{"id":4928,"date":"2025-07-10T17:15:16","date_gmt":"2025-07-10T21:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4928"},"modified":"2025-07-11T13:50:30","modified_gmt":"2025-07-11T17:50:30","slug":"sorria-voce-esta-sendo-iludido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/sorria-voce-esta-sendo-iludido\/","title":{"rendered":"Sorria, voc\u00ea est\u00e1 sendo iludido"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><mark style=\"background-color:#000000\" class=\"has-inline-color has-accent-color\">Texto e ilustra\u00e7\u00e3o: <a href=\"mailto:mileny.rodrigues@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:mileny.rodrigues@ufms.br\">Mileny Rodrigues<\/a><\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p>No espelho das redes sociais, cada um molda sua face n\u00e3o com o que \u00e9, mas com o que gostaria de ser. A identidade, antes fruto do encontro com o outro e da travessia no tempo, hoje se desenha com filtros e hashtags. Somos quem parecemos ser? E parecer ser feliz virou uma obriga\u00e7\u00e3o. Um compromisso inquestion\u00e1vel, ininterrupto, que consome tempo, energia e \u2014 talvez o mais valioso \u2014 nossa autenticidade.<\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-size: revert\">Nas redes sociais, a imagem precede a ess\u00eancia. Antes de entendermos o que somos e como estamos nos sentindo, registramos, compartilhamos, nos moldamos a um formato de 15 segundos, com trilha sonora em alta e legenda inspiradora. Entre stories de manh\u00e3s produtivas e carross\u00e9is sobre gratid\u00e3o e realiza\u00e7\u00f5es, uma identidade floresce: o \u201ceu idealizado\u201d. Aquele que acorda cedo, l\u00ea oito livros por m\u00eas, faz terapia, toma sol, corre dez quil\u00f4metros e nunca \u2014 nunca mesmo \u2014 fracassa.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma coreografia invis\u00edvel ditando o ritmo da subjetividade. O erro virou tabu. O fracasso, um desvio inaceit\u00e1vel. A tristeza, um sinal de desalinho com sua frequ\u00eancia ideal. A identidade real? Essa fica escondida nos bastidores \u2014 cansada, confusa, falha \u2014 com medo de n\u00e3o caber no feed.<\/p>\n\n\n\n<p>Num mundo onde a l\u00f3gica da visibilidade define o valor das coisas, n\u00e3o ser visto \u00e9 quase o mesmo que n\u00e3o ser. Ser ignorado \u2014 ou, pior ainda, n\u00e3o ser relevante \u2014 equivale \u00e0 inexist\u00eancia. Da\u00ed a \u00e2nsia por performar. A identidade se tornou palco, e todos n\u00f3s, atores mascarados em uma pe\u00e7a sem pausa, sem bastidores, sem quarta parede.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 algo perversamente sedutor na promessa de que basta pensar positivo para vencer. Essa narrativa, vendida desde os manuais de Dale Carnegie at\u00e9 os v\u00eddeos de TikTok com trilha motivacional, gera identifica\u00e7\u00e3o porque oferece sentido onde h\u00e1 transtorno. \u00c9 simples. Reconfortante. E profundamente desonesta. Voc\u00ea falhou? \u00c9 porque n\u00e3o acreditou o suficiente. Est\u00e1 triste? Meditou pouco. N\u00e3o prosperou? Seu mindset est\u00e1 errado. O problema nunca est\u00e1 no sistema, nas estruturas, nas desigualdades hist\u00f3ricas. Est\u00e1 s\u00f3 em voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas otimismo: \u00e9 uma ideologia que culpabiliza o indiv\u00edduo por n\u00e3o se encaixar num modelo imposs\u00edvel de sucesso permanente e equil\u00edbrio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Performar faz voc\u00ea atuar como um \u2018eu ideal\u2019. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais algu\u00e9m: \u00e9 um perfil, um compartilhamento editado, um engajamento emocional cont\u00ednuo. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos todos na vitrine: sorrindo, acenando, tentando convencer os outros \u2014 e a n\u00f3s mesmos \u2014 de que estamos bem. Porque estar bem d\u00e1 likes. Estar bem engaja. Estar bem gera acolhimento e pertencimento. Nos likes h\u00e1 algu\u00e9m que gosta de mim, que me aceita, que me respalda. Ser\u00e1? Mas o que acontece quando n\u00e3o estamos? Quando o mundo interno colapsa e n\u00e3o h\u00e1 filtro que disfarce?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"850\" height=\"850\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ilustracao-Mileny.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5480\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ilustracao-Mileny.png 850w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ilustracao-Mileny-300x300.png 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ilustracao-Mileny-150x150.png 150w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ilustracao-Mileny-768x768.png 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ilustracao-Mileny-400x400.png 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ilustracao-Mileny-200x200.png 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 850px) 100vw, 850px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Seguimos influenciadores como se fossem guias espirituais. Vestimos a roupa, copiamos a rotina, imitamos o tom de voz, compramos o suplemento. Cada escolha refor\u00e7a a ilus\u00e3o: de que podemos ser aquilo que admiramos, se formos bons o bastante. Mas ser bom o bastante nunca \u00e9 suficiente. Porque o ideal se desloca \u2014 sempre um passo \u00e0 frente. Sempre mais bonito, mais leve, mais produtivo. Um ideal que s\u00f3 existe na l\u00f3gica da edi\u00e7\u00e3o, do controle, da curadoria.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado? Uma epidemia silenciosa de esgotamento emocional. Voc\u00ea se reconhece em quem voc\u00ea mostra ser? Se n\u00e3o, talvez seja hora de soltar a pose, desfazer a legenda e reaprender a ser. Ser sem roteiro. Sabendo que estar bem \u00e9 tamb\u00e9m lidar com estar mal. Se a felicidade n\u00e3o \u00e9 um ponto de chegada, estar bem e mal n\u00e3o s\u00e3o contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A autenticidade, hoje, \u00e9 um gesto pol\u00edtico. Num mundo que lucra com a nossa inseguran\u00e7a, aceitar-se \u00e9 um ato de resist\u00eancia. N\u00e3o se trata de romantizar o sofrimento, mas de humanizar a experi\u00eancia. Entender que a dor tamb\u00e9m faz parte. Que o t\u00e9dio tamb\u00e9m \u00e9 leg\u00edtimo. Que nem todo dia ser\u00e1 \u00e9pico. Que o erro \u00e9 aprendizagem. E tudo bem. Existe pot\u00eancia na vulnerabilidade. E, nesse ato, oferecemos tamb\u00e9m um espelho mais honesto para quem assiste. Precisamos de espelhos que n\u00e3o deformam. Precisamos de reflexos que nos devolvam inteiros \u2014 mesmo quando estamos em peda\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-text-color has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-104\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 104<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto e ilustra\u00e7\u00e3o: Mileny Rodrigues No espelho das redes sociais, cada um molda sua face n\u00e3o com o que \u00e9, mas com o que gostaria de ser. A identidade, antes fruto do encontro com o outro e da travessia no tempo, hoje se desenha com filtros e hashtags. Somos quem parecemos ser? 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