{"id":490,"date":"2020-07-15T15:05:10","date_gmt":"2020-07-15T19:05:10","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=490"},"modified":"2020-07-29T09:57:03","modified_gmt":"2020-07-29T13:57:03","slug":"mi-casa-es-su-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/mi-casa-es-su-casa\/","title":{"rendered":"Mi casa \u00e9s su casa"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><em>Venezuelanos residentes em Campo Grande contam ao Proj\u00e9til como vivem diante a dist\u00e2ncia de sua terra natal.<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-text-align-center has-accent-color\"><strong>Texto: Gustavo Bonotto, Leticia Monteiro e Naiara Camargo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"419\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/montagem_venezuelanos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-649\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/montagem_venezuelanos.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/montagem_venezuelanos-300x157.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/montagem_venezuelanos-768x402.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/montagem_venezuelanos-400x210.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Arte: Giovanna Silva, sobre fotos de Karine Santos e do acervo dos entrevistados<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A crise que assola a Venezuela nos dias atuais tem levado homens, mulheres e mesmo fam\u00edlias a busca pelo desconhecido. O Proj\u00e9til foi atr\u00e1s dos grupos de venezuelanos que residem em Campo Grande para ouvir suas hist\u00f3rias, e saber por que deixaram tudo para tr\u00e1s e optaram pelo recome\u00e7o no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa nova etapa os imigrantes reafirmam sua cultura, tradi\u00e7\u00f5es, gastronomia, e datas comemorativas ao mesmo tempo que se adaptam ao cen\u00e1rio em que vivem. Muitos moram em locais pequenos e simples. Mas de forma amistosa e simp\u00e1tica, receberam a reportagem para dialogar sobre a sua inser\u00e7\u00e3o na comunidade local. Desde os venezuelanos que chegaram h\u00e1 pouco tempo, at\u00e9 os considerados veteranos que j\u00e1 possuem v\u00ednculos com a capital sul-mato-grossense, trazemos aqui as hist\u00f3rias da vida dessa comunidade de imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como chegaram at\u00e9 aqui<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde de fevereiro a fam\u00edlia Zamora e Medina vive em Campo Grande.&nbsp; O administrador de empresas Adelmo Eriberto Zamora Paez, 55, a pedagoga e massoterapeuta Rosa Ysbelia Medina Herrera, 44, e o estudante Mois\u00e9s Abraham de Jes\u00fas Zamora Medina, 8, vieram para o Mato Grosso do Sul ap\u00f3s morarem por mais de dois anos em Boa Vista, capital de Roraima.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal veio para a capital em busca de oportunidade de vida, melhor renda e educa\u00e7\u00e3o de qualidade para o filho. Enquanto estiveram em Boa Vista, era frequente o contato com outros venezuelanos, em consequ\u00eancia da grande quantidade de imigrantes na regi\u00e3o. Por\u00e9m, ao chegar a Campo Grande, os la\u00e7os comunit\u00e1rios foram quase perdidos, pela falta de conhecimento de outros compatriotas e pela dist\u00e2ncia dos familiares. Aqui, tiveram contato apenas com uma \u00fanica venezuelana, Mirtha, a quem conheceram pela internet.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><em>\u201cN\u00e3o ter contato com algu\u00e9m que fala o idioma pode dar um pouco de depress\u00e3o\u201d, relata Rosa Ysbelia.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>Mirtha Carpio D\u00edaz, 47, \u00e9 venezuelana e bioqu\u00edmica. Veio para o Brasil em 2008, com o objetivo de oferecer educa\u00e7\u00e3o a sua filha, depois que o marido havia conseguido um emprego no pa\u00eds. Encontraram aqui apoio em um grupo de brasileiros que os ajudaram na mudan\u00e7a, a encontrar uma casa, e at\u00e9 uma boa escola para a filha. \u201cA minha rela\u00e7\u00e3o com brasileiros \u00e9 excelente. N\u00e3o temos do que nos queixar do Brasil, sempre fomos bem recebidos\u201d. Mirtha tem amigos e familiares no pa\u00eds de origem e afirma sentir muitas saudades de todos que ficaram l\u00e1. \u201cSempre tive vontade de traz\u00ea-los para c\u00e1. Mas para eles, o idioma \u00e9 uma trava. Eles preferem ir para outros pa\u00edses que falam a mesma l\u00edngua\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A dificuldade em falar e compreender portugu\u00eas pode ser uma barreira para quem troca a Venezuela pelo Brasil. \u00c9 o que explica o pesquisador venezuelano Linoel Leal Ord\u00f3\u00f1ez, 36, que vive em Campo Grande desde 2018 e faz p\u00f3s-doutorado no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Mato Grosso de Sul (UFMS). Ele considera que tudo depende da motiva\u00e7\u00e3o do imigrante, de seu n\u00edvel de disposi\u00e7\u00e3o e de intera\u00e7\u00e3o com os brasileiros. \u201cVejo o ato de aprender a l\u00edngua portuguesa como um presente cont\u00ednuo\u201d, diz, referindo-se \u00e0 necessidade do aprendizado constante.<\/p>\n\n\n\n<p>Volunt\u00e1rio da Associa\u00e7\u00e3o de Venezuelanos em Campo Grande, Lionel pontua a organiza\u00e7\u00e3o da comunidade com caracter\u00edsticas que promovem a uni\u00e3o. \u201cMuitas fam\u00edlias est\u00e3o fugindo da Venezuela por conta da crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica, e por temer a repress\u00e3o da ditadura. O recome\u00e7o \u00e9 um sentimento de sobreviv\u00eancia, para encontrar aqui oportunidades previamente negadas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um novo come\u00e7o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Francismary Perez, 39, exercia a profiss\u00e3o de Enfermeira antes de vir para o Brasil em 2019. Ela teve que deixar tudo, inclusive a m\u00e3e e os filhos na Venezuela. \u201cEu trabalhava em tr\u00eas hospitais, e mesmo assim, n\u00e3o dava para manter a alimenta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia\u201d, conta. Com uma colega de trabalho, Francismary partiu para Pacaraima (RO), primeira cidade brasileira na fronteira, onde ficaram por tr\u00eas dias. Ap\u00f3s esse per\u00edodo, as duas seguiram viagem por mais de cem quil\u00f4metros at\u00e9 encontrar uma comunidade ind\u00edgena onde foram ajudadas com roupas, banho e comida. Continuaram o caminho at\u00e9 chegar em Boa Vista (RO) para a regulariza\u00e7\u00e3o dos documentos de imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto esteve na cidade, conheceu uma mission\u00e1ria que, sabendo de sua situa\u00e7\u00e3o, pediu para que ela ajudasse como volunt\u00e1ria na caravana \u201cSem Fronteiras\u201d, a primeira com trajeto estabelecido entre Boa Vista e Campo Grande. Francismary aproveitou a oportunidade e embarcou rumo ao recome\u00e7o em terras desconhecidas. Estabilizada na cidade p\u00f4de trazer, com ajuda da Fraternidade Sem Fronteiras , os dois filhos e a m\u00e3e que ainda estavam na Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><em>A <a href=\"https:\/\/www.fraternidadesemfronteiras.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Fraternidade Sem Fronteiras<\/a> \u00e9 um grupo de volunt\u00e1rios que auxilia na adapta\u00e7\u00e3o, acolhimento e encaminhamento ao mercado de trabalho das fam\u00edlias e indiv\u00edduos que buscam abrigo no pa\u00eds.<\/em><\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m vieram para Campo Grande Francisco Jos\u00e9 Motoban, 41, e Rosa Ang\u00e9lica Castellano, 44, casal que hoje atua com reposi\u00e7\u00e3o em supermercado. Eles vieram para o Brasil fugindo da atual crise na Venezuela: \u201cQuis mudar minha situa\u00e7\u00e3o para ajudar minha fam\u00edlia\u201d, disse Francisco, que sempre foi muito apegado aos parentes com os quais diz ter uma rela\u00e7\u00e3o muito boa. Nas datas festivas, como Semana Santa, Dia das M\u00e3es, Dia dos Pais, Natal e anivers\u00e1rios, sempre havia reuni\u00f5es familiares. Al\u00e9m dessas, ainda h\u00e1 as festas patri\u00f3ticas e feriados nacionais, como a declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia (19\/04), independ\u00eancia da Venezuela (05\/07), e nascimento do libertador Sim\u00f3n Bol\u00edvar (24\/07) \u2013 l\u00edder pol\u00edtico pioneiro em apoiar a descoloniza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul. Francisco relembra que nessas datas a popula\u00e7\u00e3o venezuelana sa\u00eda \u00e0s ruas em marchas e desfiles para festejar e honrar seu pa\u00eds. Diz ainda que tanto em Boa Vista como em Campo Grande encontrou muitos venezuelanos e foi bem recepcionado por seus compatriotas e pelos brasileiros, cultivando bons amigos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa receptividade pode ajudar a construir pontes, como explica Lionel. \u201cO povo venezuelano \u00e9 bem afetivo e social. Muitos nos acham parecidos com os brasileiros porque o povo brasileiro tamb\u00e9m \u00e9 considerado assim. Mas isso n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o definida por pa\u00eds, ou pela comunidade. \u00c9 um ato de solidariedade e humanidade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se reconectando<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Agradecidos com a ajuda que receberam e buscando fortalecer a uni\u00e3o entre os imigrantes venezuelanos, um grupo capitaneado por Mirtha montou a p\u00e1gina Venezuelanos em Campo Grande no<em> <\/em>Facebook. \u201c\u00c9 um mural onde n\u00f3s ajudamos fazendo eventos, dando orienta\u00e7\u00f5es sobre a documenta\u00e7\u00e3o, informando sobre vagas de trabalho e obtendo utens\u00edlios dom\u00e9sticos como fog\u00f5es, geladeiras, todas estas coisas essenciais\u201d, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><em>O mural de <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/groups\/742471329549455\" target=\"_blank\">Venezoelanos en Campo Grande<\/a> \u00e9 p\u00fablico e existe desde 2019. Para realizar uma publica\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1ria a aprova\u00e7\u00e3o de um dos administradores<\/em>.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>Foi atrav\u00e9s desta ferramenta que Francismary ajudou a realizar o evento em homenagem \u00e0s mulheres imigrantes da capital em 08 de mar\u00e7o de 2020. Durante a comemora\u00e7\u00e3o, foi poss\u00edvel mostrar as roupas e a comida t\u00edpica da Venezuela para as bolivianas, brasileiras, haitianas e japonesas que estiveram presentes. Francismary diz que pretende realizar um evento somente com a culin\u00e1ria venezuelana, mas para isso precisaria de apoio para o local da festa. O dinheiro arrecadado ser\u00e1 destinado a ajudar a outros imigrantes que t\u00eam interesse em vir para Campo Grande.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"587\" height=\"475\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/venezuela-8.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-614\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/venezuela-8.jpg 587w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/venezuela-8-300x243.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/venezuela-8-400x324.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 587px) 100vw, 587px\" \/><figcaption>Francismary logo \u00e0 frente na apresenta\u00e7\u00e3o das mulheres imigrantes venezuelanas<br>Foto: Acervo de Francismary Perez<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do mural, os grupos de mensagem tem forte presen\u00e7a no cotidiano da fam\u00edlia Zamora e Medina. Com o objetivo de fazer contato e compartilhar rapidamente fotos, not\u00edcias, v\u00eddeos e at\u00e9 receitas dos pratos t\u00edpicos da Venezuela, como empanadas, \u2018hallaca\u2019 \u2013 guisado envolto em uma massa empacotada em folhas de bananeira \u2013 e a \u2018arepa\u2019 \u2013 massa de p\u00e3o feito com milho mo\u00eddo pr\u00e9-cozido \u2013, que, de acordo com Rosa Ysbelia, \u00e9 o s\u00edmbolo de representa\u00e7\u00e3o mais forte do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Venezuela representada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Escutar a m\u00fasica nativa e se reunir para conversar com a fam\u00edlia \u00e9 um ato tradicional para Francisco, que diz ter h\u00e1bitos alimentares de seu pa\u00eds de origem at\u00e9 hoje, e descreve a dificuldade de encontrar no Brasil ingredientes nativos da Venezuela, como a farinha de milho superfina pr\u00e9-cozida com a qual \u00e9 acostumado. O pre\u00e7o em lojas de produtos naturais na capital chega a cerca de 20 reais por quilo. \u201cCozinho \u2018arepa\u2019, empanadas, macarr\u00e3o com sardinha, \u2018pabell\u00f3n\u2019, que \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o de arroz e feij\u00e3o e frango guisado\u201d, afirma Francisco. Entretanto, ele tamb\u00e9m j\u00e1 conhece e se acostumou com a culin\u00e1ria sul-mato-grossense. \u201cJ\u00e1 experimentei arroz carreteiro, churrasco, lingui\u00e7a, feijoada e gosto muito do terer\u00e9\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"569\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/venezuela-6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-613\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/venezuela-6.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/venezuela-6-300x213.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/venezuela-6-768x546.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/venezuela-6-400x285.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>A cachapa, feita de milho. <br>Foto: Acervo de Francismary Perez<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Neste per\u00edodo relativamente curto em que mora no pa\u00eds, a fam\u00edlia Zamora e Medina afirma n\u00e3o ter tido muitos problemas com a culin\u00e1ria. Eles gostaram do cuscuz, prato tradicional das regi\u00f5es norte e nordeste do Brasil, e dos temperos que aqui conheceram \u2013 utilizados em pratos menos condimentados se comparados aos da Venezuela. Francismary cita algumas diferen\u00e7as que percebeu, como a forma em que a pimenta \u00e9 utilizada no Brasil, tornando-a mais picante, al\u00e9m do tipo de processamento da farofa consumida aqui, que n\u00e3o existe no pa\u00eds de origem, e at\u00e9 mesmo a massa utilizada em diversas receitas como a da \u2018arepa\u2019, parecida com a da tapioca brasileira, mas que tem textura diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Francismary conhece a tapioca tradicional do Brasil, feita a partir da goma de mandioca, mas sua compara\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no modo de preparo e recheio: \u201cUsamos o floco de milho que encontramos, mas n\u00e3o tem o mesmo sabor e nem a mesma textura. Muitos costumes daqui s\u00e3o bem diferentes, mas pouco a pouco vamos dando nosso jeito\u201d. Talvez seja por isso que a enfermeira misture alguns ingredientes da cultura venezuelana com a brasileira, ao citar que a adapta\u00e7\u00e3o de pratos t\u00edpicos tamb\u00e9m seria uma forma de mostrar os costumes de seu pa\u00eds aos brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Linoel, a culin\u00e1ria brasileira se assemelha a venezuelana pela tradi\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o dos alimentos. \u201cEm Campo Grande voc\u00ea tem, por exemplo, os churrascos aos domingos com significado social e cultural bem forte. Para n\u00f3s, temos a \u2018parrilla\u2019. Seu maior choque at\u00e9 agora foi com a sopa paraguaia, torta de milho salgado muito consumida no Paraguai e em Mato Grosso do Sul: \u201cEsperava um caldo, mas n\u00e3o era um caldo. \u00c9 um bolo salgado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador tamb\u00e9m descreve o ritmo mais comum em seu pa\u00eds, chamado \u2018Joropo Llanero\u2019. Al\u00e9m de dan\u00e7a tradicional da Venezuela, ele tamb\u00e9m \u00e9 um g\u00eanero musical que se toca com harpas, marac\u00e1s, e \u2018cuatro\u2019 \u2013 um pequeno viol\u00e3o com apenas quatro cordas. \u201cTemos ritmos tradicionais, populares e urbanos, assim como o Brasil. Por estarmos na Am\u00e9rica Latina, muitos dos artistas representam esta identidade latina de diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds e at\u00e9 do exterior\u201d explica, ao citar Franco de Vita, cantor e compositor venezuelano que mistura pop\/rock latino com refer\u00eancias caribenhas.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Francisco e Rosa Ang\u00e9lica dizem ouvir \u2018Polca Criolla\u2019 todas as manh\u00e3s, e desejam que esse costume se mantenha para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. O casal se identifica com este estilo musical que utiliza do \u2018cajon\u2019 \u2013 instrumento de percuss\u00e3o de origem afro-peruana: \u201cA m\u00fasica faz parte do meu cotidiano, e me remete ao pertencimento que tenho pela Venezuela\u201d, afirma Rosa Ang\u00e9lica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O futuro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em tempos de pandemia do novo coronav\u00edrus, Rosa Ang\u00e9lica demonstra preocupa\u00e7\u00e3o com os familiares que est\u00e3o na Venezuela quando lembra que em Campo Grande consegue adquirir medicamentos ou mesmo obter atendimento m\u00e9dico de forma gratuita: \u201cPreocupo-me com quem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de risco e n\u00e3o pode recorrer a recursos como esses\u201d. Para a venezuelana, o retorno ao seu pa\u00eds em um momento cr\u00edtico como este \u00e9 algo imprevis\u00edvel. \u201cSei onde nasci, mas n\u00e3o sei onde posso morrer. Tudo agora depende da vontade de Deus\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o foi apenas a fam\u00edlia Zamora e Medina, Linoel, Francisco, Rosa Ang\u00e9lica, e Francismary que disseram ter vindo para o Brasil devido \u00e0 crise que assola a Venezuela. Mirtha tamb\u00e9m concorda que o pa\u00eds se encontra em um desastre humano e que \u00e9 muito triste se imaginar inserida naquele contexto social. E torce para que, talvez um dia, a Venezuela se compare a pa\u00edses em \u00e2mbito de investimentos para a popula\u00e7\u00e3o, trazendo bons frutos \u00e0queles que ficaram. \u201cAjudar o pr\u00f3ximo e buscar os recursos necess\u00e1rios para o bem da minha amada fam\u00edlia \u00e9 um sentimento libertador\u201d, menciona.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/ed-94\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 94<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Venezuelanos residentes em Campo Grande contam ao Proj\u00e9til como vivem diante a dist\u00e2ncia de sua terra natal. Texto: Gustavo Bonotto, Leticia Monteiro e Naiara Camargo A crise que assola a Venezuela nos dias atuais tem levado homens, mulheres e mesmo fam\u00edlias a busca pelo desconhecido. 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