{"id":4287,"date":"2024-07-12T11:11:47","date_gmt":"2024-07-12T15:11:47","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4287"},"modified":"2024-07-16T10:10:32","modified_gmt":"2024-07-16T14:10:32","slug":"548-dias-de-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/548-dias-de-liberdade\/","title":{"rendered":"548 dias de liberdade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Jo\u00e3o Vitor Marques<\/strong><br><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Ana Beatriz Leal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O significado de pris\u00e3o \u00e9 justamente aquilo que limita ou que acaba com a liberdade. Atr\u00e1s das grades, os presos n\u00e3o possuem espa\u00e7o pr\u00f3prio e nem controle sobre a maior parte das decis\u00f5es referentes ao seu destino. A tens\u00e3o que domina o lugar faz com que os detentos tenham que alterar a pr\u00f3pria personalidade para sobreviver. Uma vida solit\u00e1ria, afastada de familiares e amigos, onde o afeto e a confian\u00e7a n\u00e3o predominam nas rela\u00e7\u00f5es e raramente s\u00e3o encontrados.<\/p>\n\n\n\n<p>O risco de contrair uma doen\u00e7a ou de ser assassinado s\u00e3o companheiros constantes do c\u00e1rcere. Segundo pesquisa divulgada em 20,23 pelo Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ), a chance de os presidi\u00e1rios contra\u00edrem tuberculose, por exemplo, \u00e9 30 vezes maior que a do restante da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"842\" height=\"595\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Scanned_from_a_Lexmark_Multifunction_Product05-09-2024-183548-1-1-edited.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4322\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Scanned_from_a_Lexmark_Multifunction_Product05-09-2024-183548-1-1-edited.jpg 842w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Scanned_from_a_Lexmark_Multifunction_Product05-09-2024-183548-1-1-edited-300x212.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Scanned_from_a_Lexmark_Multifunction_Product05-09-2024-183548-1-1-edited-768x543.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Scanned_from_a_Lexmark_Multifunction_Product05-09-2024-183548-1-1-edited-400x283.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 842px) 100vw, 842px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Aqueles que conseguem vencer as penas impostas, normalmente almejam a t\u00e3o sonhada liberdade e nada mais. N\u00e3o guardam qualquer perspectiva de futuro. Mas, como viver a liberdade plena ap\u00f3s anos em um ambiente hostil, de medo e que te priva das escolhas mais b\u00e1sicas da vida? \u00c9 o dilema que enfrenta Lucilene, a personagem da reportagem deste Proj\u00e9til \u201cPris\u00e3o sem grades\u201d, cujo estigma de ex-detenta dificulta a sua ressocializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao se verem livres, mas distanciados da fam\u00edlia e renegados pela sociedade, a vida dos ex-presidi\u00e1rios costuma ser tr\u00e1gica. A maioria nunca pensou no que fazer ap\u00f3s o c\u00e1rcere e n\u00e3o tem qualquer apoio. A mesma pesquisa do CNJ revela que entre aqueles que retornam ao conv\u00edvio social, o tempo m\u00e9dio de vida \u00e9 de apenas 548 dias, com 28% das mortes provocadas por eventos violentos. Repito, 548 dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o objetivo do Sistema Prisional Brasileiro \u00e9 a ressocializa\u00e7\u00e3o dos apenados, para que voltem ao conv\u00edvio da sociedade e tenham uma vida digna, sem reincidir no crime, algu\u00e9m precisa avis\u00e1-lo, n\u00e3o est\u00e1 funcionando. Dados da Secretaria Nacional de Pol\u00edticas Penais (Senappen) revelam que o Brasil possui a terceira maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo, atr\u00e1s apenas de Estados Unidos e China, com 649.592 pessoas encarceradas, embora relegadas a uma estrutura prec\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade penitenci\u00e1ria no pa\u00eds n\u00e3o condiz com o que est\u00e1 previsto em lei. Ainda de acordo com o Senappen, o d\u00e9ficit de vagas no sistema carcer\u00e1rio chega a 171 mil. O resultado s\u00e3o celas superlotadas, ambientes insalubres e uma situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade. Frutos do descaso estatal com essa parcela marginalizada da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O Estado parece n\u00e3o ver os detentos como humanos e eles mesmo v\u00e3o perdendo sua humanidade. Perda que leva \u00e0 revolta, \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 descren\u00e7a de um futuro com a m\u00ednima dignidade. E aqui o que est\u00e1 em pauta n\u00e3o \u00e9 \u201cdefender bandido\u201d, como muitos, desinformados, insistem em dizer. Trata-se de defender os direitos humanos, algo que todos fazem jus.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos \u00fanicos instrumentos institucionais existentes, o benef\u00edcio da sa\u00edda tempor\u00e1ria dos detentos, \u2018a saidinha\u2019, como a pr\u00f3pria reportagem mostra, est\u00e1 amea\u00e7ado. E apenas uma pequena porcentagem de presos tem acesso aos projetos de ressocializa\u00e7\u00e3o dentro das unidades. Em todo o Brasil, 24% dos presos trabalham, mais uma falha estatal. Esses aprendem novas fun\u00e7\u00f5es e podem vislumbrar no trabalho uma possibilidade para o futuro. Mas, os projetos se encerram ap\u00f3s o cumprimento da pena e \u00e9 preciso se aventurar no mundo fora das grades. <\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed entra a nossa parte. Quando eu digo nossa, \u00e9 com voc\u00ea leitor mesmo. Eu, voc\u00ea e at\u00e9 quem n\u00e3o est\u00e1 lendo esse texto tem papel nessa hist\u00f3ria. Como sociedade, temos dificuldade em compreender a ideia de ressocializa\u00e7\u00e3o. Impera a mentalidade punitivista, de que ningu\u00e9m pode se arrepender e mudar. Os medos e anseios de Lucilene de como ser\u00e1 o seu futuro e da falta de novas oportunidades s\u00e3o os mesmos de outros milhares de presos e tem lugar de existir.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o mercado de trabalho n\u00e3o d\u00e1 oportunidades a quem tem \u201cpassagem pela pol\u00edcia\u201d. Se nos grupos de amigos e nos locais de lazer ex-detentos carregam o estigma da pris\u00e3o e n\u00e3o s\u00e3o aceitos ou vistos com desconfian\u00e7a. Se muitas pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o abrangem essa popula\u00e7\u00e3o. Se at\u00e9 nos est\u00e1dios de futebol o reconhecimento facial constata quem tem antecedentes criminais. A resposta \u00e9 n\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel exercer a plena liberdade ap\u00f3s o c\u00e1rcere. Afinal, como ser livre sabendo que voc\u00ea s\u00f3 ter\u00e1 mais 548 dias de vida?<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-102\/\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 102<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Jo\u00e3o Vitor MarquesIlustra\u00e7\u00e3o: Ana Beatriz Leal O significado de pris\u00e3o \u00e9 justamente aquilo que limita ou que acaba com a liberdade. Atr\u00e1s das grades, os presos n\u00e3o possuem espa\u00e7o pr\u00f3prio e nem controle sobre a maior parte das decis\u00f5es referentes ao seu destino. 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