{"id":3859,"date":"2023-12-19T13:50:28","date_gmt":"2023-12-19T17:50:28","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=3859"},"modified":"2024-02-26T09:50:06","modified_gmt":"2024-02-26T13:50:06","slug":"em-partes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/em-partes\/","title":{"rendered":"Em partes"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Ian Netto | Clara Deps<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>A parte que faltou<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Parado diante do espelho vejo as partes que ainda me faltam. Dentre tudo aquilo que eu sou, me vejo formado por quem voc\u00ea foi. Fui seu molde, seu reflexo, sua c\u00f3pia, que hoje se v\u00ea perdido longe da fonte. Eu detesto falar de saudade, mas n\u00e3o falaria se n\u00e3o tivesse do\u00eddo tanto. A sua partida transborda o vazio e me sufoca. Olhando para dentro, me pego buscando seus detalhes, que mant\u00eam voc\u00ea em mim.<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia da sua presen\u00e7a forte, que preenchia a casa em dias silenciosos, tornou tudo ainda mais quieto. \u00c9 como se voc\u00ea estivesse aqui, em algum lugar onde n\u00e3o te vejo, mas te sinto. \u00c0s vezes dentro de mim, \u00e0s vezes nas pessoas que te rodeavam. Sua partida se tornou a falta do corpo f\u00edsico, do seu rosto cansado, do sorriso amarelo, mas o que ainda n\u00e3o se foi, seus tra\u00e7os, correm por todos aqueles que foram brindados com a sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu fiquei. Trajado de coragem, decidi ir adiante. For\u00e7ando minha mente a se adaptar com o que ficou, precisei entender que a vida n\u00e3o \u00e9 como eu achei que seria. Ainda me pego questionando se a vida teria outro destino, se voc\u00ea tivesse ficado. E minha mente te trazendo pra c\u00e1, relutando aceitar que n\u00e3o tenho mais sua voz rouca me chamando pelos c\u00f4modos, ecoou meus sentimentos pela casa, preenchendo tudo que ficou com um pouco de voc\u00ea, afinal, eu estou aqui.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"880\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/fundo-em-partes-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3879\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/fundo-em-partes-1.jpg 819w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/fundo-em-partes-1-279x300.jpg 279w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/fundo-em-partes-1-768x825.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/fundo-em-partes-1-400x430.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>A parte que ficou<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Comigo, sempre faltou. Portanto, o que sempre importou foi o que ficou. Desde que tento me entender por gente, meu pai trabalhou longe de casa. E quando eu j\u00e1 estava um pouco mais pr\u00f3xima de ser realmente \u201cgente\u201d, minha m\u00e3e me contou que decidiram em conjunto: ele iria e ela ficaria comigo. No dia, quando aconteceu, fui eu que descobri. Como sempre, ele estava longe, dessa vez fui eu que fiquei.<\/p>\n\n\n\n<p>Os segundos passaram e o mundo pareceu segurar a respira\u00e7\u00e3o junto comigo, ningu\u00e9m sabia. No sil\u00eancio antes da bomba cair, o que me dominou foi a raiva, admito. N\u00e3o teve l\u00e1grima que caiu, mundo que desabou. Eu enxerguei o reflexo nos olhos de minha m\u00e3e, e ali, vi o futuro. Um sino agudo que revirou minha alma tocou, era um ponto final. No fim, n\u00e3o vi fantasma, n\u00e3o vi santo. Meu peito se fechou e o que sobrou dentro foi um resto de coragem.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo virou de cabe\u00e7a para baixo. Restaram rel\u00f3gios quebrados, roupas que sobram, remendos que vazam, pap\u00e9is que faltam, uma pilha de luzes e n\u00f3s no meio do mar. A incerteza, essa, me acorda todos os dias e me diz \u201cN\u00e3o operamos milagres&#8221;. Agora, j\u00e1 n\u00e3o sei se ainda sou gente. Nada nesse mundo me pertence, e o que \u00e9 meu, \u00e9 de papel. Minhas palavras s\u00e3o vigiadas a todo instante e esse tal luto, que se fala que cada um tem o seu, todo mundo sabe como \u00e9. \u00c9 minha sina, \u00e9 meu azar.<\/p>\n\n\n\n<p>O caos bate na minha porta todo dia, e eu e minha m\u00e3e continuamos. Nunca pulamos fora, por mais que a vontade seja gigante. Aprendemos que querer n\u00e3o \u00e9 poder, mas independente do cansa\u00e7o, \u00e9 isso que sempre tivemos, nossa companhia. Somos as almas que n\u00e3o cruzam. Somos o que resta, o que somos, o que dizemos e o que fazemos. N\u00e3o somos as partes que faltam. Somos as partes que ficam.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-subtle-background-color has-accent-background-color has-text-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-101\/\"><strong>voltar para a edi\u00e7\u00e3o 101<\/strong><\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Ian Netto | Clara Deps A parte que faltou Parado diante do espelho vejo as partes que ainda me faltam. Dentre tudo aquilo que eu sou, me vejo formado por quem voc\u00ea foi. Fui seu molde, seu reflexo, sua c\u00f3pia, que hoje se v\u00ea perdido longe da fonte. 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