{"id":4088,"date":"2024-07-12T11:06:29","date_gmt":"2024-07-12T15:06:29","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4088"},"modified":"2024-07-16T10:48:50","modified_gmt":"2024-07-16T14:48:50","slug":"jornada-dupla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/jornada-dupla\/","title":{"rendered":"Jornada dupla\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><strong>Em 2024, sobreviver em Campo Grande e garantir o sustento da fam\u00edlia tem se tornado um desafio para as m\u00e3es que precisam vivenciar jornadas extras de trabalho<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Beatriz Barreto | Roberta Dorneles <br>Fotos: Isadora Colete<\/strong><br><strong>Infografia: Eliel Dias | Jo\u00e3o Antonio <\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Descansar? N\u00e3o. Deixar os seus objetos pessoais e do restante da fam\u00edlia organizados antes do dia seguinte come\u00e7ar. Acordar cedo para preparar o caf\u00e9 da manh\u00e3, em seguida, levar os filhos para escola antes de ir para o trabalho. Depois, trabalhar durante todo o per\u00edodo matutino e vespertino. Sair do trabalho, buscar as crian\u00e7as e levar para casa. Descansar? N\u00e3o, cozinhar para fora durante a noite para complementar o or\u00e7amento. Chegar em casa, preparar a janta e ajudar os filhos com as tarefas escolares. Lavar a lou\u00e7a e enfim, descansar? N\u00e3o. Deixar os seus objetos pessoais e do restante da fam\u00edlia organizados antes de outro dia come\u00e7ar.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A falta de descanso \u00e9 s\u00f3 um dos problemas relacionados \u00e0s jornadas extras de trabalho que afetam principalmente as m\u00e3es. Garantir a renda em um ou dois of\u00edcios diferentes, cuidar dos afazeres dom\u00e9sticos e de quest\u00f5es pessoais junto aos filhos, faz parte da rotina de muitas mulheres. Segundo dados divulgados em 2022, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) na Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlio Cont\u00ednua (PNAD Cont\u00ednua) do tema, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Outras Formas de Trabalho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, as mulheres dedicaram naquele ano, 17h semanais aos cuidados de pessoas e trabalhos dom\u00e9sticos. O tempo m\u00e9dio destinado a essas atividades tamb\u00e9m foi maior em compara\u00e7\u00e3o aos homens no quesito de ocupa\u00e7\u00e3o, considerado quando h\u00e1 o exerc\u00edcio de alguma atividade profissional, seja formal ou informal, remunerada ou n\u00e3o. Enquanto as mulheres consideradas n\u00e3o ocupadas gastaram 24,5h nos trabalhos de casa, os homens n\u00e3o ocupados gastaram 13,4h. J\u00e1 as mulheres ocupadas gastaram 6,8h a mais do que homens ocupados.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A multiplicidade de fun\u00e7\u00f5es das pessoas que trabalham para ganhar dinheiro, mas que tamb\u00e9m em um segundo turno s\u00e3o respons\u00e1veis por exercer trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o remunerado, pode ser definida como dupla jornada de trabalho. A Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) define esse trabalho n\u00e3o remunerado como o tempo gasto para cuidar de outros membros da fam\u00edlia (sejam crian\u00e7as, idosos ou c\u00f4njuges, por exemplo) ou mesmo cozinhar, limpar a casa e lavar a roupa. Tais atividades s\u00e3o de grande import\u00e2ncia, mas nada acrescentam ao \u00edndice central de crescimento da economia do pa\u00eds, o Produto Interno Bruto (PIB). Caso fossem consideradas e contabilizadas, segundo a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE), em 2022 acrescentariam 12,1% ao valor anual do \u00edndice e 8,2% s\u00f3 na regi\u00e3o Centro-Oeste. Pois, de acordo com o PNAD Cont\u00ednua do mesmo ano, 34,9% das mulheres realizavam dupla jornada.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O sono regular est\u00e1 entre as necessidades b\u00e1sicas mais prejudicadas na vida dessas trabalhadoras. A esteticista, Caline de Souza Lopes, 36 anos, tem dois filhos e afirma que aos finais de semana, quando precisa acordar cedo para produzir seus doces e salgados, dorme apenas quatro horas durante a noite. Ela trabalha em uma gr\u00e1fica e tamb\u00e9m empreende com vendas de confeitados. O lazer tamb\u00e9m entra para a lista das \u00e1reas impactadas. [Sobre lazer, confira a reportagem <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tempo para liberdade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> nesta mesma edi\u00e7\u00e3o].<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><b>Sobrecarga solo<\/b><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"319\" height=\"598\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Infografico-Quando-a-necessidade-priva-a-liberdade-PDF.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4095\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Infografico-Quando-a-necessidade-priva-a-liberdade-PDF.jpg 319w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Infografico-Quando-a-necessidade-priva-a-liberdade-PDF-160x300.jpg 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 319px) 100vw, 319px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Carmem Rosania da Silva, 44 anos, e Divanir Teresinha Vicente, 52 anos, s\u00e3o exemplos de m\u00e3es que j\u00e1 precisaram trabalhar em dois empregos para poder liderar a finan\u00e7a familiar ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o, quando seus filhos eram pequenos. No terceiro trimestre de 2022, o IBGE revelou que as fam\u00edlias de chefia feminina com filhos representavam 34,2% das demais configura\u00e7\u00f5es familiares existentes, ou seja, mais de 11 milh\u00f5es de pessoas. Sendo que dessas, 14,7% eram monoparentais, ou seja m\u00e3es solo e apresentaram renda m\u00e9dia de R$2.833,00. J\u00e1 as fam\u00edlias negras chefiadas por mulheres, 6,8 milh\u00f5es, receberam ainda menos, uma m\u00e9dia de R$2.362,00.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outra limita\u00e7\u00e3o que afeta a sa\u00fade das m\u00e3es solos, \u00e9 o estresse constante ocasionado por ter que suportar a press\u00e3o financeira. \u201cEu n\u00e3o estou bem, inclusive estou com um encaminhamento para fazer terapia\u201d, desabafa a graduanda de pedagogia, Let\u00edcia Campos de Almeida, 24 anos, que tem dois filhos pequenos e lida sozinha com as responsabilidades e as despesas da fam\u00edlia. Ela enfrenta uma jornada tripla de trabalho. Estagia em tempo integral na creche, \u00e0 noite encara os afazeres dom\u00e9sticos e cuidados dos filhos e, aos finais de semana, vende p\u00e3es e salgados para compor a renda. Let\u00edcia ganha por m\u00eas pouco mais de R$2.000,00 reais, incluindo o valor da renda extra informal. Recebe tamb\u00e9m a pens\u00e3o das crian\u00e7as que considera n\u00e3o ser capaz de suprir todos os gastos. \u201cMeu sal\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 suficiente para eu conseguir dar a vida que eu gostaria para os meus filhos, precisaria de no m\u00ednimo uns R$5.000,00\u201d.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/leticia-campos-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4091\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/leticia-campos-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/leticia-campos-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/leticia-campos-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/leticia-campos-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/leticia-campos-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/leticia-campos-1250x833.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/leticia-campos-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/leticia-campos.jpg 1800w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Let\u00edcia cuidando do seu filho ap\u00f3s um dia de trabalho<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">&#8220;Meu sal\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 suficiente para eu conseguir dar a vida que eu gostaria para os meus filhos&#8221;<\/span><\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dados divulgados pelo Departamento Intersindical de Estat\u00edsticas e Estudos Socioecon\u00f4micos (DIEESE) demonstram que R$6.832,20 seria o valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo ideal para conseguir manter uma fam\u00edlia de quatro&nbsp; integrantes em mar\u00e7o de 2024, sendo que o valor oficial do mesmo per\u00edodo foi R$1.412,00, ou seja, inferior ao adequado. A economista e supervisora t\u00e9cnica do escrit\u00f3rio regional do DIEESE em Mato Grosso do Sul (MS), Andreia Ferreira, afirma que a estimativa \u00e9 v\u00e1lida tamb\u00e9m para a capital, onde a cesta b\u00e1sica custa em m\u00e9dia mais da metade do sal\u00e1rio, R$730,02. O estudo utiliza como fundamento a Lei N\u00ba399\/1938 que estabelece que o gasto com alimenta\u00e7\u00e3o de um trabalhador adulto n\u00e3o pode ser menor do que o custo da cesta b\u00e1sica de alimentos. \u201cConsideramos a fam\u00edlia composta por dois adultos e duas crian\u00e7as, que representam um adulto\u201d.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2021, conforme as tabelas amostrais da PNAD Cont\u00ednua feitas a partir de c\u00e1lculos de pontos percentuais (pp), ou seja, por apontamentos que unificam as diferen\u00e7as entre duas porcentagens, as m\u00e3es com baixo n\u00edvel escolar tiveram 51,8 (pp) a mais de chance em rela\u00e7\u00e3o aos homens de n\u00e3o participarem da for\u00e7a de trabalho e aquelas com filhos rec\u00e9m-nascidos, apresentaram 49,6 (pp) a menos de probabilidade de estarem no mercado de trabalho do que quando comparadas aos pais. Essa probabilidade s\u00f3 aumenta com o passar dos primeiros cinco anos de vida dos filhos, quando a fase da primeira inf\u00e2ncia chega ao fim. Elas s\u00f3 conseguem retornar a patamares semelhantes aos antes da maternidade, quando seus filhos se tornam adultos e independentes.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"549\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1-1024x549.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4096\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1-1024x549.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1-300x161.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1-768x412.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1-1200x643.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1-1250x670.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1-400x214.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1.jpg 1492w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Antes de seu turno de trabalho remunerado, Beatriz cuida de sua filha e da casa<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Beatriz Katharynne Sanches, 22 anos, tem o ensino m\u00e9dio completo e conta como foi dif\u00edcil lidar com as demandas trabalhistas que surgiram ap\u00f3s o nascimento de sua filha, que completou um ano em 2024. Assim que o seu&nbsp; per\u00edodo de licen\u00e7a maternidade acabou, era preciso retornar para a rotina presencial, mas a beb\u00ea ainda estava em fase de amamenta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se adaptou ao leite de f\u00f3rmula infantil. Por ter que aceitar se distanciar da sua filha durante essa fase de desenvolvimento e suportar a falta de empatia dos empregadores que a colocaram para atuar em outro setor, Beatriz teve crises de ansiedade e tentou ao m\u00e1ximo se adaptar, mas decidiu pedir demiss\u00e3o. \u201cNaquele momento nasceu uma crian\u00e7a e nasceu uma m\u00e3e. Eles n\u00e3o tiveram esse cuidado com meu psicol\u00f3gico\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"799\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1024x799.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4090\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1024x799.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-300x234.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-768x600.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1200x937.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-1250x976.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz-400x312.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/beatriz.jpg 1409w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A dificuldade de conciliar a vida pessoal e a profissional faz com que muitas m\u00e3es saiam da for\u00e7a de trabalho, isto \u00e9, faz com que mulheres com 14 anos ou mais, n\u00e3o produzam bens e servi\u00e7os econ\u00f4micos devido a falta das condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, f\u00edsicas ou emocionais necess\u00e1rias para a realiza\u00e7\u00e3o de um determinado trabalho, formal ou informal. A vulnerabilidade do contexto econ\u00f4mico e social fica mais evidente quando elas optam por ocupa\u00e7\u00f5es informais que pagam menos, mas que s\u00e3o mais flex\u00edveis quanto a hor\u00e1rios, como as proporcionadas por atividades <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">freelancers<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ou empregos de meio-per\u00edodo, por exemplo. J\u00e1 de acordo com o DIEESE, 43,9% do p\u00fablico feminino negro constituinte das fam\u00edlias monoparentais com filhos chefiadas por mulheres estavam fora do mercado de trabalho em 2023, no que se refere a quase tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas. Os outros 56,1% de ocupadas estavam empregadas de maneira informal, sem acesso a nenhum benef\u00edcio trabalhista.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Liberdade financeira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Algumas mulheres promovem os seus pr\u00f3prios m\u00e9todos para adentrar ao mundo dos neg\u00f3cios. O relat\u00f3rio do tema <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Empreendedorismo Feminino<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, realizado no quarto trimestre de 2023 pelo Servi\u00e7o de Apoio a Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) revelou que elas representavam 33,9% dos empregadores e trabalhadores brasileiros por conta pr\u00f3pria, formais ou informais, ou seja, 10,1 milh\u00f5es de pessoas. Dessas, 67% tinham filhos, 49,8% eram pretas e 52,1% eram chefes de fam\u00edlia.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A economista, coordenadora nacional de empreendedorismo feminino do Sebrae e idealizadora do programa Desenvolvendo Empreendedoras L\u00edderes Apaixonadas pelo Sucesso (Sebrae Delas), Maristela Fran\u00e7a, comenta a respeito da iniciativa criada em MS que se tornou refer\u00eancia em todo o pa\u00eds. \u201cHoje todas as a\u00e7\u00f5es do Sebrae MS voltadas \u00e0s mulheres atendem tamb\u00e9m \u00e0s m\u00e3es. Elas entram no mercado empresarial, formam as suas empresas e muitas delas oferecem produtos e servi\u00e7os que vem ao encontro de alguma necessidade que ela detectou ao ter um filho e que n\u00e3o encontrou no mercado\u201d. A pesquisa nacional divulgou que no estado a porcentagem de empreendedoras foi de 36,9% e para favorecer a economia local, Maristela destaca que h\u00e1 11 anos o Sebrae MS realiza redes de apoio e compartilhamento pensadas para as empreendedoras se unirem e comprarem coisas umas das outras.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><b>As m\u00e3es loucas<\/b><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando a alternativa \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o, ideias transformadoras ultrapassam as expectativas. Assim, surgiu o coletivo Madre Loca em Campo Grande, em 2015. Ele \u00e9 composto por mulheres que, em conjunto, realizam atividades comerciais diferenciadas, contando em 2024 com a participa\u00e7\u00e3o de 16 integrantes que n\u00e3o precisam pagar taxa para estarem inseridas nas a\u00e7\u00f5es. A artista visual e fundadora Erika Pedraza, al\u00e9m de professora \u00e9 m\u00e3e, incentivadora e vislumbrou nas pra\u00e7as a possibilidade de espa\u00e7os oportunos para empreender na companhia de outras mulheres que compartilham dos mesmos pensamentos feministas. Pretende com o coletivo impulsionar a autonomia financeira e promover o aux\u00edlio que compreende todas as adversidades que s\u00f3 s\u00e3o vivenciadas por elas, as m\u00e3es loucas.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Loucura como adjetivo para a proposta de trabalho que garante maior flexibilidade quanto aos hor\u00e1rios. Incomum no meio laboral. No coletivo, as <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">madres<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> podem contar com a presen\u00e7a dos filhos enquanto vendem as artes ou produtos e fazem suas apresenta\u00e7\u00f5es, sem repreens\u00e3o e caso n\u00e3o possam comparecer a algum evento devido a imprevistos, s\u00e3o acolhidas e respeitadas. \u201c\u00c0s vezes as m\u00e3es n\u00e3o t\u00eam com quem deixar seus filhos ou tem que pagar para cuidar, mas n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de arcar com essas despesas e isso se torna desmotivador. A gente permite por empatia e economia\u201d, acentua a idealizadora. A artista pl\u00e1stica M\u00e1rcia Regina Lobo, 47 anos, vende roupas e acess\u00f3rios de croch\u00eas no coletivo, \u00e9 provedora do lar e aprova esse dinamismo. \u201cL\u00e1 \u00e9 uma rede de apoio, tanto emocional quanto financeira, onde tentamos nos ajudar de v\u00e1rias formas\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"645\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-com-filho-1024x645.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4092\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-com-filho-1024x645.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-com-filho-300x189.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-com-filho-768x484.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-com-filho-1536x968.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-com-filho-1200x756.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-com-filho-1250x788.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-com-filho-400x252.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-com-filho.jpg 1596w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mirian cuidando do seu filho<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<p>Na opini\u00e3o da graduanda em Artes Visuais, Suelen Fernanda Rocha, 30 anos, m\u00e3e de tr\u00eas filhos e membro do Madre Loca, a sobrecarga \u00e9 um empecilho. \u201cQuerem que trabalhemos como se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos filhos e criemos nossos filhos como se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos um trabalho\u201d, lamenta. J\u00e1 a artes\u00e3 e publicit\u00e1ria, Mirian Santos Costa, 45 anos, m\u00e3e de um filho e respons\u00e1vel pelo cuidado de duas idosas na fam\u00edlia, \u00e9 uma das integrantes que comercializa artes em geral. Para ela, o coletivo \u00e9 importante para dar espa\u00e7o, voz e motiva\u00e7\u00e3o para que as mulheres criem seus filhos sem deixar a arte de lado e ainda sim, conquistem renda. Miriam recebe apoio do marido com as demandas, tal como Suelen, mas acredita que o tempo que \u00e9 tomado das m\u00e3es por atuar em v\u00e1rias jornadas retira o potencial de uma vida plena e atrapalha a dignidade da pessoa. \u201cPara sobreviver estamos perdendo a liberdade, as liberdades, todas as liberdades. De criar, de existir, de manifestar e de ser por exemplo, para ter o b\u00e1sico\u201d.<\/p>\n\n\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>&#8220;Querem que trabalhemos como se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos filhos&#8221;<\/strong><\/span><\/h5>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"691\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-arte-1024x691.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4093\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-arte-1024x691.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-arte-300x203.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-arte-768x519.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-arte-1536x1037.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-arte-1200x810.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-arte-1250x844.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-arte-400x270.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mirian-arte.jpg 1644w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mirian mostrando uma das suas artes<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>&#8220;Para sobreviver estamos perdendo a liberdade, as liberdades, todas as liberdades. De criar, de existir, de manifestar e de ser por exemplo, para ter o b\u00e1sico&#8221;<\/strong><\/span><\/h5>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-accent-background-color has-text-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-102\/\">VOLTAR PARA A EDI\u00c7\u00c3O 102<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2024, sobreviver em Campo Grande e garantir o sustento da fam\u00edlia tem se tornado um desafio para as m\u00e3es que precisam vivenciar jornadas extras de trabalho Texto: Beatriz Barreto | Roberta Dorneles Fotos: Isadora ColeteInfografia: Eliel Dias | Jo\u00e3o Antonio Descansar? N\u00e3o. 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