{"id":466,"date":"2020-07-10T17:18:34","date_gmt":"2020-07-10T21:18:34","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=466"},"modified":"2020-07-29T10:28:18","modified_gmt":"2020-07-29T14:28:18","slug":"nao-vejo-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/nao-vejo-ninguem\/","title":{"rendered":"N\u00e3o vejo ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-color has-text-align-center has-accent-color\"><strong>Texto: Maria Eduarda Boin<\/strong><br><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Accacio Mota<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"524\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/corona-comunidade-madu-accacio-mota.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-555\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/corona-comunidade-madu-accacio-mota.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/corona-comunidade-madu-accacio-mota-300x197.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/corona-comunidade-madu-accacio-mota-768x503.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/corona-comunidade-madu-accacio-mota-400x262.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cE agora, Jos\u00e9?\u201d. Como se estivesse embarcada nas estrofes do poema de Drummond, os sentimentos por essa pandemia me levavam \u00e1gua abaixo. Vivi todos esses vinte anos de vida na mesma comunidade campo-grandense. Isso n\u00e3o quer dizer que sabia o que era viver nela ou que prestava aten\u00e7\u00e3o em qualquer semi\u00f3tica que me fosse proposta por conta dela. Eu nem sequer pensava que \u2018viver em comunidade\u2019 mudava algo em minha rotina. Era s\u00f3 acordar, me arrumar e ir para qualquer lugar recheado de pessoas, por obriga\u00e7\u00e3o ou lazer, sem maiores preocupa\u00e7\u00f5es. Mas, tal qual o poema: \u201ca luz apagou, o povo sumiu e a noite esfriou e agora, Jos\u00e9?\u201d A OMS decretou pandemia e o isolamento social era a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para evitar a propaga\u00e7\u00e3o de um v\u00edrus ainda pouco conhecido mundialmente.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCom a chave na m\u00e3o quer abrir a porta, n\u00e3o existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas n\u00e3o h\u00e1 mais. Jos\u00e9, e agora?\u201d. Do nada, ningu\u00e9m mais podia acordar e sair porque isso era perigoso demais, colocava todo mundo em risco. Tudo o que se via eram tetos brancos ou paredes de quartos, salas, cozinhas. Alguns viam a grama do quintal, mas nem todos tinham quintal. Ficar\u00edamos em casa, com essas vis\u00f5es limitadas por tempo indeterminado, at\u00e9 que o coronav\u00edrus n\u00e3o fosse mais um problema sem solu\u00e7\u00e3o. Quem nunca havia sequer prestado aten\u00e7\u00e3o nos nuances comunit\u00e1rias em que viviam, assim como eu, come\u00e7am a sentir na pele a falta que viver em grupo faz. A falta do abra\u00e7o, do sorriso, de abrir a porta e ir, da intera\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as perguntas que envolvam \u2018quando vamos ter o que t\u00ednhamos?\u2019 ou \u2018ver o que v\u00edamos?\u2019 continuam sem respostas, e a incerteza segue afundando pessoas em suas camas. \u201cSozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar [&#8230;] voc\u00ea marcha, Jos\u00e9! Jos\u00e9, para onde?\u201d. A comunidade escorre por entre os dedos. Todos agora lembram como era bom frequentar a feira da cidade, compartilhar valores, buscar pela cultura nas ruas do centro ou ir at\u00e9 a pra\u00e7a lotada de gente aos domingos. Diariamente nos deparamos com postagens nas redes envolvendo a falta disso ou daquilo. A falta de simplesmente olhar as pessoas nos olhos, dividir mesas e hist\u00f3rias, compartilhar vivencias, deixam a gente sem saber porque n\u00e3o enxerg\u00e1vamos o valor de tudo antes. Paramos de prestar aten\u00e7\u00e3o na correria de uma vida capitalista e afobada, para nos atentarmos \u00e0s nuances de nossas identidades e culturas, \u00fanicas lembran\u00e7as que restaram na mente ao ficarmos isolados da comunidade e a merc\u00ea da internet.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A cultura, principalmente, nos traz resqu\u00edcios do que pod\u00edamos aproveitar ao sair na rua. Al\u00e9m disso, j\u00e1 em quarentena, ela \u00e9 quem continua nos distraindo dos n\u00fameros de mortos e momentos ca\u00f3ticos em que duvidam da ci\u00eancia. A cada semana temos a not\u00edcia de algum estabelecimento que fechou as portas, desde os mais tradicionais at\u00e9 os de p\u00fablico especifico, mas que, em uni\u00e3o, tinham o mesmo prop\u00f3sito: reunir pessoas que compartilhassem gostos e costumes. O momento nos soca na cara: quando voltarmos at\u00e9 mesmo a cultura estar\u00e1 abalada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tantas coisas se desorganizaram que temos a sensa\u00e7\u00e3o de um constante terremoto e o ch\u00e3o parece n\u00e3o existir, nada mais \u00e9 est\u00e1vel ou controlado. Muita gente jamais imaginaria viver momentos como esse. Vociferavam que seria r\u00e1pido, pois n\u00e3o passava de \u2018uma gripezinha\u2019. \u201c[&#8230;] n\u00e3o veio a utopia e tudo acabou, tudo fugiu, tudo mofou, e agora, Jos\u00e9?\u201d. At\u00e9 o dia em que aqui escrevo j\u00e1 somam, s\u00f3 no Brasil, mais de 35 mil mortos e 700 mil contaminados e, a cada dia, os n\u00fameros precisam ser atualizados por mais centenas. Nem mesmo o \u2018hist\u00f3rico de atleta\u2019 vem salvando as pessoas. N\u00e3o se sabe se \u00e9 pelo incentivo presidencial ou pela falta de informa\u00e7\u00e3o, mas a comunidade campo-grandense tenta sair as ruas novamente em aglomera\u00e7\u00f5es verde-amarelas, que pedem o fim da quarentena. A falta do ir e vir ou at\u00e9 mesmo de colocar seus funcion\u00e1rios para trabalhar pode ser dolorosa, mas ningu\u00e9m \u00e9 a prova de balas, ou melhor, de v\u00edrus. \u00c9 melhor conviver com a falta, sabendo que sairemos depois disso \u00e0s ruas, e n\u00e3o em caix\u00f5es.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/ed-94\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 94<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Maria Eduarda BoinIlustra\u00e7\u00e3o: Accacio Mota \u201cE agora, Jos\u00e9?\u201d. 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