{"id":4129,"date":"2024-07-12T11:11:10","date_gmt":"2024-07-12T15:11:10","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4129"},"modified":"2024-07-16T10:11:01","modified_gmt":"2024-07-16T14:11:01","slug":"entre-likes-e-lagrimas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/entre-likes-e-lagrimas\/","title":{"rendered":"Entre likes e l\u00e1grimas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Maria Eduarda Fernandes<\/strong><br><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Ant\u00f4nio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Na tela do celular encontro a fuga do meu medo, mergulhando em um oceano de conex\u00f5es superficiais. \u00c9 como se cada clique, cada curtida, fosse uma \u00e2ncora tempor\u00e1ria para afastar a solid\u00e3o que insiste em me cercar. No fundo, uma ilus\u00e3o de proximidade que n\u00e3o passa disso: uma doce e amarga ilus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Navego pelas redes sociais para preencher o vazio aqui dentro, com uma miragem de intera\u00e7\u00f5es virtuais. Em meio a fotos cuidadosamente planejadas e realidades distorcidas, tento encontrar um senso de pertencimento e de valida\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, por mais que me esforce, algo falta.<\/p>\n\n\n\n<p>Na busca pelo corpo ideal e a rotina equilibrada, eu me vejo fora desse padr\u00e3o. \u00c9 um sentimento semelhante ao de um intruso. N\u00e3o me encaixo nas expectativas pr\u00e9-fabricadas, nas poses ensaiadas e nos filtros que escondem a verdade por tr\u00e1s da tela. Esses modelos me sufocam, me engolem, torturam e devoram lentamente. Dia ap\u00f3s dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Pinto minha palidez com as cores da dor, seguindo o rastro do vazio deixado pelos que vieram antes de mim. Moldo meu comportamento conforme os padr\u00f5es ditados por aqueles que s\u00e3o considerados refer\u00eancias. Me esfor\u00e7o para me encaixar em um mundo onde a aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 medida em likes e compartilhamentos. Na faculdade, naquele grupinho popular. No trabalho, com os funcion\u00e1rios que puxam o saco do chefe. Em casa, tentando superar aquele primo que faz medicina. \u00c9 um ciclo sem fim. E n\u00e3o importa quantas vezes eu tente, ou o que eu fa\u00e7a, parece que eu nunca vou ser boa o suficiente para ningu\u00e9m. Talvez, nem mesmo para mim. <\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tempos tento lutar contra esse sentimento de inferioridade, mas apesar de todos os esfor\u00e7os, a solid\u00e3o persiste pesada e palp\u00e1vel. A cada amanhecer retorno \u00e0 tela do celular, desesperada em busca de um al\u00edvio moment\u00e2neo para o vazio que me habita. \u00c9 como se eu precisasse ver a \u201cpseudo-blogueira\u201d acordada desde \u00e0s 5h da manh\u00e3 fazendo um \u201ccheck\u201d na lista de tarefas do dia dela, para ent\u00e3o come\u00e7ar a sabotar o meu. Eu sei que \u00e9 uma busca em v\u00e3o e que a verdadeira conex\u00e3o n\u00e3o pode ser encontrada em pixels e algoritmos. Mas, quando vejo, j\u00e1 estou presa nesse mundo de apar\u00eancias. <\/p>\n\n\n\n<p>No palco da vida, tento desempenhar meu papel. Parece que falta um elo. Talvez se eu fosse magra, talvez se eu fosse meiga, mas sinto-me assim: inadequada e incompleta. Busco ser boa, s\u00f3 que a sensa\u00e7\u00e3o de que nunca alcan\u00e7o esse padr\u00e3o persiste. Procuro ser amada e aceita como sou, mas sinto que o amor est\u00e1 sempre al\u00e9m do meu alcance, me rodeia, mas n\u00e3o me basta. Por mais que eu tente e me doe, a impress\u00e3o de n\u00e3o ser suficiente \u00e9 como uma sombra, que me acompanha onde vou.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a noite chega, e eu finalmente posso me desfazer das personas que criei para cada momento daquele dia, me vejo mais uma vez diante da tela, inquieta para me afogar novamente num mar de ru\u00edna digital. N\u00e3o faz nenhum sentido. No fundo, s\u00f3 busco uma maneira de escapar da minha pr\u00f3pria solid\u00e3o sem aceitar que ela sempre esteve e sempre estar\u00e1 aqui ao meu lado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"980\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Ativo-3-980x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4319\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Ativo-3-980x1024.jpg 980w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Ativo-3-287x300.jpg 287w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Ativo-3-768x803.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Ativo-3-400x418.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Ativo-3.jpg 1145w\" sizes=\"auto, (max-width: 980px) 100vw, 980px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A cada dia que passa, sinto-me mais distante e desconectada da minha ess\u00eancia. \u00c9 como se eu estivesse perdendo lentamente minha identidade, diluindo-me nas miragens digitais que me cercam. E enquanto busco incansalvelmente por uma fuga desse labirinto de ilus\u00f5es, percebo que a verdadeira liberdade s\u00f3 pode ser encontrada dentro de mim. \u00c9 uma jornada solit\u00e1ria, dolorosa e vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas profundezas mais obscuras desse abismo digital vislumbro um raio de esperan\u00e7a. Uma realidade al\u00e9m das telas brilhantes do meu dispositivo, onde a liberdade \u00e9 mais do que uma palavra vazia. A liberdade \u00e9 uma experi\u00eancia visceral de autenticidade e conex\u00e3o. E nesse vislumbre encontro for\u00e7as para continuar a jornada, mesmo que pare\u00e7a uma batalha perdida desde o in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez eu nunca seja boa o suficiente para os outros, quem sabe um dia busque ser boa o suficiente para mim mesma. \u00c9 o que deveria me importar. Escolho me desfazer dessas amarras, aceitar a minha imperfei\u00e7\u00e3o e me tratar com mais carinho. Desligo a tela do celular, coloco as vozes da minha cabe\u00e7a no mudo e finalmente abra\u00e7o a minha pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o deve ser t\u00e3o dif\u00edcil assim ser real. Vou tentar mais uma vez.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-102\/\">Voltar para a edi\u00e7\u00e3o 102<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Maria Eduarda FernandesIlustra\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Ant\u00f4nio Na tela do celular encontro a fuga do meu medo, mergulhando em um oceano de conex\u00f5es superficiais. \u00c9 como se cada clique, cada curtida, fosse uma \u00e2ncora tempor\u00e1ria para afastar a solid\u00e3o que insiste em me cercar. 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