{"id":3796,"date":"2023-12-21T07:57:31","date_gmt":"2023-12-21T11:57:31","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=3796"},"modified":"2024-02-26T14:06:48","modified_gmt":"2024-02-26T18:06:48","slug":"solidao-a-tres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/solidao-a-tres\/","title":{"rendered":"Solid\u00e3o a tr\u00eas"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">Diferentes perspectivas provam que o tempo n\u00e3o funciona da mesma maneira para os idosos, mas personifica o abandono afetivo que eles carregam<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Brunna Paula | Heloisa Duim<br>Edi\u00e7\u00e3o: Ingrid Protasio | Isadora Colete | Jo\u00e3o Vitor Marques<\/strong><br><strong>Fotos: Geovanna Bortolli<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>\u2018\u2018Solid\u00e3o a tr\u00eas&#8221; ser\u00e1 aprimorada a partir de tr\u00eas diferentes vis\u00f5es: da casa (o Viver Bem &#8211; Lar para Idosos), dos idosos (personagens) e da minha (rep\u00f3rter). Dessa maneira, busco a aproxima\u00e7\u00e3o entre o leitor e cada um dos pontos de vista, que se relacionam ao abandono afetivo. Mas antes de entrar a fundo nessa hist\u00f3ria, quero situar que voc\u00ea est\u00e1 diante de uma narrativa baseada em fatos reais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" data-id=\"3996\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-01-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3996\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-01-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-01-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-01-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-01-1200x900.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-01-1250x938.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-01-400x300.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-01.jpg 1333w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"1000\" data-id=\"3998\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-06.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3998\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-06.jpg 750w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-06-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-06-400x533.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"1000\" data-id=\"3997\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-07.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3997\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-07.jpg 750w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-07-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/02\/solidao-07-400x533.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption wp-element-caption\">A maioria dos idosos que vivem<br>na casa dificilmente recebem<br>visitas de familiares e precisam<br>conviver com a solid\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Todas as tr\u00eas partes s\u00e3o desenvolvidas em primeira pessoa. Assim, meu objetivo em \u201cA Casa\u201d \u00e9 mostrar que a Institui\u00e7\u00e3o de Longa Perman\u00eancia para Idosos (ILPI) referida n\u00e3o \u00e9 ruim, e pelo contr\u00e1rio, apresenta um prop\u00f3sito bom para os idosos. Al\u00e9m disso, com \u201cOs Moradores\u201d narrando a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, quero humanizar os relatos, para que voc\u00ea sinta, assim como eu, a sensa\u00e7\u00e3o que define ter a alma tocada pelas palavras de nossos protagonistas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 triste quando olhamos para os dados e percebemos que sua exist\u00eancia se encontra de forma cruel. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domic\u00edlio, do Minist\u00e9rio da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos, em 2019 o abandono afetivo esteve frequente dentro do \u00e2mbito familiar, em especial com os idosos. Cerca de 65% dos respons\u00e1veis pelo ato s\u00e3o os pr\u00f3prios filhos, enquanto aproximadamente 18% correspondem a parentes pr\u00f3ximos da pessoa idosa.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A casa<\/h5>\n\n\n\n<p>Meus muros brancos e altos, com c\u00e2meras de seguran\u00e7a ao longo de toda a minha extens\u00e3o, t\u00eam o topo coroado por concertina e cerca el\u00e9trica. Minha fachada simples, centralizada na constru\u00e7\u00e3o que toma quase um quarteir\u00e3o inteiro na rua Albert Sabin, tem como ponto de cor o cinza do port\u00e3o de metal que permite a entrada e sa\u00edda somente dos funcion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>O exterior, nada convidativo e semelhante a uma pris\u00e3o, esconde um lar esteticamente aconchegante, apesar dos residentes serem marcados pela solid\u00e3o. Nos c\u00f4modos sociais, a ilumina\u00e7\u00e3o natural aquece cada canto de mim. Nas entranhas, reproduzo a aus\u00eancia de cor encontrada do lado de fora. Pigmento-me apenas com apoios de metal vermelho nas paredes, assim como rampas cobertas por tapetes antiderrapantes emborrachados, que servem de cuidado e fazem refer\u00eancia \u00e0queles que amparo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos quartos dos ocupantes, os nomes cravados acima de suas respectivas camas os distribuem em quatro, tr\u00eas ou dois por c\u00f4modo. Suas vestimentas s\u00e3o organizadas de forma individual. Na sala, a enorme televis\u00e3o sob uma estante de madeira antiga, tem a companhia de seis poltronas de couro bege, usadas diariamente por parte dos cond\u00f4minos para sua divers\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, comporto 23 residentes, e sou movimentada diariamente pela ampla equipe de profissionais, que atuam garantindo a prote\u00e7\u00e3o dos idosos em tempo integral. S\u00e3o essas pessoas as respons\u00e1veis pela organiza\u00e7\u00e3o met\u00f3dica de cada minuto da rotina. Por aqui, nada acontece fora do hor\u00e1rio. At\u00e9 para aferir a press\u00e3o dos moradores o tempo \u00e9 calculado.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da gama de indiv\u00edduos que permeiam corredores adentro, meu port\u00e3o cinza dificilmente presencia visitas dos familiares de quem aqui mora. Na maioria dos casos que me constituem, a vulnerabilidade social anda de m\u00e3os dadas com o abandono afetivo. \u00c9 dif\u00edcil para mim ter que admitir que a coisa mais pr\u00f3xima de afeto que eu tenho est\u00e1 no nome que abra\u00e7a o termo lar. Em meu \u00e2mago, sinto que cerca de 90% dos idosos residentes n\u00e3o s\u00e3o frequentemente visitados, e assim a palavra &#8220;tristeza&#8221; se tornou figurinha repetida em um \u00e1lbum marcado por vocabul\u00e1rios amargurados.<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\">Apesar da gama de indiv\u00edduos que permeiam corredores adentro, meu port\u00e3o cinza dificilmente presencia visitas dos familiares de quem aqui mora<\/span><\/h5>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Os moradores<\/h5>\n\n\n\n<p>O Viver Bem \u00e9 apenas mais um \u201cLar\u201d em meio a outros semelhantes aqui na capital. O lugar \u00e9 uma entidade governamental que acolhe pessoas idosas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social, encaminhadas pela Secretaria de Assist\u00eancia Social (SAS) de Campo Grande. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), em Mato Grosso do Sul s\u00e3o 412 mil pessoas idosas residindo no Estado, o equivalente a 15% da popula\u00e7\u00e3o total. Alguns deles contam suas hist\u00f3rias abaixo.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Maria de Lurdes do Ros\u00e1rio<\/h5>\n\n\n\n<p>Me chamo Maria de Lurdes, tenho 80 anos, ou 85. Nessa fase da vida a minha mem\u00f3ria j\u00e1 est\u00e1 me deixando na m\u00e3o. Hoje, sentada nesse refeit\u00f3rio em uma cadeira de rodas desconfort\u00e1vel, recordo que estou no Viver Bem h\u00e1 um ano, e nesse meio tempo n\u00e3o sei se tenho hist\u00f3rias boas e felizes para compartilhar. Nem sequer consigo lembrar do porqu\u00ea fui tirada de minha casa. Mas antes de come\u00e7armos a falar sobre as tristezas que essa vida me deu, digo a voc\u00ea que a minha juventude era de se invejar.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu pai era fazendeiro e t\u00ednhamos in\u00fameras propriedades. Naquele tempo, eu acreditava que meu destino seria feliz e aconchegante. Sou natural de Cuiab\u00e1, todos aqueles que eu costumava chamar de \u201cfam\u00edlia\u201d tamb\u00e9m s\u00e3o de l\u00e1. J\u00e1 n\u00e3o os vejo h\u00e1 tantos anos que nem sei se saberia reconhec\u00ea-los. N\u00e3o pude ter filhos, fui diagnosticada com \u00fatero infantil e hoje me vejo sem o carinho e o cuidado daqueles que nunca pude gerar. A jornalista que veio me visitar, perguntou como acabei chegando aqui, e a resposta \u00e9 simples, eu n\u00e3o sei.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade em que vivo hoje em dia, j\u00e1 n\u00e3o ou\u00e7o mais e isso dificulta a comunica\u00e7\u00e3o com aqueles ao meu redor. Ao conversar comigo, a mo\u00e7a teve que escrever em pap\u00e9is para que eu pudesse contar essa hist\u00f3ria. Sei que apesar de n\u00e3o perguntar, reparou na minha express\u00e3o de dor, que exterioriza n\u00e3o s\u00f3 o desconforto da cadeira, mas a solid\u00e3o que marca minha jornada por aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, posso dizer que vivo cada dia aguardando apenas o momento da morte. O sorriso, que volta e meia estampa meu rosto, nada mais \u00e9 do que mero disfarce para a dificuldade que encaro de me comunicar. Minha apar\u00eancia n\u00e3o me agrada mais. Sinto que meus cabelos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o sedosos e macios quanto eram. Meus bra\u00e7os, constantemente cruzados, assim como meu olhar solit\u00e1rio, trazem \u00e0 tona o desgosto e a tristeza que tanto afirmo e reafirmo sentir.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu tempo de perman\u00eancia nesse local j\u00e1 \u00e9 assunto indiferente para mim. Um ano, um m\u00eas, um dia. Nada seria capaz de tirar minha solid\u00e3o, se n\u00e3o o fluxo constante de pessoas com que eu convivia em minha loja. Por aqui, falam que estou em nega\u00e7\u00e3o pela situa\u00e7\u00e3o em que vivo. Eu diria que apenas sinto falta do passado que j\u00e1 n\u00e3o me agracia mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, enfrento dia ap\u00f3s dia esperando pelo momento em que verei um rosto familiar, que n\u00e3o seja do m\u00e9dico que visitei nesse per\u00edodo. Nisso, aguardo meus familiares e amigos, que diferente de mim, ainda vivem da liberdade de ir e vir.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Jesu\u00edno Pereira<\/h5>\n\n\n\n<p>Sou o Jesu\u00edno, tenho 83 anos e sou o morador mais antigo e engra\u00e7ado do Viver Bem. Estou aqui h\u00e1 tanto tempo que vi v\u00e1rias pessoas indo e vindo, o que deveria me causar medo, mas n\u00e3o o faz. Agora nem a morte me assusta. O que me prende aqui \u00e9 a fisioterapia, pelo menos \u00e9 essa resposta que dou \u00e0queles que me perguntam. Ainda tento me conformar, querendo ou n\u00e3o, aqui \u00e9 o meu lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o gosto e nem converso com ningu\u00e9m. Os cuidadores, todos falsos. Mesmo com essa opini\u00e3o, eu tenho que ser sincero sobre os cuidados que a equipe fornece, reconhe\u00e7o que preciso deles para tudo. Vivo cada dia da mesma maneira, como se a minha vida fosse uma medica\u00e7\u00e3o prescrita. A \u00fanica coisa que me distrai, \u00e9 fumar meu cigarro.<\/p>\n\n\n\n<p>As visitas inesperadas trazem alegria para o t\u00e9dio que adentra os c\u00f4modos dessa casa. Se voc\u00ea me perguntar sobre os amigos que tenho aqui dentro, n\u00e3o penso duas vezes para responder que eles n\u00e3o existem. Para mim, sou o \u00fanico l\u00facido em meio a um mar de velhos birutas. Ver eles criando hist\u00f3rias que n\u00e3o s\u00e3o reais, me faz dispensar a companhia que n\u00e3o fa\u00e7o quest\u00e3o de ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente da Maria de Lurdes, a minha fam\u00edlia busca estar sempre presente, e mesmo com eles \u00e0 minha volta aos finais de semana, eu ainda estou sozinho. Para um homem nessa idade, a felicidade \u00e9 dif\u00edcil de se encontrar. Apesar dessa sensa\u00e7\u00e3o, tento ser o mais alegre poss\u00edvel. O jeito brincalh\u00e3o que tenho \u00e9 apenas um disfarce para esconder a ang\u00fastia e a tristeza que sinto dentro desses port\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A solid\u00e3o \u00e9 um sentimento que d\u00f3i e machuca o peito. As visitas semanais j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais o suficiente para apagar o abandono que resume o meu estilo de vida. Se pudesse, escolheria tentar a vida l\u00e1 fora. Todas as dificuldades que essa decis\u00e3o apresentaria n\u00e3o seriam nada comparado a passar mais um dia vivendo dessa maneira. Nesse caso, a liberdade \u00e9 maior que qualquer precariedade.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Anivalda Hort\u00eancia<\/h5>\n\n\n\n<p>Um nome diferente n\u00e3o acha? Anivalda, quando digo tamb\u00e9m n\u00e3o acredito. Pode me chamar de Valda se preferir. Sou a moradora mais requisitada aqui do Viver Bem, pode perguntar para qualquer um. Das visitas que recebemos, sempre dizem que de todos n\u00f3s, eu sou a mais comunicativa e carinhosa. No dia 15 de maio cheguei aos meus 71 anos, e nessa casa, com minha nova fam\u00edlia, j\u00e1 passei dos 4.<\/p>\n\n\n\n<p>Me lembro que quando cheguei no Viver Bem, estava totalmente em nega\u00e7\u00e3o. Um dia, simplesmente dormi e acordei aqui. N\u00e3o sei como aconteceu, n\u00e3o me lembro de nada. Com o susto, me isolei de uma maneira cruel. Passava os dias chorando, sentindo falta de quem era sangue do meu sangue. Tive que aprender a superar a dor e a solid\u00e3o sozinha, sem nenhum amparo. Claro que o processo de recupera\u00e7\u00e3o foi dif\u00edcil, at\u00e9 porque naquele tempo eu havia perdido todos aqueles que um dia chamei de fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte da minha m\u00e3e e do meu pai me pegou de surpresa, logo depois minha irm\u00e3 veio a falecer. Eu n\u00e3o sabia o que sentir. Marido e filhos? Eu nunca tive. Passei a juventude dedicando a vida aos meus pais, casamento sempre foi algo distante para mim. Pelo menos, n\u00e3o posso sentir falta de um amor que jamais presenciei. As l\u00e1grimas por essa partida, n\u00e3o corro o risco de derramar.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de ter passado por tantas perdas, tentei me refazer, come\u00e7ar uma nova vida, seguir uma nova rotina e criar novos la\u00e7os. Acabei conseguindo, mas infelizmente foi por pouco tempo. Fiquei muito apegada a minha companheira de quarto, Rosinha. Gostaria de poder dizer que hoje ainda somos amigas, mas n\u00e3o posso. A morte mais uma vez me tirou algu\u00e9m que eu amava.<\/p>\n\n\n\n<p>Na idade que estou, superar o \u00f3bito, a solid\u00e3o, a tristeza e o sofrimento, n\u00e3o \u00e9 para qualquer um. Passei muito tempo me privando e acreditando que a felicidade n\u00e3o era pra mim. A ang\u00fastia de ficar sem as pessoas que eu amava me derrubou, achei que n\u00e3o seria capaz de me reerguer e reencontrar afeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Com quem converso, conto que minha estadia na casa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais solit\u00e1ria. Nas entrelinhas, permanece marcado em atitudes que vira e mexe a tristeza me abra\u00e7a. Mesmo me adaptando ao Viver Bem, sendo acolhida e acolhendo aqueles que me cercam, \u00e9 em meu quarto, com as novelas que embalam a televis\u00e3o, que me sinto \u00e0 vontade. Hoje, rodeada por essa nova fam\u00edlia, me isolo para ignorar a aus\u00eancia de quem aqui j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Geraldo Melga\u00e7o<\/h5>\n\n\n\n<p>Me chamo Geraldo, e sou o morador mais novo, em rela\u00e7\u00e3o a idade. Estou com 64 anos e tenho s\u00f3 uma das pernas. Sei que voc\u00ea deve achar que a hist\u00f3ria mais triste ser\u00e1 a minha. Est\u00e1 enganado. Apesar da condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, n\u00e3o me deixo abalar. Sou sempre otimista e busco ver o lado positivo da situa\u00e7\u00e3o, apesar das dificuldades. Al\u00e9m da incapacidade de andar eu tamb\u00e9m sou incapaz de ser triste.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabia que minha fam\u00edlia nem sonha que perdi uma perna? E muito menos que estou nesse lugar? Quando vim para Campo Grande, deixei para tr\u00e1s tudo o que pudesse me conectar a eles. Nada de telefone ou endere\u00e7o. Sou do tipo que para saber de mim, tem que estar cara a cara. Antes do acidente que me deixou entre a vida e a morte, voltava constantemente a Pereira Barreto, cidade em que meus parentes moram. Na \u00faltima visita que fiz, estava bem de sa\u00fade. Hoje, se me vissem, iriam me reconhecer apenas pelos olhos azuis.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas, que no passado se sentiam desprezadas por eu ir e vir constantemente, hoje devem imaginar que morri. Daqueles que achavam que por mim eram abandonados, agora espero o interesse para saberem do meu desfecho. Mesmo com a dist\u00e2ncia das minhas filhas, netos e amigos, n\u00e3o me sinto sozinho. A terrinha, essa em que vivemos, \u00e9 boa demais para n\u00e3o ser aproveitada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, esqueci de avisar que sou o \u00fanico l\u00facido aqui do Viver Bem. Diferente de meus colegas, n\u00e3o espero a morte. Pelo contr\u00e1rio, tento fugir dela ao m\u00e1ximo. Para voc\u00ea ter uma no\u00e7\u00e3o, uso m\u00e1scara at\u00e9 hoje por conta da Covid. Olha que j\u00e1 tomei todas as vacinas poss\u00edveis. Sei que as hist\u00f3rias deles devem ser mais sofridas e tristes que essa. Eu os vejo, observo todos os dias. Mas n\u00e3o posso transmitir felicidade \u00e0queles que j\u00e1 est\u00e3o cansados de viver.<\/p>\n\n\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A visitante<\/h5>\n\n\n\n<p>Entre uma intera\u00e7\u00e3o e outra, d\u00favidas foram levantadas. Em quem ser\u00e1 que devo acreditar? Os assistentes sociais sempre rebatiam as falas dos moradores. Diziam que a maioria j\u00e1 tinha se perdido no que era real ou imagin\u00e1rio. Mas isso n\u00e3o costumava acontecer quando as declara\u00e7\u00f5es eram sobre eles ou sobre o lugar. Com as informa\u00e7\u00f5es vagas que recebi, a observa\u00e7\u00e3o virou minha aliada e reparei como a equipe me olhava a cada passo que era dado.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso de Maria de Lurdes pode ser explicado atrav\u00e9s da estigmatiza\u00e7\u00e3o associada ao envelhecimento que aproxima a pessoa idosa \u00e0 inutilidade, quando na verdade, essa fase diz respeito a quest\u00f5es sociais, pol\u00edticas e culturais. Os efeitos causados por uma mudan\u00e7a brusca em sua vida fomentam a autonega\u00e7\u00e3o e a amargura que Viver Bem representa para Maria. Segundo estudiosos, \u00e9 comum que altera\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas causem perdas f\u00edsicas e mentais, impactando diretamente o psicol\u00f3gico e a autoestima do idoso.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Jesu\u00edno, oposto ao que ele afirma, n\u00e3o recebe visitas h\u00e1 muito tempo. Segundo a psic\u00f3loga Rosimeire Seixas, a forma que Jesu\u00edno acredita na vers\u00e3o de que sua fam\u00edlia est\u00e1 por perto, pode se refletir nas mem\u00f3rias de longo prazo. Ou melhor dizendo, na \u00e9poca em que suas rela\u00e7\u00f5es familiares eram de fato consolidadas, fazendo-o apegar a recorda\u00e7\u00f5es incoerentes \u00e0 sua realidade atual.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Rosimeire, tamb\u00e9m h\u00e1 uma incoer\u00eancia no discurso de Valda, de que apesar de n\u00e3o se sentir mais sozinha, suas atitudes mostram o contr\u00e1rio. Isso refere-se \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de uma narrativa feita pelas pessoas que trabalham e administram Institui\u00e7\u00f5es de Longa Perman\u00eancia. O cuidado associado ao lugar, mesmo que reafirmado por ela e por muitos, n\u00e3o apaga o isolamento que marca o cotidiano dos residentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O geront\u00f3logo Sebasti\u00e3o Messias afirma que em casos como o de Geraldo, por exemplo, que afirma ser incapaz de ser triste, a autonega\u00e7\u00e3o de identificar-se nessa situa\u00e7\u00e3o atua como um escape para fora de sua realidade. E ao contr\u00e1rio dos outros, Geraldo \u00e9 quem se mant\u00e9m longe de seus familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es como essas que percebo quest\u00f5es que abalam a vida de seres humanos e dificilmente s\u00e3o percebidas. A condena\u00e7\u00e3o da velhice estruturada ao longo da juventude fecha os olhos da sociedade para as necessidades que o cuidado da pessoa idosa exige e fomenta tal institucionaliza\u00e7\u00e3o. Essa medida n\u00e3o tem o abandono afetivo como regra, mas a presen\u00e7a familiar no cotidiano desses indiv\u00edduos, tem beirado \u00e0 exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de contato com o mundo exterior enra\u00edza a solid\u00e3o consolidada na mesma rotina, com as mesmas pessoas e a rela\u00e7\u00e3o de carinho restrita entre \u201cprofissional e paciente\u201d. O abandono n\u00e3o se restringe ao c\u00edrculo de conviv\u00eancia, assim como n\u00e3o se resume \u00e0 simplicidade de um ato, mas \u00e0 complexidade de um sentimento.<\/p>\n\n\n\n<p>*Foram atribu\u00eddos nomes fict\u00edcios aos personagens abordados no texto<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-101\/\">VOLTAR PARA a EDI\u00c7\u00c3O 101<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diferentes perspectivas provam que o tempo n\u00e3o funciona da mesma maneira para os idosos, mas personifica o abandono afetivo que eles carregam Texto: Brunna Paula | Heloisa DuimEdi\u00e7\u00e3o: Ingrid Protasio | Isadora Colete | Jo\u00e3o Vitor MarquesFotos: Geovanna Bortolli \u2018\u2018Solid\u00e3o a tr\u00eas&#8221; ser\u00e1 aprimorada a partir de tr\u00eas diferentes vis\u00f5es: da casa (o Viver Bem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-3796","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagem101"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3796"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3796\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4005,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3796\/revisions\/4005"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}