{"id":4933,"date":"2025-07-10T17:14:56","date_gmt":"2025-07-10T21:14:56","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4933"},"modified":"2025-07-16T19:58:14","modified_gmt":"2025-07-16T23:58:14","slug":"acolher-e-transformar-ensinar-e-um-ato-de-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/acolher-e-transformar-ensinar-e-um-ato-de-resistencia\/","title":{"rendered":"Acolher e transformar. Ensinar \u00e9 um ato de resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-7a9d8bbe39a77c986f0fab1dfb7ad4a7\"><strong><mark style=\"background-color:#000000\" class=\"has-inline-color has-accent-color\">Texto: <a href=\"mailto:nayane.aleixo@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:nayane.aleixo@ufms.br\">Nayane Aleixo<\/a><\/mark><br>Ilustra\u00e7\u00e3o: <a href=\"mailto:mileny.rodrigues@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:mileny.rodrigues@ufms.br\">Mileny Rodrigues<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-default\" \/>\n\n\n\n<p>Em tempos de apag\u00e3o pedag\u00f3gico, quando cada vez menos pessoas sonham em ser professoras. Escutar a hist\u00f3ria da minha av\u00f3, Marlene Alaide Aleixo da Silva, foi como voltar ao centro de tudo: ao amor pelo of\u00edcio, \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, e \u00e0 voca\u00e7\u00e3o que sobrevive mesmo quando o mundo parece ir na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Durante a conversa, fui surpreendida por detalhes que nunca tinha ouvido, por mem\u00f3rias que ela guarda como quem segura um di\u00e1rio com as duas m\u00e3os. Com voz firme, mas emocionada em muitos momentos, ela foi desfiando sua hist\u00f3ria como algu\u00e9m que costura, ponto por ponto, a paix\u00e3o de uma vida.<\/p>\n\n\n\n<p>A conversa aconteceu sem pressa, como s\u00f3 as boas conversas sabem ser. Foi bonita e emocionante. A cada frase, transbordava dela o carinho por uma profiss\u00e3o que, apesar de tantas dificuldades, sempre lhe foi t\u00e3o importante. Esse amor n\u00e3o \u00e9 recente, tampouco silencioso, \u00e9 algo que atravessa a forma como ela fala dos alunos, das escolas, das dificuldades, das pequenas vit\u00f3rias que marcaram os seus dias em sala.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida no interior de S\u00e3o Paulo, Marlene \u00e9 a \u00fanica filha de seis irm\u00e3os. Cresceu em uma casa simples, onde o afeto vinha mais do conv\u00edvio entre os irm\u00e3os que da presen\u00e7a constante dos pais, sempre ocupados com o trabalho. Estudar era um luxo distante, e o sonho de ser professora parecia improv\u00e1vel. Come\u00e7ou a faculdade s\u00f3 depois dos vinte anos, numa rotina de conciliar os estudos com o trabalho e os filhos pequenos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da conversa, foi not\u00e1vel que tudo nela transborda afeto, pelo que viveu, pelas crian\u00e7as que ensinou, pelos espa\u00e7os onde passou. Guarda o primeiro dia como professora com nitidez comovente: foi em 3 de mar\u00e7o de 1975, como substituta na Emei Lions Club e na Escola Estadual Torquato Minhoto. Ela tem certeza que l\u00e1 sentem saudades da tia Marlene, e a lembran\u00e7a dos reencontros com ex-alunos \u00e0s vezes a emociona.<\/p>\n\n\n\n<p>Contou sobre o per\u00edodo em que lecionou em uma escola rural onde havia apenas sete alunos, do primeiro ao terceiro ano. A estrada at\u00e9 l\u00e1 era longa e incerta. O epis\u00f3dio mais marcante foi o dia do vazamento de g\u00e1s de cozinha no carro adaptado pelo meu av\u00f4, que estourou. S\u00f3 via crian\u00e7a correndo por meio do canavial. Marlene conta essa hist\u00f3ria rindo, e mesmo com tantos percal\u00e7os, n\u00e3o desistiu. Pelo contr\u00e1rio, fazia a merenda, preparava os lanches e acolhia. \u201c\u00c0s vezes, o simples gesto de oferecer um lanche era o que eles mais esperavam. Isso me fazia sentir que estava cumprindo minha miss\u00e3o\u201d, conta com um brilho nost\u00e1lgico nos olhos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"817\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/resolucao-pro-professora-1024x817.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5483\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/resolucao-pro-professora-1024x817.png 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/resolucao-pro-professora-300x239.png 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/resolucao-pro-professora-768x612.png 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/resolucao-pro-professora-400x319.png 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/resolucao-pro-professora.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Foi preciso coragem para equilibrar as exig\u00eancias do trabalho com as da maternidade, e, por vezes, abrir m\u00e3o. Aposentou-se do Estado em 2012, mas nunca deixou de ser professora. Hoje, av\u00f3 de tr\u00eas, segue ensinando. Seja nos resumos para as tarefas escolares, nos cochilos da tarde seguidos de p\u00e3o na chapa, at\u00e9 nos ventiladores disputados durante os dias quentes. H\u00e1 sempre algo que remete \u00e0 sala de aula, mesmo dentro de casa. Ela transforma rotina em aprendizado, e at\u00e9 tarefa vira abra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: left\">Na verdade, nada do que ela disse me surpreendeu tanto. Cresci vendo minha av\u00f3 ser apaixonada pelo que fazia, at\u00e9 meus oito anos, ela ainda lecionava. O que me impressiona \u00e9 ver como essa paix\u00e3o ainda permanece intacta.<\/p>\n\n\n\n<p>Segurou o choro em v\u00e1rios momentos. No fim, sorriu e disse: \u201c\u00d3, consegui n\u00e3o chorar\u201d. Minha av\u00f3 \u00e9 assim, intensa e emotiva, mas firme. Relembrou os alunos com afeto, as fam\u00edlias que confiavam nela, e at\u00e9 os desafios. \u201cO que mais me tocava era quando eles conseguiam aprender algo que n\u00e3o imaginavam ser poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um pa\u00eds onde cada vez mais professores se sentem desvalorizados, e o mundo parece esquecer o valor da sala de aula, minha av\u00f3 \u00e9 um lembrete de que a sala de aula continua sendo territ\u00f3rio de afeto e transforma\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o romantiza as dificuldades. Mas h\u00e1 em sua trajet\u00f3ria uma convic\u00e7\u00e3o serena de que valeu a pena insistir. E escutar tudo isso foi como entender de onde vem o meu pr\u00f3prio jeito de olhar o mundo, com esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-text-color has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-104\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 104<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Nayane AleixoIlustra\u00e7\u00e3o: Mileny Rodrigues Em tempos de apag\u00e3o pedag\u00f3gico, quando cada vez menos pessoas sonham em ser professoras. Escutar a hist\u00f3ria da minha av\u00f3, Marlene Alaide Aleixo da Silva, foi como voltar ao centro de tudo: ao amor pelo of\u00edcio, \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, e \u00e0 voca\u00e7\u00e3o que sobrevive mesmo quando o mundo parece ir [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-4933","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao104"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4933","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4933"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4933\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5776,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4933\/revisions\/5776"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4933"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4933"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4933"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}