{"id":4186,"date":"2024-07-12T11:00:50","date_gmt":"2024-07-12T15:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4186"},"modified":"2024-07-16T10:52:45","modified_gmt":"2024-07-16T14:52:45","slug":"liberdade-rasgada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/liberdade-rasgada\/","title":{"rendered":"Liberdade rasgada"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-primary-color has-text-color\">Descubra como a Ditadura Militar de 1964 impactou as pessoas e o estado de Mato Grosso do Sul<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Fernanda S\u00e1 | Glenda Rodrigues | Maria Gabriela Arcanjo | Murilo Medeiros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Juiz de Fora, Minas Gerais, 31 de mar\u00e7o de 1964. Tropas golpistas marcham para o Pal\u00e1cio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, onde estava o Presidente da Rep\u00fablica Jo\u00e3o Goulart. A ordem foi do General Mour\u00e3o Filho, inconformado com as reformas defendidas por Jango e sob a sombra do fantasma do comunismo. O presidente reage: manda duas tropas do Rio para Minas, mas antes de chegarem ao destino, os soldados cariocas convertem-se ao golpe. O esquema estava montado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">No dia seguinte, o pa\u00eds \u00e9 tomado de assalto pelos militares e os fatos que se seguiram mancharam de sangue a hist\u00f3ria do Brasil. No Rio, o Forte de Copacabana \u00e9 dominado e a sede da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE) \u00e9 incendiada. No Recife, o governador Miguel Arraes \u00e9 preso. Jango vai para Bras\u00edlia e depois foge para o Rio Grande do Sul. Uma frota da Marinha dos Estados Unidos se aproxima do litoral do Rio de Janeiro, em apoio ao golpe. Em 2 de abril, a presid\u00eancia \u00e9 declarada vaga pelo chefe do Senado, Auro de Moura Andrade. O deputado Ranieri Mazzilli vira presidente interino e o general Costa e Silva se autonomeia comandante-em-Chefe do Ex\u00e9rcito. O golpe estava dado: uma facada nas costas da democracia brasileira. Ferida ainda aberta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\"><strong>Enquanto isso, no sul de Mato Grosso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Campo Grande, 31 de mar\u00e7o de 1964. A noite j\u00e1 caiu e o aparelho de r\u00e1dio sintoniza a R\u00e1dio Gua\u00edba, de Porto Alegre (RS). Valter Pereira, 19 anos, ouve atento e preocupado \u00e0s not\u00edcias. Ele est\u00e1 afastado do movimento estudantil formal para trabalhar e contribuir com a renda da fam\u00edlia, mas nunca abandonou a milit\u00e2ncia. A emissora ga\u00facha informa o passo a passo do golpe. A esperan\u00e7a dos democratas, e de Valter, \u00e9 uma poss\u00edvel resist\u00eancia que estaria se formando no sul do pa\u00eds, sob comando de Jango. Em v\u00e3o. A Ditadura Militar tomaria conta do Brasil pelas pr\u00f3ximas duas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">No dia seguinte, Valter, que tinha passado a noite em claro, vai ao encontro de amigos para discutir a conjuntura pol\u00edtica do pa\u00eds, mas n\u00e3o chega. No centro da cidade, esquina da rua 13 de Maio com a Dom Aquino, estaciona ao seu lado uma caminhonete Rural Willys. Dela, descem tr\u00eas pessoas: um policial militar, um agente do ex\u00e9rcito e um civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Valter \u00e9 abordado e recebe voz de pris\u00e3o, mas resiste. \u201cCad\u00ea a ordem de pris\u00e3o? Se eu estou [sendo] preso, eu quero saber da minha ordem de pris\u00e3o\u201d. O policial encosta o cano da arma na costela de Valter. \u201cEst\u00e1 aqui\u201d. O militante entende o recado e entra na Rural.<\/p>\n\n\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">Chegando ao local onde ficaria preso, outro recado macabro. \u201cVoc\u00ea foi preso por ordem superior. N\u00e3o adianta contratar advogado, o Judici\u00e1rio n\u00e3o vai funcionar nesse caso. Esta pris\u00e3o \u00e9 imprevis\u00edvel, existe uma revolu\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em curso no pa\u00eds\u201d, avisa o militar<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">A esperan\u00e7a de logo respirar ares de liberdade vivia no peito de Valter. \u201cA expectativa \u00e9 de que ir\u00edamos ficar um ou dois dias, que seria uma pris\u00e3o at\u00e9 a nova ordem ser estabelecida\u201d, conta. \u00c9 a\u00ed que a inexperi\u00eancia do jovem militante contrasta com as viv\u00eancias de velhos conhecidos da luta por democracia. Quando perguntados sobre o que gostariam que fosse levado de casa para o pres\u00eddio, a maioria dos presos pediu itens b\u00e1sicos, como roupas e sapatos. Mas Acelino Granja, mais velho, presidente do Sindicato dos Carroceiros e militante do Partido Comunista na \u00e9poca, pediu uma folha de papel alma\u00e7o e uma caneta. Somente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Valter ficou surpreso, questionou a escolha e a resposta de Acelino veio como um balde de \u00e1gua fria. \u201cEsta pris\u00e3o pode ter dura\u00e7\u00e3o de horas, dias, meses ou anos. Vou requerer o meu aux\u00edlio reclus\u00e3o, que est\u00e1 previsto na Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho\u201d, disse o sindicalista, descrente de que a liberdade viria r\u00e1pido. Ao mesmo tempo, Acelino n\u00e3o parecia ter a dimens\u00e3o do n\u00edvel de repress\u00e3o ao qual seria submetido. De acordo com a historiadora Suzana Arakaki, ele foi transferido de Campo Grande para S\u00e3o Paulo, numa viagem de mais de 20 horas, sem nenhum gole d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">L\u00e1, viu a face mais sombria e cruel do regime ditatorial. Acelino Granja foi duramente torturado em sess\u00f5es de interrogat\u00f3rio. Teve um dos bra\u00e7os quebrados e ficou praticamente cego, mas resistiu e foi liberado. Essa hist\u00f3ria se repetiu por todo o pa\u00eds, inclusive com outros sul-mato-grossenses: pessoas contr\u00e1rias ao militarismo eram perseguidas, presas e torturadas em interrogat\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Valter Pereira teve uma trajet\u00f3ria no c\u00e1rcere bem menos tr\u00e1gica. N\u00e3o sofreu maus-tratos f\u00edsicos e foi solto pouco mais de uma semana ap\u00f3s ser preso. Ele ainda seria levado para tr\u00e1s das grades por mais duas vezes, nos anos de 1967 e 1970. Na \u00faltima pris\u00e3o, que durou apenas cerca de 12 horas, ele recusou todas as refei\u00e7\u00f5es. Um dos militares perguntou o porqu\u00ea da greve de fome e Valter justificou que era um preso pol\u00edtico, exigia instala\u00e7\u00f5es adequadas para a reclus\u00e3o e o direito a um advogado. O oficial respondeu com cinismo. &#8220;Voc\u00ea deve dar gra\u00e7as a Deus de ter sido preso em Campo Grande. Se estivesse no DOPS em S\u00e3o Paulo, voc\u00ea estava debaixo de uma chibata ou em um pau de arara&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Em nenhuma das vezes que foi preso, Valter respondeu a inqu\u00e9rito ou soube quais eram as acusa\u00e7\u00f5es contra ele. Geralmente, a persegui\u00e7\u00e3o come\u00e7ava quando civis (como aquele que estava na primeira pris\u00e3o) entregavam o nome de pessoas que se opunham ao regime. Os \u201cdedos-duros\u201d integravam a A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica de Mato Grosso (Ademat), organiza\u00e7\u00e3o de direita que protagonizou a ca\u00e7a aos supostos subversivos e comunistas e era formada principalmente por empres\u00e1rios e produtores rurais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Em contraposi\u00e7\u00e3o, Valter Pereira atuou na funda\u00e7\u00e3o do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB) em Campo Grande durante o regime militar. Entre 1966 e 1979, este foi o \u00fanico partido pol\u00edtico de resist\u00eancia contra a ditadura. O mdbista exerceu tr\u00eas mandatos parlamentares durante o per\u00edodo de repress\u00e3o, primeiro foi vereador da capital (1972-1974), depois deputado estadual (1975-1979) e chegou a ser deputado federal (1975 &#8211; 1979).<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">A ditadura se esfor\u00e7ava para parecer uma democracia. Os oposicionistas at\u00e9 podiam se candidatar, mas tinham que manter-se na linha para n\u00e3o perder o cargo e os direitos pol\u00edticos. Valter classifica o per\u00edodo como uma democradura.<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">\u201cHavia elei\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o havia liberdade. Quando voc\u00ea ousava adentrar assuntos mais pol\u00eamicos, corria o risco de ser cassado\u201d. Ele relata que recebia amea\u00e7as de integrantes da Ademat. \u201c\u00c0s vezes eu tinha que ouvir de um dedo duro que eu ia pagar o pre\u00e7o do que eu estava falando. E eles tinham autoridade na \u00e9poca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Ap\u00f3s o fim da ditadura, Valter continuou atuante na vida pol\u00edtica sul-mato-grossense. Foi deputado federal por dois mandatos, ocupou v\u00e1rias secretarias de estado e foi senador entre 2006 e 2010, ap\u00f3s o falecimento de Ramez Tebet, de quem era suplente. Atualmente, aos 80 anos, ele segue vivendo na capital e se empenha nas articula\u00e7\u00f5es da pr\u00e9-candidatura de seu filho Beto Pereira (PSBD) \u00e0 prefeitura da cidade.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\"><strong>Cabe\u00e7a em balde d\u2019\u00e1gua<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">\u201cUm advogado brilhante e um ativista progressista muito importante. Era um intelectual, uma pessoa que nunca tinha se envolvido em Guerrilha\u201d. \u00c9 assim que Valter Pereira descreve Ricardo Brand\u00e3o, que tinha 20 anos em 1964, e tamb\u00e9m foi perseguido e preso pela ditadura. \u201cS\u00f3 n\u00e3o teve a cabe\u00e7a afogada num balde d&#8217;\u00e1gua, mas o resto das torturas ele sofreu todas\u201d. \u00c9 nesses termos que Maritza Brand\u00e3o, defensora p\u00fablica de 46 anos, se lembra dos relatos do pai sobre os per\u00edodos em que esteve no c\u00e1rcere.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Quando o golpe se concretizou, Ricardo estudava direito na Universidade C\u00e2ndido Mendes, no Rio de Janeiro. Militante de causas estudantis, ele estava na sede da UNE quando militares invadiram, depredaram e incendiaram o pr\u00e9dio. Para n\u00e3o ser capturado, ele pulou do segundo andar e quebrou os p\u00e9s. Ficou escondido no Rio de Janeiro at\u00e9 se curar e, assim que p\u00f4de, se refugiou no sul de Mato Grosso, com a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">Ainda em 1964, foi detido por oficiais do Ex\u00e9rcito na pra\u00e7a Ary Coelho, em Campo Grande. E diferentemente de Valter, que deveria dar gra\u00e7as a Deus por ter sido preso na capital, aqui Ricardo foi tratado com crueldade. Era mantido seminu, s\u00f3 de cuecas, em uma cela fria e, como se j\u00e1 n\u00e3o bastasse, jogavam \u00e1gua gelada nele. Teve gripe, tosse e, por fim, pneumonia.<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">De acordo com Maritza, Ricardo s\u00f3 n\u00e3o morreu porque foi salvo pelo m\u00e9dico e tamb\u00e9m preso pol\u00edtico, Alberto Neder. Como estava na cela ao lado, ele passava medicamentos para o estudante.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"331\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/dsc-5654_GFgqXSsN-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4214\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/dsc-5654_GFgqXSsN-1.jpg 500w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/dsc-5654_GFgqXSsN-1-300x199.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/dsc-5654_GFgqXSsN-1-400x265.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Maritza se emociona ao contar a hist\u00f3ria de milit\u00e2ncia do pai | <br>Foto: Glenda Rodrigues<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">De Campo Grande, Ricardo foi transferido para o DOPS do Rio de Janeiro. A historiadora Suzana Arakaki teve acesso aos documentos originais dos depoimentos prestados por ele ao Ex\u00e9rcito. Neles, o preso \u00e9 questionado sobre sua trajet\u00f3ria no movimento estudantil e atua\u00e7\u00e3o como articulista em jornais de Mato Grosso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">De acordo com Suzana, o testemunho de Ricardo come\u00e7ou a se complicar quando ele foi perguntado sobre uma carta que enviou a Jos\u00e9 Roberto de Vasconcelos, o Vasco, em abril de 1963. Eles trocavam exemplares de jornais e conversavam sobre a vida pol\u00edtica do estado. N\u00e3o se sabe como a carta foi parar nas m\u00e3os dos militares. Vasco tinha sido eleito vereador da cidade de Campo Grande em 1957 e era editor do Jornal \u2018O Democrata\u2019, destru\u00eddo por integrantes da Ademat. As impressoras foram quebradas e outros equipamentos atirados em um c\u00f3rrego da Rua Maracaj\u00fa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Ao fim do depoimento, os militares foram enf\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">\u201ccom refer\u00eancia ao tratamento que lhe foi dispensado neste Departamento o declarante nada tem a dizer que possa ser considerado como reclama\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tendo sido o mesmo sofrido qualquer tipo de constrangimento f\u00edsico ou moral. E mais n\u00e3o disse.\u201d<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">\u00c0 Maritza, Ricardo contou outra vers\u00e3o. \u201cPendurado em pau de arara, tapas, agress\u00f5es f\u00edsicas, como forma de dela\u00e7\u00e3o. [Mas] eu acredito que ele nunca delatou ningu\u00e9m\u201d, declara com os olhos marejados. E talvez por isso tenha sofrido tanto. A filha conta que ele relatava ter sido torturado todas as vezes em que foi preso. Mas resistiu e sobreviveu \u00e0 ditadura, \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o e \u00e0 crueldade dos algozes.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Ricardo Brand\u00e3o morreu em 1996, v\u00edtima de um infarto fulminante, mas continua vivo nas in\u00fameras homenagens que recebeu ap\u00f3s a morte. Foram batizados com o seu nome: Avenida em Campo Grande, pres\u00eddio e rua em Ponta Por\u00e3, Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Mato Grosso do Sul e medalha conferida pela Assembleia Legislativa. No bairro \u2018Jardim dos Estados\u2019, colorida por flores cor-de-rosa, a Avenida Ricardo Brand\u00e3o fica a apenas 500 metros de dist\u00e2ncia da rua Alberto Neder, o m\u00e9dico que salvou sua vida na pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\"><strong>Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei delas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Se os registros da hist\u00f3ria da Ditadura Militar no Mato Grosso do Sul j\u00e1 s\u00e3o escassos, quando se trata da luta (ou do apoio) de mulheres neste per\u00edodo, essa problem\u00e1tica aumenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">No livro \u2018Mulheres na ditadura: femininos em agenciamentos de lutas e resist\u00eancias\u2019, a historiadora e pesquisadora Suzana Arakaki, uma das organizadoras da obra, explica que os escritos historiogr\u00e1ficos feitos por homens ocultaram a presen\u00e7a feminina. Ainda, na \u00e9poca, as mulheres eram pouco participativas nos espa\u00e7os p\u00fablicos, o que n\u00e3o significa a falta de a\u00e7\u00e3o nos 21 anos que sucederam o golpe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">\u201cUma esp\u00e9cie de M\u00e9dicos Sem Fronteiras dos perseguidos\u201d, \u00e9 assim que o pesquisador Fausto Mato Grosso cita a organiza\u00e7\u00e3o Socorro Vermelho, formada por mulheres, com o objetivo de levar ajuda humanit\u00e1ria \u00e0s v\u00edtimas do regime (e tamb\u00e9m aos seus familiares). Em Campo Grande, Lygia Pletz Neder (casada com Alberto Neder, j\u00e1 citado aqui) foi a primeira dirigente da causa, logo no in\u00edcio dos anos 1960. Na nota de falecimento de Lygia, seu filho, Carlos Neder declara que a m\u00e3e nunca concordou plenamente com todas as opini\u00f5es pol\u00edticas do marido, mas, que apesar disso, se colocou em risco ao fazer parte do Socorro Vermelho e levar ajuda aos perseguidos pelo Estado.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"694\" height=\"403\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mulheres-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4222\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mulheres-2.png 694w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mulheres-2-300x174.png 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/mulheres-2-400x232.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 694px) 100vw, 694px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Acervo \u2018Mem\u00f3rias da ditadura 9 anos&#8217; | Colagem: Fernanda S\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">O Socorro Vermelho tamb\u00e9m prestou servi\u00e7os aos familiares dessas v\u00edtimas. Suzana escreve que, ap\u00f3s a pris\u00e3o de sindicalistas, em geral pessoas pobres, suas fam\u00edlias ficavam \u00e0 merc\u00ea. \u201cMesmo com a liberdade, essas pessoas n\u00e3o conseguiam emprego, ningu\u00e9m queria dar trabalho a comunistas\u201d. Doa\u00e7\u00f5es de alimentos, rem\u00e9dios, roupas e outros insumos, muitos deles vindos da ajuda solid\u00e1ria de amigos, compunham a rede de apoio formada pelas mulheres. Para al\u00e9m da vida, a entidade tamb\u00e9m tinha um espa\u00e7o no cemit\u00e9rio Parque das Primaveras, dedicado aos entes cujos familiares n\u00e3o podiam arcar com as despesas de um funeral.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">Falar sobre a luta das mulheres contra a Ditadura Militar no atual Mato Grosso do Sul \u00e9 tamb\u00e9m estourar a bolha do centralismo branco. \u201c[A discuss\u00e3o] est\u00e1 al\u00e9m do ser mulher, pois os recortes interseccionais perpassam g\u00eanero, ra\u00e7a e etnia\u201d, escreve a cientista social Jheuren de Souza, no artigo \u2018Mulheres ind\u00edgenas e Ditadura Militar Brasileira\u2019.<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">No ano de 2013, quase 50 anos depois do golpe, foi encontrado o Relat\u00f3rio Figueiredo, documento produzido entre 1967 e 1968 pelo procurador Jader de Figueiredo Correia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">O registro, em suas mais de sete mil p\u00e1ginas, documenta crimes cometidos contra os povos ind\u00edgenas do Brasil: abusos sexuais, assassinatos em massa, escravid\u00e3o, guerras, torturas, entre outros. Quando se tratava de viola\u00e7\u00f5es contra as mulheres, contudo, as palavras eram suavizadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Aliciamento, deflora\u00e7\u00e3o, desrespeito, infelicita\u00e7\u00e3o, sedu\u00e7\u00e3o. Essas eram algumas das palavras usadas para se referir \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero sofrida por mulheres ind\u00edgenas. O caso de Tereza, da etnia Terena, foi um dos amenizados nas p\u00e1ginas do documento. \u201cDeflorou a \u00edndia Tereza do P\u00f4sto Ind\u00edgena Ipegue, no pr\u00f3prio recinto da sede da Inspetoria\u201d. Assim \u00e9 relatado o crime cometido por Djalma Mongenot, funcion\u00e1rio do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">A tese de defesa de Djalma atesta que a v\u00edtima era \u201cj\u00e1 experimentada no com\u00e9rcio sexual em Campo Grande\u201d. \u00c9 indispens\u00e1vel pontuar que, segundo o documento descoberto em 2013, diversas ind\u00edgenas eram submetidas \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o. \u201cPela an\u00e1lise dos crimes e dos relatos, dificilmente seria por livre e espont\u00e2nea vontade dessas mulheres\u201d, aponta Jheuren.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Embora muitas mulheres tenham se envolvido na causa pela defesa da democracia, havia tamb\u00e9m aquelas que andavam na contram\u00e3o. Em 1964, ocorreu a Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade, movimento realizado em diversas partes do pa\u00eds e que protestava contra o governo vigente, pedindo socorro aos militares contra a amea\u00e7a comunista. Mais tarde, a marcha seria usada pelos pr\u00f3prios militares como justificativa para o golpe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Mas afinal, onde entram as mulheres na origem da marcha? Segundo um documento redigido por Rodrigues Matias logo ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o do movimento, a inspira\u00e7\u00e3o veio de Irm\u00e3 Ana de Lurdes, em um encontro com o deputado Cunha Bueno, um dos principais patrocinadores da passeata em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">\u201cNossa Senhora tinha sido ofendida pelas palavras pecaminosas do Presidente da Rep\u00fablica, em refer\u00eancia ao Ros\u00e1rio, e tudo que havia a fazer era convocar as mulheres de S\u00e3o Paulo para uma grande reuni\u00e3o p\u00fablica de desagravo ao ros\u00e1rio. Elas compareceriam em massa, Nossa Senhora as escutaria, e Deus teria miseric\u00f3rdia do Brasil\u201d, apelou Lurdes, na reuni\u00e3o.<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">As palavras de Jo\u00e3o Goulart, \u00e0s quais a Irm\u00e3 Lurdes se refere, s\u00e3o aquelas presentes em um discurso feito na Noite das Cadeiradas, movimento organizado por mulheres contra Leonel Brizola. \u201cO cristianismo nunca foi o escudo para privil\u00e9gios condenados para o Santo Padre, nem tamb\u00e9m, brasileiro, os ros\u00e1rios podem ser levantados contra a vontade do povo e as suas aspira\u00e7\u00f5es mais leg\u00edtimas\u201d, disse o ent\u00e3o presidente da rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Ap\u00f3s cinquenta anos, aconteceu inclusive, na cidade de Campo Grande, a \u2018Marcha da Fam\u00edlia com Deus II &#8211; O Retorno\u2019, com o intuito de retirar, por meio de uma interven\u00e7\u00e3o militar (termo que parece ter sido esvaziado e negligenciado nos \u00faltimos anos), a ent\u00e3o presidenta Dilma Rousseff, tamb\u00e9m presa e torturada pelas m\u00e3os da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\"><strong>\u201cUm estado que executa lideran\u00e7as ind\u00edgenas\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Numa manh\u00e3 de abril de 1974, Mar\u00e7al de Souza Tup\u00e3-Y, ind\u00edgena guarani, fazia o relat\u00f3rio mensal do ambulat\u00f3rio de sua comunidade. Ele tinha 54 anos e era uma lideran\u00e7a de proje\u00e7\u00e3o internacional que lutava contra a explora\u00e7\u00e3o de recursos naturais e expropria\u00e7\u00e3o das terras tradicionais do seu povo. Um grupo de ao menos dez ind\u00edgenas liderados pelo Capit\u00e3o Narciso, da etnia Kaiow\u00e1, e pelo Capit\u00e3o Ram\u00f3n Machado da Silva, da etnia Terena, encarregado do inspetor Jos\u00e9 Sardinha, retirou Mar\u00e7al do ambulat\u00f3rio \u00e0 for\u00e7a, rasgou a roupa dele e o espancou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">O Capit\u00e3o Ram\u00f3n disse que a disciplina que aplicava nos ind\u00edgenas ia desde chamar aten\u00e7\u00e3o e conversar, at\u00e9 \u201cdar um castiguinho\u201d quando julgava necess\u00e1rio. Todo o processo de julgamento dos ind\u00edgenas, desde a apura\u00e7\u00e3o da conduta, conclus\u00e3o de que eram inocentes ou culpados e aplica\u00e7\u00e3o da puni\u00e7\u00e3o, estava nas m\u00e3os de uma \u00fanica pessoa. Curiosamente, Ram\u00f3n era tamb\u00e9m um ind\u00edgena, com f\u00e1cil acesso aos demais, que atuava a mando da Funda\u00e7\u00e3o Nacional dos Povos Ind\u00edgenas (Funai), \u00f3rg\u00e3o do Poder Executivo que, na \u00e9poca, era ditatorial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Esse epis\u00f3dio foi narrado no filme \u201cTerra dos \u00cdndios\u201d, de 1979, de Zelito Viana, por meio de entrevistas com diversas lideran\u00e7as ind\u00edgenas pelo Brasil, al\u00e9m de servidores atuantes nas aldeias, militares e compradores de terras em reservas ind\u00edgenas n\u00e3o demarcadas. Mar\u00e7al inicia a pel\u00edcula com uma fala impactante. \u201cEu creio que vai levantar ou j\u00e1 levantou \u00edndios esclarecidos como eu, que levantar\u00e1 a sua voz em prol da sua ra\u00e7a\u201d. O cineasta mostrou a obra ao ind\u00edgena americano Jimmie Durham, que sentenciou o exterm\u00ednio dos ind\u00edgenas. \u201cEsses \u00edndios v\u00e3o morrer todos, porque eles s\u00e3o muito conscientes, eles sabem demais e, quando o \u00edndio sabe muito, a sociedade envolvente mata\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"448\" height=\"543\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/ilustracao-png.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4218\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/ilustracao-png.png 448w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/ilustracao-png-248x300.png 248w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/ilustracao-png-400x485.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Acervo \u2018Mem\u00f3rias da ditadura 9 anos&#8217; | Ilustra\u00e7\u00e3o: Fernanda S\u00e1 e Milena Melo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">No dia 25 de novembro de 1983, em Ant\u00f4nio Jo\u00e3o (MS), Mar\u00e7al de Souza Tup\u00e3-Y foi assassinado a tiros dentro de sua casa. Todas as demais lideran\u00e7as retratadas no filme tamb\u00e9m foram mortas. Ningu\u00e9m foi condenado pelo homic\u00eddio do l\u00edder guarani. A historiadora Suzana Arakaki narra em seu livro \u2018Mulheres na Ditadura\u2019, que o governo e a imprensa \u00e0 \u00e9poca tentaram atribuir uma motiva\u00e7\u00e3o passional do crime \u00e0 ex-mulher dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">A luta de Mar\u00e7al de Souza Tup\u00e3-Y teve um fim tr\u00e1gico durante o regime militar, e casos semelhantes ainda ocorrem no estado democr\u00e1tico de direito. Por\u00e9m, para o membro do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) em Dourados-MS, o Procurador da Rep\u00fablica Marco Antonio Delfino de Almeida, o caso de Mar\u00e7al de Souza teria o mesmo desfecho se ocorresse no regime democr\u00e1tico, pois conflitos agr\u00e1rios s\u00e3o uma realidade em Mato Grosso do Sul. Contudo, ele acredita que se a hist\u00f3ria de Mar\u00e7al tivesse ocorrido nos tempos atuais, haveria uma presen\u00e7a maior do estado, com a apura\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis pelo crime e n\u00e3o a impunidade dos autores. \u201cInfelizmente n\u00f3s somos um estado que executa lideran\u00e7as ind\u00edgenas\u201d. A matan\u00e7a ind\u00edgena n\u00e3o foi exclusividade da ditadura. Na \u00faltima d\u00e9cada, outras lideran\u00e7as tamb\u00e9m tiveram suas vidas ceifadas em conflitos agr\u00e1rios. Delfino lembra as mortes na terra Guapo\u2019y, em 2020, em Amambai (MS); o caso Clodiode Aquileu Rodrigues de Souza, Guarani-Kaiwo\u00e1 assassinado em Caarap\u00f3 (MS), em 2016; e com o caso de Marcos Veron, assassinado em 2003, em Juti (MS).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Edna Silva de Souza \u00e9 filha de Mar\u00e7al e tinha 20 anos quando seu pai morreu. Ela tamb\u00e9m \u00e9 o elo entre a hist\u00f3ria de luta dele e a pesquisa de Delfino, que a contatou a partir de 2018, quando ele iniciou um doutorado em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Esse contato, inicialmente para compor a sua tese, tamb\u00e9m despertou a ideia de buscar a anistia pol\u00edtica de Mar\u00e7al de Souza na Comiss\u00e3o de Anistia. Criada pela Lei n\u00ba 10.559\/2002, essa comiss\u00e3o tem como objetivo analisar requerimentos de fatos relativos \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o exclusivamente de car\u00e1ter pol\u00edtico e emitir pareceres que assessorem o Ministro de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania, respons\u00e1vel por tal reconhecimento. A condi\u00e7\u00e3o de anistiado pol\u00edtico tem repercuss\u00f5es econ\u00f4micas, trabalhistas, previdenci\u00e1rias e administrativas, como a repara\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria e o reconhecimento de tempo de trabalho durante o per\u00edodo em que esteve obrigado(a) a se afastar em raz\u00e3o de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O Procurador da Rep\u00fablica entende que o governo brasileiro precisa reconhecer, de forma individual, a luta pol\u00edtica dos povos ind\u00edgenas, inclusive da do l\u00edder guarani, e por esse motivo o pedido foi feito. Apesar de j\u00e1 acionada a via administrativa, ainda n\u00e3o houve pedido judicial sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">O MPF avalia que o autoritarismo da ditadura permite que o Estado seja destinado a interesses privados e n\u00e3o coletivos, principalmente sob a premissa de que quem usa melhor a terra \u00e9 o latifundi\u00e1rio e n\u00e3o o ind\u00edgena, sempre visto pela sociedade como o inimigo e agitador. O combate a movimentos sociais, inclusive contra os protestos ind\u00edgenas, \u00e9 uma caracter\u00edstica intr\u00ednseca do regime autorit\u00e1rio pelo qual o Brasil passou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Negar a humanidade aos povos ind\u00edgenas n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade brasileira, segundo Delfino. Nesse sentido, a Argentina adotou o discurso da campanha ou conquista do deserto, por meio da qual, no final do s\u00e9culo 19, obteve o dom\u00ednio do pampa e da patag\u00f4nia, at\u00e9, ent\u00e3o, oficialmente, terra ind\u00edgena da etnia mapuche. Na mesma linha, o governo brasileiro abra\u00e7ou o discurso de preencher o suposto vazio amaz\u00f4nico, como se ningu\u00e9m habitasse naquelas terras. Essas foram iniciativas em pa\u00edses distintos e que confirmam a vis\u00e3o de ambos os governos de anular a humanidade dos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">O MPF relaciona os resqu\u00edcios da ditadura presentes na democracia com a falta de justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a passagem do regime ditatorial para o democr\u00e1tico, apurando e punindo viol\u00eancias que ocorreram no passado, independente do cargo e da idade de quem a praticou. Al\u00e9m disso, a justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada ao incentivo \u00e0 mem\u00f3ria dos fatos, por meio de museus, por exemplo, para que eles n\u00e3o se repitam. Na Argentina, o movimento #NuncaM\u00e1s, recentemente retratado no premiado filme \u2018Argentina: 1985\u2019, \u00e9 um exemplo da valoriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria que se buscou instalar no pa\u00eds para evitar o retorno do regime autorit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">\u201cEnquanto n\u00e3o houver esse processo de mem\u00f3ria, de verdade, a gente tem a tend\u00eancia de infelizmente fazer um processo intenso de repeti\u00e7\u00e3o de viola\u00e7\u00f5es\u201d, enfatiza Delfino. Em Angola, h\u00e1 o Museu Nacional da Escravatura e, na Alemanha, h\u00e1 o Museu do Holocausto, em que s\u00e3o expostas e rememoradas as graves viola\u00e7\u00f5es contra os direitos humanos. No Brasil, ao rev\u00e9s, foi aprovada a Lei da Anistia para quem cometeu crimes pol\u00edticos, como os torturadores.<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Resqu\u00edcios da ditadura ainda persistem no pa\u00eds. Para Delfino, a manifesta\u00e7\u00e3o dos militares sobre decis\u00f5es pol\u00edticas na democracia; o epis\u00f3dio de oito de janeiro de 2023, quando os s\u00edmbolos dos tr\u00eas poderes da rep\u00fablica foram invadidos e depredados; e a viol\u00eancia policial durante abordagens, s\u00e3o exemplos de que a Justi\u00e7a de Transi\u00e7\u00e3o ainda deve ser implementada, para se buscar a solidez democr\u00e1tica no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\"><strong>Reescrevendo a hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Brasil, 39 anos ap\u00f3s o fim da Ditadura Militar. A sociedade abomina esse per\u00edodo. Aos militares torturadores, cadeia. Aos presidentes da \u00e9poca, repres\u00e1lias. Aos l\u00edderes dos movimentos contra a opress\u00e3o, est\u00e1tuas. A hist\u00f3ria ainda \u00e9 lembrada, mas como forma de conscientizar a popula\u00e7\u00e3o, do quanto um governo autorit\u00e1rio \u00e9 prejudicial para a liberdade do brasileiro e hoje, ningu\u00e9m mais defende a barb\u00e1rie que foi a ditadura. Essa seria a hist\u00f3ria que gostar\u00edamos de contar, mas a realidade se desenhou de outra forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Bras\u00edlia, oito de janeiro de 2023. A capital do Brasil \u00e9 tomada por milhares de pessoas. N\u00e3o, milhares de golpistas. O que era pra ser apenas mais um dia chuvoso, tornou-se um marco hist\u00f3rico. A cidade foi tomada pela manifesta\u00e7\u00e3o daqueles que se declararam contr\u00e1rios ao novo presidente, ent\u00e3o fizeram uma passeata at\u00e9 o Congresso Nacional. Os \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d, aqueles que apoiam \u2018Deus, P\u00e1tria e Fam\u00edlia\u2019, invadem o Pal\u00e1cio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) e protagonizam um dos maiores ataques \u00e0 democracia brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Naquele dia de clima nebuloso no centro do poder federativo brasileiro, a Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia (ABIN), o Comando Militar do Planalto e a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica j\u00e1 haviam notado a estranha movimenta\u00e7\u00e3o nos acampamentos bolsonaristas montados \u00e0 frente dos quart\u00e9is. Iniciados ap\u00f3s a derrota eleitoral do seu mito em 2022, todo o pa\u00eds foi tomado por fan\u00e1ticos pol\u00edticos acampados. Dois dias antes do atentado, os golpistas se movimentaram e se concentraram em Bras\u00edlia, e o n\u00famero de pessoas que estavam acampadas subiu de 300 para 5500. \u201cAs for\u00e7as armadas v\u00e3o fazer o que voc\u00eas quiserem, eu vou fazer o que voc\u00eas querem\u201d, declarava o ex-presidente sobre o que estaria por vir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">No Mato Grosso do Sul, n\u00e3o foi diferente. Centenas de pessoas j\u00e1 estavam acampadas, desde 30 de outubro de 2023, em frente ao Comando Militar do Oeste (CMO), localizado na capital, logo ap\u00f3s o resultado das elei\u00e7\u00f5es presidenciais. E em seis de janeiro de 2023 partiram rumo \u00e0 Bras\u00edlia para se juntar aos outros golpistas que j\u00e1 se encontravam prontos para invadir o Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Quase 60 anos ap\u00f3s o in\u00edcio da ditadura no pa\u00eds, milhares de golpistas invadem o centro democratico do Brasil para reivindicar um golpe e pedir a volta do regime militar. Muitos dos que participam, nasceram durante o regime, viveram e experienciaram todo o per\u00edodo e, ainda assim, fecham os olhos e insistem na ideia do \u2018fantasma do comunismo\u2019 que motivou o golpe de 64.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Ao final do atentado, os baderneiros, tiveram uma surpresa ingrata, o seu deus havia ca\u00eddo, perdido as elei\u00e7\u00f5es e o poder, nem sequer estava no Brasil, e assistiu de camarote seus seguidores tamb\u00e9m ca\u00edrem. Deten\u00e7\u00e3o e processo criminal foram as consequ\u00eancias para mais de duas mil pessoas s\u00f3 naquele momento. Acima de tudo, o recado dado pelo pa\u00eds, \u201cditadura nunca mais\u201d. Apesar de fragilizada, a democracia resistiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">No compasso acelerado do tempo, o Brasil se encontra numa encruzilhada entre a mem\u00f3ria dolorosa de uma ditadura que perdurou por d\u00e9cadas e a esperan\u00e7a da democracia. S\u00e3o como dois tempos que se entrela\u00e7am, os dias atuais trazendo as heran\u00e7as deixadas pelos \u2018anos de chumbo\u2019, enquanto olhamos para tr\u00e1s, conscientes dos 21 anos que assombraram o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Manifesta\u00e7\u00f5es sob o olhar dos ditadores da \u00e9poca, como a \u201cPasseata dos Cem Mil\u201d, em 1968, no governo Costa e Silva, e as \u201cDiretas J\u00e1\u201d, em 1984, marcam a hist\u00f3ria do pa\u00eds como s\u00edmbolos de resist\u00eancia democr\u00e1tica e uma lembran\u00e7a poderosa da voz do povo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Quando consideramos os dias atuais, somos surpreendidos com os desafios de uma democracia ainda em constru\u00e7\u00e3o. Repress\u00f5es policiais violentas, ideais que voltam ao per\u00edodo ditatorial e pedidos de interven\u00e7\u00f5es militares, nos trazem \u00e0 tona as mem\u00f3rias que os anos dissiparam. <\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color\">Para Valter Pereira, que sentiu na pele os efeitos da ditadura, chega a ser uma ofensa ouvir algu\u00e9m falando que n\u00e3o houve golpe e sim uma revolu\u00e7\u00e3o. \u201cS\u00f3 imbecil ainda sustenta que n\u00e3o teve ditadura. Cassa\u00e7\u00e3o de mandato, pris\u00f5es de oponentes, fechamento do congresso, fechamento de assembleias\u2026 Isso a\u00ed se n\u00e3o foi ditadura \u2026\u201d.<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Maritza Brand\u00e3o tamb\u00e9m se entristece com a situa\u00e7\u00e3o do atentado de oito de janeiro de 2023, j\u00e1 que durante sua inf\u00e2ncia ouvia os relatos de sofrimento de seu pai Ricardo Brand\u00e3o. \u201c\u00c9 muito triste o que vem acontecendo no nosso pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o a, principalmente, esse atentado que aconteceu. \u00c9 inacredit\u00e1vel que em 2024 ainda tenha possibilidade de que grande parte da popula\u00e7\u00e3o abrace essa causa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color\">Ainda assim, h\u00e1 esperan\u00e7as. A sociedade continua a se organizar, a se manifestar e a reivindicar seus direitos. Movimentos sociais, ativistas e militantes s\u00e3o a for\u00e7a que impulsiona a democracia adiante, e nos lembram que a luta pela liberdade \u00e9 uma jornada cont\u00ednua, que n\u00e3o se encerra com a conquista de direitos, mas se renova a cada desafio. Neste embate entre a mem\u00f3ria e a esperan\u00e7a, \u00e9 importante olharmos para tr\u00e1s n\u00e3o apenas de forma reflexiva, mas como um lembrete para que n\u00e3o se esque\u00e7a, para que nunca mais aconte\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter is-style-fill\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-accent-background-color has-text-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-102\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 102<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Descubra como a Ditadura Militar de 1964 impactou as pessoas e o estado de Mato Grosso do Sul Texto: Fernanda S\u00e1 | Glenda Rodrigues | Maria Gabriela Arcanjo | Murilo Medeiros Juiz de Fora, Minas Gerais, 31 de mar\u00e7o de 1964. Tropas golpistas marcham para o Pal\u00e1cio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, onde estava [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-4186","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-especial102"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4186","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4186"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4186\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4872,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4186\/revisions\/4872"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}