{"id":4302,"date":"2024-07-12T11:13:23","date_gmt":"2024-07-12T15:13:23","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4302"},"modified":"2024-07-16T10:09:26","modified_gmt":"2024-07-16T14:09:26","slug":"prazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/prazer\/","title":{"rendered":"Prazer,"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color\"><strong>Texto: Sandy Ruiz<\/strong><br><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Ant\u00f4nio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Eu sempre fico um pouco nervosa antes de me apresentar, acho que \u00e9 por medo do que v\u00e3o pensar, j\u00e1 que eu tenho muita fama por a\u00ed. Voc\u00ea mesmo j\u00e1 deve me conhecer ou pelo menos ter ouvido falar de mim. Ali\u00e1s, confesso que sou da natureza e estou em quase todos os lugares: seja um rolezinho entre amigos para dar risada ou at\u00e9 dando uma forcinha na medicina.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de estar presente em v\u00e1rias camadas da sociedade, ainda tem muita gente que torce o nariz quando ouve meu nome. A m\u00e1 fama n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o recente assim, mas o porqu\u00ea disso, ainda \u00e9 muito discutido hoje em dia. O que se pode afirmar \u00e9 que os estigmas sobre mim andam lado a lado com o racismo estrutural na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o cigarrinho do capeta, alguns dizem. \u00c9 s\u00f3 um beckzinho, outros defendem. Maria Joana ou simplesmente cannabis? O apelido popular vai at\u00e9 onde a criatividade permitir chegar. N\u00e3o me importo. Embora no come\u00e7o, bem no in\u00edcio, eu fosse chamada de: pito do pango, o &#8220;fumo de negro&#8221;. N\u00e3o que apenas os negros me utilizassem naquela \u00e9poca, mas \u00e9 que quando estava na posse de um homem branco e rico, eu era apenas mais um cachimbo, daqueles que o senhor endinheirado fuma em um dia qualquer para se distrair.<\/p>\n\n\n\n<p>Das leis contra a vadiagem, em 1800, \u00e0s cadeiras do Senado moderno que conduz as leis antidrogas no pa\u00eds, nada muda. Inclusive, em 2024, os passos andaram para tr\u00e1s quando o Senado aprovou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC), que pro\u00edbe qualquer tipo ou quantidade de drogas. Nem eu fiquei de fora. Como se essas leis resolvessem o problema ou valessem para todos. <\/p>\n\n\n\n<p>Veja bem, quando acompanho um jovem rico, filho de uma fam\u00edlia conhecida em uma cidade importante, n\u00e3o causo revolta, mas piedade ou at\u00e9 mesmo complac\u00eancia. Em uma abordagem, esse jovem n\u00e3o vai ser jogado no ch\u00e3o ou na parede. N\u00e3o vai ouvir berros e poucas vezes enfrentar\u00e1 um processo criminal. Mas e quanto a mim? Ningu\u00e9m nunca mais toca no meu nome porque n\u00e3o vale a pena estragar a vida de um jovem, talvez um futuro m\u00e9dico ou advogado que teve o azar de errar uma vez. E outra vez, ou outra depois daquela.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora se a pessoa for pobre e negra, filha de ningu\u00e9m e morando em lugar algum, a hist\u00f3ria \u00e9 diferente e a abordagem tamb\u00e9m. Na pobreza o v\u00edcio n\u00e3o causa pena, mas \u00f3dio. Ela ser\u00e1 julgada, encarcerada e ainda mais exclu\u00edda da sociedade. Esse jovem, ou melhor, delinquente negro, n\u00e3o tem, nem ter\u00e1, um futuro promissor, ele \u00e9 s\u00f3 mais um que se meteu comigo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"718\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Prazer-Maconha-718x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4347\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Prazer-Maconha-718x1024.jpg 718w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Prazer-Maconha-210x300.jpg 210w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Prazer-Maconha-768x1095.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Prazer-Maconha-1077x1536.jpg 1077w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Prazer-Maconha-400x570.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/06\/Prazer-Maconha.jpg 1110w\" sizes=\"auto, (max-width: 718px) 100vw, 718px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>E as contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o param por a\u00ed. Minha import\u00e2ncia tamb\u00e9m tem rela\u00e7\u00e3o com a popularidade e eu posso mostrar. Se um artista famoso (entre tantos nomes que poderiam ser citados) for pego no pulo comigo, ele estaria relaxando. Enquanto isso, a dificuldade se mant\u00e9m com quem passa despercebido na multid\u00e3o e\/ou para quem est\u00e1 doente e precisa da minha ajuda para aliviar os sintomas de uma doen\u00e7a. <\/p>\n\n\n\n<p>Para essas pessoas s\u00e3o exigidos in\u00fameros pap\u00e9is, autoriza\u00e7\u00f5es e uma batalha na justi\u00e7a para provar as necessidades. Para os raros casos de aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 dada a denomina\u00e7\u00e3o de \u201cuso medicinal&#8221;. Apesar do olhar torto e da desconfian\u00e7a quanto \u00e0 efic\u00e1cia, se torna um passe livre. <\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a est\u00e1 escancarada para quem duvidar. Nem \u00e9 preciso ir at\u00e9 um bairro pobre ou subir uma favela, basta ligar a televis\u00e3o ou se atentar \u00e0s manchetes dos jornais. N\u00e3o demora muito para ler manchetes como a do Metr\u00f3poles, de maio de 2022: &#8220;Detido com 23g de maconha, homem negro fica preso 3 anos por tr\u00e1fico&#8221;, e todos aplaudem por algu\u00e9m t\u00e3o perigoso estar fora das ruas. Em outros casos s\u00e3o utilizados infinitos adjetivos como traficante ou usu\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Se mudar alguns \u201cdetalhes\u201d como local e ra\u00e7a, o final da hist\u00f3ria \u00e9 muito diferente. A pol\u00edcia busca sempre o mesmo perfil para a abordagem: adivinhem? E a m\u00eddia usa o mesmo nome na acusa\u00e7\u00e3o: o meu. Enquanto a sociedade tem o mesmo local para culpar: a favela. Como se fosse um serm\u00e3o, inquestion\u00e1vel, repetido ao longo dos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do preconceito e nega\u00e7\u00e3o de uma parte da popula\u00e7\u00e3o, a realidade \u00e9 que eu estou aqui e n\u00e3o vou a lugar algum.<\/p>\n\n\n\n<p>Prazer, eu sou a Maconha.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button aligncenter\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-102\/\">VOLTAR A EDI\u00c7\u00c3O 102<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Sandy RuizIlustra\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Ant\u00f4nio Eu sempre fico um pouco nervosa antes de me apresentar, acho que \u00e9 por medo do que v\u00e3o pensar, j\u00e1 que eu tenho muita fama por a\u00ed. Voc\u00ea mesmo j\u00e1 deve me conhecer ou pelo menos ter ouvido falar de mim. 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