{"id":4076,"date":"2024-07-12T11:04:47","date_gmt":"2024-07-12T15:04:47","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4076"},"modified":"2024-07-16T10:49:37","modified_gmt":"2024-07-16T14:49:37","slug":"do-amor-ao-fanatismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/do-amor-ao-fanatismo\/","title":{"rendered":"Do amor ao fanatismo"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center\">Ningu\u00e9m mais parece livre para torcer pelo time de cora\u00e7\u00e3o quando a viol\u00eancia \u00e9 t\u00e3o presente no cotidiano. Representantes de torcida organizada se defendem e alegam exagero<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Daniel Baptista | Felipe Machado | Gabriel Diniz<br>Fotos: Allana Ferreira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Em 15 maio de 2003, o Estatuto do Torcedor foi sancionado pelo Congresso Nacional esclarecendo direitos e deveres dos torcedores, clubes e \u00f3rg\u00e3os em eventos esportivos, garantindo a seguran\u00e7a e o combate \u00e0 viol\u00eancia nos locais. Por\u00e9m, brigas e discuss\u00f5es, que j\u00e1 eram comuns, est\u00e3o ficando mais acirradas entre os torcedores, seja nos est\u00e1dios, bares, restaurantes, ou qualquer outro estabelecimento que misture torcedores de times diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o mestre em psicologia pela Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o Del Rey (UFSJ), Geovani Garcia Zeferino, a agressividade dos torcedores \u00e9 um fen\u00f4meno multidimensional e est\u00e1 correlacionada a fatores sociodemogr\u00e1ficos extr\u00ednsecos, que envolvem aspectos sociais\/relacionais e caracter\u00edsticas individuais. Al\u00e9m disso, para o psic\u00f3logo, o fanatismo tem sido uma das vari\u00e1veis mais importantes para se entender o fen\u00f4meno da agressividade de torcedores, j\u00e1 que ele pode ser definido como um n\u00edvel extremamente elevado de identifica\u00e7\u00e3o com a modalidade, time e torcedores, o que gera instabilidade emocional e embates diretos com o contradit\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os conflitos se tornaram t\u00e3o frequentes, que foram desenvolvidas medidas para restringir o encontro de torcidas rivais. Em 2016, o promotor de justi\u00e7a do Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo, Paulo Castilho, sugeriu a suspens\u00e3o da comercializa\u00e7\u00e3o de ingressos para torcedores visitantes em cl\u00e1ssicos de S\u00e3o Paulo, em partidas entre Corinthians e S\u00e3o Paulo, Palmeiras e Santos, por exemplo. Ou seja, aderir ao chamado de torcida \u00fanica, apenas com a presen\u00e7a da equipe mandante.<\/p>\n\n\n\n<p>O que era apenas uma sugest\u00e3o inicial, vista como a grande solu\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica para trazer paz aos est\u00e1dios, tornou-se realidade e, naquele mesmo ano, essa lei come\u00e7ou a ser aplicada. A proposta n\u00e3o teve \u00eaxito, j\u00e1 que ainda \u00e9 comum ataques e confrontos entre torcidas, em qualquer lugar. Em julho de 2023, o jornalista Rodrigo Vessoni, respons\u00e1vel pela coleta de dados h\u00e1 mais de 20 anos, divulgou um estudo que levantou 384 mortes no \u00e2mbito futebol\u00edstico nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. Al\u00e9m disso, surpreende a impunidade, pois 263 desses casos n\u00e3o foram devidamente penalizados. Ao todo, 372 homens e 12 mulheres foram v\u00edtimas de ataques nesses 30 anos.<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\">&#8220;O pessoal que gosta de brigar, briga em qualquer lugar&#8221;<\/span><\/h5>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/FotoSinalizador72dpi-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4330\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/FotoSinalizador72dpi-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/FotoSinalizador72dpi-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/FotoSinalizador72dpi-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/FotoSinalizador72dpi-1200x900.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/FotoSinalizador72dpi-400x300.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/FotoSinalizador72dpi.jpg 1210w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sinalizadores s\u00e3o objetos comuns nas torcidas, como um lindo show de luz e amor pelo time do cora\u00e7\u00e3o | Foto: Felipe Machado<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Segundo o professor de Sociologia do Esporte da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Paulo S\u00e9rgio Bereoff, o decreto de manter torcida \u00fanica em cl\u00e1ssicos regionais \u00e9 falho. \u201cA \u00fanica coisa que vai diminuir s\u00e3o as agress\u00f5es dentro dos est\u00e1dios, mas fora dele vai continuar como sempre foi. \u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Em enquete realizada pelo Globo Esporte MS em 2021, confirmou-se que as cinco maiores torcidas presentes no Mato Grosso do Sul (MS) s\u00e3o do Flamengo, Corinthians, Palmeiras, S\u00e3o Paulo e Gr\u00eamio. Isso n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia. Nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, muitos jogos dos estados de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul eram transmitidos no estado, o que influenciou significativamente as torcidas do esporte em MS.<\/p>\n\n\n\n<p>Pavilh\u00e3o Nove \u00e9 como chamam a subsede da torcida organizada do Corinthians (SP) na capital de Campo Grande (MS), localizada na avenida Salgado Filho. Uma fachada de cor preta, destaca o nome e o escudo do alvinegro, logo abaixo, um sal\u00e3o usado para dep\u00f3sito e, ao lado direito, um espa\u00e7o aberto para assistir aos jogos. No espa\u00e7o corinthiano de MS, as paredes s\u00e3o pintadas de preto e branco, sobrepostas por bandeiras variadas da torcida.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Torcida-do-SP-Digital-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4081\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Torcida-do-SP-Digital-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Torcida-do-SP-Digital-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Torcida-do-SP-Digital-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Torcida-do-SP-Digital-1-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Torcida-do-SP-Digital-1.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Em um pequeno galp\u00e3o de duas portas, os torcedores do S\u00e3o Paulo se re\u00fanem para torcer pelo seu time do cora\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A do S\u00e3o Paulo, por sua vez, mais conhecida como Torcida Independente, est\u00e1 localizada na rua Bar\u00e3o do Rio Branco, pr\u00f3xima ao centro da capital. \u00c9 um local nitidamente tem\u00e1tico, que chama aten\u00e7\u00e3o pela fachada com a palavra \u201cINDEPENDENTE\u201d, que forma um logotipo pintado com as cores do tricolor paulista. O espa\u00e7o \u00e9 formado por um pequeno galp\u00e3o de duas portas e \u00e9 carinhosamente chamado de casa pelos torcedores. Pinturas, grafites e objetos com as cores preto branco e vermelho preenchem o interior.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rivais sim, inimigos tamb\u00e9m<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o de 2022, as torcidas de Corinthians e S\u00e3o Paulo se enfrentaram na avenida Afonso Pena antes mesmo da partida come\u00e7ar. Arremessaram objetos e roj\u00f5es entre eles e sa\u00edram sem feridos. Davi C\u00e2ndido, presidente da subsede Pavilh\u00e3o Nove, resumiu os bastidores desse dia impressionado com ou minimizando a rivalidade \u2026. \u201cEstava tendo jogo no dia, uma coisa nada marcada, foi bem por acaso, um passa na frente da sede do outro provocando e ningu\u00e9m leva na esportiva, leva mais para o outro lado, a\u00ed tiveram alguns confrontos, mas foram coisas m\u00ednimas, nada grave\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\">&#8220;N\u00f3s n\u00e3o compactuamos com nenhum tipo de viol\u00eancia, apenas prezamos pela seguran\u00e7a e defesa do nosso espa\u00e7o, da nossa casa&#8221;<\/span><\/h5>\n\n\n\n<p>Na torcida s\u00e3o-paulina, Leandro Oliveira, respons\u00e1vel pela subsede Independente, evidencia que n\u00e3o compactua com nenhum tipo de viol\u00eancia. \u201cO que a gente procura passar para o nosso pessoal \u00e9 apenas defender a nossa casa, fora disso \u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco tempo depois, em agosto de 2022, desta vez com um desfecho mais grave, torcedores do Corinthians e do Flamengo (RJ), ap\u00f3s um jogo v\u00e1lido pela Copa Libertadores da Am\u00e9rica, entraram em conflito na avenida Ernesto Geisel e dois homens foram baleados. . Davi detalha a liga\u00e7\u00e3o entre as torcidas organizadas na cidade e indica que essas duas, em espec\u00edfico, at\u00e9 ent\u00e3o tinham um la\u00e7o de amizade. \u201cN\u00e3o temos nenhuma rela\u00e7\u00e3o com torcida rival, por\u00e9m, \u00e9 normal no mundo das torcidas ter uma certa amizade, mas com outras fora do nosso eixo, t\u00ednhamos uma amizade com a torcida do Flamengo, j\u00e1 faz um bom tempo, mas j\u00e1 acabou tamb\u00e9m. A ideologia \u00e9 respeitar, mas o contato \u00e9 zero\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pol\u00edcia em jogo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As torcidas organizam caravanas para irem aos jogos em outros estados e at\u00e9 mesmo outros pa\u00edses. O custo dessas viagens s\u00e3o divididas entre os associados de cada subsede, por\u00e9m, em muitos casos, os torcedores enfrentam problemas com as autoridades. Davi relata uma experi\u00eancia fora do pa\u00eds, em uma partida v\u00e1lida pela Copa Sul-Americana. No Uruguai, mesmo chegando com anteced\u00eancia, os policiais barraram a entrada de imediato dos corintianos no local do jogo. Para solucionar, acionaram a entidade m\u00e1xima do futebol sul-americano, a Conmebol, e os oficiais uruguaios para poderem entrar no est\u00e1dio. Conseguiram o objetivo, mas s\u00f3 quando o jogo j\u00e1 estava aos 44 minutos do primeiro tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Leandro, conta que em uma viagem da torcida do S\u00e3o Paulo para Minas Gerais, em um jogo pelo Campeonato Brasileiro, tiveram um empecilho com a pol\u00edcia. \u201cFomos a um jogo S\u00e3o Paulo x Cruzeiro (MG), passamos por todos os processos exigidos e chegamos para a revista da torcida e do \u00f4nibus cinco horas antes do jogo, fizemos tudo certinho, mas na hora de entrar no est\u00e1dio a pol\u00edcia simplesmente n\u00e3o permitiu e tivemos que voltar para casa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Torcedores ou criminosos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\">\u201cAinda somos muito mal vistos por outras pessoas\u201d<\/span><\/h5>\n\n\n\n<p>\u00c9 a percep\u00e7\u00e3o de Leandro quando descreve a vis\u00e3o da sociedade sobre as torcidas organizadas. O envolvimento em conflitos, a maneira fan\u00e1tica de encarar o futebol ou apenas um desinteresse da popula\u00e7\u00e3o em conhecer a fundo as torcidas organizadas, s\u00e3o os motivos para esse preconceito. Al\u00e9m disso, ele acredita que a imprensa tamb\u00e9m contribui para a cria\u00e7\u00e3o deste estere\u00f3tipo. \u201cVende muito mais voc\u00ea demonstrar uma briga entre torcidas do que mostrar alguma a\u00e7\u00e3o social que essas torcidas fazem, ent\u00e3o muitas s\u00f3 \u00e9 mostrado o lado ruim, na maioria das vezes na verdade. E como muitas pessoas n\u00e3o t\u00eam informa\u00e7\u00f5es, elas veem esse lado ruim e absorvem, e acham que a torcida \u00e9 s\u00f3 ligada \u00e0 viol\u00eancia\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\">&#8220;O rosa \u00e9 por que n\u00e3o gostamos dos homens usando rosa&#8221;<\/span><\/h5>\n\n\n\n<p>Ao chegar na subsede da torcida corinthiana, um cartaz logo na frente j\u00e1 chama a aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 proibida a entrada de pessoas com roupas ou acess\u00f3rios na cor verde e rosa, al\u00e9m de ser obrigat\u00f3rio o uso da camisa do Corinthians ou da Torcida. Davi justifica como tentativa de manter o habitual preto e branco. \u201cMulher a gente at\u00e9 releva, mas isso \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o da torcida. Para algumas pessoas at\u00e9 pode ser f\u00fatil e sem sentido, mas seguimos a cor do Corinthians (preto e branco)\u201d, explica.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"785\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Torcida-do-Corinthians-Digital.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4083\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Torcida-do-Corinthians-Digital.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Torcida-do-Corinthians-Digital-300x294.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Torcida-do-Corinthians-Digital-768x754.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Torcida-do-Corinthians-Digital-400x393.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Torcedores do Corinthians se re\u00fanem em um sal\u00e3o aberto, vestindo as cores do time ou a camiseta da torcida, para assistir ao jogo juntos<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Na organiza\u00e7\u00e3o da torcida s\u00e3o-paulina, Leandro comenta que h\u00e1 um estatuto a ser seguido pela diretoria e pelos torcedores dentro da Torcida Independente. \u201cSe algum torcedor ou s\u00f3cio fugir dessa regra, ele vai sofrer algum tipo de puni\u00e7\u00e3o, inclusive no \u00e2mbito legal, dependendo da situa\u00e7\u00e3o. As nossas tr\u00eas puni\u00e7\u00f5es s\u00e3o advert\u00eancia, suspens\u00e3o e, em \u00faltimo caso, expuls\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hist\u00f3rias de quem vive<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Supera\u00e7\u00e3o e a emo\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma das vertentes do futebol, e n\u00e3o \u00e9 diferente quando se trata dos torcedores das subsedes. Paulo Siufi, m\u00e9dico pediatra de 60 anos, sempre foi s\u00e3o-paulino e frequentador da sede, mas depois da morte de seu filho, Paulinho, o amor pelo clube continuou. \u201cEu perdi um filho de 22 anos em um acidente de carro em 2016 e ele adorava vir aqui, desde que ele come\u00e7ou a frequentar eu sempre ajudei financeiramente a sede. Amo estar aqui, amo tamb\u00e9m ir ao Morumbi ver jogos l\u00e1, meu filho adorava ir, ent\u00e3o eu continuo indo pelo meu filho, o Paulinho\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclusive, na parte interna da sede, na parede onde o tel\u00e3o \u00e9 refletido, h\u00e1 uma frase pintada em vermelho \u201cPaulinho eterno\u201d, uma refer\u00eancia ao filho do pediatra. Paulo ainda comenta que foi escolhido como padrinho da sede, mas \u00e9 enf\u00e1tico quando o assunto \u00e9 viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"853\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Bateria-da-Independente-Digital.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4084\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Bateria-da-Independente-Digital.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Bateria-da-Independente-Digital-281x300.jpg 281w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Bateria-da-Independente-Digital-768x819.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Bateria-da-Independente-Digital-400x427.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Os torcedores do S\u00e3o Paulo animam o ambiente com uma bateria contagiante, celebrando cada momento do jogo \u00e0 medida que o time segue rumo \u00e0 vit\u00f3ria<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u201cGosto muito daqui justamente porque aqui n\u00e3o tem briga, n\u00e3o tem uso de drogas, aqui \u00e9 um ambiente familiar, e eu sempre deixei isso bem claro para os representantes. Para continuar sendo padrinho, ajudar financeiramente, eu s\u00f3 continuo com tudo isso enquanto o ambiente se manter dessa maneira, temos crian\u00e7as pequenas aqui, que frequentam a sede, pais, m\u00e3es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado corintiano n\u00e3o falta hist\u00f3ria tamb\u00e9m. Sandro Martins, professor de sociologia e contador de 49 anos, conta que n\u00e3o gosta daqueles torcedores que se acham maiores que outros apenas por estarem mais tempo no ambiente. \u201cTem uma quest\u00e3o, que para mim \u00e9 um problema, que \u00e9 de quem est\u00e1 mais tempo na torcida achar que \u00e9 mais \u2018torcedor\u2019 do que quem est\u00e1 chegando agora. Porque, independente de torcida organizada ou n\u00e3o, sou torcedor desde quando nasci, mas na torcida organizada o entendimento \u00e9 outro. Ainda bem que n\u00e3o para a grande maioria.\u201d, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, relata que gosta do ambiente da Pavilh\u00e3o Nove justamente por acompanhar algumas regras no modo de torcer das quais ele gosta, como n\u00e3o poder gritar gol antes da hora e vestir as cores da torcida, que acabam os identificando como \u201cum s\u00f3\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os torcedores na capital, o que resta, muitas vezes, \u00e9 tentar de alguma forma demonstrar sua paix\u00e3o e torcida pelo clube de dentro da pequena sede, os integrantes sabem que n\u00e3o se compara a uma torcida no est\u00e1dio, mas \u00e9 onde se sentem seguros para amar o time do cora\u00e7\u00e3o. Nas palavras do m\u00e9dico e torcedor Paulo Siufi, \u201c\u00e9 sempre pela casa, pelos torcedores\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O lado delas da torcida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora na reportagem, todas as falas e exemplos, e mesmo os direcionamentos das torcidas foram, aparentemente, de homens para homens. E essa presen\u00e7a masculina continua muito forte nas torcidas. O medo de estar ligada a uma torcida organizada fez com que Beatriz, estudante do curso T\u00e9cnico de Enfermagem e bab\u00e1, tivesse receio em seus primeiros dias dentro da Independente. O que a manteve no grupo foi a confian\u00e7a de ter o pai ao seu lado. \u201cEu comecei a torcer pelo S\u00e3o Paulo por conta do meu pai, e em 2017 meu pai conheceu a sede, e com o tempo que ele foi conhecendo o ambiente, o pessoal, ele ficou mais tranquilo de me trazer, at\u00e9 porque eu era bem nova, tinha 14 anos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua primeira experi\u00eancia com a torcida, no entanto, n\u00e3o est\u00e1 entre suas mem\u00f3rias mais agrad\u00e1veis. Durante uma passeata realizada pr\u00e9-jogo, que, de acordo com Beatriz, era algo \u201csuper pac\u00edfico, s\u00f3 torcendo mesmo\u201d, nos arredores da sede, moradores de pr\u00e9dios atiraram ovos nos torcedores.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com essas complica\u00e7\u00f5es, Beatriz n\u00e3o desistiu de integrar a torcida e trazer mais mulheres para dentro da sede, inclusive aponta que grande parte de suas amizades femininas ligadas ao futebol foram feitas na Independente. \u201cO meu c\u00edrculo de amigas ligadas ao futebol eu fiz aqui dentro da torcida mesmo, at\u00e9 porque minhas amigas de fora daqui n\u00e3o gostam muito de futebol, ent\u00e3o eu sempre tento convidar mais meninas pra vir, acontece bastante de algumas mandarem mensagem perguntando sobre a torcida, sobre o lugar, e eu sempre respondo convidando\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Beatriz tamb\u00e9m criou um grupo de WhatsApp exclusivamente para torcedoras, com o objetivo de informar sobre os jogos e tirar d\u00favidas sobre como funciona a sede, a torcida, a rela\u00e7\u00e3o das pessoas l\u00e1 dentro, e tamb\u00e9m criar uma rela\u00e7\u00e3o de afinidade entre as mulheres que desejam integrar o espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo lado corinthiano, Gabriela Quinteiro, estudante de Economia, nunca teve receio de frequentar a subsede da torcida organizada, mesmo frequentando o espa\u00e7o apenas em jogos mais importantes. \u201cEu nunca tive medo de ir, mas meus familiares tinham muito receio por mim, por ser mulher, e principalmente, porque eu frequentava s\u00f3 em cl\u00e1ssicos e jogos decisivos, o que porventura pode causar brigas entre torcidas ou at\u00e9 entre torcedores do mesmo time\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira experi\u00eancia de Gabriela no Pavilh\u00e3o Nove deixou boas lembran\u00e7as. \u201cFui pela primeira vez em 2022, na final da Copa do Brasil contra o Flamengo, no jogo de ida, na sa\u00edda da subsede ap\u00f3s o apito final, os sinalizadores a bateria e os cantos de torcida n\u00e3o parava um momento. O sentimento \u00e9 indescrit\u00edvel, o cora\u00e7\u00e3o bate mais forte e \u00e9 lindo ver a torcida gritando, cantando e vibrando\u201d.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Enquanto esta mat\u00e9ria estava sendo produzida, a equipe do Fant\u00e1stico da Rede Globo realizou uma reportagem sobre a guerra entre torcedores do CSA (Centro Sportivo Alagoano) e CRB (Clube de Regatas Brasil), \u201cMortes, bombas e agress\u00f5es aleat\u00f3rias: 11 dirigentes de torcidas organizadas viram r\u00e9us por organiza\u00e7\u00e3o criminosa\u201d, veiculada em 21 de abril de 2024. De acordo com a mat\u00e9ria, em Macei\u00f3 (AL), as torcidas organizadas de ambas as equipes se encontraram para assistir aos jogos no Est\u00e1dio Rei Pel\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo as investiga\u00e7\u00f5es, as confus\u00f5es n\u00e3o aconteciam dentro do est\u00e1dio. A viol\u00eancia ocorria do lado de fora, onde qualquer pessoa vestindo a camisa de um dos times se tornava alvo. \u201cAquela associa\u00e7\u00e3o de pessoas ali, ela tinha perdido completamente a rela\u00e7\u00e3o com o futebol, e estava tendo uma rela\u00e7\u00e3o agora com a criminalidade&#8221;, disse Lucim\u00e9rio Barros Campos, delegado de pol\u00edcia, \u00e0 equipe do Fant\u00e1stico.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-fill\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-102\/\">VOLTAR AO PROJ\u00c9TIL 102<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m mais parece livre para torcer pelo time de cora\u00e7\u00e3o quando a viol\u00eancia \u00e9 t\u00e3o presente no cotidiano. Representantes de torcida organizada se defendem e alegam exagero Texto: Daniel Baptista | Felipe Machado | Gabriel DinizFotos: Allana Ferreira Em 15 maio de 2003, o Estatuto do Torcedor foi sancionado pelo Congresso Nacional esclarecendo direitos e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-4076","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagem102"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4076","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4076"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4076\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4868,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4076\/revisions\/4868"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4076"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4076"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4076"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}