{"id":495,"date":"2020-07-16T10:49:32","date_gmt":"2020-07-16T14:49:32","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=495"},"modified":"2020-07-29T10:30:16","modified_gmt":"2020-07-29T14:30:16","slug":"por-que-eles-estao-se-chamando-de-comunidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/por-que-eles-estao-se-chamando-de-comunidade\/","title":{"rendered":"&#8220;Por que eles est\u00e3o se chamando de comunidade?&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><em>O antrop\u00f3logo \u00c1lvaro Banducci Junior aborda diferentes coletividades e aponta para um esvaziamento do termo comunidade na linguagem cotidiana<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-text-align-center has-accent-color\"><strong>Texto: Adriana Costa | D\u00e9bora Oliveira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/ilustracao-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-505\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/ilustracao-1.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/ilustracao-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/ilustracao-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/ilustracao-1-400x267.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption><strong><span style=\"color:#7c7c7c\" class=\"tadv-color\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Norberto Liberator<\/span><\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cT\u00e1 dando pra ouvir?\u201d. Esta \u00e9 uma das frases mais ouvidas durante a quarentena por quem precisa fazer v\u00eddeo chamada para trabalhar ou estudar. N\u00e3o foi diferente nesta entrevista. Pouco mais de um m\u00eas depois da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) ter emitido a portaria n\u00ba 405, que substitui as aulas presenciais por estudos dirigidos, o <em>Proj\u00e9til<\/em> enviou ao professor \u00c1lvaro Banducci Junior o link para se juntar ao nosso bate-papo via Skype. Depois de v\u00e1rios minutos, para ajustar \u00e1udio e v\u00eddeo, demos in\u00edcio \u00e0 entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p>Banducci tem p\u00f3s-doutorado em Antropologia pela Universidade de Campinas (Unicamp) e h\u00e1 33 anos leciona nos cursos de Ci\u00eancias Humanas da UFMS. Logo no in\u00edcio da conversa, ele esclarece que determinados conceitos escapam das m\u00e3os da antropologia, ou seja, ganham vida pr\u00f3pria para al\u00e9m das teorias acad\u00eamicas. \u201cA palavra em si vai ganhando outros sentidos e vai sendo aplicada em outros contextos, que n\u00e3o o da ci\u00eancia\u201d, afirma. Esse fen\u00f4meno, conforme o antrop\u00f3logo, acontece com a defini\u00e7\u00e3o de comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, podemos chamar de comunidade grupos de jogos online, militantes de uma mesma causa, refugiados ou artistas de rua? Para Banducci, \u00e9 preciso estar atento \u00e0s inten\u00e7\u00f5es de quem se autodenomina dessa maneira &#8211; se \u00e9 pol\u00edtica, ideol\u00f3gica ou, simplesmente, uma forma de banalizar o termo. A base de sua an\u00e1lise est\u00e1 no conceito cl\u00e1ssico, a partir do qual ele observa casos espec\u00edficos e avalia as nuances de cada agrupamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Abordamos tamb\u00e9m o assunto que est\u00e1 na pauta de todos os jornais hoje em dia: a pandemia. O antrop\u00f3logo n\u00e3o acredita que vamos sair desta situa\u00e7\u00e3o uma sociedade melhor, com o senso comunit\u00e1rio renovado, mas \u00e9 o primeiro passo para come\u00e7armos a repensar certas atitudes. Segundo ele, estamos no in\u00edcio de uma s\u00e9rie de epis\u00f3dios dram\u00e1ticos na hist\u00f3ria da humanidade que desafiam a l\u00f3gica do capitalismo, como a pr\u00f3pria Covid-19 e os efeitos do aquecimento global. \u201cComo a gente vai agir, como coletividade?\u201d \u00e9 uma de suas indaga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Proj\u00e9til: O que \u00e9 uma comunidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c1lvaro Banducci Junior: O conceito cl\u00e1ssico de comunidade \u00e9 do Ferdinand T\u00f6nnies, um alem\u00e3o que viveu no s\u00e9culo 19 e in\u00edcio do 20. Ele prop\u00f4s uma diferen\u00e7a entre comunidade e sociedade. [&#8230;] A comunidade \u00e9 formada por pessoas mais pr\u00f3ximas que t\u00eam interesses pessoais em comum e compartilham de valores, prop\u00f3sitos que s\u00e3o coletivos e n\u00e3o individuais. [&#8230;] Enquanto que a sociedade \u00e9 um agrupamento mais atomizado, mais individualizado. Os interesses s\u00e3o divergentes, muitas vezes, de car\u00e1ter pessoal e menos coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P: Pessoas de uma mesma regi\u00e3o que v\u00e3o se refugiar em outro pa\u00eds podem ser considerados uma comunidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A: [&#8230;] Havia uma comunidade em mente do T\u00f6nnies quando ele faz essa diferencia\u00e7\u00e3o, que acaba se aproximando muito das sociedades com as quais a antropologia tem contato, [&#8230;] sociedades ind\u00edgenas, africanas, abor\u00edgenes australianos etc. S\u00e3o coletividades vistas e chamadas de comunidade porque s\u00e3o pequenos grupamentos, com interesses comuns com uma viv\u00eancia muito mais igualit\u00e1ria que a nossa. [&#8230;] Tem uma defini\u00e7\u00e3o que \u00e9 cl\u00e1ssica e que, de certo modo, nos orienta como cientistas sociais a olhar para esses grupos que a gente estuda e dizer se est\u00e3o pr\u00f3ximos do que seria uma comunidade ou pr\u00f3ximos do que seria uma sociedade. O conceito em si, a categoria em si, ela ganha vida pr\u00f3pria [&#8230;] vai ganhando outros sentidos e vai sendo aplicada em outros contextos, que n\u00e3o o da ci\u00eancia, da sociologia e da antropologia. Eu estou querendo dizer isso porque voc\u00ea fala \u201cAh, eu tenho um exemplo de uma comunidade de imigrantes e tal\u201d. Ent\u00e3o t\u00e1. Vamos olhar para essa comunidade, onde ela est\u00e1 e se ela \u00e9 comunidade. Se ela pode ser chamada de comunidade ou n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P: Quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas necess\u00e1rias para classificar um agrupamento como comunidade? Hoje podemos olhar para a nossa sociedade, no Brasil, e encontrar agrupamentos que se encaixam nessas caracter\u00edsticas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A: [&#8230;] Eu acho um pouco dif\u00edcil a gente encontrar esse tipo de agrupamento social hoje. Se eu pegar o termo cl\u00e1ssico e tentar aplicar na realidade. Mesmo os pr\u00f3prios antrop\u00f3logos que trabalham, hoje, com sociedades ind\u00edgenas t\u00eam o cuidado de n\u00e3o chamar de \u2018comunidade ind\u00edgena\u2019, porque existem conflitos internos nessas sociedades, contradi\u00e7\u00f5es, fam\u00edlias que est\u00e3o ligadas com a chefia e outras n\u00e3o, interesses pol\u00edticos que se confrontam e levam a atritos e rupturas. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 uma comunidade, no sentido tradicional e cl\u00e1ssico. Mas pode ter coletividades que se aproximem dessa defini\u00e7\u00e3o ou se distanciem. Ou mesmo, pode ter grupos que se autodenominam dessa maneira. E a\u00ed, tem que ver por que eles se autodenominam assim. [&#8230;] A comunidade econ\u00f4mica europeia [por exemplo] eles se chamam de comunidade porque t\u00eam uma moeda em comum, planos econ\u00f4micos e interesses comerciais que s\u00e3o comuns. [&#8230;] Mas \u00e9 muito artificial chamar aquilo de comunidade, porque h\u00e1 atritos e interesses conflitantes. N\u00e3o \u00e9 o bem da sociedade europeia que est\u00e1 sendo levado em considera\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o os interesses de grupos financeiros, grupos pol\u00edticos e etc. Ent\u00e3o o termo \u00e9 utilizado de uma forma um tanto ideol\u00f3gica, porque ele tem o prop\u00f3sito de passar a ideia do comum. [&#8230;] Voc\u00ea pode ter uma favela, por exemplo, se chamando (sic) de comunidade, mas mesmo a\u00ed existem diferentes vis\u00f5es e acep\u00e7\u00f5es. [&#8230;] N\u00e3o h\u00e1 uma comunidade no sentido cl\u00e1ssico do termo, no sentido cient\u00edfico. Mas tem um uso, uma apropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, do termo que \u00e9 v\u00e1lida. Porque quando eu me apresento \u2013 eu como marginalizado, um grupo que vive numa condi\u00e7\u00e3o de inferioridade na sociedade, de n\u00e3o gozar de privil\u00e9gios ou mesmo de n\u00e3o serem garantidas as necessidades b\u00e1sicas \u2013 como uma coletividade coesa [isso] \u00e9 importante para eu enfrentar as adversidades pol\u00edticas e sociais. Ent\u00e3o para mim, como antrop\u00f3logo, n\u00e3o me interessa se est\u00e3o utilizando certo ou errado. Interessa saber em que sentido est\u00e3o usando. Por que eles est\u00e3o se chamando de comunidade?<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"632\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/alvaro.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-507\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/alvaro.jpg 700w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/alvaro-300x271.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/alvaro-400x361.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption>O isolamento \u00e9 um ato de solidariedade orientado pela ideia de comunidade, diz \u00c1lvaro<br><strong><span style=\"color:#7c7c7c\" class=\"tadv-color\">Foto: Tui Boaventura<\/span><\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>P: Essa palavra pode ser usada no discurso de legitima\u00e7\u00e3o de alguns grupos marginalizados?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A: Acho que pode ser usado nesse sentido. Posso encontrar o uso do termo comunidade com uso pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m identificar o uso do termo [de modo] ideol\u00f3gico, como a comunidade econ\u00f4mica europeia para dizer que tem o interesse comum, o bem comum, quando n\u00e3o tem. Agora neste outro exemplo que eu dei pode ser importante para uma determinada comunidade se fortalecer mostrando que as demandas por atendimento, conquistas sociais e materiais s\u00e3o comuns e leg\u00edtimas. N\u00e3o estou dizendo que haja esse uso do termo comunidade, mas pode haver esse uso. Se eu conhe\u00e7o, eu posso ver legitimidade nele. N\u00e3o acho seja ideol\u00f3gico nesse sentido. \u00c9 um uso pol\u00edtico dessa categoria. [&#8230;] Voc\u00ea vai olhar a realidade e pipoca a ideia de comunidade em todo lugar. Eu tenho que estar atento para saber qual sentido da palavra que est\u00e1 aparecendo ali. \u00c9 leg\u00edtimo esse uso? N\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P: Na internet se usa muito a palavra comunidade. Como, por exemplo, para classificar jogadores de jogos online. O que voc\u00ea acha desse tipo de uso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A: [&#8230;] Vejo nesse aspecto um certo esvaziamento do sentido, uma banaliza\u00e7\u00e3o do uso de comunidade. [&#8230;] S\u00e3o pessoas que gostam de determinado tipo de jogo e s\u00f3. Aquilo n\u00e3o condiz com a ideia de comunidade tal como a gente entende, como uma exist\u00eancia coletiva. \u00c9 uma ideia banalizada e rasa de comunidade. Mas n\u00e3o sou eu que vou l\u00e1 dizer \u201cvoc\u00eas n\u00e3o podem se chamar de comunidade porque n\u00e3o tem a ver com o conceito\u201d. N\u00e3o. Est\u00e1 usando, est\u00e1 se apropriando de uma categoria, est\u00e1 banalizando o seu uso, mas esses grupos querem dizer que h\u00e1 algo em comum entre eles e s\u00f3 isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P: Qual \u00e9 a import\u00e2ncia da comunidade para forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A: Total. Porque o indiv\u00edduo \u00e9 resultado do meio dele, do meio em que vive. Ent\u00e3o se ele \u00e9 criado em um meio comunit\u00e1rio ele \u00e9 produto de uma comunidade, muito provavelmente vai pensar comunitariamente, segundo par\u00e2metros e princ\u00edpios do bem p\u00fablico, do interesse comum etc. Numa sociedade onde os interesses individuais prevalecem \u00e9 mais dif\u00edcil o indiv\u00edduo ser formado com o prop\u00f3sito ou com essa vis\u00e3o do coletivo, do todo. [&#8230;] Eu entendo que a gente pode caminhar, e deve caminhar, para uma exist\u00eancia mais comunit\u00e1ria, talvez n\u00e3o no sentido de uma comunidade como uma comunidade primitiva, mas numa sociedade que olhe para o coletivo, para o interesse coletivo e que seja mais igualit\u00e1ria. Isso n\u00e3o significa que ela vai abortar ou vai suplantar as diferen\u00e7as e as diversidades que existem. N\u00e3o \u00e9 isso. Mas que aceite e dialogue. [&#8230;] Nesse sentido, acho que a comunidade ainda est\u00e1 colocada para n\u00f3s \u2013 como conceito, como par\u00e2metro te\u00f3rico, conceitual e como par\u00e2metro pol\u00edtico \u2013 como utopia. \u00c9 nesse sentido que eu vejo como esvaziamento chamar qualquer agrupamento de comunidade. Acho que esvazia um pouco esse sentido pol\u00edtico mais forte que esse conceito tem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P: Nesse cen\u00e1rio de pandemia, voc\u00ea acredita que o isolamento prejudica o nosso senso comunit\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;<\/strong>A: Pelo contr\u00e1rio, acho vai nos fazer cada vez mais pensar no coletivo. Se a gente quer continuar vivendo como esp\u00e9cie, n\u00f3s vamos depender cada vez mais um do outro. Eu ficar isolado \u00e9 uma atitude extremamente solid\u00e1ria, porque eu posso sair na rua e contaminar um monte [de pessoas], ent\u00e3o esse \u00e9 um exerc\u00edcio comunit\u00e1rio no sentido de pensar no outro. [&#8230;] O nosso isolamento \u00e9 no sentido de propiciar a supera\u00e7\u00e3o de uma fase para que a gente possa se encontrar novamente. E o que interessa \u00e9 esse encontro. [&#8230;] Eu acho que nesse sentido, a ideia de comunidade \u00e9 importante para orientar esse tipo de a\u00e7\u00e3o. N\u00e3o acho que o nosso isolamento dep\u00f5e ou contraria a ideia do coletivo ou a ideia de comunidade. Ele \u00e9 um hiato que est\u00e1 nos permitindo, no isolamento, exercitar esse interesse que \u00e9 de todos n\u00f3s. Estou preservando a mim e ao outro. E tem pessoas que n\u00e3o est\u00e3o entendendo isso. Muitas pessoas. Inclusive pessoas importantes e muito importantes. Mas o que nos orienta? O que nos faz agir dessa maneira, ficar recluso? \u00c9 essa ideia de que existe algo para al\u00e9m da gente que \u00e9 sociedade, que \u00e9 o coletivo, e que eu devo preservar e atuar em nome dele.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P: Voc\u00ea acredita que os la\u00e7os v\u00e3o se fortalecer depois desse trauma coletivo que estamos vivendo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A: Eu n\u00e3o acredito muito nisso agora. Acho que essa experi\u00eancia n\u00e3o vai resultar, de imediato, em uma conviv\u00eancia mais harmoniosa. Mas esses acontecimentos v\u00e3o ser mais recorrentes e a tend\u00eancia \u00e9 que nos force a pensar dessa forma. N\u00e3o acredito que isso vai resultar dessa experi\u00eancia dram\u00e1tica que estamos vivendo agora. Essa pandemia \u00e9 um alerta para que a gente prepare os indiv\u00edduos para o coletivo, mas n\u00e3o acho que vai ser suficiente, e sim um come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P: A sociedade capitalista barra essa no\u00e7\u00e3o dos valores comunit\u00e1rios?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A: A ideia de comunidade ela \u00e9 contradit\u00f3ria em rela\u00e7\u00e3o com o capitalismo. S\u00e3o duas no\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem andar juntas. A gente s\u00f3 vai conseguir ter uma sociedade preocupada e voltada para o coletivo quando essa ideia do indiv\u00edduo for superada. O capitalismo est\u00e1 todo assentado no indiv\u00edduo: a legisla\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o ideol\u00f3gica do \u2018self made man\u2019 americana, a meritocracia, etc. [&#8230;] Ent\u00e3o a gente vive numa sociedade cujo princ\u00edpio e a l\u00f3gica \u00e9 essa: eu tenho que formar o indiv\u00edduo para vencer, para ele ser melhor que o outro. Isso faz parte do capitalismo, porque ele quer um indiv\u00edduo que seja consumidor e produtor. S\u00f3 vai ter uma outra ordem, outro estilo de vida, quando romper essa l\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P: E como rompe com uma l\u00f3gica t\u00e3o estrutural?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A: A hist\u00f3ria est\u00e1 a\u00ed para mostrar que tentativas j\u00e1 aconteceram. V\u00e1rias. Frustradas. Porque o que se conseguiu foram modelos autorit\u00e1rios. [&#8230;] Outros desafios est\u00e3o sendo colocados para o capitalismo, que desafiam a l\u00f3gica do capital. O coronav\u00edrus vem, nesse sentido, mostrar isso, [que] a l\u00f3gica do capitalismo \u00e9 produ\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o, consumo, consumo, consumo. Mas a gente produz e consome com os recursos que o planeta tem, e os recursos s\u00e3o finitos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P: O planeta j\u00e1 n\u00e3o tem mais recursos, praticamente, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A: [..] \u00c9. O sistema vai esgotar. Agora est\u00e1 no meio da pandemia \u2013 daqui uns meses a gente pode voltar a conversar \u2013 mas eu acho que n\u00e3o vai ser o suficiente para promover mudan\u00e7as estruturais nem no nosso comportamento nem no nosso pensamento. Tem outras mudan\u00e7as dr\u00e1sticas acontecendo em tempo mais lento e outras cat\u00e1strofes ainda v\u00e3o aparecer. Ent\u00e3o a gente vai ser obrigado a repensar, n\u00e3o vai ter jeito. E a\u00ed o capitalismo esperneia. Os empres\u00e1rios saem e falam \u201co trabalhador tem que vir aqui [para o trabalho], sen\u00e3o eu quebro\u201d. E quebra mesmo. Mas como a gente vai agir, como coletividade? Essas condi\u00e7\u00f5es v\u00e3o ser colocadas novamente com muita frequ\u00eancia. Acho que o capitalismo foi questionado de v\u00e1rias formas \u2013 pol\u00edtica, cient\u00edfica etc. \u2013 e ele sobreviveu. E sobrevive. Mas acho que a esse questionamento que vem com a natureza, com o clima e com os recursos finitos, esse n\u00e3o vejo o capitalismo superando. Ele vai ter que mudar muito a l\u00f3gica dele. E a l\u00f3gica do capital \u00e9 essa: produ\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra e consumo. E a\u00ed? Produzir o qu\u00ea? Se n\u00e3o tem recurso. Produzir para quem?<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/ed-94\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 94<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O antrop\u00f3logo \u00c1lvaro Banducci Junior aborda diferentes coletividades e aponta para um esvaziamento do termo comunidade na linguagem cotidiana Texto: Adriana Costa | D\u00e9bora Oliveira \u201cT\u00e1 dando pra ouvir?\u201d. 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