{"id":4292,"date":"2024-07-12T11:09:18","date_gmt":"2024-07-12T15:09:18","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4292"},"modified":"2024-07-16T10:12:39","modified_gmt":"2024-07-16T14:12:39","slug":"marias-e-helenas-nao-brincam-de-casinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/marias-e-helenas-nao-brincam-de-casinha\/","title":{"rendered":"Marias e Helenas n\u00e3o brincam de casinha"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Sandy Ruiz<\/strong><br><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Ant\u00f4nio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Brincar de casinha \u00e9 um jogo de imagina\u00e7\u00e3o que ajuda a construir a compreens\u00e3o sobre a vida adulta. Constituir fam\u00edlia, trocar, alimentar e ninar bonecas, cuidar das coisas da casa, imaginar uma rotina com as responsabilidades cotidianas dos mais velhos. Embora essas atividades sejam, na inf\u00e2ncia, um passatempo, em algumas camadas da sociedade a brincadeira se torna realidade. Muitas meninas e adolescentes entram na vida adulta muito cedo. Apesar do avan\u00e7o da luta e dos direitos das mulheres e sua liberdade, em 2023, segundo o ranking mundial do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef), o Brasil ainda foi o sexto pa\u00eds com maior n\u00famero de mulheres que se casaram antes dos 18 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema do casamento infantil \u00e9 algo que atinge quase que exclusivamente as meninas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), em 2022, de 43 casamentos de menores de 18 anos, 40 s\u00e3o de adolescentes do sexo feminino. Isso levanta diversas quest\u00f5es sobre a prote\u00e7\u00e3o das mulheres e, inclusive, se ela \u00e9 de fato efetiva, j\u00e1 que para a maioria dessas jovens o casamento n\u00e3o \u00e9 uma escolha consciente, mas o \u00fanico caminho vis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Conven\u00e7\u00e3o sobre Direitos da Crian\u00e7a (CDC) o conceito de casamento infantil \u00e9 qualquer uni\u00e3o formal ou informal antes dos 18 anos de idade. No sexto lugar do ranking, a cultura de uni\u00e3o est\u00e1vel entre crian\u00e7as e adultos, no Brasil, \u00e9 uma realidade escancarada.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto algumas garotas planejam o futuro e sonham com experi\u00eancias como faculdade, carreira profissional e viagens, a perspectiva de meninas que se casam na inf\u00e2ncia tende a ser limitada. Vindas em sua maioria da pobreza, muitas delas enxergam no relacionamento uma chance de fugir de sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, mas sem perceber, acabam simplesmente trocando as grades de sua pris\u00e3o ao deixar seus objetivos e sua liberdade de lado, seja pela casa, marido ou at\u00e9 mesmo uma gravidez. E \u00e9 justamente essa falta de liberdade para se dedicar a um sonho ou a um futuro profissional que tende a perpetuar diversos problemas relacionados ao casamento infantil.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade que assume uma posi\u00e7\u00e3o, muitas vezes influenciada pelos crescentes movimentos religiosos e conservadores, tamb\u00e9m tem uma parcela de culpa. Ao inv\u00e9s de incentivar discuss\u00f5es sobre sexualidade, prefere empurrar uma crian\u00e7a para um casamento quando ela tem suas primeiras experi\u00eancias na vida sexual com a desculpa de \u201cmanter uma boa imagem\u201d para ela e para a fam\u00edlia. Como foi o caso de Maria (ou de tantas Marias), que iniciou a vida sexual aos 15 anos. Quando o rumor come\u00e7ou a se espalhar na cidade pequena, ela desabafou com os pais e, no lugar de conselhos, foi fortemente repreendida. As duas \u00fanicas escolhas propostas foram o casamento ou a vergonha diante da sociedade, e que \u201cDeus os livrasse se ela tivesse engravidado tamb\u00e9m\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em v\u00e1rios casos n\u00e3o existe a preocupa\u00e7\u00e3o (f\u00edsica ou emocional) com a crian\u00e7a ou a\/o adolescente, mesmo que ela esteja assumindo uma responsabilidade maior do que sua idade, a ideia \u00e9 que \u00e9 capaz de suportar. Se atualmente diversas mulheres adultas questionam a sobrecarga de um casamento, como \u00e9 poss\u00edvel esperar que essas meninas em forma\u00e7\u00e3o assumam essa posi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil conhecer alguma menina que na adolesc\u00eancia teve um relacionamento com algu\u00e9m mais velho. Helena (e tantas outras Helenas) conta que na sua fam\u00edlia isso era visto como algo comum: sua m\u00e3e se casou com 17 anos com seu pai dez anos mais velho, o que tamb\u00e9m aconteceu com sua av\u00f3 e suas tias. N\u00e3o foi surpresa, ent\u00e3o, quando Helena se casou t\u00e3o cedo, a diferen\u00e7a \u00e9 que ao inv\u00e9s de um casamento saud\u00e1vel e duradouro, divorciou-se aos 22 anos com um filho pequeno para cuidar. Hoje, sonha em mudar sua vida para correr atr\u00e1s de sonhos que nem sabia que tinha quando se casou.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"751\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Boneca-de-Pano-2--751x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4294\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Boneca-de-Pano-2--751x1024.png 751w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Boneca-de-Pano-2--220x300.png 220w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Boneca-de-Pano-2--768x1047.png 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Boneca-de-Pano-2--400x545.png 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/Boneca-de-Pano-2-.png 1075w\" sizes=\"auto, (max-width: 751px) 100vw, 751px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Marias e Helenas s\u00f3 ter\u00e3o uma vida livre, com sonhos e conquistas, quando a sociedade parar de naturalizar o casamento infantil. A inf\u00e2ncia deve ser preservada e o caminho para isso \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, com a liberdade para brincar, apenas brincar, de casinha.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-102\/\">VOLTAR PARA A EDI\u00c7\u00c3O 102<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Sandy RuizIlustra\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Ant\u00f4nio Brincar de casinha \u00e9 um jogo de imagina\u00e7\u00e3o que ajuda a construir a compreens\u00e3o sobre a vida adulta. Constituir fam\u00edlia, trocar, alimentar e ninar bonecas, cuidar das coisas da casa, imaginar uma rotina com as responsabilidades cotidianas dos mais velhos. 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