{"id":4919,"date":"2025-07-10T16:24:21","date_gmt":"2025-07-10T20:24:21","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4919"},"modified":"2025-07-10T16:24:21","modified_gmt":"2025-07-10T20:24:21","slug":"verde-amarelo-vermelho-quem-tem-medo-das-cores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/verde-amarelo-vermelho-quem-tem-medo-das-cores\/","title":{"rendered":"Verde, amarelo, vermelho: quem tem medo das cores?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-d7c8bf1040ecdf200f8a7cc6aff5af4a\"><strong>Texto e Ilustra\u00e7\u00e3o: <a href=\"mailto:kahlilcosta05@gmail.com\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:kahlilcosta05@gmail.com\">Felipe Kahlil<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-default\" \/>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, a camisa da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira deixou de ser s\u00f3 uma pe\u00e7a de torcida. Virou farda ideol\u00f3gica. O verde e amarelo, que um dia uniu o pa\u00eds em Copas do Mundo ou carnavais, agora separa. Em abril deste ano, a ideia \u2014 falsa \u2014 de que o segundo uniforme da Sele\u00e7\u00e3o poderia ser vermelho foi suficiente para causar alvoro\u00e7o nas redes. A cor, associada \u00e0 esquerda e ao PT, virou quase um palavr\u00e3o para certos grupos. A pergunta que fica \u00e9: como chegamos at\u00e9 aqui?<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a Ditadura Militar, s\u00edmbolos nacionais \u2014 como a bandeira, o hino e a camisa da Sele\u00e7\u00e3o \u2014 foram usados como ferramentas pol\u00edticas. A conquista do tricampeonato na Copa de 1970, por exemplo, foi transformada em propaganda do regime, como prova do suposto sucesso do \u201cBrasil que vai pra frente\u201d. A Sele\u00e7\u00e3o era vitrine da na\u00e7\u00e3o, e a camisa amarela, um s\u00edmbolo do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1980, durante a redemocratiza\u00e7\u00e3o, esses mesmos s\u00edmbolos passaram a ser usados por movimentos populares. Nas Diretas J\u00e1, o verde e amarelo voltou \u00e0s ruas como sinal de luta democr\u00e1tica. Foi nesse per\u00edodo tamb\u00e9m que o Corinthians protagonizou um dos epis\u00f3dios mais marcantes da intersec\u00e7\u00e3o entre futebol e pol\u00edtica: a Democracia Corinthiana. Liderada por jogadores como S\u00f3crates e Wladimir, a iniciativa defendia participa\u00e7\u00e3o e liberdade no clube e apoiava abertamente as elei\u00e7\u00f5es diretas. A camisa do time estampou a palavra \u201cDemocracia\u201d e sua torcida organizada, a Gavi\u00f5es da Fiel, passou a usar faixas com a foice e o martelo \u2014 s\u00edmbolos de resist\u00eancia e identidade de classe.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 2013, o verde e amarelo voltou ao centro das ruas com as manifesta\u00e7\u00f5es populares. Em 2018, foi consolidado como marca visual da campanha de Jair Bolsonaro. A camisa da Sele\u00e7\u00e3o foi apropriada como uniforme da direita conservadora, associada a valores como patriotismo, religiosidade e combate ao comunismo. Express\u00f5es como \u201cBrasil acima de tudo, Deus acima de todos\u201d se tornaram slogans repetidos sob o verde e amarelo. Ao mesmo tempo, o vermelho passou a ser evitado, tratado como s\u00edmbolo de amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 nas cores em si, mas no que elas passaram a significar. A na\u00e7\u00e3o, como definiu Benedict Anderson, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica compartilhada. Quando seus s\u00edmbolos s\u00e3o monopolizados por apenas um grupo, perde-se o sentimento de pertencimento coletivo. O futebol, que sempre funcionou como um ponto de uni\u00e3o, virou mais um palco da polariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"720\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Ilustracao-Brasil-di2vidido-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4923\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Ilustracao-Brasil-di2vidido-1.jpg 720w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Ilustracao-Brasil-di2vidido-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Ilustracao-Brasil-di2vidido-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Ilustracao-Brasil-di2vidido-1-400x400.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Ilustracao-Brasil-di2vidido-1-200x200.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Hoje, vestir verde e amarelo pode ser visto como ades\u00e3o a um campo pol\u00edtico. Usar vermelho tamb\u00e9m. Muitos evitam ambas por medo de serem rotulados. E a camisa da Sele\u00e7\u00e3o, que deveria representar todos, tornou-se mais um marcador ideol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00eddia teve papel importante nesse processo. Na Ditadura, ajudou a vincular a camisa da Sele\u00e7\u00e3o ao sucesso do regime. Nos anos 1980, cobriu a retomada popular dos s\u00edmbolos. Mas a partir de 2013, com a polariza\u00e7\u00e3o crescente, parte da imprensa passou a refor\u00e7ar leituras ideol\u00f3gicas das cores \u2014 verde e amarelo como ordem, vermelho como amea\u00e7a. Ao noticiar boatos como o da \u201ccamisa vermelha\u201d sem o devido contexto, acaba fortalecendo narrativas que usam os s\u00edmbolos para dividir, n\u00e3o para representar.<\/p>\n\n\n\n<p>E essa disputa se estende para al\u00e9m do futebol: na arte, nas escolas, nos palanques e at\u00e9 nos desfiles de Sete de Setembro. \u00c9 uma batalha pelo direito de representar o que \u00e9 o Brasil \u2014 e para quem ele deve pertencer.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise \u00e9 simb\u00f3lica, mas profunda. Quando s\u00edmbolos de uni\u00e3o viram bandeiras de guerra, o que se rompe \u00e9 a pr\u00f3pria ideia de \u201cBrasil\u201d como projeto comum. A disputa por cores e camisas reflete a fragmenta\u00e7\u00e3o da identidade nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esteja na hora de lembrar que o verde, o amarelo, o azul e o vermelho fazem parte da nossa hist\u00f3ria. Est\u00e3o nos campos e nas ruas, nos protestos e nas comemora\u00e7\u00f5es. Reduzir essas cores a instrumentos de separa\u00e7\u00e3o \u00e9 empobrecer nossa cultura. Os s\u00edmbolos devem expressar quem somos \u2014 n\u00e3o dividir quem pode ou n\u00e3o us\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-text-color has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-104\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 104<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto e Ilustra\u00e7\u00e3o: Felipe Kahlil Nos \u00faltimos anos, a camisa da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira deixou de ser s\u00f3 uma pe\u00e7a de torcida. Virou farda ideol\u00f3gica. O verde e amarelo, que um dia uniu o pa\u00eds em Copas do Mundo ou carnavais, agora separa. 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