{"id":4136,"date":"2024-07-12T11:01:45","date_gmt":"2024-07-12T15:01:45","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4136"},"modified":"2024-07-16T09:55:34","modified_gmt":"2024-07-16T13:55:34","slug":"passando-a-bala-de-borracha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/passando-a-bala-de-borracha\/","title":{"rendered":"Passando a bala de borracha"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Jo\u00e3o Vitor Marques<\/strong><br><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: L\u00edvia Medina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<p>21 de junho de 1968, \u201cSexta-Feira Sangrenta\u201d. A avenida Rio Branco, na capital do Rio de Janeiro, foi palco de um dos maiores conflitos entre o movimento estudantil e as for\u00e7as de seguran\u00e7a do governo militar. Est\u00e1vamos no \u00e1pice da ditadura militar. At\u00e9 hoje n\u00e3o se sabe quantos morreram na data, alguns contam tr\u00eas, outros 28. N\u00e3o se podia confiar nas estat\u00edsticas oficiais do governo, mas havia pelo menos um consenso de que dezenas de manifestantes ficaram feridos. Naquela sexta-feira, os estudantes que protestavam pelo fim do regime foram confrontados pelos militares com bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e tiros de bala de borracha.<\/p>\n\n\n<p>31 de mar\u00e7o de 2024. A borracha volta a ser utilizada. O Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos do atual governo brasileiro, que chegou a registrar em documentos o slogan \u201c60 anos do golpe, sem mem\u00f3ria n\u00e3o h\u00e1 futuro\u201d, foi proibido pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva de realizar atos cr\u00edticos \u00e0 ditadura militar. Eventos oficiais relembrando a data hist\u00f3rica foram vetados em todas as pastas governamentais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1874\" height=\"1055\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/IMAGEM-BALA-72-DPI-RGB-1-edited.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4324\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/IMAGEM-BALA-72-DPI-RGB-1-edited.png 1874w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/IMAGEM-BALA-72-DPI-RGB-1-edited-300x169.png 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/IMAGEM-BALA-72-DPI-RGB-1-edited-1024x576.png 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/IMAGEM-BALA-72-DPI-RGB-1-edited-768x432.png 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/IMAGEM-BALA-72-DPI-RGB-1-edited-1536x865.png 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/IMAGEM-BALA-72-DPI-RGB-1-edited-1200x676.png 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/IMAGEM-BALA-72-DPI-RGB-1-edited-1250x704.png 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/IMAGEM-BALA-72-DPI-RGB-1-edited-400x225.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1874px) 100vw, 1874px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O governo n\u00e3o deseja neste momento aumentar os conflitos com os militares, que n\u00e3o gostam da lembran\u00e7a da responsabilidade por um dos per\u00edodos mais cru\u00e9is da hist\u00f3ria brasileira, nem com a direita do pa\u00eds, que em grande maioria nega uma ditadura, e acredita em um regime que teria salvo o pa\u00eds da \u201camea\u00e7a comunista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal decis\u00e3o, parece uma nova bala de borracha no passado. Uma bala, ali\u00e1s, com alvo inating\u00edvel. \u00c9 imposs\u00edvel apagar o passado. \u00c9 imposs\u00edvel apagar as lembran\u00e7as daqueles que sofreram com as atrocidades da ditadura militar ou dos que perderam entes queridos. \u00c9 imposs\u00edvel apagar os atrasos que o regime deixou como legado para o Brasil em setores importantes, como da economia e cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de um ultraje \u00e0s v\u00edtimas, a proibi\u00e7\u00e3o \u00e9 um passo perigoso rumo ao apagamento (ou esquecimento). A hist\u00f3ria deixa claro que \u00e9 necess\u00e1rio relembrar as barb\u00e1ries do passado para que n\u00e3o se repitam no presente. E na \u00e2nsia de uma concilia\u00e7\u00e3o com os militares, Lula, acusado por muitos de temer as For\u00e7as Armadas, em sua maioria bolsonarista, censurou qualquer lembran\u00e7a ao golpe militar em seu governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se calar quanto aos 60 anos de um governo opressor que controlou com a for\u00e7a os ideais de liberdade \u00e9, no m\u00ednimo, contradit\u00f3rio para um governo que se elegeu com um discurso contr\u00e1rio ao autoritarismo, inclusive com discursos inflamados contra poss\u00edveis golpes. Segundo o pr\u00f3prio presidente, a maior preocupa\u00e7\u00e3o neste momento s\u00e3o os ataques recentes, como o de 8 de janeiro de 2023, que devem ser execrados. Mas, como evitar que as gera\u00e7\u00f5es atuais desejem a volta de um regime militar, se n\u00e3o se lembram ou nem conhecem os horrores vividos entre 1964 e 1985?<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil vive, desde as articula\u00e7\u00f5es para o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff em 2016, o que a pesquisadora da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), Magali Cunha, chama de \u201camn\u00e9sia social\u201d. Militares, pol\u00edticos e intelectuais alinhados \u00e0 direita tentam, desde ent\u00e3o, justificar e recontar a hist\u00f3ria da ditadura, alimentando discursos de uma interven\u00e7\u00e3o militar no pa\u00eds. Os anos que se seguiram foram ainda piores. O extremismo pol\u00edtico e a cultura de informa\u00e7\u00f5es falsas parecem ter deturpado a mem\u00f3ria de boa parte da popula\u00e7\u00e3o sobre o per\u00edodo. A direita, capitaneada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, tenta forjar uma vers\u00e3o mentirosa do per\u00edodo ditatorial para apagar o passado e jog\u00e1-lo para debaixo do tapete.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a remontagem do Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) no governo Lula, imaginava-se que o rep\u00fadio \u00e0 ditadura militar voltaria a ser algo frequente. Parece que n\u00e3o. Lula prefere se omitir quanto ao que realmente ocorreu, o que \u00e9 fato e n\u00e3o achismo: foi um dos per\u00edodos mais violentos de nossa hist\u00f3ria &#8211; e s\u00f3 chegou ao fim h\u00e1 menos de 40 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos insistem em dizer que o brasileiro \u00e9 um povo \u201csem mem\u00f3ria\u201d, mas como n\u00e3o esquecer se o passado n\u00e3o nos \u00e9 mostrado? Assistimos ao pr\u00f3prio governo tratar da lembran\u00e7a da ditadura como um simples ato de \u201cremoer\u201d o passado. Enfim, por aqui, seguimos torcendo para que a hist\u00f3ria brasileira se recuse a deitar-se com a mentira.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-102\/\">Voltar para a edi\u00e7\u00e3o 102<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Jo\u00e3o Vitor MarquesIlustra\u00e7\u00e3o: L\u00edvia Medina 21 de junho de 1968, \u201cSexta-Feira Sangrenta\u201d. A avenida Rio Branco, na capital do Rio de Janeiro, foi palco de um dos maiores conflitos entre o movimento estudantil e as for\u00e7as de seguran\u00e7a do governo militar. Est\u00e1vamos no \u00e1pice da ditadura militar. 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