{"id":4195,"date":"2024-07-12T11:14:14","date_gmt":"2024-07-12T15:14:14","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4195"},"modified":"2024-07-16T10:09:00","modified_gmt":"2024-07-16T14:09:00","slug":"a-prosa-do-marinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/a-prosa-do-marinheiro\/","title":{"rendered":"A prosa do marinheiro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto e Ilustra\u00e7\u00e3o: Emilly Nunes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p>Numa segunda ou ter\u00e7a bem cedinho antes dos netos acordarem, estou em p\u00e9 na sala junto ao gato e ao c\u00e3o. Os dois, deitados no sof\u00e1 de barriga para cima sem nenhuma conta para acertar com a vida, eu, sem conseguir descansar a cabe\u00e7a. A fiel e confi\u00e1vel companheira, minha bengala, segura meus velhos ossos no lugar. Me olho no espelho ao lado da porta, e mesmo que eu n\u00e3o consiga ver nada al\u00e9m de sombras e vultos, uma crian\u00e7a me encara do outro lado. Um menino mo\u00e7o da pele preta, os cabelos curtos bem penteados, a roupa amassada, com um esfreg\u00e3o em uma m\u00e3o e um balde na outra.<\/p>\n\n\n<p>Ele est\u00e1 numa embarca\u00e7\u00e3o, limpando com vontade qualquer sujeirinha que encontra. Ele pega carga pesada com os marujos, que seguem as ordens do capit\u00e3o. Ele esfrega e esfrega, at\u00e9 que suas m\u00e3os estejam vermelhas, com calos e farpas a decorar sua pele. No final do dia, quando a barca j\u00e1 atracou, algu\u00e9m lhe d\u00e1 um punhado de moedas pelo trabalho. Ele vai para casa, e encontra sua m\u00e3e cuidando das crian\u00e7as com um pano no ombro. Seu pai e seu irm\u00e3o mais velho acabaram de chegar da colheita dos p\u00e9s de cana de a\u00e7\u00facar. O menino se serviu da farinha de pa\u00e7oca, peixe e um copo de ch\u00e1.<\/p>\n<p>Eu sabia quem era a crian\u00e7a mesmo sem enxergar suas fei\u00e7\u00f5es, eram as mesmas que as minhas, com menos rugas e manchas, e mais dentes. Que rapaz forte eu era! Pe\u00e7o que se sente, sirva uma x\u00edcara de caf\u00e9 e se junte a mim numa prosa. Tentarei resumir a hist\u00f3ria do menino que fui, e do velho que sou nesta p\u00e1gina.<\/p>\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"756\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/marinheiro.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4378\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/marinheiro.jpg 756w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/marinheiro-227x300.jpg 227w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/marinheiro-400x529.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 756px) 100vw, 756px\" \/><\/figure>\n\n\n<p>Benedito \u00e9 meu nome. Benedito Gon\u00e7alves. Dito para os chegados e a fam\u00edlia. Me d\u00ea um bolo de fub\u00e1, uma rapadura e um caf\u00e9, e converarei por horas a fio. Do pouco que ainda lembro, desde crian\u00e7a trabalhei, ajudei a trazer dinheiro na mesa, sem tempo para as brincadeiras de inf\u00e2ncia. J\u00e1 vendi rapadura com mam\u00e3e e ajudei meu pai no campo, mas o lugar onde eu sempre batia ponto era nas barcas. Passava horas no conv\u00e9s, trabalhando duro, enquanto a \u00e1gua cantava sempre que batia no casco. Os filhos que me restam gostam de se gabar do qu\u00e3o bom eu era na matem\u00e1tica, mesmo que eu nunca tenha aprendido a ler e escrever, afinal, o trabalho em casa come\u00e7ou cedo e os poucos anos que estudei n\u00e3o foram suficientes.<\/p>\n<p>Quando fiquei mo\u00e7o, l\u00e1 pelos meus 18 anos, me alistei na marinha, e l\u00e1 fiquei at\u00e9 n\u00e3o poder mais. Era uma vida tranquila e sossegada, aquela vida mar\u00edtima. A gente ouvia e fazia. Como eram bons esses tempos. Viajar pelo Brasil, conhecer as cidades, andar pelas ruas como um bo\u00eamio, jogos de azar com os marujos, eram alegrias que a vida me proporcionou. Mas nem tudo eu pude aproveitar. Nunca soube e nunca vou saber o que \u00e9 um bom livro. Nem como \u00e9 meu nome em letra cursiva. Talvez se tivesse insistido em continuar na escola, eu seria um homem estudado. Talvez um poeta, um compositor de rodas de samba. Um prisioneiro das palavras, liberto apenas ao jog\u00e1-las no papel. A vida seria outra?<\/p>\n<p>Tive duas esposas, e tantos filhos que perdi a conta l\u00e1 nos meus 80 anos. Vi presidentes se erguerem e ca\u00edrem, perdi amigos para v\u00e1rias batalhas que me fogem a mem\u00f3ria. Estive l\u00e1 quando o Brasil foi tomado pela dor da ditadura, a gente como a gente levar porrada, perder os filhos e a casa, e o \u00e1lcool, t\u00e3o amado \u00e1lcool, ser proibido de estar nas prateleiras. N\u00e3o tinha mais as mesas de bar, as conversas sob um copo de pinga e torresmo. Vi os jovens se revoltarem e vencerem, e fiquei sem saber o que devia sentir. Um marinheiro de conv\u00e9s como eu seguia ordens, n\u00e3o importa quais fossem, mas o patr\u00e3o que mandava na gente foi substitu\u00eddo. Se para o bem ou para o mal, eu j\u00e1 nem lembro mais.<\/p>\n<p>Uma hora o fardo da idade chega e o meu j\u00e1 bate na porta. Sinto a gana para trabalhar e andar \u00e0 toa pela cidade por horas, mas um passo em falso e dou um beijo franc\u00eas bem dado no ch\u00e3o, afinal, sou um mo\u00e7o de 103 anos. Sou doutor e tenho mestrado na faculdade da vida, mas n\u00e3o posso ser aluno das palavras. Hoje, nada aprendo, pois a mente est\u00e1 t\u00e3o cheia que transborda pelos ouvidos. Apenas o som da TV, o c\u00e3o e o gato me fazem companhia.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-102\/\">VOLTAR PARA O PROJ\u00c9TIL 102<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto e Ilustra\u00e7\u00e3o: Emilly Nunes Numa segunda ou ter\u00e7a bem cedinho antes dos netos acordarem, estou em p\u00e9 na sala junto ao gato e ao c\u00e3o. Os dois, deitados no sof\u00e1 de barriga para cima sem nenhuma conta para acertar com a vida, eu, sem conseguir descansar a cabe\u00e7a. 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