{"id":4293,"date":"2024-07-12T11:09:58","date_gmt":"2024-07-12T15:09:58","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4293"},"modified":"2024-07-16T10:12:02","modified_gmt":"2024-07-16T14:12:02","slug":"esqueca-tudo-que-voce-aprendeu-na-faculdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/esqueca-tudo-que-voce-aprendeu-na-faculdade\/","title":{"rendered":"Esque\u00e7a tudo que voc\u00ea aprendeu na faculdade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Maria Eduarda Fernandes<\/strong><br><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Ant\u00f4nio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Quando me matriculei no curso de Jornalismo, h\u00e1 quatro anos, o entusiasmo e o idealismo pulsavam em minhas veias. Sonhava em desvendar os mist\u00e9rios do mundo, em ampliar as vozes dos que n\u00e3o tinham e, principalmente, em desafiar as injusti\u00e7as por meio da escrita. \u00c0 medida que os anos foram passando e fui ingressando no mercado de trabalho, mesmo como estagi\u00e1ria, me dei conta que a pr\u00e1tica da profiss\u00e3o tem pouco dessa fantasia que eu idealizava.<\/p>\n\n\n\n<p>Certo dia, cheguei no est\u00e1gio e me pediram para fazer algo que colocava em xeque o que havia aprendido na faculdade. Como uma boa estudante de jornalismo, questionei a<br>solicita\u00e7\u00e3o e ouvi: \u201cEsque\u00e7a tudo que voc\u00ea aprendeu na faculdade, aqui a realidade \u00e9 outra!\u201d. E por um momento, eu esqueci.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse dia, me dei conta que, no cen\u00e1rio acelerado e competitivo do jornalismo, essa express\u00e3o, muitas vezes proferida com um tom de condescend\u00eancia, sugere que a teoria acad\u00eamica n\u00e3o se traduz na realidade do mercado de trabalho jornal\u00edstico. Por\u00e9m, ao inv\u00e9s de aceitar isso como uma verdade inquestion\u00e1vel, \u00e9 crucial avaliar porque essa disparidade existe e como ela impacta a qualidade, a integridade e, principalmente, a liberdade do jornalismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais nobre que seja a miss\u00e3o, o jornalista muitas vezes \u00e9 relegado \u00e0 margem da sociedade. Desvalorizado, subestimado e at\u00e9 mesmo atacado, enfrentando uma batalha<br>constante pela pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Um grande exemplo disso foi a pandemia da Covid-19, em que o \u00faltimo governo intensificou as ondas de ataques e a propaga\u00e7\u00e3o de fake news. Desde ent\u00e3o, a sociedade passou a questionar a veracidade e, mais, a \u201cutilidade\u201d do profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, essa pauta \u00e9 antiga. Desde 2009, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu mais uma vez que, qualquer pessoa independentemente de forma\u00e7\u00e3o, poderia assumir as fun\u00e7\u00f5es de jornalista, essa \u201cutilidade\u201d \u00e9 questionada. Atualmente, \u00e9 comum ver influencer, atriz ou qualquer pessoa aleat\u00f3ria assumindo essa posi\u00e7\u00e3o e, mais que isso, ganhando visibilidade em programas de TV com um sal\u00e1rio muito melhor. Como diferenciar quem \u00e9 apenas um simpatizante da internet, textos e televis\u00e3o, de algu\u00e9m que passou anos para conseguir chegar ali. Como distinguir as not\u00edcias veiculadas por quem tem forma\u00e7\u00e3o e estudos, de quem fundamenta textos por achismos?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"957\" height=\"886\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Redacao-se-desintegrando-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4313\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Redacao-se-desintegrando-2.jpg 957w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Redacao-se-desintegrando-2-300x278.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Redacao-se-desintegrando-2-768x711.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Redacao-se-desintegrando-2-400x370.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 957px) 100vw, 957px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Ao adentrar nas reda\u00e7\u00f5es, percebi que a realidade da profiss\u00e3o muitas vezes se distancia da vis\u00e3o rom\u00e2ntica que via nos filmes e projetava como fundamental, ou at\u00e9 mesmo da que os professores compartilhavam em sala. E isso \u00e9, no m\u00ednimo, desanimador. A atua\u00e7\u00e3o profissional, que tinha tudo para ser um espa\u00e7o de criatividade e express\u00e3o, se torna, muitas vezes, um campo de batalha, onde a press\u00e3o por resultados imediatos sufoca qualquer tentativa de liberdade editorial. A busca incessante por hard news e a demanda por conte\u00fado sensacionalista transformam a escrita jornal\u00edstica em um exerc\u00edcio de conformidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 penoso perceber que, apesar do meu empenho e estudo, sou limitada pelo jornalismo atual, onde a press\u00e3o do mercado \u00e9 uma constante amea\u00e7a, afinal, se eu n\u00e3o fizer \u201ca porta da rua \u00e9 a serventia da casa\u201d. Ent\u00e3o, qual \u00e9 a raz\u00e3o de tanta persist\u00eancia? A resposta \u00e9 simples, o jornalismo ainda \u00e9 capaz de provocar mudan\u00e7as e estimular o debate p\u00fablico. Cada mat\u00e9ria que escrevo \u00e9 como um ato de liberdade, mesmo que dentro das restri\u00e7\u00f5es, ela tem o poder de impactar pessoas e contribuir para a busca da verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto me aproximo do fim da minha jornada acad\u00eamica, questiono se as vozes aut\u00eanticas s\u00e3o ouvidas acima do ru\u00eddo. Ainda assim, \u00e9 nos cantos mais \u00e9ticos e \u00edntegros da profiss\u00e3o que encontramos vest\u00edgios do verdadeiro Jornalismo. Talvez, contudo, seja justamente nesses cantos esquecidos, onde o compromisso com a integridade persiste apesar das adversidades. Contr\u00e1ria ao \u2018exerc\u00edcio da conformidade\u2019 \u00e9 que continuo a escrever textos como esse e nunca, jamais, esquecerei o que me foi ensinado na faculdade.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-102\/\"><strong>VOLTAR PARA A EDI\u00c7\u00c3O 102<\/strong><\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Maria Eduarda FernandesIlustra\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Ant\u00f4nio Quando me matriculei no curso de Jornalismo, h\u00e1 quatro anos, o entusiasmo e o idealismo pulsavam em minhas veias. 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