:<strong> Lara Isabelle Bellini | Maria Luiza Massulo Elias | Reuel de Oliveira <\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>A barriga ronca em sil\u00eancio, ecoa no est\u00f4mago vazio e s\u00f3 escuta quem sente. O sem\u00e1foro serve de metr\u00f4nomo, abre e fecha, abre e fecha, marcando o curto per\u00edodo de tempo que Elis\u00e2ngela tem para conseguir qualquer valor em troca de um pirulito. Cinco centavos j\u00e1 ajuda, \u00e9 o que dizem as letras pintadas na placa de papel\u00e3o que ela segura, e, no fim do dia, esses pouquinhos se transformam em um saco de arroz ou de feij\u00e3o, raramente os dois. \u00c0s vezes nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p>O medo e a incerteza que acompanham a mulher no caminho de casa at\u00e9 a rotat\u00f3ria da Coca Cola, no bairro Universit\u00e1rio, em Campo Grande (MS), tem nome t\u00e9cnico: inseguran\u00e7a alimentar; caracterizada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, como a falta de acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidades suficientes para garantir uma exist\u00eancia saud\u00e1vel, a inseguran\u00e7a alimentar no Brasil \u00e9 percebida por meio da Escala Brasileira de Medida Domiciliar de Inseguran\u00e7a Alimentar (Ebia), que, na tentativa de estabelecer fronteiras para a fome, classifica a gravidade em que um grupo se encontra dentro desse contexto a partir das mudan\u00e7as nos padr\u00f5es de alimenta\u00e7\u00e3o, como a escolha por produtos de qualidade cada vez mais baixas at\u00e9 a priva\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/elisangela-1-1024x666.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3414\" width=\"610\" height=\"396\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/elisangela-1-1024x666.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/elisangela-1-300x195.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/elisangela-1-768x500.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/elisangela-1-400x260.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/elisangela-1.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Elis\u00e2ngela trabalha com o que est\u00e1 ao seu alcance para conquistar o alimento para casa<br>Foto: Lara Bellini<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Perto de Elis\u00e2ngela, em um dos canteiros da Avenida Costa e Silva, h\u00e1 outra placa de papel\u00e3o. Quem segura essa placa \u00e9 Josu\u00e9, j\u00e1 n\u00e3o lembra mais o sobrenome, nem a idade, o que sabe \u00e9 que o corpo j\u00e1 n\u00e3o aguenta mais trabalhar. Em casa, o arm\u00e1rio embaixo da pia est\u00e1 vazio. Na rua, eram 13h30 e a primeira refei\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o tinha chegado. Estava cansado e a sensa\u00e7\u00e3o era como se tivessem lhe roubado o est\u00f4mago, porque o \u00f3rg\u00e3o j\u00e1 nem se preocupava mais em reclamar. Sem carteira de identidade, Josu\u00e9 n\u00e3o consegue ter acesso aos servi\u00e7os de assist\u00eancia social do governo, ent\u00e3o pedir dinheiro foi o jeito que encontrou para se manter vivo e depender menos das ajudas das irm\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o <a href=\"https:\/\/olheparaafome.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2\u00b0 Inqu\u00e9rito Nacional de Inseguran\u00e7a Alimentar no Brasil no Contexto da Covid-19 (II Vigisan)<\/a>, realizado pela Rede PENSSAN, em 2022, Mato Grosso do Sul (MS) tem 65% da popula\u00e7\u00e3o vivendo em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar. Dessas, 9,4% est\u00e3o classificadas em situa\u00e7\u00e3o grave, aquela em que as pessoas t\u00eam um acesso m\u00ednimo \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, atualmente, a fome, com seus v\u00e1rios nomes e faces, que \u00e0s vezes se apresenta como Josu\u00e9, outras como Elis\u00e2ngela, persegue mais de 266 mil pessoas no estado e revela que essa ferida mal curada vive enquanto mata.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A trajet\u00f3ria da fome no mapa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um outro Josu\u00e9, de sobrenome de Castro, foi um dos primeiros cientistas e pensadores brasileiros a discutir a fome, quando lan\u00e7ou, em 1946, o livro \u201cGeografia da fome\u201d, que aborda o assunto da fome coletiva como um fen\u00f4meno geograficamente universal. O autor coloca em uma perspectiva pol\u00edtica e social, al\u00e9m de racial, os acessos aos nossos alimentos, que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o nossos como deveriam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO problema da fome n\u00e3o \u00e9 a comida, o problema da fome \u00e9 o acesso, a distribui\u00e7\u00e3o desses alimentos\u201d, explica Fernanda Savicki, pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, no Escrit\u00f3rio T\u00e9cnico do MS e presidenta da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Agroecologia (ABA). Ela estuda o hist\u00f3rico da fome a partir da abertura democr\u00e1tica do pa\u00eds, ap\u00f3s a ditadura. \u00c9 nesse momento que a alimenta\u00e7\u00e3o passa a ser um direito humano, uma pauta de sa\u00fade p\u00fablica, muito embora, os debates e conven\u00e7\u00f5es internacionais sobre o assunto antecedam esse per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, artigo 6\u00ba, consta o direito de todos os cidad\u00e3os e cidad\u00e3s brasileiros \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 moradia, ao lazer, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, levou mais de 20 anos para que inclu\u00edssem a alimenta\u00e7\u00e3o como um direito de toda a popula\u00e7\u00e3o brasileira, em 2010. \u201cA gente sabe que entre estar na Constitui\u00e7\u00e3o e fazer de fato isso se concretizar no prato de comida da popula\u00e7\u00e3o brasileira, tem uma enorme diferen\u00e7a, tem um v\u00e1cuo, um gargalo consider\u00e1vel\u201d, completa a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2014, o Brasil saiu do mapa da fome, e os louros dessa sa\u00edda n\u00e3o est\u00e3o concentrados em um governo ou em uma \u00fanica estrat\u00e9gia, e muito menos deve ser vista como uma tacada de mestre. Os tijolos foram lentamente colocados para construir a estrutura da sa\u00edda, e demorou anos at\u00e9 que a base estivesse pronta. Segundo Fernanda, os m\u00e9ritos n\u00e3o se limitam aos governos do PT, afinal algumas iniciativas estavam presentes a partir dos governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) e do Itamar Franco (1992-1994). Um fato ineg\u00e1vel \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para a alimenta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o brasileira nos anos de 2002 e 2003, n\u00e3o vistos antes em nenhum outro governo.<\/p>\n\n\n\n<p>O grande X da quest\u00e3o \u00e9 entender que as sombras que acompanham o problema vivo e pulsante da fome n\u00e3o s\u00e3o unilaterais. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica, nem produ\u00e7\u00e3o de alimentos, \u00e9 a somat\u00f3ria, \u00e9 o sistema e o todo, \u00e9 sobre acesso e mercadoria, sendo assim, come quem tem dinheiro, quem n\u00e3o tem dinheiro, morre de fome. Segundo dados da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO), com a produ\u00e7\u00e3o de alimentos do final de 2022, conseguir\u00edamos alimentar a popula\u00e7\u00e3o estimada para 2050, ou seja, uma popula\u00e7\u00e3o para mais de 10 bilh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #e02828\">\u00c9 sobre acesso e mercadoria, sendo assim, come quem tem dinheiro, quem n\u00e3o tem dinheiro, morre de fome.<\/span><\/h5>\n\n\n\n<p>Quase 80 anos se passaram desde a publica\u00e7\u00e3o do livro Geografia da Fome e ainda vivemos no mesmo recorte e nas mesmas linhas descritivas e liter\u00e1rias que Josu\u00e9 de Castro teceu. A volta do Brasil para o mapa da fome era prevista antes da pandemia da Covid-19, devido ao sucateamento das pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para a alimenta\u00e7\u00e3o e o acesso quase nulo aos alimentos. O Inqu\u00e9rito sobre Inseguran\u00e7a Alimentar no contexto da pandemia, feito em 2022 sobre 2021, apontou 125 milh\u00f5es de pessoas, ou seja, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o, 58%, com algum \u00edndice de inseguran\u00e7a alimentar, e 33 milh\u00f5es em inseguran\u00e7a alimentar grave, ou seja, passam fome.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o vai e vem, entre a entrada e a sa\u00edda, chegamos na in\u00e9rcia. A alegoria da caverna, de Plat\u00e3o, pode ser comparada com essa trajet\u00f3ria. Se a sa\u00edda do Mapa da Fome garantisse que os muitos quilos de alimentos produzidos e colhidos chegariam \u00e0 mesa, aos pratos e \u00e0 boca, talvez pud\u00e9ssemos cogitar uma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 solu\u00e7\u00e3o. A caverna \u00e9 muito maior, e as sombras e proje\u00e7\u00f5es nada parecidas com a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O perfil da fome <\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/panela-hellen-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3416\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/panela-hellen-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/panela-hellen-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/panela-hellen-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/panela-hellen-400x300.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/panela-hellen.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Hellen, uma das lideran\u00e7as da Comunidade da Vit\u00f3ria, \u00e9 quem recebe as doa\u00e7\u00f5es de alimento e ajuda a alimentar a comunidade<br>Foto: Lara Bellini<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>H\u00e1 anos a inseguran\u00e7a alimentar acompanha Hellen como uma sombra. A mem\u00f3ria viva de comer o que sobrava ou o que pedia na regi\u00e3o da Rodovi\u00e1ria Velha em Campo Grande, \u00e9 o que hoje mant\u00e9m o seu fog\u00e3o do lado de fora de casa, um recado silencioso de que enquanto ela estiver ali dificilmente algu\u00e9m vai ter que passar pelo que ela passou. A mesma comida que alimenta suas filhas \u00e9 divida com a Comunidade da Vit\u00f3ria, comunidade pr\u00f3xima ao bairro Noroeste, inteira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #e02828\">\u201cA fome tem cor, g\u00eanero e localiza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o pessoas do norte, nordeste e centro-oeste do pa\u00eds passando fome, s\u00e3o as pessoas pretas, ind\u00edgenas e do interior\u201d &#8211; Fernanda<\/span><\/h5>\n\n\n\n<p>&nbsp;O desenho desse perfil tem olhos, nariz e boca, e se fosse uma pessoa seria uma mulher. Fam\u00edlias chefiadas por mulheres t\u00eam radicalmente um aumento da fome, atrelado ao desemprego, subemprego e informalidade nos trabalhos; tamb\u00e9m sal\u00e1rios menores e falta de rede de apoio.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o Bolsa Fam\u00edlia ainda era Bolsa Escola, no governo do Presidente Fernando Henrique, o v\u00ednculo de recebimento do benef\u00edcio estava no nome da mulher da fam\u00edlia, afinal mesmo n\u00e3o chefiando a casa, se tinha a garantia da aplica\u00e7\u00e3o do recurso para e na fam\u00edlia. Em 2019, no governo de Jair Bolsonaro (2018 &#8211; 2022) esse v\u00ednculo se quebra, al\u00e9m da queda radical do valor do Bolsa Fam\u00edlia, o benef\u00edcio poderia ser recebido por qualquer membro da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro desenho do perfil da fome tem seu esbo\u00e7o no racismo e no sistema patriarcal do estado Brasileiro. \u201cFam\u00edlias chefiadas por homens negros e ind\u00edgenas s\u00e3o as que mais passam fome no Brasil\u201d, completa a pesquisadora Fernanda Savicki. Josu\u00e9 de Castro, m\u00e9dico e autor negro, j\u00e1 sentia e sabia que o problema da fome n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o acesso e sim o fator racial. Para ele, a estrutura racial brasileira impede que algumas pessoas ou categorias, ascendam e, principalmente, ascendam com uma alimenta\u00e7\u00e3o adequada. Carolina Maria de Jesus afirmava com sua literatura, de maneira cir\u00fargica, que o Brasil s\u00f3 venceria a fome (e sua mem\u00f3ria) quando fosse governado por quem j\u00e1 passou por ela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Comer \u00e9 um ato pol\u00edtico <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O <a href=\"https:\/\/bvsms.saude.gov.br\/bvs\/publicacoes\/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Guia Alimentar para a popula\u00e7\u00e3o brasileira<\/a>, de 2014, \u00e9 um documento reconhecido internacionalmente e pioneiro quando se trata de relacionar a alimenta\u00e7\u00e3o com a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura, al\u00e9m de incluir as dimens\u00f5es da alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, n\u00e3o focando apenas no nutriente.<\/p>\n\n\n\n<p>O caminho do alimento at\u00e9 a mesa \u00e9 levado em considera\u00e7\u00e3o, ou seja, sua origem. Se \u00e9 plantado, cultivado e colhido por m\u00e3o de obra an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o ou agricultura familiar, e tamb\u00e9m valoriza o com\u00e9rcio regional e local, selecionando alimentos para determinada regi\u00e3o que s\u00e3o cultivados ali, justamente para ser realista em rela\u00e7\u00e3o ao acesso. \u201cAt\u00e9 mesmo para produzir um alimento fora da esta\u00e7\u00e3o, tem que usar mais agrot\u00f3xico, tem que usar mais fertilizantes, ou na substitui\u00e7\u00e3o dos alimentos, um exemplo \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o do arroz pela batata doce, com alega\u00e7\u00f5es mais saud\u00e1veis, a gente n\u00e3o produz batata doce, j\u00e1 que eu quero substituir algo, porque n\u00e3o substituo por mandioca, que produzo aqui no meu estado?\u201d explica Anderson Holsbach, nutricionista e presidente da Associa\u00e7\u00e3o Sul-Mato-Grossense de Nutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o nutricionista, o guia recomenda que a base da alimenta\u00e7\u00e3o seja feita de alimentos in natura, ou seja, como ele se encontra na natureza, mantendo sua estrutura original. Seguido de alimentos minimamente processados, que \u00e9 um alimento que parte do in natura mas sofre uma modifica\u00e7\u00e3o para torn\u00e1-lo consum\u00edvel, como a farinha de mandioca, por exemplo. O alimento processado, para sua conserva\u00e7\u00e3o necessita ser adicionado em uma salmoura ou em uma calda, como o milho enlatado ou o p\u00eassego em conserva. E por fim, os alimentos ultraprocessados, que n\u00e3o tem nada, ou quase nada, de origem animal ou vegetal, \u00e9 um produto majoritariamente feito pela ind\u00fastria, sendo assim, tem alto desequil\u00edbrio na sua composi\u00e7\u00e3o nutricional, com incrementos aditivos nocivos para a sa\u00fade, como embutidos e refrigerantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O direcionamento documentado no guia \u00e9 priorizar produtos in natura ou minimamente processados, limitar o consumo dos alimentos processados e evitar os alimentos ultraprocessados, esses que por sua vez est\u00e3o cada vez mais frequentes na mesa da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Por estarem cada vez mais baratos e suprir de alguma forma o ronco da barriga no fim do dia, s\u00e3o danosos a curto e longo prazo para a sa\u00fade, e com o consumo desenfreado podem desencadear hipertens\u00e3o, diabetes, obesidade e at\u00e9 mesmo, c\u00e2ncer.<\/p>\n\n\n\n<p>Anderson pontua que todos precisam dos macronutrientes e dos micronutrientes, mas a quantidade varia de acordo com a pessoa, idade, condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e ciclo de vida. E tamb\u00e9m depende das atividades que exercemos ao longo do dia. \u201cSe eu estiver trabalhando na frente de um computador, eu vou ter necessidade de menos energia do que aquela pessoa que trabalha na ro\u00e7a, ent\u00e3o tudo isso vai se diferenciar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias da mem\u00f3ria da fome na quest\u00e3o nutricional tem nome, afinal, no retrato da inseguran\u00e7a alimentar a pintura da desnutri\u00e7\u00e3o tem moldura e marca na pele, principalmente das crian\u00e7as. \u201cO efeito cascata da fome \u00e9 muito grande, ent\u00e3o a gente pode ter problemas relacionados \u00e0 mem\u00f3ria, \u00e0 hipoglicemia, ela vai ter um baixo rendimento escolar\u201d. O nutricionista tamb\u00e9m complementa que at\u00e9 a economia \u00e9 afetada. \u201cUma pessoa com baixo rendimento escolar ter\u00e1 dificuldades de se colocar no mercado de trabalho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As supera\u00e7\u00f5es n\u00e3o se limitam \u00e0 mem\u00f3ria da fome, o ciclo dela precisa ser quebrado. Antes de pensar em nutrientes, alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e comida de verdade, \u00e9 necess\u00e1rio ter garantia de que algo vai chegar. \u201cQuando voc\u00eas fazem um resgate l\u00e1 de 1996 para c\u00e1, devem lembrar de que lugar a gente est\u00e1 falando, de que cen\u00e1rio est\u00e1 falando, ent\u00e3o as pol\u00edticas p\u00fablicas interferem muito. A gente dificilmente vai conseguir colocar um prato equilibrado, nutricionalmente balanceado, na mesa de todos os brasileiros, se a gente n\u00e3o tiver uma economia fortalecida por uma pol\u00edtica p\u00fablica fortalecida\u201d, finaliza Anderson, ao defender a luta pela garantia do direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o adequada e saud\u00e1vel, por meio da agroecologia, da agricultura familiar, e de pol\u00edticas p\u00fablicas na mesa, no prato e no corpo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma heran\u00e7a do Brasil col\u00f4nia e escravocrata<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, descreve a linha t\u00eanue entre a fic\u00e7\u00e3o e a realidade, da fome junto a uma heran\u00e7a n\u00e3o t\u00e3o distante, de um Brasil Col\u00f4nia marcado pela pol\u00edtica escravocrata. Assim, a fome entre produtores de alimento, \u00e9 ir\u00f4nica e criminosa, como pode algu\u00e9m que produz, planta, cuida e colhe n\u00e3o ter o que comer?<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/IMG_6285-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3417\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/IMG_6285-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/IMG_6285-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/IMG_6285-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/IMG_6285-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/IMG_6285-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/IMG_6285.jpg 1244w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Caixas que foram usadas para distribuir alimento e retornaram para os produtores vazias<br>Foto: Lara Bellini<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u201cN\u00f3s aqui, colonizados e descendentes das Sesmarias, seguimos com um valor que nos foi imposto, que ter terra, significa ter poder\u201d, contextualiza Alejandro Lasso, mestre em agroecossistemas e doutor em ci\u00eancias humanas, sobre o Brasil ter uma heran\u00e7a enraizada que contribui para o aumento fome. Alejandro explica que processos como a reforma agr\u00e1ria, a retomada de terras ind\u00edgenas e a cria\u00e7\u00e3o de terras quilombolas proporcionam e facilitam o aumento da autonomia das fam\u00edlias descendentes a terem seu pr\u00f3prio terreno, para garantir ao menos, alimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica da fazenda deturpa o direito de ter um peda\u00e7o de ch\u00e3o, afinal, esse direito vai por sua vez, contra a l\u00f3gica econ\u00f4mica. Os pa\u00edses colonizados carregam consigo outra l\u00f3gica, a do senhor, do dom\u00ednio das terras, de obedecer e servir, e seus descendentes carregam os fardos de quase 400 anos de escravid\u00e3o, inseridos veladamente na gen\u00e9tica cultural. \u201cAqui tem muito agricultor, muito agricultor familiar que mesmo tendo seu pedacinho de terra acha que n\u00e3o vai conseguir fazer nada por si, e se convence de trabalhar na fazenda, em vez de trabalhar na sua pr\u00f3pria terra ou sai de suas terras por in\u00fameras quest\u00f5es e vai para a cidade tentar algo, o problema \u00e9 que no campo pelo menos voc\u00ea tem uma op\u00e7\u00e3o concreta do que fazer, na cidade n\u00e3o\u2019\u2019, finaliza Alejandro.<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa de Itamar Vieira e as falas de Alejandro t\u00eam em comum a busca por revelar a falha gen\u00e9tica e estrutural de uma heran\u00e7a que cada vez cresce mais e n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o as poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es, a d\u00favida de Itamar n\u00e3o respondida por ningu\u00e9m, persiste, junto da fome, \u201cAt\u00e9 quando vamos contribuir para a manuten\u00e7\u00e3o de uma sociedade que n\u00e3o defende os direitos alimentares e que n\u00e3o fortalece os pequenos agricultores?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma m\u00e3o alimenta a outra <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O motor do carro estacionando do lado de fora soa como um an\u00fancio de vida. O alimento, antes de ser provado pela boca, \u00e9 sentido pelas m\u00e3os pequenas e curiosas das crian\u00e7as, que s\u00e3o as primeiras a quererem tocar na comida que chega e, atrapalhadamente, ajudar a lev\u00e1-la para dentro de casa. Embrulhados em pl\u00e1stico, um saco de arroz, feij\u00e3o, sal, molho de tomate, um pacote de macarr\u00e3o, e os olhos infantis brilham quando encontram no meio de tudo aquilo uma bolacha ou umas balinhas para ado\u00e7ar a boca depois do almo\u00e7o. Com o passar dos dias, o pouco que tinha guardado j\u00e1 n\u00e3o alimenta mais todo mundo. Entre sentir no pr\u00f3prio corpo a dor da fome e assistir os filhos reclamarem de est\u00f4mago vazio, o que tem fica para as crian\u00e7as. O suspiro que a m\u00e3e solta \u00e9 de al\u00edvio, porque, durante aquele m\u00eas, a fome pode voltar a ser apenas uma mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, 70 m\u00e3es esperam por uma das cestas b\u00e1sicas distribu\u00eddas pela <a href=\"https:\/\/www.cufa.org.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Central \u00danica das Favelas de Campo Grande (Cufa)<\/a>. A organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental atua em \u00e2mbito nacional, promovendo atividades nas \u00e1reas de educa\u00e7\u00e3o, lazer, esportes, cultura e cidadania para aqueles que vivem em favelas e bairros marginalizados. Em Campo Grande, a ONG entrega, todos os meses, em m\u00e9dia 100 cestas b\u00e1sicas para fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que alimenta\u00e7\u00e3o seja um direito previsto na constitui\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica, o v\u00e1cuo deixado pelas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas precisa ser preenchido pela sociedade civil. \u201cQuando uma fam\u00edlia chega at\u00e9 n\u00f3s, sempre tentamos primeiro encaminhar para o Cras [Centro de Refer\u00eancia de Assist\u00eancia Social], mas ela acaba voltando porque, por mais que existam projetos do governo para tirar ela dessa situa\u00e7\u00e3o, eles n\u00e3o s\u00e3o suficientes\u201d, afirma Let\u00edcia Polidoro, coordenadora da Cufa.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o Social do Governo Federal, em MS, 60.284 fam\u00edlias s\u00e3o beneficiadas pelo novo Bolsa Fam\u00edlia, e recebem um valor m\u00e9dio de R$ 688,75. Esse dinheiro dilui-se em uma conta de \u00e1gua, completa a conta de luz e se esfor\u00e7a para comprar o g\u00e1s. Seus resqu\u00edcios v\u00e3o parar no mercado e j\u00e1 n\u00e3o tem como levar quase nada. Segundo dados de Estat\u00edsticas do Registro Civil do Censo de 2022, do IBGE, 2,7 milh\u00f5es de pessoas no Brasil n\u00e3o possuem certid\u00e3o de nascimento, o que as impede de reivindicar esses benef\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto as pol\u00edticas p\u00fablicas ainda n\u00e3o s\u00e3o capazes de atender a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, a fome se faz presente nas periferias, nos bairros e se escancara nos sem\u00e1foros espalhados pela cidade. Ignorar deixa de ser uma op\u00e7\u00e3o e uma m\u00e3o passa a alimentar a outra na tentativa de amenizar a situa\u00e7\u00e3o. A solidariedade n\u00e3o vai acabar com a fome, mas permite que Hellen, Josu\u00e9, Elisangela e centenas de outros campo-grandenses continuem vivos e persistindo contra a mem\u00f3ria da fome.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-accent-background-color has-text-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?page_id=3670\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 100<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em solo brasileiro a fome \u00e9 uma mem\u00f3ria viva, que supera o tempo e permanece enraizada na popula\u00e7\u00e3o. Assunto discutido desde 1996 no Proj\u00e9til retorna agora na 100\u00ba edi\u00e7\u00e3o: como a fome ainda persiste no Brasil? 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