{"id":482,"date":"2020-07-15T14:16:45","date_gmt":"2020-07-15T18:16:45","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=482"},"modified":"2020-07-29T09:58:08","modified_gmt":"2020-07-29T13:58:08","slug":"paredes-que-resistem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/paredes-que-resistem\/","title":{"rendered":"Paredes que resistem"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><em>Um olhar atrav\u00e9s das mensagens que ecoam pelos muros da cidade e expressam a uni\u00e3o e resist\u00eancia dos artistas<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-text-align-center has-accent-color\"><strong>Texto: Frederico Diegues e Lucas Caxito<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"533\" height=\"800\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/DSC_6022-14x21cm-autoria-dukafotos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-596\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/DSC_6022-14x21cm-autoria-dukafotos.jpg 533w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/DSC_6022-14x21cm-autoria-dukafotos-200x300.jpg 200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/DSC_6022-14x21cm-autoria-dukafotos-400x600.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 533px) 100vw, 533px\" \/><figcaption>Higor Bandeira aplicando a cola, elemento fundamental no lambe-lambe<br>Foto: Dukafotos<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Andando pelas ruas da cidade, \u00e9 poss\u00edvel encontrar diversos tipos de informa\u00e7\u00e3o. Desde letreiros e cartazes, a interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas conceituais e po\u00e9ticas. Nem todas essas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o absorvidas pelas pessoas que por ali transitam. Muitas acabam passando pelo mesmo local no \u2018piloto autom\u00e1tico\u2019, sem perceber que existe um universo aberto de mensagens nos muros e paredes, que a arte de rua nos apresenta de maneira gratuita.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro do conceito de Arte de Rua, podem ser englobadas todas as interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que acontecem ou s\u00e3o exibidas no espa\u00e7o urbano. Grafite, pixo, \u201csticker art\u201d, letreiros de poesia e lambe-lambe s\u00e3o algumas das v\u00e1rias modalidades existentes. Com surgimento na d\u00e9cada de 70, esse vasto movimento art\u00edstico, de car\u00e1ter ef\u00eamero, democratizou o contato de pessoas que vivem nos centros urbanos com a arte, at\u00e9 ent\u00e3o restrita a museus ou galerias.<\/p>\n\n\n\n<p>O lambe-lambe, em espec\u00edfico, consiste na colagem de uma figura feita de papel na parede e pode variar de tamanho e formato dependendo da inten\u00e7\u00e3o do artista. Devido ao seu custo mais acess\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o, vem se tornando uma das mais populares e marcantes vertentes. Com ra\u00edzes ligadas ao nascimento do cartaz publicit\u00e1rio no s\u00e9culo 19 e tamb\u00e9m aos p\u00f4steres de propaganda pol\u00edtica da segunda Guerra Mundial, o lambe-lambe surge como uma alternativa de interven\u00e7\u00e3o na qual os artistas se apropriam do car\u00e1ter imediato e massivo das m\u00eddias impressas para transmitir suas mensagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Na atualidade os m\u00e9todos de impress\u00e3o possibilitam o uso de uma maior gama de cores, artes mais detalhadas e em escalas maiores. O custo da impress\u00e3o tamb\u00e9m caiu e fez com que mais artistas tivessem acesso a esse movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqueles que usam as ruas como galerias sempre estiveram \u00e0 margem do circuito comercial das artes. Por isso, fez-se necess\u00e1ria a cria\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias comunidades e redes de comunica\u00e7\u00e3o. Assim, o crescimento dos estilos urbanos de arte foi ainda mais fomentado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A uni\u00e3o entre artistas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diferente do que ocorre em outras escolas art\u00edsticas, a forma\u00e7\u00e3o de uma coletividade \u00e9 essencial para a arte de rua. Para Leonardo Mareco, 22, um dos principais artistas do lambe em Campo Grande, a forma\u00e7\u00e3o de uma comunidade \u00e9 fundamental, pois, al\u00e9m de aumentar a seguran\u00e7a dos artistas que v\u00e3o \u00e0s ruas criar suas interven\u00e7\u00f5es, a uni\u00e3o ajuda nos estudos e na busca por informa\u00e7\u00f5es. \u201cComo o lambe \u00e9 uma parada que est\u00e1 come\u00e7ando [em Campo Grande], \u00e9 sempre bom manter a galera toda junta, unida, para ter mais for\u00e7a. E tamb\u00e9m \u00e9 muito mais \u2018da hora\u2019 voc\u00ea ter meio que uma uni\u00e3o assim, porque voc\u00ea pode trocar conhecimentos, estudos e informa\u00e7\u00e3o. Tipo, onde a impress\u00e3o sai mais barata, saber onde compensa mais colar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da arte presente nas ruas, o processo educativo tamb\u00e9m contribui para as pessoas se agregarem. O fot\u00f3grafo Higor Bandeira, 25, mais conhecido como \u201cKings Of Cool\u201d, \u00e9 iniciante no lambe-lambe. Ele conheceu a ONG Casa de Ensaio em uma oficina. \u201cFoi l\u00e1 que conheci o Leonardo Mareco, que foi quem me influenciou a utilizar minhas fotos como lambe-lambe para expandir meu trabalho atrav\u00e9s da plataforma da rua&#8221;. Segundo ele, a comunidade do lambe-lambe \u00e9 importante para que possam ocorrer mais oficinas na cidade, difundindo essa arte de protesto r\u00e1pida e visual.<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de lambe-lambe pelas cidades comumente busca levar um pouco de reflex\u00e3o \u2013 por meio da arte \u2013 para as pessoas que por ali circulam, explica a estudante de Artes Visuais Poppy, 22. &#8220;Primeiro, pensei em colar alguns poemas, n\u00e3o s\u00f3 meus, mas de outras pessoas. Depois, comecei a colar algumas artes e desenhos autorais. Quando estamos na cidade, as pessoas est\u00e3o indo ou voltando do trabalho, dos estudos, no corre de cada dia, e queria que talvez vissem algo diferente, que entrassem em contato com a arte e a arte entrasse em contato com eles. Algo que pudesse aflorar emo\u00e7\u00f5es, e talvez mudar o dia daquela pessoa\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/IMG_1967-autoria-gabriel_martins.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-598\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/IMG_1967-autoria-gabriel_martins.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/IMG_1967-autoria-gabriel_martins-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/IMG_1967-autoria-gabriel_martins-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/IMG_1967-autoria-gabriel_martins-400x267.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Poppy escolhendo a pr\u00f3xima arte a ser colada<br>Foto: Gabriel Martins<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Poppy enxerga como fundamental a exist\u00eancia de uma comunidade do lambe-lambe em Campo Grande. Para ela, \u00e9 a coletividade que \u201cmant\u00e9m o movimento em movimento&#8221; e lamenta o fato das pessoas estarem privadas de sair no momento &#8211; reflexo da pandemia da Covid-19 \u2013 pois isso impossibilita a reuni\u00e3o com outros artistas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O in\u00edcio&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com diferentes motiva\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 comum entre os artistas na hora de decidir intervir na rua \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o de necessidade ao passar uma mensagem para um p\u00fablico maior. Poppy desenha e cria desde pequena, essa \u00e9 uma forma de comunica\u00e7\u00e3o pela qual ela pode se expressar: &#8220;a arte me vem como uma forma de express\u00e3o, foi algo que eu sempre fiz e sempre gostei. Colocar sentimentos, outras realidades, diferentes exist\u00eancias, minhas e de outras pessoas&#8221;. A artista conta que teve contato com o lambe-lambe por meio de uma amiga, durante os protestos contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Higor, diz que apesar da arte estar inserida em sua vida desde muito cedo, come\u00e7ou a produzir h\u00e1 cerca de dois anos. &#8220;Fotografia sempre foi algo que gostei muito e penso que \u00e9 uma forma r\u00e1pida de registrar a realidade na qual me encontro e que outros se encontram. Mas n\u00e3o me considero um artista e nem mesmo um fot\u00f3grafo. \u00c9 simplesmente algo que fa\u00e7o por simples prazer de registrar a exist\u00eancia das pessoas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c1lvaro Herculano, 25, assim como Higor, tamb\u00e9m \u00e9 fot\u00f3grafo e come\u00e7ou a fazer suas interven\u00e7\u00f5es com influ\u00eancias de Leonardo Mareco. Ele conta que a arte entrou na sua vida pela fotografia. De \u201chobbie\u201d passou a ser atividade profissional e objeto de estudo. &#8220;A ideia de come\u00e7ar a fazer o lambe-lambe veio a partir de uma situa\u00e7\u00e3o que eu me vi fotografando o Leonardo Mareco fazendo uma interven\u00e7\u00e3o na rua. A partir dali eu comecei a sentir mais interesse, pois eu considero a arte do lambe-lambe como um bra\u00e7o direito para fotografia. Como eu fotografo bastante o cotidiano, atrav\u00e9s do lambe-lambe eu consigo devolver a arte para a cidade.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mareco teve contato com as artes no movimento Hip-Hop e no skate, quando conheceu o grafite e o pixo, sendo este \u00faltimo sua primeira experi\u00eancia com a arte de rua. Com o tempo se aprofundou no grafite, at\u00e9 conhecer o lambe-lambe e assumir o estilo como sua identidade fixa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"530\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/30052020-_MG_5823-autoria-dukafotos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-599\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/30052020-_MG_5823-autoria-dukafotos.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/30052020-_MG_5823-autoria-dukafotos-300x199.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/30052020-_MG_5823-autoria-dukafotos-768x509.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/30052020-_MG_5823-autoria-dukafotos-400x265.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Mareco dando os toques finais em um de seus pontos de higiene<br>Foto: Dukafotos<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu nunca tive essa pr\u00e1tica de desenhar desde crian\u00e7a, mas sempre curti muito e comecei na picha\u00e7\u00e3o, treinando letra, caligrafia. Depois parti pro <em>\u2018<\/em>bomb\u2019 [letras mais gordas do grafite], a\u00ed fui treinando os \u2018personas\u2019 [personagens de grafite] at\u00e9 que eu fui detido pela pol\u00edcia fazendo grafite na rua. Eu fiquei meio que traumatizado e parei um pouco. S\u00f3 continuei mandando umas \u2018tags\u2019 e tal, at\u00e9 que eu conheci essa t\u00e9cnica do lambe-lambe, que \u00e9 uma t\u00e9cnica muito mais r\u00e1pida, sendo que eu posso tamb\u00e9m mostrar a mensagem do grafite no lambe e n\u00e3o correr tanto perigo assim&#8221;, conta Mareco.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Processo de cria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Assim como o sentimento de necessidade em transmitir uma mensagem ao p\u00fablico, a forma e a est\u00e9tica da obra tamb\u00e9m s\u00e3o de car\u00e1ter bastante pessoal. Como o lambe-lambe pode ser feito de diferentes maneiras, a cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 mensagem que o artista pretende passar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mareco, por exemplo, adotou a aquarela para fazer seus desenhos. Ele explica que o papel utilizado nessa t\u00e9cnica \u00e9 diferente do \u2018comum\u2019 no lambe-lambe. \u201cComo eu n\u00e3o tenho muito essa pr\u00e1tica de desenhar um \u2018bagulho\u2019 grande e diretamente no papel e como minha t\u00e9cnica \u00e9 aquarela, na folha sulfite, que \u00e9 a folha ideal do lambe, n\u00e3o daria pra eu desenhar, porque a aquarela requer um papel mais grosso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o processo de desenho na folha de aquarela, Mareco digitaliza a arte e a redimensiona no computador. Em seguida, divide o arquivo em v\u00e1rias folhas tamanho A3 para serem impressas, montadas como um &#8216;quebra-cabe\u00e7as&#8217; e, por fim, coladas na parede.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por ser fot\u00f3grafo, Higor j\u00e1 adota uma abordagem diferente. Apesar da semelhan\u00e7a na inten\u00e7\u00e3o de provocar uma reflex\u00e3o e uma cr\u00edtica social, Higor utiliza suas fotografias como o pr\u00f3prio lambe-lambe, imprimindo-as no tamanho e papel desejados para colar na rua. Ele acredita que a fotografia pode expressar muito bem o funcionamento de uma cidade por meio de seus transeuntes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sempre busco selecionar fotos que chamem mais aten\u00e7\u00e3o, pois dificilmente consigo criar uma foto tem\u00e1tica para assuntos atuais. Por\u00e9m fa\u00e7o o m\u00e1ximo que posso para tentar criar algo que fa\u00e7a uma cr\u00edtica pol\u00edtica\/social, que fale sobre um tema atual. Fa\u00e7o uma s\u00e9rie que mostra a rela\u00e7\u00e3o das pessoas com o espa\u00e7o ao redor delas, com seus celulares, e pretendo criar lambes que pautem esse assunto de uma forma que as pessoas passem a questionar a maneira que utilizam a ferramenta&#8221;, diz Higor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo m\u00e9todo \u00e9 utilizado por \u00c1lvaro, que tamb\u00e9m fotografa o cotidiano urbano. &#8220;Primeiro eu vou para a rua e fotografo as pessoas. Geralmente procuro por pessoas que tenham algum detalhe interessante, alguma mensagem pra passar, seja ela por algum acess\u00f3rio que est\u00e1 usando ou pela fei\u00e7\u00e3o da pessoa mesmo. Depois eu tento transformar isso em alguma intera\u00e7\u00e3o, para o transeunte que est\u00e1 passando ter algum tipo de rela\u00e7\u00e3o. Pode ser a mesma interpreta\u00e7\u00e3o que eu tive ou diferente, isso que \u00e9 legal&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Poppy, por sua vez, utiliza uma terceira abordagem, tamb\u00e9m diferente do &#8216;padr\u00e3o&#8217;. Com colagens digitais, expressa sua mensagem por meio da uni\u00e3o de imagens produzidas pela pr\u00f3pria artista ou retiradas da internet. Os temas variam desde g\u00eanero \u00e0 natureza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Comecei a faz\u00ea-las no come\u00e7o do curso de Artes Visuais, em 2016, e venho procurando algum jeito de mostr\u00e1-las em tamanhos maiores. A\u00ed tem o processo de ampliar a imagem e dividi-la em v\u00e1rios peda\u00e7os, assim consigo imprimir em v\u00e1rias folhas, para depois juntar e formar uma imagem maior\u201d. Na hora de colar na parede e finalizar a obra, Poppy tamb\u00e9m<strong> <\/strong>usa a montagem &#8216;quebra-cabe\u00e7as&#8217;, assim como Mareco.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rela\u00e7\u00e3o com a comunidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir da forma\u00e7\u00e3o de uma coletividade no cen\u00e1rio do lambe-lambe em Campo Grande, \u00e9 natural que os artistas ali envolvidos formem la\u00e7os de amizade. \u00c0 medida em que v\u00e3o dialogando entre si, para conseguir informa\u00e7\u00f5es e marcar encontros para se ajudarem na rua durante as interven\u00e7\u00f5es, esse la\u00e7o tende a ficar mais forte, e os artistas passam a se conhecer cada vez mais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTodo mundo sempre junto, todo mundo se conhece. At\u00e9 por que s\u00e3o pouqu\u00edssimos aqui em Campo Grande, \u00e9 uma cena nova. J\u00e1 houveram outros artistas que experimentaram o lambe-lambe antigamente, tipo a velha gera\u00e7\u00e3o, que geralmente eram grafiteiros que tamb\u00e9m faziam alguns lambes. S\u00f3 que assumir o lambe como linguagem, t\u00e1 pegando uma for\u00e7a agora\u201d, explica Mareco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das preocupa\u00e7\u00f5es de \u00c1lvaro \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o campo-grandense. O artista ressalta que a forma\u00e7\u00e3o de uma comunidade ajuda na forma como as pessoas enxergam as interven\u00e7\u00f5es. &#8220;O fortalecimento \u00e9 muito importante por parte da popula\u00e7\u00e3o, para deixarem de pensar que o lambe-lambe \u00e9 vandalismo e se encaixar como arte. Isso eu acho que aqui em Campo Grande precisa muito acontecer&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo algu\u00e9m que est\u00e1 inserido h\u00e1 pouco tempo no meio, acaba criando uma rede de contatos na qual pode consultar sobre os m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o. Assim, pode criar mais familiaridade com o estilo, como \u00e9 o caso de Higor, que tem mais proximidade com Mareco e \u00c1lvaro Herculano, ambos artistas de lambe-lambe.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da comunidade ser composta em sua maioria por homens, o cen\u00e1rio do lambe-lambe em Campo Grande tamb\u00e9m procura abrir espa\u00e7o para mulheres e pessoas LGBT, como \u00e9 o exemplo de Poppy, uma transsexual n\u00e3o-bin\u00e1ria. Ela comenta que como o movimento est\u00e1 crescendo agora, essa quest\u00e3o vai ganhando mais aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;De pessoas LGBT, tem eu, e meu amigo Frankie, tamb\u00e9m n\u00e3o-bin\u00e1rio. Tem outras mulheres, amigas que \u2018colam\u2019 tamb\u00e9m, mas \u00e9 mais de vez em quando, como forma de protesto. Acho que o movimento est\u00e1 crescendo agora, ele est\u00e1 levando mais aten\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 um pouco mais direcionada pros homens cis, mas continuamos!&#8221;, afirma Poppy.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Impacto da Quarentena<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com o isolamento social decretado pelas autoridades em reflexo da pandemia do novo coronav\u00edrus, o cotidiano do campo-grandense foi afetado em v\u00e1rios n\u00edveis, impactando desde o com\u00e9rcio at\u00e9 mesmo o lazer dos cidad\u00e3os, com o fechamento de lojas e parques. Como a recomenda\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) \u00e9 ficar em casa, a comunidade dos artistas de rua foi diretamente afetada com essa situa\u00e7\u00e3o, pois suas \u00e1reas de interven\u00e7\u00e3o s\u00e3o justamente o territ\u00f3rio urbano.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Higor, foi inevit\u00e1vel a pandemia atingir o cen\u00e1rio art\u00edstico de Campo Grande. Mas ele ressalta a import\u00e2ncia da arte em tempos de pandemia. \u201cEspero que as pessoas busquem formas de produzir e consumir arte, pois estamos vivendo uma realidade em que os artistas independentes sofrem muito. Dependendo da \u00e1rea, passa a ser limitada a cria\u00e7\u00e3o de conte\u00fado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"604\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/IMG_6172-autoria-leonardo_mareco.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-597\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/IMG_6172-autoria-leonardo_mareco.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/IMG_6172-autoria-leonardo_mareco-300x227.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/IMG_6172-autoria-leonardo_mareco-768x580.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/IMG_6172-autoria-leonardo_mareco-400x302.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Crian\u00e7a observa arte de Mareco exposta na comunidade \u2018S\u00f3 por Deus\u2019<br>Foto: Leonardo Mareco<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Esse per\u00edodo exige dos artistas a elabora\u00e7\u00e3o de alternativas criativas, para afetar menos a produ\u00e7\u00e3o. Mareco e \u00c1lvaro por exemplo, fizeram os chamados \u2018pontos de higiene\u2019. &#8220;Chegou um ponto em que observei que as pessoas n\u00e3o estavam levando a s\u00e9rio o isolamento social, e acredito que o trabalho do artista de rua sempre foi de fundamental import\u00e2ncia para conscientiza\u00e7\u00e3o popular. Pensando nisso, resolvi sair de casa e produzir trabalhos de conscientiza\u00e7\u00e3o, como o \u2018ponto de higiene\u2019, onde instalo um mordomo a servi\u00e7o da higieniza\u00e7\u00e3o e, junto a ele, um kit de limpeza com \u00e1gua e sab\u00e3o, para dessa forma poder realmente acessar pessoas mais vulner\u00e1veis em situa\u00e7\u00e3o de rua\u201d, conta Mareco.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Poppy, esse \u00e9 um momento de medo, afastamento e incertezas, e tudo isso fez com que sua produ\u00e7\u00e3o ficasse um pouco parada nesse tempo de pandemia. Por\u00e9m, assim como Higor, ela ressalta a import\u00e2ncia da arte nesse per\u00edodo complicado: \u201cO lambe-lambe permite uma comunica\u00e7\u00e3o direta com as pessoas, para sensibilizar, conscientizar e expressar. Talvez o lambe d\u00ea um momento diferente, um sentimento bom no meio de v\u00e1rios n\u00e3o t\u00e3o bons\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/ed-94\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 94<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um olhar atrav\u00e9s das mensagens que ecoam pelos muros da cidade e expressam a uni\u00e3o e resist\u00eancia dos artistas Texto: Frederico Diegues e Lucas Caxito Andando pelas ruas da cidade, \u00e9 poss\u00edvel encontrar diversos tipos de informa\u00e7\u00e3o. Desde letreiros e cartazes, a interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas conceituais e po\u00e9ticas. 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